Archive for the ‘Viagens fotográficas’ Category

Arquivo organizado, fotógrafo melhorado!

20/02/2015

Depois do “mais vale uma molha no campo do que uma seca em casa” e do “when in doubt, go out” – ambos para espicaçar os participantes dos passeios fotográficos perante adversidades meteorológicas, acho que o título deste post é o slogan mais pertinente que alguma vez me lembrei.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas - e a evoluir na fotografia.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas – e a evoluir na fotografia.

Volvidas algumas semanas de clausura, consegui – finalmente! – ter o arquivo fotográfico limpo e suficientemente organizado. Nos últimos anos, e por mais que tentasse, a sucessão de trabalhos e respetivos prazos para os apresentar nunca me permitiu ter o arquivo em dia: por cada bloco de 500 imagens que editava (no sentido de escolher, legendar e guardar), havia sempre, e praticamente em simultâneo, umas 5000 que entravam para a “caixa” das não editadas – ou seja, material novo, sem qualquer triagem.

Pouco a pouco, o desequilíbrio descambou numa espécie de balança comercial do sul da Europa, com as importações do cartão de memória claramente superiores à minha capacidade de exportação para o disco de arquivo final. Pensei que nunca mais veria luz ao fundo do túnel.

Claro que isto não era tão mau quanto possa parecer. Sempre consegui encontrar a imagem A ou B para entregar prontamente a um cliente, ainda que a tivesse de escolher entre tantas outras menos boas (ligeiramente desfocadas, tremidas, sub ou sobre-expostas, ou esteticamente dispensáveis). Contudo, no momento de aperto dos dead-lines, não é nada agradável ter de procurar as imagens certas entre centenas ou milhares de variantes que deviam estar no lixo há muito tempo; as seleções tornam-se morosas e enfadonhas, justamente quando mais precisamos de ser rápidos e lúcidos.
E isto nem sequer é o pior. À medida que vamos vasculhando entre as asneiras que fomos capazes de produzir – por distração ou incompetência – vai-nos assaltando uma sensação de pânico, uma náusea crescente que induz a pensar que o trabalho que temos não tem, afinal, a qualidade que julgávamos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho, torna-nos melhores fotógrafos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho é essencial para evoluir em fotografia.

Neste ponto da leitura, poderá pensar-se que isto é preocupação de profissional, assunto para quem tem de vender imagens, honrar compromissos com clientes, etc. Mas desenganem-se: a forma mais rápida de evoluir na fotografia – seja ela ganha-pão ou passatempo – é confrontarmo-nos com os erros que vamos acumulando sucessivamente nos cartões de memória. Deixar milhares de imagens a marinar nos discos rígidos sem tirar qualquer ilação dos nossos convictos disparos – que deviam, logo à partida, ser o resultado de uma cuidada reflexão visual – não só ocupa espaço potencialmente útil como dificulta e atraiçoa a perceção do nosso trabalho.

De resto, todos achamos que temos imagens excelentes daquela viagem à Islândia até ao dia em que metemos a mão na massa para fazer delas uma exposição… ou uma apresentação… um site… um blog. Aí, quando finalmente ampliamos as fotografias uma a uma para lhes detetarmos os defeitos, quando somos confrontados com a sentença “save” ou “delete” na ponta do indicador, sentimos um enorme aperto no coração: afinal, aquilo que fizemos não está nada de especial; no fundo, aproveita-se apenas uns megabytes de coisas boas e deita-se fora gigas de oportunidades perdidas. Isto, se formos coerentes, porque face à desgraça a tendência é quase sempre o sentimentalismo e a misericórdia: “com jeito e paciência, salvo isto no Photoshop”… num tempo livre que nunca teremos ou então com resultados duvidosos, digo eu.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves... essas já foram para o lixo.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves… essas já foram para o lixo.

Sejamos francos: se até hoje não conseguiu arranjar tempo para uma simples triagem, acha mesmo que vai tê-lo para o pós-processamento milagroso de milhares de ficheiros que deviam era estar no lixo? Se uma imagem nasceu com estética pouco cuidada e com técnica não menos defeituosa, e se tem alternativas melhores na mesma sequência, acha mesmo que vale a pena tentar salvá-la num eventual pós-processamento? Se ainda está pensar na resposta, antecipo-me: NÃO!

