Archive for the ‘Tempo de qualidade’ Category

The Quality Times mudou de casa

15/10/2015

Está agora num espaço maior e mais luminoso para a imagem e para a palavra.

E a propósito, já visitou o novo site?

Anúncios

Considerações de final de verão

26/09/2014

Há muito que por aqui não se dava notícias, bem sei, mas isso é porque andei suficientemente ocupado. E quando desocupado, foi assim que me quis manter.

 07h30. Vista da nossa janela estival, na Galiza.

07h30. Vista da nossa janela estival, na Galiza.

Agora que se cumprem dez anos de passeios fotográficos, quinze de workshops e dezanove de atividade profissional como repórter, decidi conceder-me uma espécie de licença sabática.
Por aqui, há muito em que ocupar o corpo, enquanto se liberta a mente para outros voos. Nem imaginam o suado prazer duma manhã de nevoeiro, a cortar a lenha que há de alimentar os serões de inverno – “aquece agora e aquece depois”, como um dia me gritou do caminho um vizinho, no seu típico humor transmontano. Cada vez que desligava a motosserra, o vale desentorpecia num silêncio profundo, para logo depois fazer ecoar o crocitar danado das gralhas… imagino, estariam só à espera duma trégua para conversar (sempre gostei ter estes bichos por companhia; têm carácter!). E ali estava eu, deitado no meio dum prado a diluir o cansaço, enquanto a chuva miúda me inundava o rosto e o nevoeiro se divertia a desenhar mistérios no carvalhal. Não há fotografia que faça justiça a isto, mas partilho a espreitadela sorrateira da Ana, que nesta casa há sempre uma câmara à mão.

Untitled-1

Toda a gente se queixa do verão murcho que tivemos. Mas se há coisa que a fotografia me ensinou, é que os dias de chuva não são necessariamente maus – nem mesmo no verão; apenas têm uma beleza mais subtil, e precisam ser compreendidos. A diferença entre uma manhã de praia cinzenta e húmida e outra soalheira é essencialmente a mesma entre ler um livro e ver um filme: ler dá um bocadinho mais de trabalho, mas estimula muito mais a imaginação.
Há muito que as nossas férias de praia são passadas na Galiza, por isso sempre nos habituámos a encontrar soluções engenhosas para os dias de chuva – que os há, por aquelas bandas, quase na mesma proporção dos dias de sol… verão após verão. A costa galega é, pois, como as gralhas… tem carácter. E eu também gosto de a ter como companhia.

_DSF3974

Vasculhar as pedras na maré baixa, vestir o impermeável e dar um vigoroso passeio até ao farol, deambular pelos pequenos portos a ouvir os cordames e mastros dos veleiros tilintar ao vento, observar atentamente o vaivém de botes pesqueiros para as mexilhoeiras suspensas na bruma… ou será para o viveiro de salmões que no ano passado não estava cá? Tudo isto é ler um livro! Passar os dias de cara na net, ainda que tentador, nem sequer é ver um filme… é a nova forma de embrutecer.

_DSF3978

A janela e o assunto são sempre os mesmos, mas as coisas estão sempre a mudar...

A janela e o assunto são sempre os mesmos, mas as coisas estão sempre a mudar…

Um desses dias, fui mergulhar com os miúdos. As águas não estavam particularmente límpidas – mar de fondo, como lhe chamam os galegos – mas deu para encontrar um belo polvo sobre uma rocha (foi o meu filho que o viu). Mergulhei até ao fundo e trouxe-o entre as mãos para mostrar aos catraios. O olhar sábio do cefalópode fitava-nos com inteligência (não fica nada atrás das gralhas) e após segundos de manipulação um pouco atrapalhada, disparou para longe numa nuvem de tinta. Não vimos mais nada de especial, mas aquele momento com o polvo encheu-nos o dia. Por fim, o sol lá acabou por aparecer, enviando-nos no que sobrava de dias para o invariável trajeto areia-água-areia de que é feita a maior parte das férias de praia dos portugueses. E de que também nós gostamos, que não somos nenhuns extra-terrestres!

