Archive for the ‘Reportagens’ Category

A Propósito de Ursos

06/03/2013

Às vezes, quando vou dar uma volta no carvalhal em frente a casa, tenho a sorte de observar corços, raposas… ou javalis. Notícias recentes dão agora conta de um avistamento de dois ursos-pardos a tão-só 70 Km a nordeste do local onde vivo.

Um urso negro que fotografei no Alasca... escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações...

Um urso-negro que fotografei no Alasca… escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações…

Ao que parece, os ursos que vivem aqui no norte de Espanha estão em ligeira expansão (são tão poucos que não dá para grandes entusiasmos). Mas o facto de estarem em dispersão, procurando novos territórios, não quer dizer que apareçam tão cedo nas nossas terras. E mesmo que apareçam, prefiro não me cruzar com um deles nos meus passeios matinais.

Por duas ocasiões, já tive a felicidade de ver e fotografar ursos no espaço selvagem. Mas há uma diferença grande entre ver e fotografar, como contei numa crónica que escrevi em tempos para a revista FotoDigital, e que agora recupero… para quem não leu na altura.

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O crepúsculo já se tinha instalado quando captei a última imagem do dólmen de Poulnabrone, em pleno Burren irlandês. De regresso ao automóvel, acendi os faróis e retomei a condução pela mesma estrada, com o desenho irremediavelmente estreito e sinuoso comum a muitas vias desta parte do país. Tinha ainda percorrido poucos metros quando vi um coelho saltitar à frente do feixe de luz, mesmo no centro do asfalto; reduzi a velocidade e lá fui entretido no encalço curioso da pobre criatura – que se chateou ao fim de pouco tempo e desapareceu na vegetação. Surpreendentemente, ainda mal tirara os olhos da berma, tinha já uma marta à frente do carro, que se assustou com o encontro e meteu por um caminho lateral. Aproveitando a quietude do trânsito, virei o volante e fui atrás. Quando os faróis iluminaram finalmente a escuridão, deparo com outro bicho no meio do caminho, que nada tinha a ver com a marta, entretanto “evaporada”. Era um texugo, de olhos vidrados e ar aterrado, tão incrédulo quanto eu naquilo que se estava a passar.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

Tudo isto aconteceu em pouco menos de dois minutos, e a não ser que se tenha tratado de um estranho fenómeno de metamorfose, vi, na realidade, três animais silvestres num curtíssimo espaço de tempo. Provas? Não tenho. Como também não tenho de inúmeras outras observações fantásticas, ocorridas enquanto realizava reportagens: um lobo correndo sobre o manto de neve a poucos metros do automóvel onde seguia; mãe e cria de veado despertados pelos meus passos, madrugada após madrugada, enquanto acedo a um abrigo; crias de javali que cruzam o regato três metros ao lado do local onde me encontro sentado; um urso que entra na clareira ao cair da noite, afugentando o gato-bravo que já lá se encontrava… Fotos? Nicles!; népia!; rien! E a lista podia continuar…

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. 3 horas à espera, uma 300 f2.8 e um converso rmas era quase noite e a película de apenas 100 ISO!

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. Três horas à espera, quieto e em silêncio para isto! Uma 300mm f2.8 e um conversor não chegaram para superar o início da noite e a película de apenas 100 ISO!

Bem sei que isto soa àquelas histórias mirabolantes que os pescadores gostam de contar – “tinha ali mesmo um robalo de 200 quilos e a linha partiu-se-me…” – mas conto-as porque, ao fim de 3 anos e meio de blog, o mínimo que posso esperar é que acreditem no que escrevo. E, já agora, que nenhum dos leitores seja pescador.