Esta nossa condição humana é curiosa: a fotografia digital trouxe-nos a fantástica oportunidade de ver as imagens no momento em que as captamos. As câmaras fotográficas permitem-nos ampliar, comparar e apagar os respetivos ficheiros nesse mesmo instante. Viajamos com tablets e computadores portáteis. Mais do que nunca, temos os meios para ser criteriosos e organizados, e o que é que fazemos com tudo isto? Fotografamos com menos cuidado, guardamos o bom e o mau em volumes que se agigantam a cada dia e, pior, não aprendemos nada no processo. E da próxima vez que sairmos à rua, recalcamos os erros que estão por analisar ou então compramos novo equipamento fotográfico – o bode expiatório habitual – como bons militantes da fuga para a frente!

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão... e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão… e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Para abreviar a tarefa hercúlea de organizar o meu arquivo numa assentada, adotei, entretanto, um sistema que reduziu as importações ao mínimo indispensável: ao fim do dia, ou sempre que faço uma pausa (para tomar um café, por exemplo) analiso diretamente na câmara as imagens captadas, apagando logo de seguida o que não interessa (para quê deixar no cartão uma imagem desfocada ou um disparo acidental?); este confronto imediato com os erros tem a grande virtude de nos obrigar a fazer melhor enquanto ainda estamos no local onde viemos fotografar. Por outro lado, logo após o regresso a casa, deixei de adiar a triagem e o arquivo definitivo das imagens: se é para ser coerente e criterioso, nada melhor do que trabalhar com a memória fresca, caso contrário, o coração sobrepõe-se à razão e daqui a uns tempos lá estaremos nós a perdoar uma imagem por causa da saudade, do fado e sei lá mais o quê.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Quando finalmente vemos a nata do nosso trabalho – classificada e organizada – e damos connosco em campo a evitar erros técnicos ou a obter sistematicamente melhores fotografias com menos disparos, saberemos então que os critérios impostos pela organização do arquivo estão a dar os seus maduros e saborosos frutos.

Mãos à obra.

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Então, e que tal a Islândia?

11/10/2010

Como sabem, em Julho regressei à Islândia para mais uma viagem Nomadfoto. Entretanto, meteu-se a mudança de casa e não dei grandes notícias… até agora.

Este é um daqueles destinos que nos recorda a cada segundo que, por mais voltas que se dê à tecnologia e ao pós-processamento digital, não há nada que chegue à qualidade da luz no momento fotográfico. Nesta imagem, a alternância de sombra e luz ajudou a destacar a igreja sobre o fundo escuro das montanhas, ao mesmo tempo que deixou os carneiros pretos sobre uma parte iluminada do prado. Agora, imaginem a mesma foto num dia de céu limpo, ou uns segundos mais tarde… com uma nuvem “por cima” da igreja. You know what I mean?

A gaivina-do-árctico é o animal do planeta que faz a maior viagem de migração: da Antárctida ao Árctico, para nidificar, e no sentido inverso, em busca do Verão austral. Quando captei esta imagem, estava muito próximo de uma colónia de nidificação… o que levou as aves a fazer voos picados sobre a cabeça (algo suficientemente dissuasor, acreditem!). Deitei-me de costas e apontei uma objectiva 12mm para o céu, em focagem manual; ainda que não pareça, a gaivina em primeiro plano está apenas a cerca de 50cm da minha cara.

Esta queda-de–água é daquelas que dá para passar por trás (há pessoas no caminho, do lado direito). É um sítio muito bonito, onde o grande desafio reside na perspectiva… de baixo para cima, de cima para baixo, da frente para trás ou de trás para a frente, com grande angular e de mais próximo ou com tele e de mais longe? Às vezes, isto dá com um fotógrafo em louco.

Quando a luz está menos boa, viro-me para o preto e branco. Muitas pessoas perguntam-me porque escolho captar logo a preto e branco, se posso converter a imagem mais tarde. A razão é simples: gosto de comprovar no LCD se as coisas funcionam realmente bem; uma vez feita a prova, continuo a preto e branco assumida e descomplexadamente. Afinal, não era assim com a película?

O lago glaciar Jokulsárlón é um verdadeiro “highlight” islandês, mas poucos se deslocam à praia, onde este desagua através de um estreito canal. Ora, é precisamente aqui que se obtêm imagens mais invulgares (como icebergs brancos encalhados na areia preta) e melhor se vêem as focas a entrar e a sair ao sabor das marés.

A viagem deste ano originou uma barrigada fotográfica de aves, em parte graças ao interesse – e conhecimento – que o nosso motorista revelou sobre o assunto. Não foram só os emblemáticos papagaios-do-mar… foram também os cisnes, mergulhões, gansos, ostraceiros, maçaricos e muitas outras espécies cujos locais de nidificação o velho islandês conhecia com precisão milimétrica. Ora aqui está a importância da sabedoria local!