_DSF3911-copy

_DSF4012-copy

De regresso a casa, bem distante da costa galega, passámos dias amenos a colher sacos de amoras para fazer compota, enquanto os corpos, quase bronzeados, se iam habituando à escassa humidade e a uma altitude rente aos mil metros. O ar daqui deixa-nos mais letárgicos quando se regressa da beira-mar; por isso, houve que esperar o final da aclimatação para devolver às águas o caiaque que inaugurámos na Galiza – coisa que exige força de braços e alguma perseverança mental até poder desfrutar em pleno.
Uma vez mais, as previsões de chuva não nos demoveram, e rumámos ao vizinho lago de Sanábria – o maior de origem glaciar de toda a Península. As águas estavam plácidas, convidativas na temperatura e, em jeito de bónus, não havia quase ninguém nas suas margens: um daqueles dias de Setembro-Mais-Que-Perfeito… tempo que sabe tão bem conjugar.

FILE0260-copy

Vim aqui muitas vezes – mais do que suficientes para saber de cor outra das regras que se aprende na fotografia: nunca há duas visitas iguais, ainda que para o mesmo sítio e na mesma época do ano. E foi assim, nesta constatação sublime, que deslizámos umas boas horas ao longo da margem norte do lago, onde não há caminhos nem vivalma – apenas carvalhais densos, penedos graníticos e a ocasional baía de águas claras a convidar ao banho. Foi mesmo perfeito!

FILE0216-copy

E assim, de lago e de mar, se fazem dias plenos no clima que nos vai calhando.
E, se calhar, nem é coincidência ter vindo morar para um lugar chamado… Lagomar.

P.S.: andando um pouco mais para trás no tempo, as próximas crónicas deste jornal (estranha forma de dizer as coisas!) darão conta dos trabalhos profissionais que me mantiveram ocupado – textos e fotos – não vá o leitor desconfiar.

It’s the photographer, stupid!

14/01/2014

Numa altura de plena obesidade tecnológica, autênticos tsunamis de fotografias e vídeos invadem a net e o nosso espaço mental. Ironicamente, o bom fotojornalismo está em crise… parece que não tem lugar nesta sociedade cada vez mais “mastiga e deita fora”. Veremos o que vem a seguir.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 16:38

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 16:38

Em boa verdade, não é o fotojornalismo que está em crise. Somos nós – o ser humano – que estamos em crise. De repente, parece que cessou a busca pela elevação ética e cultural que paulatinamente vínhamos perseguindo desde o pós-guerra. E tornámo-nos em aborrecidos consumidores de tecnologia descartável. Até a forma como a informação é produzida, divulgada e consumida é ligeira… cada vez mais ligeira.

Cingindo a análise ao mundo da fotografia, é fácil constatar que os smartphones se têm vindo a impor como aparelhos muito capazes de captar imagens com qualidade; paralelamente, o espaço de partilha dessas imagens é cada vez mais a internet – com as redes sociais à cabeça. Não haveria nada de mal nisto, se tudo não descambasse numa banalidade tremenda… que é o que parece estar a acontecer.

Na vertente da tecnologia, é impossível não questionar a cadência de lançamento de novas câmaras digitais. O que é que uma marca criou, entretanto, de tão bom e avançado que justifique a comercialização de um modelo idêntico, poucas semanas depois da “novidade absoluta”? Mais importante ainda: o que é que nós – fotógrafos – vamos fazer de tão melhor com esses supostos avanços com que a indústria nos brinda constantemente? Bem… é aqui que entra a conhecida frase: it’s the economy, stupid!
De facto, a roda dentada da economia moderna parece arrastar-nos para uma nulidade profunda, onde palavras como refletir, contemplar, rebater, relativizar, aprender… já não têm lugar no léxico do cidadão.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:41

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:41

Por outro lado, enquanto nos munimos das últimas versões do iPhone e do iPad (com aplicações fascinantes que nunca vamos usar) e aprendemos a captar imagens (discretamente) com um tabuleiro à frente da cara, aproveitamos para divulgar nas redes sociais as obras-primas da nossa criação… aos milhares! Uma verdadeira ode ao point-and-shoot, no seu melhor: sem preocupações estéticas, sem a mínima reflexão visual, sem cuidado de escolha, sem critério. Depois, os amigos colocam lá um “like” e ficamos felizes!