Na verdade, a fotografia da natureza conta com um enorme desfasamento entre aquilo que se vê e aquilo que se consegue fotografar, principalmente num país como o nosso, onde a fauna é tremendamente esquiva… e aquela que não é, acaba sistematicamente por ver a sua vida encurtada pelos caçadores do costume. Em todas as situações que mencionei trazia comigo uma máquina fotográfica e, em boa parte dos casos, nem sequer ousei apontá-la ao animal em causa; umas vezes porque tudo se passou muito rapidamente, outras porque fiquei simplesmente deslumbrado com a observação e nada consegui fazer. E nas raras vezes que estes encontros fortuitos tiveram resposta da minha parte, as fotos ou foram para o lixo ou passaram ao arquivo por razões sentimentais – tremidas, desfocadas, sub-expostas. Desilusão? Nem por isso. A vida encarrega-se de nos demonstrar que a boa fotografia de vida selvagem raramente resulta do acaso, por isso mais vale gozar o momento com um bom par de olhos panorâmicos do que deixá-lo fugir através de um ridículo visor, acoplado a um tubo de não sei quantos quilos. É bom na mesma e só nos vai aguçar o apetite para voltar àquele local uma e outra vez, possivelmente melhor preparados.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Por outro lado, mesmo quando planeamos as fotos com todo o cuidado – abrigos, engodos, células de infra-vermelhos e toda a tralha que se conhece aos fotógrafos da natureza mais empenhados – nem sempre as coisas resultam. Como daquela vez que permaneci dentro de um abrigo à espera de veados, das seis às oito da manhã, com neve por todos os lados e uma temperatura de -2ºC, sem que visse uma orelha que fosse dos bichos. Ou quando me meti entre os caniços de uma lagoa, de fato de mergulho e com água até ao peito, apenas para descobrir que os mergulhões nadavam serenamente a dois palmos da objetiva (e demasiado perto para focar) de tão bom que era o disfarce.

Pois é, às vezes sentimos que a natureza faz troça de nós. Mesmo assim não me arrependo nem me martirizo com as “ocasiões perdidas”, e continuo a recomendar que saiam para o campo tanto quanto puderem. É que em casa só nos saem moscas e formigas.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post... subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post… subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

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500 Palavras = Meia Imagem?

19/10/2010

Um dia alguém me disse, em tom elogioso sobre as minhas fotografias, que quando uma imagem é realmente boa dispensa qualquer tipo de informação.

O Vestuário de cor índigo é talvez o que melhor caracteriza a cultura da minoria Dong. As provas de um trabalho recente com essa pasta vegetal azulada estão ainda bem presentes nesta vendedora de patos. (Mercado de Linxi, Guangxi, China).

Tratava-se, portanto, de uma nova maneira de apresentar a velha fórmula “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Ora, naquilo que me diz respeito, o tiro não podia sair mais ao lado, porque nunca fiz nenhuma exposição que não levasse legendas – das alargadas, ainda por cima.
É óbvio que percebo perfeitamente o sentido daquela expressão, mas também entendo que, por vezes, se abusa do conceito; é como se perante uma boa fotografia as palavras já não tivessem poder para acrescentar algo, o que é completamente falso: as palavras têm sempre o seu lugar; dão sentido e força à imagem, complementam-na, fazem o observador ir um pouco mais longe. Nalguns casos até transformam uma imagem aparentemente banal num momento sublime, só porque revelam o contexto ou o detalhe “invisível” e aparentemente irrelevante que suscitou o disparo. Não, uma imagem não vale mais do que mil palavras. Ou, pelo menos, não devemos insistir tanto nesta máxima fotográfica.

O Dongba é uma escrita pictográfica, já extinta, utilizada pela minoria Naxi até ao início do século XX e que constava de cerca de 1.300 símbolos. Hoje, algures na província do Yunnan, não restam mais do que uma dezena de xamãs capazes de interpretar estes documentos. (Dazue, Sichuan, China).

Em vários concursos internacionais, incluindo o World Press Photo, as fotografias devem ser enviadas acompanhadas de um curto relato sobre o contexto em que foram obtidas. Esses relatos têm muito menos que mil palavras, mas frequentemente são eles que desempatam as diferentes candidatas. Também na revista National Geographic, por exemplo, há muitos anos que se dá um relevo especial às legendas que acompanham as fotos. Nestes breves textos há verdadeiras obras de arte literária, que nos obrigam a interpretar a imagem uma e outra vez, fazendo-nos apreciá-la até ao tutano. Falo sobretudo da edição americana, porque as traduções nem sempre permitem manter fiel o delicioso jogo entre as palavras e a fotografia. No número de Março de 1998, que ontem à noite peguei por acaso para uma leitura de cabeceira, deparei-me com uma reportagem sobre Nápoles, com fotografia de David Alan Harvey e texto de Erla Zwingle. Numa foto de dupla página vê-se marido e mulher, ela de cigarro na mão e cotovelo apoiado na mesa, ele um pouco mais atrás de cigarro ao canto da boca. Estão frente a uma mesa povoada de copos e garrafas de vinho abertas, numa situação que evoca claramente um momento relaxado após uma refeição. A legenda acrescenta que ele é taxista e fala também na devoção dos napolitanos pelos prazeres da mesa, terminando com a seguinte frase: “Loyal to their savoury city, the couple fear that the appetite for a better life will drive their two children away”. Repare-se nas palavras savoury, appetite e drive; acham que foram escolhidas ao acaso? Não, antes pelo contrário: apesar de serem aqui utilizadas com outro sentido, remetem com mestria para a gastronomia de Nápoles, para a refeição acabada e para a profissão do comensal fotografado. A “moldura” literária levou-me a apreciar ainda mais a foto. E eu acho esta combinação simplesmente brilhante.

