Archive for the ‘Passeios Fotográficos’ Category

Baixo Vouga – Lagomar: crónica de um regresso

09/06/2015

Nasci – e vivi boa parte da minha vida – no distrito de Aveiro. A minha primeira fotografia foi captada aos 11 anos na serra da Freita e as primeiras imagens com uma câmara reflex surgiram três anos mais tarde, no Baixo Vouga Lagunar.

© Paulo Canaveira / Um olhar atento e uma lente macro captaram o melhor de um dia de chuva.

© Paulo Canaveira / Um olhar atento e uma lente macro captaram o melhor de um dia de chuva.

O título pode confundir, pela sonoridade semelhante, mas o trocadilho acaba por sintetizar um regresso a casa (à aldeia transmontana de Lagomar) bem diferente daquele que teve lugar durante quase três décadas, cada vez que visitava esta zona húmida do litoral.
Aos 14 anos, ir fotografar ao Baixo Vouga, significava apanhar o comboio das seis da manhã em Espinho e desembarcar meia hora mais tarde no apeadeiro deserto de Salreu. Ao fim do dia, repetia o eixo no sentido inverso. Na primavera, sob uma temperatura amena e a azáfama fascinante das garças, das cegonhas e dos patos, via o nascer do sol logo aos primeiros passos em direção ao canal principal. No inverno, as primeiras horas eram quase sempre frias, invariavelmente escuras e silenciosas… mas não menos belas. Lembro-me, por exemplo, de ver os canais mais estreitos cobertos com gelo, as árvores despidas espelhadas na quietude das águas, os bandos de abibes – aves elegantes vindas do norte – esbatidos ao longe pela névoa fria. Não conheço nada visualmente mais estimulante, ou mágico, do que estas manhãs com caráter.
É muito fácil gostar das coisas fáceis, mas em boa verdade são os dias mais temperamentais que nos fazem “pensar na vida”, ver o mundo de outra forma, apreciar uma outra beleza que quase sempre nos escapa.

© Luís Mestrinho / o aspeto depurado desta imagem foi acentuado por uma longa exposição. Num dia de sol seria mais difícil... ou mesmo impossível, sem recurso a filtros.

© Luís Mestrinho / O aspeto depurado desta imagem foi acentuado por uma longa exposição. Num dia de sol seria mais difícil… ou mesmo impossível, sem recurso a filtros.

© Rosa Maria Pereira / uma ligeira teleobjetiva destacou este conjunto de caniços. Não parece, mas estava a chover.

© Rosa Maria Pereira / uma ligeira teleobjetiva destacou este conjunto de caniços. Não parece, mas estava a chover.

© Jorge Rosa / A elegância quase nipónica desta macro deve-se em boa parte à composição e à escassa profundidade de campo... mas a luz difusa de um céu nublado ajuda muito.

© Jorge Rosa / A elegância quase nipónica desta macro deve-se em boa parte à composição e à escassa profundidade de campo… mas a luz difusa de um céu nublado ajuda muito.

A última edição do passeio “Primavera no Baixo Vouga Lagunar” trouxe-nos, mais uma vez, esses dias de chuva e céus de chumbo – frentes que entram terra adentro a partir do Atlântico, mesmo ali ao lado. Para quem está menos habituado a fotografar com chuva, encontrar motivos que resultem numa boa fotografia é tarefa ingrata, mas com o avançar das horas o olhar vai-se refinando, começamos a perceber aquilo que realmente funciona sob estas condições, concentramo-nos nos diferentes mundos que se abrem à nossa volta – círculos da chuva na superfície dos canais, pérolas de água nas folhas dos lírios, um inseto, uma flor, caniços e juncos despenteados pelo vento, a velha casa isolada num registo a preto e branco.

© Gisela Castro / A cores ou a preto e branco? O mesmo motivo possibilita abordagens distintas, como se pode ver na foto abaixo.

© Gisela Castro / A cores ou a preto e branco? O mesmo motivo possibilita abordagens distintas, como se pode ver na foto abaixo.