Sinais desta crise cultural têm vindo à superfície aqui e ali, como pequenos alarmes que deviam despertar o polícia que há em nós. Em maio do ano passado, o Chicago Sun-Times despedia de uma assentada o seu corpo de 28 fotógrafos; em substituição, entregava iPhones aos jornalistas para que estes captassem as fotos com que se passaria a ilustrar as páginas do jornal… como se fosse a mesma coisa! (o pior é que os leitores já nem questionam as diferenças).

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:16

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:16

Do outro lado da barricada e – quem sabe – com uma pitadinha de orgulho francês (nous, les inventeurs de la photographie…), o Libération decide publicar a sua edição de 14 de novembro sem qualquer imagem, em jeito de grito de protesto pela depreciação gratuita e economicista do fotojornalismo. Claro que ao folhear aquelas páginas, de quadrados em branco cercados pela tipografia escura, fica-nos uma irremediável sensação de vazio. Afinal, a fotografia faz falta. A boa fotografia faz falta.

E é por tudo isto que me apetece elevar ainda mais a fasquia enquanto fotógrafo e formador.
Nos projetos que me entregam e nos passeios e workshops que conduzo, tem de estar implícita a busca da qualidade, pelo prazer de fazer bem. Há dias melhores e piores, como também há constrangimentos próprios do trabalho – prazos, meteorologia, restrições orçamentais -, mas no final isso até pode ter a virtude de nos fazer encontrar recursos que desconhecíamos.
É preciso recusar a banalidade. Fotografar muito nunca foi sinónimo de fotografar bem, da mesma forma que a qualidade da câmara não atesta a qualidade do fotógrafo.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:36

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:36

Enquanto escrevo estas linhas, vejo pela janela um grande carvalhal em repouso. Os líquenes cobrem todos os ramos, num verde tornado ainda mais inebriante pelo aguaceiro que passou. Mais perto, três gralhas – pretas como carvão – equilibram-se impávidas ao vento que dobra as pontas mais altas de uma nogueira. E espalha-se um brilho tremendo sempre que há uma aberta no céu de chumbo.
As fotografias deviam começar assim.

Bom ano.

P.S.: Antes que o wordpress coloque aqui uma publicidade qualquer, deixo-vos esta, de 1964, quando para vender uma câmara se enaltecia o papel do fotógrafo. It’s the photographer…

Dar-lhes mundo

26/07/2013

Se refletir um pouco, depressa chegarei à conclusão que muito daquilo que sei – e até muito daquilo que sou – se deve às viagens. Viagens de mente aberta, sem preconceitos sobre povos e lugares. Viagens a sítios frios e a sítios quentes; simples ou sofisticados; naturais ou urbanos; próximos ou distantes.
Pois bem, vai sendo tempo de partilhar.

Gansos

Viajar com crianças é um compromisso, já se sabe. Mas sempre que pude, nunca deixei de levar os meus filhos a conhecer outros sítios, mesmo quando havia reportagens a fazer – com as intermináveis esperas pela luz ideal para captar uma só imagem, ou enfrentando enfadonhos diálogos com estranhos, apenas para dar mais sumo a um qualquer texto que virá a ser escrito; isto, claro, na perspetiva deles.
É muito difícil dar a entender aos miúdos conceitos vagos como a beleza da paisagem ou o conhecimento que se adquire numa simples conversa de rua; é como ver as notícias… “não serve para nada!” (bem, aqui talvez tenham razão).