Numa aldeia do Oeste da Irlanda, um homem escolhe ler o jornal no interior de um snug. Este cubículo exíguo, parte integrante de alguns pubs rurais, destinava-se a acolher exclusivamente as mulheres que quisessem frequentar estes estabelecimentos e a sua utilização foi imposta pela igreja católica ainda durante boa parte do século XX. Debaixo do postigo por onde eram servidas as bebidas (ligado ao balcão principal) está um Border Collie, uma reputada raça de cão pastor das ilhas britânicas. (Dingle, Irlanda).

Para este post escolhi três imagens que captei em locais diferentes. Acrescentei-lhes informação em forma de legenda (não tão brilhante, lamento) para que o leitor faça um simples exercício: imagine ver estas fotos sem qualquer legenda e depois de ler o texto volte a avaliá-las à luz dessa informação.
Uma imagem vale mais que mil palavras…
E quantas “imagens” nos valem as palavras?

P.S.: este texto cerca de 500 palavras. Quantas imagens precisaria eu para expor o meu raciocínio?

Primeiro estranha-se…

21/06/2010

Às vezes, aquilo a que chamamos intrusão visual abre a porta a excelentes oportunidades fotográficas. Basta respirar fundo, reflectir sobre a situação, e corrigir ligeiramente a rota criativa.

Quando entrei na igreja de S. Pedro de Montes, durante o recente passeio fotográfico a El Bierzo, deparei-me com vários santos apoiados no chão, fora dos seus locais habituais. São figuras esculpidas em madeira, muito belas, que nunca tinha visto de tão perto e que podia agora fotografar… ou antes, não podia – porque estavam cobertas por um plástico. A sensação imediata foi de uma certa frustração, mas antes mesmo que Marisol – a guardiã do monumento – me adiantasse que podia retirar o plástico, já eu tinha decidido captar a imagem tal como a tinha visto inicialmente.
Por trás da santa padroeira de Montes de Valdueza, a intensa luz de um foco tornava-se difusa através da fina película plástica, dando àquele quadro um toque mágico. Aquilo que eu via agora na penumbra da igreja era um vulto azulado coberto por um estranho véu de luz. E foi assim que uma situação sem sentido passou a fazer sentido.

Há uns anos, em Serpa, aconteceu-me uma coisa parecida. Durante uma reportagem para a revista Evasões, entrei numa sacristia revestida de azulejos setecentistas. A luz da manhã entrava por um lanternim superior, inundando suavemente o espaço e ganhando intensidade no calcário branco da pia de água benta. A cena tinha tanto de belo como de simbólico… não fosse aquela cadeira de plástico laranja encostada à parede. E porque se tratava de uma clara “intrusão”, decidi afastá-la para captar algumas imagens. Depois, pensei melhor, voltei a colocá-la no sitio onde estava e fiz mais algumas fotografias. E são precisamente estas que eu gosto mais.

Não é que eu advogue os plásticos dentro das igrejas – ou em qualquer outro sítio -, mas às vezes é preciso dar uma segunda oportunidade ao olhar. Um destes dias, falo-vos de postes eléctricos e fios telefónicos.

O Monte

14/06/2010

Era uma vez uma casa singela no final de um longo caminho de terra. Quando se olhava à volta percebia-se que não era a única, mas todas as outras há muito se tinham desvanecido nos tons murchos da terra – vazias, arruinadas. Aquela, no entanto, irradiava a vivacidade da cal fresca, como um orgulhoso farol num mar de colinas douradas.
Nos raros dias de trovoada, quando o céu tinha o peso e a cor do chumbo, o sítio adquiria uma magia ainda maior, com sucessivos arco-íris a pintar os ares, a brancura da casa a fosforescer sobre o fundo cinza das nuvens, e a pele dos sobreiros a avermelhar-se como nunca, corada pela nudez de um corte recente. Passado o aguaceiro, distinguiam-se ao longe duas silhuetas escuras perfeitamente recortadas nas paredes, sondando o horizonte em busca do gado ou de balde na mão a caminho da horta.