 © Luís Mestrinho / Mas não é só a cor ou falta dela: composição e perspetiva  são também elementos essenciais.

© Luís Mestrinho / Mas não é só a cor ou falta dela: composição e perspetiva são também elementos essenciais.

© Gisela Castro / Duas formas. Dois Volumes. Preto. Branco. Simple is Beatiful.

© Gisela Castro / Duas formas. Dois Volumes. Preto. Branco. Simple is Beatiful.

Pela primeira vez, não fiz uma única fotografia. Limitei-me a apreciar e a ajudar o olhar dos meus colegas de viagem. E, pouco a pouco, vi surgir nas diferentes câmaras fotográficas o Baixo Vouga com uma beleza renovada. Melhor do que fazer boas imagens em condições adversas, é levar outros a conseguirem o mesmo, nem que seja apenas pelo facto de agendar um destes passeios… e ter a determinação de não o desmarcar perante a evidência das previsões meteorológicas da véspera… e os telefonemas receosos de alguns participantes.

© Rosa Maria Pereira / As zonas claras do céu distraem do essencial. Cabe ao fotógrafo perceber isto e trabalhar na composição.

© Rosa Maria Pereira / As zonas claras do céu distraem do essencial. Cabe ao fotógrafo perceber isto e trabalhar na composição.

© Paulo Canaveira / O micro cosmos de um campo florido revela sempre novas imagens.

© Paulo Canaveira / O micro cosmos de um campo florido revela sempre novas imagens.

© Nuno Moreira / Toda a energia da primavera a irradiar de um solo aparentemente seco: um contraste que também se estende às cores.

© Nuno Moreira / Toda a energia da primavera a irradiar de um solo aparentemente seco: um contraste que também se estende às cores.

E assim, ao longo deste post, ficam algumas das fotografias captadas pelos participantes nesse fim de semana chuvoso de final de abril. Não estão cá todas, nem de todos, é verdade, mas antes que se faça mais tarde e outras aventuras se intrometam na memória, deixo-vos estes momentos de inspiração.

© Jorge Rosa / Uma macro captada por uma reflex (como é o caso) tem sempre menor profundidade de campo que uma macro captada por uma compacta (foto anterior). Mas ambas podem abordagens muito criativas.

© Jorge Rosa / Uma macro captada por uma reflex (como é o caso) tem sempre menor profundidade de campo que uma macro captada por uma compacta (foto anterior). Mas ambas podem ser abordagens muito criativas.

© Nuno Moreira / E o que é que eu dizia da chuva na superfície da água?  Aqui está uma imagem impossível em dias de céu azul.

© Nuno Moreira / E o que é que eu dizia da chuva na superfície da água? Aqui está uma imagem impossível em dias de céu azul.

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Muda-se o tempo… muda-se a perspetiva

25/10/2013

Tratava-se duma saída para fotografar veados; mas os veados mostraram-se estranhamente tímidos para o que é habitual nessa época do ano. Enquanto vamos tentando compreender as razões, redirecionamos a veia criativa – e as objetivas – para outros assuntos. E aprendemos.

O simples facto de acordarmos cedo para tentar fotografar fauna, por si só, já nos coloca perante condições interessantes para captar a paisagem no seu melhor. Um banco de nevoeiro matinal cobria por completo o vale de Pedroso de la Carballeda, deixando de fora apenas as pontas dos pinheiros e as silhuetas longínquas das árvores mais frondosas. A luz do amanhecer espalhava-se em todas as direções, numa interminável e delicada cortina dourada. Quando nos detivemos finalmente no silêncio do caminho, ecoaram do vale os potentes bramidos de veados machos… mas longe, demasiado longe.

Foi quase sempre assim, ao longo de três dias. Temperaturas anormalmente altas para este final de setembro, para esta altitude, para esta parte da Península… com a penalização adicional da falta de chuva. Os animais ficavam então mais recatados, imóveis à sombra, ainda o dia mal tinha começado. Que diferença para outros anos!