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A explicação para isto é muito simples: o mundo deles é diferente do nosso. As coisas são vistas por um prisma completamente distinto, que produz um espetro de maior riqueza cromática – para lá do comprimento de onda percetível pelos adultos. E é a mesma coisa para todos os outros sentidos, incluindo o paladar.
Um dia, um amigo resolveu levar o filho pelas montanhas de Marrocos, uma região que adorava e que fazia questão de mostrar ao pequeno. A viagem foi estudada ao detalhe para o miúdo, até mesmo o aluguer duma mula, que certamente traria outra animação ao percurso. Regressados a casa, numa conversa em jeito de balanço, os avós perguntaram o que ele mais tinha gostado nessa viagem, afinal tão exótica e bela… fez-se silêncio… o pequeno refletiu… e disse: “o gelado que comi na esplanada!”. Um gelado! Um simples gelado numa qualquer esplanada de Marraquexe – ora aqui está a magia das viagens.

Que paisagem! - algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças... agora se for para subir ao cone de dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Que paisagem! – algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças… agora se for para subir ao cone dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Com mais de 10 anos cada um, os meus filhos já têm naturalmente outra perceção das coisas, mas isso não quer dizer que as viagens sejam mais simples para nós… são antes diferentemente complexas.
Este ano fomos à Islândia, um destino que me apaixona verdadeiramente, onde já havia estado três vezes. Como fotógrafo, quero sempre fazer mais, melhor e, sobretudo, diferente. Mas a experiência ensinou-me a ser moderado nas ambições quando se viaja com crianças, por isso muni-me de uma simples câmara compacta, na esperança de produzir algo parecido com fotografia profissional ao mesmo tempo que vivia a viagem ao ritmo deles.
O compromisso, nem sempre pacífico para uma das partes, acabou por me mostrar, uma vez mais, que o simples facto de viajar sem câmaras reflex, várias objetivas, tripé, etc., induz uma abordagem diferente aos temas que queremos fotografar (ao mesmo tempo que nos livra de dores nas costas).

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Para além da austeridade no equipamento fotográfico, tivemos também de ser comedidos nas despesas de alojamento e alimentação, porque isto de viajar a quatro é… bem… é fazer as contas. Por isso levámos tendas, sacos-cama e demais equipamento para cozinhar de forma prática e muito leve. Aqui a lição foi para eles, aprendendo a partilhar a montagem e desmontagem das tendas, a ser mais autónomos e responsáveis nas tarefas de higiene pessoal em locais de utilização pública, a ver que, afinal, há muita gente a viajar desta forma – de todas as idades e estratos sociais (neste caso, com mentalidades bem diferentes da portuguesa). Serviu também para mostrar que podemos ver sítios incríveis se estivermos dispostos a abdicar de algumas mordomias – e que às vezes essa é mesmo a única forma de os ver.

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

À medida que o tempo ia passando, estabelecia-se um equilíbrio feito de compromissos, cedências de parte a parte, algumas chatices passageiras, mas sempre com a garantia disso resultar num maior respeito e conhecimento mútuos. Pelo caminho, divertíamo-nos. Não foi preciso consolas de jogos, nem filmes, nem internet (tive de comprar uma bola de futebol e ir enchê-la à piscina municipal de Vík, no entanto).

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos...

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos…

Os dias sem fim, os glaciares, as focas, os parques infantis, os passeios a cavalo, a partilha com miúdos islandeses – do skate de Reiquejavique ao “parkour” em rolos de feno nas quintas isoladas -, uma sopa e pão caseiros num sítio tão improvável quanto acolhedor, as fotografias pacientes e demoradas… um aromático café numa manhã luminosa. Afinal não é assim tão difícil conciliar interesses.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Sempre defendi que não vale a pena lamentar-me daquilo que não posso fazer por ter crianças comigo; tenho antes de saber aproveitar as excelentes oportunidades que eles me dão para fazer coisas realmente diferentes. De ver a vida por esse outro prisma que trazem sempre com eles, ao mesmo tempo que lhes empresto o meu, para que aprendam e cresçam um pouco mais.

Há uns anos, um amigo disse-me em jeito de conselho para a educação dos filhos: “dá-lhes mundo… dá-lhes mundo!”. Não podia estar mais certo.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

Tempo!