A descrição pode parecer idílica ou ficcionada, mas não é uma coisa nem outra; é apenas o retrato da realidade, tal como a vi numa visita aos derradeiros habitantes deste local. Alda e Artur, ambos com mais de setenta anos, recebem-me com visível satisfação e a surpresa de sempre, porque não têm telefone para atender avisos prévios. Encostados a um velho forno exterior, típico nos montes alentejanos, a conversa é posta em dia enquanto o crepúsculo vai lentamente abraçando o céu. A certa altura, Alda vira-se para trás e começa a caminhar energicamente para o interior da casa: “vai comer connosco!”, afirma sem qualquer hipótese de recusa.
Já sentado à mesa, com uma açorda fumegante à frente, o meu olhar concentra-se em todos os pormenores, na medida que a conversa de Alda permite e a ténue luz do petróleo deixa ver. À entrada, pendurada na parede, há uma espécie de grade – espetadeira, como aqui lhe chamam – exibindo um trem de cozinha em esmalte verde-água; são uns poucos tachos, panelas, cafeteiras, fervedores e até um funil que parecem nunca ter sido usados, algo que passa a fazer sentido quando venho a saber tratar-se da mais valiosa prenda de casamento.

Do lado direito da porta, a aresta sobre a lareira mostra também outra curiosidade: um “tecido” laboriosamente trabalhado sobre o qual estão pousados diversos utensílios, incluindo duas tinas de cobre levadas à cor do ouro pelas mãos da dona; a textura deste napperon, bem como as letras que nele estão impressas são, porém, um pouco estranhas. Aproximo-me. Mesmo antes que tenha oportunidade de tirar conclusões, Alda esclarece-me que um dia resolveu entreter-se a recortar sacos de rações, dando-lhes uma nova utilidade. Para onde quer que olhe, há sempre um objecto com uma história, um artefacto caído em desuso, mas aqui em plena aplicação, e gestos seculares que se repetem num arrojado desafio ao tempo. É assim com o ferro de passar, que ainda funciona a brasas, o pote de três patas de onde veio a açorda que agora saboreio, ou o lavatório de esmalte onde todos lavámos as mãos antes do jantar. De repente, sinto-me um visitante privilegiado de um museu vivo e genuíno, mais ainda quando Artur abre uma cortina para mostrar a selha onde conservam a carne de porco em salga. É fácil esquecer, mas sem electricidade não há congeladores.

O aroma a orégãos, suspensos em ramo sobre a minha cabeça, traz-me de volta à açorda e às conversas sobre comidas. Tanto quanto pode Alda cozinha a lenha porque, como diz, o gás é caro e quando se acaba há que trocar a garrafa na mercearia, a quatro quilómetros de carroça. Uma ida à “venda” serve também para comprar vinagre, sabão, levantar a escassa correspondência na caixa postal e manterem-se informados do que se vai passando nas redondezas; já para saber o que vai pelo resto do país e do mundo continuam a confiar no pequeno rádio a pilhas. De vez em quando também recebem notícias através dos vizinhos de fim-de-semana que há uns anos compraram e recuperaram um monte aqui perto. Para além disto, sobra-lhes ainda a ocasional ida à vila, para fazer outras compras ou esperar a consulta no centro de saúde; “quando vou ao médico”, conta Alda, “levanto-me às quatro da manhã para lá estar às seis e marcar lugar”. Sete quilómetros a pé que faz por atalhos na escuridão da noite.

Talvez por passar o dia todo no silêncio dos campos, ou simplesmente por feitio, o circunspecto Artur é de poucas falas. Às primeiras horas da manhã decido acompanhá-lo nesta tarefa de andar a pastorear as vacas, que conhece pelo nome e até chama para acariciar com o inseparável cajado. Os cães seguem-no para toda a parte: deitam-se quando ele se senta, despertam mal se levanta, e quando lhes dá na ideia desatam a ladrar aos bovinos como quem pede um coice para animar o dia. Ao final da manhã, Artur faz trabalhar a enxada nuns terrenos que lhe confiaram junto a um monte abandonado e, minutos depois, junta-se a esposa que veio entre o trigo trazer a cesta com aquilo a que a esta hora chamam de “jantar”. Tirando o que me disse sobre a pacata mula e um bezerro que não conseguiu salvar à nascença, pouco mais fiquei a saber sobre o que vai na alma deste homem.