Mas se é verdade que nos últimos tempos o verão se tem deslocado tendencialmente para o Outono, também são bem conhecidas as queixas dos fotógrafos em relação à meteorologia. Quem vê de fora, diz que nunca estamos contentes com o que temos: “a luz hoje está demasiado forte”, “estas nuvens vieram estragar tudo”, “Ah!… se aquela colina tivesse uma pontinha de sol…”, enfim, um rol de problemas que se atravessa teimosa e repetidamente no caminho da arte!

Pois bem, seus ignorantes, deviam tentar vocês fazer imagens bonitas sem os ingredientes certos, que eu bem queria ver qual era o resultado.
(Digo ignorantes com todo o carinho, porque na verdade há uma certa tranquilidade e beleza na ignorância… quantas vezes eu quis sê-lo, também na fotografia, só para me libertar dos dogmas que tantas vezes me atormentam). Mas, há que dizê-lo, os fotógrafos são realmente uns queixinhas.

Com esta brama tão próxima (uma das noites, perfeitamente audível a poucos metros dos quartos onde dormíamos) e simultaneamente tão inacessível para as câmaras fotográficas, não restou outra alternativa senão domesticar os olhos para outros assuntos.
Bem alojados, bem alimentados, em boa companhia, e com o ocasional copo de tinto de Toro para afogar as mágoas, não foi difícil encontrar recursos para explorar as outras mais-valias da Sierra de la Culebra: afinal, havia um ribeiro de águas límpidas, uma ponte medieval, cristas quartzíticas no alto dos montes, bosques de castanheiros seculares em abraço à pitoresca aldeia de Santa Cruz… e até as geométricas plantações de Pinus sylvestris, com os característicos fustes direitos e casca avermelhada.

Da minha parte, optei por uma reinterpretação da paisagem que eu já bem conhecia, passando a trabalhar quase exclusivamente a preto e branco.
Para fotografar a preto e branco, é preciso ver a preto e branco, já se sabe, por isso é tão interessante dissecarmos a paisagem apenas pelo crivo da luz e das sombras, das texturas e do grafismo.
Os meus companheiros de viagem fizeram coisas diferentes, cada um à sua maneira, vendo belas coisas – ou vendo coisas de uma forma bela – que para mim eram simplesmente invisíveis (não era do vinho, era da magia própria da arte fotográfica). Imagino que também se tenham divertido.

Uma coisa é certa: nesta nossa demanda dos cervídeos da Culebra, acabámos por aprender mais sobre a paisagem e a identidade da serra… ao mesmo tempo que nos íamos dando conta do pouco que sabemos desta nossa jangada de pedra, pese embora a sábia ajuda do peculiar marinheiro que nos acolheu.

Ao José Paulo, à Regina, ao José Martins, à Fernanda, ao Domingos e ao João, muito obrigado por me relembrarem que vale sempre a pena.

A fotografia como ferramenta pedagógica

08/04/2013

Amanhã estarei no Politécnico de Bragança no âmbito de um encontro de educação ambiental. Quando me foi proposta uma intervenção, não tive grandes dúvidas quanto ao título: precisamente o mesmo que leva este post.

As cidades embrutecem-nos os sentidos, roubam-nos a perceção do funcionamento dos sistemas naturais... como se não dependêssemos deles.

As cidades embrutecem-nos os sentidos, roubam-nos a perceção do funcionamento dos sistemas naturais… como se não dependêssemos deles (Nova Iorque).

Ao longo do meu percurso como repórter, nunca abdiquei da minha costela naturalista. Em boa verdade, e para utilizar uma linguagem quase darwiniana, o António Sá naturalista apareceu antes do António Sá fotógrafo. A fotografia foi uma evolução lógica de quem já nutria uma razoável curiosidade pelo meio natural e pela conservação da natureza, daí que, aos 11 anos de idade, o meu primeiro disparo fotográfico apenas tenha confirmado a primeira paixão e aberto definitivamente as portas para a segunda. De tal forma isto é verdade, que ainda me lembro da fotografia número 1 da minha vida: uma pequena queda de água junto à nascente do rio Caima (uma zona abrangida pelo recém-criado Geopark Arouca, retratado no número deste mês da revista National Geographic Portugal). Teria todo o gosto em partilhá-la aqui, não lhe tivesse eu perdido o rasto há muito tempo; a câmara com que a captei, no entanto, é minha companhia diária no escritório, onde ocupa um lugar de destaque entre livros e outros objetos que estimo.

já repararam bem nos detalhes morfológicos desta borboleta? Eu também não tinha dado conta até ao dia em que me dediquei a fotografar uma de perto.

já repararam bem nos detalhes morfológicos desta borboleta? Eu também não tinha dado conta até ao dia em que me dediquei a fotografar uma de perto (Douro Internacional).