22/01/2013

Há alturas em que saboreamos até ao tutano o sítio onde agora vivemos. Dias que dão sentido à intuição que nos trouxe até cá. Hoje nevou.

De manhã abri devagar a persiana e pouco depois sussurrei ao ouvido da M: “queres espreitar lá para fora?”; o sorriso que se seguiu não tem preço… como não tem preço a vontade que lhe vi em despertar o irmão com a mesma surpresa.

O cenário, já de si bonito, esteve hoje mágico, com uma constelação de flocos a cair leve, levemente até preencherem de branco todas as rugas da terra.

Este dia parece o culminar perfeito de uma série de outros igualmente belos.

Temos estado envolvidos em trabalhos que andam à volta do fumeiro tradicional… eu por um lado, a Ana por outro, mas com conversas e histórias fantásticas que se cruzam ao final do dia, à volta da mesa. Da minha parte, confesso que tenho visto autênticas pinturas diante dos olhos… cenas belas desta arte centenária de preparar os enchidos que hão-de aguentar os lares transmontanos até ao ano que vem.

O convite para encher alheiras partiu de bons amigos que temos na aldeia. Seguiram-se fotos e notas soltas que tomavam o pulso a tantas histórias, e almoços ou jantares animados, sempre à volta do lume com aroma a carvalho e castanheiro.

Pelo meio, um fantástico jantar no mítico Solar Bragançano, com o Desidério e a Ana Maria a presentearem-nos com um magnífico butelo com cascas.

Uma amiga brasileira que conhecemos nos confins da China rural disse-nos, nessa altura, que sobre Portugal achava particularmente mágico o nome de Trás-os-Montes. Como era bonito deixar ao critério de quem ouvisse tal nome, imaginar o que haveria para lá das montanhas; e ao mesmo tempo, ela própria entoava essas palavras num sopro, como o vento que trouxe a neve hoje pela manhã: Traaaaaaássss-oooosssss-Mooonteeeesss.

Pouco a pouco, parece que estamos a descobrir essa tal magia.

Como é bom estar deste lado dos montes.

Bom Ano!

08/01/2013

Em 2012 assistimos ao lançamento de centenas de novos modelos de câmaras fotográficas, creio que a um ritmo sem precedentes na era da fotografia digital. Ou mesmo de toda a história da fotografia.

Um diapositivo captado em 1988. Não havia Photoshop... um desfoque ligeiro, uma chuvada de véspera e a luz da manhã fizeram o efeito.

Um diapositivo captado em 1988. Não havia Photoshop… um desfoque ligeiro, uma chuvada de véspera e a luz da manhã fizeram o efeito.

Quando já achamos que não é possível melhorar, eis que surgem coisas mais sofisticadas, mais capazes, que parecem eclipsar de uma só penada tudo o que lhes antecedia. No plano da fotografia, não se trata apenas de câmaras fotográficas e respetivas objetivas, mas também de todo o software de pós-processamento associado a esta fulgurante era da imagem digital. O ritmo das novidades é tão frenético que chega a confundir qualquer potencial comprador na hora da decisão; e aqueles que acabaram de comprar uma câmara sentem que deitaram o dinheiro fora, poucos meses após a “gloriosa” aquisição.

No meio disto tudo, onde é que pára, afinal, a fotografia? Falo, claro, do seu lado estético e criativo – a genuína, bela, sábia arte fotográfica.

O preto e branco nem sempre funciona bem... tal como a cor. Aqui, os contrastes, a perspetiva  e o momento justificaram, para mim, o discurso monocromático.

Aqui, os contrastes, a perspetiva e o momento justificaram, para mim, o discurso monocromático. Tenho uma semelhante a cor, mas prefiro esta.

Não deixo de sentir uma grande desilusão cada vez que se apresentam imagens extremamente manipuladas como se fossem resultado da inspiração artística de quem as concebeu. Por todo o lado se multiplicam agora fotografias perfeitíssimas, de cores vibrantes, contornos retocados, contrastes surreais: um interminável desfile de artifícios de software, para ser realista. Por outro lado, e ainda com menos trabalho, temos os efeitos “fotográficos” do iPhone ou a moda dos HDR em versão automática. Francamente, só espero que passe – que seja um fenómeno de moda ou de deslumbramento, como aconteceu durante os anos 80 com os filtros arco-íris, névoa/sonho ou céus cor tabaco.