Foi também graças a este homem, dos seus setenta e tal anos, que acedemos a uma cratera muito próxima da estrada, mas invisível a partir desta. Depois, foi só uma questão de fôlego e força de pernas para conseguir uma perspectiva mais aérea.

Esta foi a minha terceira visita à Islândia, e como fotógrafo só posso garantir que não há duas viagens iguais, ainda que para o mesmo destino.
Sabem?… Podia lá voltar amanhã!

Tempo de reencontros

15/02/2010

Hoje ao fim da tarde – insh’Allah – chegarei à paisagem que podem ver na imagem abaixo.

Yousef, na foto, deu-me lições sobre fósseis e ensinou-me a atravessar as dunas com o mínimo de esforço.

Saí do Porto na passada sexta para mais uma incursão neste belo pedaço do Sara, a escassos quilómetros da fronteira com a Argélia. Neste périplo marroquino acompanham-me 15 fotógrafos, seguramente na expectativa de aprenderem algo mais sobre fotografia de viagem. No entanto, aquilo que (secretamente) mais ambiciono, enquanto orientador deste tipo de actividades, não é tanto ver as pessoas crescerem em aspectos técnicos e criativos, mas antes “ensiná-las” a deambular de olhos, ouvidos e, sobretudo, mente bem abertos, no seio de uma cultura simultaneamente tão distante e tão próxima da nossa Lusitânia. Se isso for feito através da fotografia, tanto melhor – porque é a minha arte, e porque sempre considerei a máquina fotográfica a melhor ferramenta de navegação alguma vez inventada.

Hummm! Azeitonas! Afinal até temos coisas em comum.

No que toca a países islâmicos, o preconceito tem-se agudizado nos últimos anos, por parte dos povos ditos desenvolvidos ou ocidentais. Na maior parte das vezes, é a ignorância a falar. Não sabemos nada sobre o Islão; não queremos aprender nada sobre a cultura árabe, berbere ou islâmica – esteja ela em que longitude estiver – nem tão-pouco sobre as tantas e tão boas coisas que elas emprestaram a esta Ibéria católica. Tanta gente vai a Marrocos e regressa tão vazia como no dia em que partiu, à excepção do tapete e do candeeiro em ferro forjado que hão-de enfeitar o hall lá de casa.
A televisão pouco ajuda… e os jornais e revistas – mesmo as de viagem – não vão muito além da banalidade (quantos bons artigos sobre estas culturas podemos ler com regularidade?); a informação, quando existe, é redutora, e com demasiada frequência é simplesmente errada. Já ninguém quer saber… são países de terroristas, de talibãs, confunde-se Turquia com Tunísia, Paquistão com Afeganistão… é uma geografia que não interessa.

A poucos metros desta mesquita, cruzam-se mulheres em mini-saia, de cabelos soltos, com outras de lenços e túnicas negras.

Mas eu não estou aqui para falar de “política”. Apenas quero relembrar que só experimentando se pode conhecer verdadeiramente. E ainda não encontrei melhor forma de conhecer do que viajando – seja em Trás-os-Montes ou na Mongólia… na Andaluzia ou no Irão.
Sabem, há uma doçura especial nesta universal condição humana. Afinal somos todos muito iguais, só que estamos sempre a querer esquecê-lo. É algo que não passa na televisão nem sai nos jornais. É uma notícia rara, apenas perceptível aos que sintonizam o canal inteligência ou frequentam o quiosque da humildade.

Fatima mostrou-me o kasbah onde vivia com a família. Fê-lo sem querer nada em troca... e com um sorriso inigualável.

A propósito: Caderno Afegão e Babel.

Islândia

17/09/2009

A viagem fotográfica à Islândia correu mesmo bem! Os ingredientes estavam lá todos: cenários inspiradores, meteorologia cooperante e um grupo de 15 pessoas fantásticas que facilitaram a tarefa… orientá-los foi tão fácil como barrar skyr* numa tosta! As imagens deles hão-de aparecer por aí (estejam atentos), mas para já deixo ficar alguns apontamentos pessoais que captei nos tempos livres.

*skyr é um tipo de iogurte islandês que não é suposto barrar em tostas… mas a analogia foi-me conveniente.

Molhei os pés a fotografar este algodão-do-árctico...

Molhei os pés a fotografar este algodão-do-árctico...

Quando digo fotografar nos meus tempos livres, digo... 4h30 da manhã... e o que estiver à mão

Quando digo fotografar nos meus tempos livres, digo... 4h30 da manhã... e o que estiver à mão

Chama-se a isto... congelar o momento.

Chama-se a isto... congelar o momento.

Islândia... o único país point and shoot!

Islândia... o único país point and shoot!

... ou simplesmente... o céu na terra!

... ou simplesmente... o céu na terra!