Hoje, aos 44 anos, posso dizer com toda a propriedade que o gosto pela natureza me levou a fotografias memoráveis, da mesma forma que a curiosidade fotográfica ajudou a consolidar o meu conhecimento pelo mundo natural – uma simbiose perfeita, para manter a terminologia à altura do assunto. A decisão de viajar à Península do Iucatão (1992), à Islândia (1994), ao Bornéu (1995) ou à Eslovénia (1996), entre outros destinos, foi sempre alicerçada na relevância de um destes dois aspetos: porque queria mergulhar num recife de coral e, já agora, aproveitava para fazer algumas imagens subaquáticas, ou porque me interessava captar belas imagens de glaciares e, com esse pretexto, acabava por testemunhar (e interiorizar em “direto”) conceitos como alterações climáticas ou aquecimento global.

Na vastidão do oceano, um pináculo calcário ergue-se 600 metros do fundo do mar. Mergulhar neste neste sítio abriu-me os olhos para a importância e fragilidade dos recifes de coral (Sipadan).

Na vastidão do oceano, um pináculo calcário ergue-se 600 metros do fundo do mar. Megulhar neste sítio abriu-me os olhos para a importância e fragilidade dos recifes de coral (Sipadan).

Infelizmente, à medida que ia aprendendo, constatava também uma realidade inquietante; quase tão inquietante como as próprias alterações climáticas, a perda acelerada da biodiversidade ou o abate das florestas tropicais: o enorme défice de conhecimento do meio natural na generalidade das pessoas. A certa altura, apoderou-se de mim uma sensação de vazio, de impotência, como se as fotos que fazia e os textos que escrevia não tivessem o alcance que eu lhes queria dar, apenas porque não seriam entendidos na sua verdadeira dimensão. É impossível dar a entender a beleza e a importância de um carvalhal enquanto a maior parte da população continua a achar que eucaliptos são sinónimo de floresta! É absurdo enaltecer as virtudes de fotografar num dia de chuva, se a chuva não passa de uma chatice para quase toda a gente das cidades (esquecendo-se que a água do duche diário provém totalmente daí… para não falar da energia que alimenta o plasma lá de casa). Por outras palavras, vivemos numa ignorância e indiferença alarmantes.

No Bornéu (foto) percebi em tempo real que a destruição das florestas tropicais tem uma causa: a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Na Amazónia, num gigantesco carregamento de toros pude ler a tinta branca: Leixões, Portugal.

No Bornéu (foto) percebi em tempo real que a destruição das florestas tropicais tem uma causa: a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Na Amazónia, num gigantesco carregamento de toros, pude ler a tinta branca: Leixões, Portugal.

Em 2004, quando lancei a primeira edição dos passeios fotográficos, por trás da atividade com objetivos “claramente” fotográficos, havia uma genuína intenção de pôr as pessoas em contacto com o meio natural… com o território desconhecido que também lhes pertencia. Afinal, talvez pudesse aplicar aos outros aquilo que tinha sido verdade para mim: a fotografia poderia levar a um melhor conhecimento da natureza, da biodiversidade, da geografia, da meteorologia, ao mesmo tempo que premiava os participantes com imagens fantásticas que nunca lhes ocorrera. A fotografia como ferramenta pedagógica, portanto.

E foi assim que nasceu o “Outono em Montesinho”, o “Inverno em Sanábria”, a “Primavera no Douro Internacional” (as estações do ano como motor da alternância da paisagem) ou destinos como o Baixo Vouga Lagunar e El Bierzo – para ajudar a entender melhor as zonas húmidas e de montanha, respetivamente.