O fundo está um pouco queimado e a roupa do homem suja... lava-se tudo no Photoshop ou deixa-se assim? Por mim, prefiro o realismo da fotografia.

O fundo está um pouco queimado e a roupa do homem suja… lava-se tudo no Photoshop ou deixa-se assim? Por mim, prefiro o realismo da fotografia.

Não é pelo facto de eu ter começado na fotografia pelo diapositivo e pelas revelações a preto e branco em quarto escuro que me vejo detentor de toda a verdade fotográfica. Apesar de inicialmente cético, reconheço inúmeras qualidades à era digital, a quem devo alguns progressos na minha forma de fotografar. Hoje, por exemplo, consigo concluir uma reportagem de forma mais sólida e em menos tempo pelo simples facto de poder visualizar as imagens no LCD da câmara. Mas o que vejo em muitos casos supera a mais fértil imaginação: utilizam-se efeitos digitais só porque estão lá, no software ou na câmara; os autores nem sequer se interrogam sobre a pertinência desses efeitos, se melhora ou piora a imagem, se faz algum sentido. Num paralelo com a fotografia clássica, fazem-me lembrar os que só fotografavam a preto e branco porque “era mais artístico” ou o recurso a câmaras pinhole para captar tudo e mais alguma coisa; qualquer uma destas técnicas pode dar resultados extremamente belos ou apenas gratuitos, sem sentido… é tudo uma questão de critério ou falta dele.

Luz, perspetiva, composição... a, b, c... a fotografia não precisa muito mais do que isto.

Luz, perspetiva, composição… a, b, c… a fotografia não precisa muito mais do que isto.

Vivemos uma época de pouco discernimento: o que nos sobra em bugigangas eletrónicas falta-nos em tempo para aprender a utilizá-las ou, até, para questionar sobre a sua real utilidade. Os franceses têm uma expressão um pouco corrosiva quando aplicada à leviandade artística: n’importe quoi!

Por isso, em matéria de fotografia, o meu voto para 2013 é que haja mais tempo para a cultura visual e para a reflexão artística. Já basta de n’importe quoi!

On / Off

15/11/2012

Apetecia-nos desligar. Passar um fim de semana em família, longe de compromissos, telejornais agoirentos e computadores a exigir-nos a atenção.

Enfim, sair de casa para quebrar a rotina, sem outras intenções que não fossem usufruir da companhia uns dos outros e de gozar este outono glorioso.

Na mala, uma muda de roupa, papel e lápis para desenhar, jogos de tabuleiro e duas máquinas fotográficas para usar com moderação.

Andámos à chuva, entrámos em galerias mineiras, jogámos junto à lareira, vimos perdizes fugidias e ratinhos minúsculos, revimos velhos conhecidos, cortámos urzes para conseguir cruzar um caminho lamacento, comemos tortillas e crepes chineses.

E teríamos regressado a casa no domingo, felizes e relaxados, se os deuses não nos tivessem concedido ainda o brinde de cumes nevados e estradas com gelo. Não nos restou alternativa senão ficar por mais um dia, desligados do mundo mas ligados ao essencial.

As imagens, todas da autoria da Mariana e do Luís, mostram como é bom passar a câmara para outras mãos e deixar que revelem a sua forma de olhar.

Notícias

05/11/2012

Para o Henrique, que me tem “acompanhado” nestas viagens.

Há muito que não damos notícias. Não por falta de histórias para contar… antes por falta de tempo para as escrever.

Do ponto de vista fotográfico, entrei num interessante rodopio ainda no correr do mês de agosto; depois, vieram as chuvas… céus fantásticos, lameiros verdejantes, as cores do outono – que me lembre, um dos melhores dos últimos anos (acreditem, é mesmo difícil tirar os olhos da janela enquanto escrevo estas linhas!).