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Alda, pelo contrário, não pára de contar coisas enquanto se ocupa das tarefas diárias – dar comida aos porcos e às galinhas, lavar a roupa, cozinhar ou regar a horta -, como se quisesse aproveitar a companhia para se desforrar do tempo que passou a sós com os seus pensamentos. Uma vez por semana também coze pão, e uma ao ano dedica-se a caiar o lar por dentro e por fora, apenas com a ajuda de uma escada para chegar às partes mais altas; é assim que este monte se mantém imaculado desde há cinquenta anos, quando veio para aqui viver.
Ao fim da tarde prepara a lenha e vai ao quintal buscar coentros para aprimorar uma última refeição antes de se deitarem; pouco depois, já se ouvem os chocalhos do gado que se abeira da água para matar a sede: Artur está de volta e em breve acenderá as mechas que inundarão esta casa de uma luz quente e bruxuleante… como um farol num mar de colinas.

Quando olho para este casal, não vejo apenas duas pessoas idosas cujas rugas se confundem com as dos próprios sobreiros. Vejo toda a ruralidade de um país, tal como existiu durante séculos; um Alentejo a tão-só catorze quilómetros do litoral e hoje atravessado pela indiferença das auto-estradas. Mas Alda e Artur continuam cá e fazem parte do retrato português do século XXI.

Uma coruja, uma raposa… e tudo o que está por trás.

10/05/2010

Por estes dias estarei mergulhado na selecção e tratamento de imagens de um trabalho pedido pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). As fotografias recém-captadas são o complemento de um trabalho de maior envergadura que, após a exposição decorrida na biblioteca central da instituição, verá também a luz do dia nas páginas da edição portuguesa da National Geographic.

Pilhagens de ninhos, envenenamentos, abate ou mesmo mutilações são casos recorrentes que vitimizam as aves de rapina nocturnas.

Na minha última visita à UTAD, na semana passada, fui confrontado com vários animais feridos, debilitados ou, simplesmente, apreendidos a gente sem escrúpulos que insiste em manter enjaulados exemplares da fauna selvagem. Infelizmente, nada disto foi surpresa para mim; o meu já longo percurso de naturalista – ou ambientalista, se quiserem (por cá, o exercício normal da cidadania ainda é visto como algo exótico) – há muito se encarregou de me demonstrar esta triste realidade. Lembro-me de garças vermelhas (uma espécie migratória, não cinegética) abatidas por caçadores frustrados; corujas-das-torres envenenadas por as considerarem agoirentas; raposas, toirões, fuinhas, texugos – não importa – exterminados ou decepados por armadilhas, por “andarem a comer as perdizes todas”!! Por várias vezes me chegaram às mãos alguns destes casos, animais que vinham em caixas de cartão, frequentemente em estado irrecuperável ou quase mortos. Outras vezes, eram apenas denúncias telefónicas ou por carta, que me punham a mim e a outros colegas de associação no encalço de mais alguma atrocidade.

Raposa encontrada junto à estrada. Que aconteceu à progenitora? Atropelamento? abate? Às vezes não se sabe, mas felizmente esta cria está agora em boas mãos.

No nosso país, o cerco à vida selvagem e aos habitats de que ela depende é constante e assume as mais diversas formas: caça, barragens, incêndios, um número crescente de auto-estradas e os famosos PIN (Projectos de Interesse Nacional, leia-se campos de golfe, empreendimentos turísticos e outros projectos para lucro privado). Por outro lado, as dotações financeiras e humanas destinadas à conservação da natureza e ao ambiente são histórica e sistematicamente irrisórias. Por isso, nesta minha última visita à UTAD – dizia eu -, fiquei contente por ver que finalmente começa a haver gente que se ocupa destes casos de forma profissional, no mais amplo sentido do termo. Mais: fiquei a saber que foi investido dinheiro num Centro Hospitalar para Recuperação de Fauna Selvagem, que inclui um pioneiro túnel de voo para recuperação de aves e equipamento de diagnóstico e tratamento.

No Ano Internacional da Biodiversidade, bem como em todos os outros, é importante relembrar que está tudo nas nossas mãos. E que a ignorância e a indiferença são as piores das ameaças.

http://www.countdown2010.net/year-biodiversity