Os bosques caducifólios mistos acolhem uma grande biodiversidade, mas são raros no nosso país. Infelizmente, tentam impingir-nos que eucalipal é floresta (omitindo que se trata de uma monocultura de uma espécie exótica).

Os bosques caducifólios acolhem uma grande biodiversidade, mas são raros no nosso país. Infelizmente, tentam impingir-nos que eucaliptal é o mesmo que floresta (omitindo que se trata de uma monocultura de uma espécie exótica). Foto: bosque de carvalhos e bétulas, Barroso.

Em todos estes anos, e em muitas destas pessoas que me acompanharam, constatei a satisfação da aprendizagem, da obtenção da imagem perfeita, do momento feliz, da redescoberta dos sentidos, do gozo de um dia passado à chuva, até.

Não sei se isso teve o efeito que eu ambicionei desde o início, nem posso ter a pretensão da mensagem tocar todos da mesma forma mas, à custa de tanto falar em lameiro e carvalhal, em ganso-bravo e pegadas de corço, em lago glaciar e na “probabilidade de neve acima dos 1300 metros, se isto continuar assim”,… o mínimo que posso esperar é ter conseguido fazer a diferença nalgumas almas.

E se as fotos ficaram boas, tanto melhor.

Para muitas aves migratórias, é crucial o bom estado das zonas húmidas ao longo das suas rotas... ou não chegam aos seus locais de nidificação. Uma ideia bem patente na Islândia (foto).

Para muitas aves migratórias, é crucial o bom estado das zonas húmidas ao longo das suas rotas… ou não chegam aos seus locais de nidificação. Uma ideia bem patente na Islândia (foto).

When in doubt, get out! (pela enésima vez…)

24/04/2012

Embora os receios dos participantes sejam sempre muitos, a experiência tem-me demonstrado que em dias de chuva vale mesmo a pena sair.

© Maria João Horta. Eis a luz que se obtém logo após um aguaceiro!

Como gosto de relembrar, não há dias maus para fotografar; apenas fotógrafos mal preparados. Desde o primeiro passeio fotográfico que organizei, em 2004, (também ele brindado com um generoso volume de água destilada), sempre assumi que não cancelaria estas atividades em função de previsões meteorológicas consideradas adversas. Mas o facto de resistir ao cancelamento, não quer dizer que não me preocupe com estas questões, bem pelo contrário. Na semana que antecede qualquer saída, debruço-me obsessivamente sobre as tendências do estado do tempo: cruzo informação com diversos sites de referência, tenho em conta as temperaturas máximas e mínimas, o avanço de bolsas de precipitação, a presença ou a ausência de nuvens, cotas de neve (caso se aplique), e até a direção e velocidade do vento – para avaliar qual será a sensação térmica real devido ao famoso wind chill factor.

© Ricardo Sousa. Luz dourada em contraste com um céu carregado. Resulta sempre.

© Helena Marramaque. Rotação do zoom associada a uma velocidade lenta... Um velho truque que surpreende desde que o objeto ou tema seja bem escolhido.

O resultado desta obsessão silenciosa tem sido muitas e boas oportunidades fotográficas, ajudadas pela insubstituível experiência de campo, que complementa na perfeição o que aprendo nos sites meteorológicos. Este conhecimento crescente está na base da relativa segurança com que decido esperar pela luz (em função de uma previsível aberta no céu), ou quando opto por subir a montanha em 200 ou 300 metros… para que a precipitação seja de neve e não de chuva (a temperatura baixa cerca de 0,6ºC por cada 100 metros); já aconteceu alterar um programa no próprio dia, reorientando a captação fotográfica para zonas mais fechadas, pela suspeita de aguaceiros pesados; ou antecipar belas nuvens sobre uma planície com base numa consulta de última hora da informação de radar (que indicava a aproximação de uma frente vinda de oeste).

© Luís Macieira. A mesma casa da imagem de abertura, mas a P&B e com uma composição e perspetiva bem diferentes.