O levantamento fotográfico que me foi pedido, fez-me viajar por boa parte de Trás-os-Montes e pelas províncias espanholas de Zamora e Salamanca. E deu-me a sentir, uma vez mais, o privilégio que é viver e trabalhar nesta região da Península.

Num dia repleto de boas observações, captei este macho solitário ao crepúsculo… num arrojado ISO de 1600.

Pelo caminho, captei os derradeiros mergulhos em rios de águas límpidas (no que sobrava de verão), assisti à brama do veado nos amanheceres frescos de setembro, segui rebanhos de churras-bragançanas (a mesma raça do cordeiro que há tempos criei aqui em casa), acompanhei a vindima nas encostas suaves e mornas de Valle Pradinhos, vi tratar o queijo terrincho nas mãos sábias que o produzem, como também vi a amêndoa ser descascada e as primeiras castanhas serem colhidas.

Pessoas simples, generosas e sempre disponíveis para me ajudar no meu trabalho… ainda que interrompendo temporariamente o seu.

Deambulei por bosques de bétulas, carvalhais e soutos (que abundância de cogumelos, este ano!) e assisti às primeiras neves. Conheci gente generosa e acolhedora – que não poupa nos sorrisos e tem sempre alguma coisa para dar: um copo de vinho, pêssegos, uvas, amêndoas, queijo, figos, pão… quando descarregava o carro parecia que vinha do supermercado. Tanta coisa boa, até parece alucinação, não é? Ou então é só a minha forma de ver e sentir as coisas.

Passei todo um dia neste bosque, onde cheguei logo pela manhã com neve nos cumes e -2ºC. Não é raro ver aqui corços… uma jóia perto de casa.

Há muito que não via tantos cogumelos. O outono tem sido generoso…

Ontem, regressei do Barroso. Um passeio fotográfico calmo, chuvoso, mas muito bonito. Reencontrei amigos. Senti-me em casa (o efeito Trás-os-Montes, outra vez).

Agora, com o passeio fotográfico a Villafáfila a espreitar no calendário, parece que já ouço os bandos de gansos a chegar do Norte e a encher os céus e a planície. As chuvas abundantes deste outono são um bom presságio…

Poucas horas após fotografar esta fêmea, apanhei um susto de morte : dois grandes veados cruzaram repentinamente a estrada a poucos metros do pára-choques.

Para a fotografia de veados, às vezes o melhor é ficar dentro do carro. Para os gansos de Villafáfila o princípio também se aplica.

Se tudo correr bem, devem estar a chegar…

Férias, doces férias

06/08/2012

Não era suposto estas férias terem sido assim. Havia uma viagem marcada há vários meses, projetada à volta de mapas, guias e recordações. Havia rotas desenhadas em tom fluorescente e expectativas. Sobretudo, muitas expectativas. Porque era um sítio onde há muito queria voltar e onde há tanto tempo planeávamos levar as crianças… Contas feitas, passagens aéreas reservadas, tenda a postos.

E depois dei uma queda no final de maio: nada de muito grave, nenhum osso partido, umas dores ocasionais. Faltavam cinco semanas para a partida, até lá a coisa resolvia-se. Não resolveu.
Cancelar a viagem foi mais doloroso do que todos os tratamentos. Um país é muito mais do que um ponto geográfico quando os sonhos se intrometem.

Felizmente, recorremos ao sítio ideal para seguir, à risca, as ordens do médico: evitar o sol, fazer caminhadas curtas, muito repouso.
Desde então, as férias tem sido passadas junto a margens sombrias de rios, onde os miúdos se lançam em saltos destemidos. Vozes cautelosas garantem que a água é gelada, mas ninguém diria, pelo tempo que passam lá dentro.
Há também estradas vazias para lançar papagaios ao vento… E prados verdes, palco de gritos e correrias, que abrigam insetos que apanham com cuidado para nos mostrarem as suas cores espantosas.