© Joana Nunes. Em dias de chuva, nada mais prático do que fotografar com uma compacta... nem a macrofotografia está fora de alcance.

Por vezes, os participantes olham com desconfiança para estas minhas decisões. E fazem bem, porque nada disto é infalível… tudo se baseia na avaliação pessoal, na experiência de campo e na aposta em obter certo tipo de imagens. E é este último ponto que pode fazer toda a diferença, já que nem toda a gente encara as oportunidades fotográficas com a mesma convicção, e há quem não goste de apostar com as nuvens.

© Domingos Azevedo. O rebento de um salgueiro e a zona húmida que o contextualiza. Há muitas formas de fazer imagens representativas de um sítio.

© Hugo Boleto. A preparação dos campos inundados para a sementeira do arroz é também um campo fértil para o preto e branco: o contraste da luz, a textura da lama, o grafismo do trator... voilá!

Gerir as expectativas de um grupo amplo e heterogéneo é o maior desafio destes passeios, tanto mais que neste capítulo não há previsões que me valham. Para mim, uma fotografia bem conseguida vale bem uma molha no pêlo, sobretudo quando sei que dali a pouco tomo um duche quente, mudo de roupa e saboreio um copo de vinho acompanhado de uma iguaria local. A chuva, lá fora, soará então à melhor das melodias… e já ninguém me tira os momentos mágicos de luz que captei graças a uma certa persistência.

© Paula Rocha. A inclusão de ambas as margens deste arrozal - em primeiro e em último plano - ajuda a emoldurar o perna-longa e o seu reflexo.

© Luis Mestrinho. Algumas pérolas estão reservadas aos fotógrafos que se dispõem a sair nos dias de chuva.

A última edição do passeio ao Baixo Vouga Lagunar provou, uma vez mais, a teoria do “when in doubt, get out” – que, sublinho, se aplica melhor à fotografia do que a outras coisas (se fosse só para ir comprar o jornal, se calhar não arriscava uma saída).
Perante previsões de um fim de semana muito pouco risonho, ninguém se molhou irremediavelmente nem passou muito frio. Vimos cegonhas e garças-brancas num vai-vem para os arrozais, crinas de cavalos ao fundo de túneis de amieiros, um labirinto de canais onde a chuva desenhava círculos concêntricos. Houve até oportunidade para um piquenique num prado verdejante.
Ah, como é bela a primavera!

© Alda Mendonça. Sem nuvens, esta perspetiva seria bem menos interessante. Os dias de céu limpo são muito bons para passear; mas no que toca à fotografia...

Quando não há ovos, há maçãs

31/01/2012

Quase sempre, não adianta andarmos à procura daquilo que não existe.
Porque na distração (e frustração) da busca, ignoramos tantas outras coisas que nos servem perfeitamente. E a fotografia não é exceção à regra.

Este ninho com maçãs em miniatura (tudo real) foi-me oferecido no final do passeio fotográfico a Sanábria; por uma pessoa que nem sequer ali estava na condição de participante. Foi uma brincadeira, carinhosamente arquitetada por quem não sentia qualquer tipo de pressão da busca pela foto perfeita, e assim tinha tempo de sobra para um olhar descomprometido e relaxado… para encontrar um ninho abandonado e decorá-lo com pequenas maçãs.
Esta oferta teve a virtude de me pôr a refletir, em jeito de balanço, sobre a atividade fotográfica que agora acabava.

A cores, esta imagem ficava confusa e pouco interessante. Para fotografar a P&B é preciso aprender a ver a P&B.