Nesse lugar, as noites mornas permitem jantares sob o céu estrelado, que uma noite nos brindou com o meteorito mais perfeito que alguma vez vimos. Ao crepúsculo, aparecem nuvens rosa e, em várias ocasiões, raposas que descortinamos em brincadeiras e caçadas. Nos dias mais quentes (e como são quentes, às vezes), abrigamo-nos à sombra de duas nogueiras, onde os almoços são acompanhados pela algazarra dos estorninhos, e as conversas giram à volta dos planos para os próximos dias.
Porque continua a haver ainda muito por explorar e descobrir à volta de casa, afinal um ótimo destino para passar as férias.

P.S. Mas o verão não fica completo sem dar um salto ao lugar de sempre, aquele que também nos aquece a alma nos dias mais frios, quando recordamos os dias fantásticos passados junto ao mar.

O cordeiro e a oliveira. Uma história de Natal

16/12/2011

Esta história tem início em Espinho num dia de inverno, com a oferta de uma oliveira num vaso por um casal amigo. A prenda de aniversário tinha como intenção que a árvore, de não mais que 50cm e copa arredondada, fosse trazida para Bragança e plantada junto à casa, então em construção.

Mas a pequena oliveira havia ainda de passar ali várias estações, na varanda do apartamento, assolada pelo ar marítimo, atacada por uma praga de insectos, votada ao desleixo com que habitualmente trato as plantas, das quais só me lembro quando noto que estão desesperadamente a precisar de água. Mas nem por isso nos era menos estimada, a oliveira que queríamos ver crescer e frutificar em Bragança.
Quando chegou a altura da mudança, o vaso entrou no camião juntamente com os haveres mais frágeis. No entanto, havia tanto que desencaixotar e arrumar, que a oliveira no vaso continuou durante mais um outono e um inverno, agora no deck em frente ao escritório onde ocasionalmente a podíamos ver coberta de neve.
Até que a chegada da primavera impôs, finalmente, a escolha de um sítio definitivo onde a arvorezita pudesse ganhar raízes e atingir altura suficiente para nos dar sombra. Mas quis o acaso que essa fosse também a primavera em que um cordeiro rejeitado pela mãe encontrasse abrigo provisório cá em casa.

Durante as primeiras semanas, voltámos à rotina de preparar biberões (desta vez com leite de ovelha em pó!), de despertar ao som dos balidos esfomeados da cria, de planear saídas de acordo com os seus horários de alimentação, até de a deixar adormecer ao colo.

Em breve, tínhamos companhia nos passeios pelas redondezas, uma ovelha a balir quando os nossos filhos se deixavam ficar para trás, e um pequeno monstro devorador de todas as plantas tenras a que conseguisse deitar o dente. E é aqui que voltamos à oliveira, também ela cada vez mais desfolhada pelo apetite incontrolável do pequeno ovino. De nada valeu a muralha de ramos e paus que tentei erguer à volta da árvore; parecia que quanto mais tentava barricar a oliveira, mais o cordeiro arranjava forma de lá chegar. Até que um dia se deu o inevitável: já autónoma, a ovelha regressava para junto do rebanho onde nasceu, deixando no nosso prado uma planta careca, sem uma única folha.

Recusando fazer o funeral à oliveira, trouxemo-la para dentro de casa. Alguns amigos que nos visitavam, hesitavam em afirmar se se tratava de um bonsai, uma escultura, ou apenas mais uma excentricidade nossa, aquilo que viam em cima do frigorífico. A verdade é que, apesar de rodeados por árvores, nos afeiçoámos muito àquele pedaço de natureza-agora-morta, de copa redonda e ramos perfeitos.

Recentemente, a oliveira voltou a transformar-se. Um toque de tinta branca, umas bolas coloridas feitas de lã de ovelha (pareceu-nos justo, dado os contornos desta história), e aí está ela, de novo, uma bela árvore: um símbolo da amizade que perdura e vence adversidades; um híbrido entre um cordeiro e uma oliveira; uma exótica árvore de Natal, …o que quiserem. Para mim, é sobretudo um belo objecto, que me inspira e alegra os dias quando entro na cozinha pela manhã.