Os dias foram quase todos iguais, um atrás do outro, sempre soalheiros, de um céu irremediavelmente azul (e os fotógrafos compreenderão o que quero dizer com “irremediavelmente”). Não houve uma ponta de vento, um ligeiro véu de nevoeiro, um gota de chuva que fosse! Neve…, nem vê-la. Ainda que dias assim sejam muito agradáveis para caminhadas, eles representam uma dor de cabeça em termos fotográficos, principalmente quando o tema principal é paisagem e natureza; tudo parece amaciado, brando, seco, plácido, mole… boring, boring, boring! Numa atividade que leva o nome de “Inverno em Sanábria”, onde anda o inverno, afinal? Onde estão os flocos de neve que transformam a paisagem, e os aguaceiros repentinos que engrossam caudais, e o sopro frio do vento que nos refresca as ideias? Como fica, então, o gozo supremo de enfrentar dias rebeldes, de caráter bem vincado? Onde cabe, afinal, o conforto de uma chávena quente entre as mãos gélidas, todo o aroma e sabor de um chocolate quente, ou as bochechas rosadas após um copo de tinto? É que isto são tudo coisas que só sabem bem com um inverno de “i” maiúsculo, como antigamente.

Elementos simples, como rochas e reflexos, funcionam bem a preto e branco.

Mas isto, como dizia, é ansiar pelo que não temos. São lamentações fúteis, porque este inverno está mais seco e é com isto que temos de lidar, fotograficamente falando.
Partindo do princípio básico de que a dificuldade aguça o engenho, é então altura de redirecionar a veia criativa, sintonizar o olhar para coisas simples (tantas vezes ignoradas), adaptar câmara e objetivas a um outro discurso estético.
Nesta linha, surgem de imediato duas boas opções: preto e branco e macrofotografia. Se há coisa que abunda em dias de sol é o contraste – altas luzes e sombras profundas. Podemos então explorar o grafismo da paisagem, as texturas, as formas simples da natureza.

Um ribeiro parcialmente gelado, uma grande angular 12 mm e a opção pelo P&B fazem esta imagem.

Por outro lado, e mantendo o discurso da cor, a macrofotografia permite entrar no microuniverso do gelo, seja no recorte das folhas de carvalho que cobrem o solo, nos pingentes de gelo que brilham à beira-rio, ou nas placas sólidas de poças e lagunas – apenas temos que sondar zonas de sombra ou subir a montanha até aos prados de altitude.

Podemos passar horas de boa fotografia num pequeno charco gelado. O segredo está na busca visual dos detalhes.

E assim, sem lamentações fúteis pelo inverno que desejaríamos, podemos passar um bom bocado a explorar o melhor dos nossos recursos visuais e criativos.
É como encher um ninho de maçãs, à falta de ovos.

Coisas simples, para variar

06/01/2012

É impressionante verificar como nesta sociedade moderna nos desviamos tanto daquilo que é, de facto, simples ou essencial. E de como o simples e o essencial nos podem fazer, de facto, mais felizes. Para 2012 desejo-vos, pois, a capacidade de saborear as coisas simples.

Quando hoje de manhã fui levar os meus filhos à escola, num belo percurso de 6km, todo ele mergulhado em nevoeiro, gelo e -4ºC, levei também comigo um exemplar do Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry.
Os 30 minutos de espera que separam a entrada de um e outro na escola servem, quase sempre, para ler algo ao mais novo; assim, hoje pude também reler algumas passagens desta bela peça literária.
O Principezinho fala-nos de coisas simples. Coisas que os adultos, no seu mundo complexo e alheado, há muito se esqueceram que existem. Fala-nos da natureza – de plantas, de mamíferos, de répteis… de aves migratórias, até.
E são precisamente as aves que me vêm à memória, fruto de uma experiência em Castela-Leão, onde estive recentemente com 15 participantes para uma edição inaugural de um passeio fotográfico.

Nas planícies a norte de Zamora havia em dezembro mais de 15.000 gansos selvagens, recém-chegados do Norte da Europa para aqui passarem o inverno. Observá-los em tal quantidade faz-nos invariavelmente refletir sobre a espantosa odisseia das migrações e o pouco que sabemos sobre elas. A mim, faz-me também sentir pequenino, quase envergonhado, perante o milenar ciclo vital daqueles seres vivos, num planeta para eles cada vez mais difícil de enfrentar. Como é para quase todos os seres vivos não humanos. Por culpa dos tais “adultos” distraídos de que nos fala Principezinho.

Felizmente, a fotografia é uma tremenda ferramenta terapêutica. Obriga-nos a focar (até mentalmente) nas coisas essenciais: observamos detalhes, avaliamos a luz, estudamos a composição, mudamos a perspetiva (também no sentido lato). Neste processo, pensamos no que vemos e, pouco a pouco, interiorizamos a beleza das coisas simples, que podem também fazer-nos mais felizes.

Prometi a mim mesmo fazer deste post um trabalho pedagógico sobre fotografia e não quero desviar-me em considerações mais ou menos filosóficas.
Avanço então para imagens captadas por alguns participantes durante esse tal passeio a Villafáfila e Zamora, que mas enviaram para um comentário crítico – que segue imediatamente abaixo das fotos, tal como o remeti aos respetivos fotógrafos.
As opiniões são sempre subjetivas, mas espero que as observações que faço sobre as imagens do Alfredo Costa, do Aníbal Marques e do Domingos Matos sirvam um leque alargado de pessoas que gostam de fotografia – e todos os outros que, não sendo fotógrafos, gostam de refletir sobre aquilo que veem.

Bom ano!

© Alfredo Costa - ruína de pombal ao crepúsculo

O crepúsculo é uma altura excelente para pintar com luz artificial. A estas horas, já sem a luz direta do sol, mas ainda com alguma claridade no céu, obtemos um equilíbrio perfeito entre luz ambiente e luz artificial (de uma lanterna ou de uns faróis de automóvel, p. ex.). Os resultados dependem muito do próprio objeto fotografado e do tempo de exposição, que deve manter um equilíbrio ótimo entre os dois tipos de luz. Nesta imagem, ressalta a importância de um outro aspeto: o ângulo de iluminação. De facto, só percebemos bem a textura do adobe e as cavidades onde os pombos faziam ninho porque o foco de luz é praticamente paralelo à parede. Se esse foco fosse apontado no eixo da objetiva, a luz preencheria essas cavidades tornando a imagem bem menos interessante – mais “flat”, por assim dizer. Melhor do que isto, só com algumas nuvens no céu e, talvez, uns 15 minutos mais cedo (para haver uma fusão mais natural entre a luz da lanterna e a claridade do céu). Uma perspetiva mais grande-angular permitiria também perceber melhor o contexto de planura onde o pombal se insere.

© Aníbal Marques - Plaza Viriato, Zamora

As sombras longas da manhã, a textura do pavimento e a folhagem da copa das árvores a culminar o topo da imagem conferem um padrão quase palpável. A luz é suave e muito agradável… apetece estar ali sentado a ouvir o restolhar das folhas. E, qual cereja em cima do bolo, uma pessoa ao fundo num (oportuníssimo) casaco vermelho, a conferir escala ao conjunto e a colocar-nos dentro do cenário (os editores das revistas de viagens sempre me avisaram que a inclusão de pessoas nos locais fotografados ajuda o próprio leitor a sentir-se lá). Quanto à composição e à perspetiva, nada a dizer: estão perfeitas.
Podíamos aqui especular sobre a classificação desta imagem… até que ponto ela é ou não de pendurar na parede (um tipo de desafio que coloco às fotografias que faço). Eu diria que, não sendo uma obra-prima para funcionar isoladamente, é de certeza uma excelente fotografia de Zamora. Caberia em qualquer boa revista de viagens.

© Domingos Matos - pombal circular

Quando a luz é boa, é meio caminho andado para uma imagem conseguida. As bonitas nuvens no céu, o verde vibrante do cereal a despontar de um solo escuro e o volume estático do pombal conferem a esta imagem uma beleza simples mas eficaz. No que toca à composição, o facto do pombal estar ao centro vai de encontro a esta ideia de monólito estático, “aterrado” na planície – perfeito, portanto. A perspetiva ligeiramente compactada daquilo que me parece corresponder a uma teleobjetiva também acaba por beneficiar a fotografia: adensa o verde ralo das ervas, tornando-o num plano visual e cromaticamente mais pujante. A imagem funciona bem como está; se num livro quiséssemos ilustrar os pombais de Villafáfila, esta seria sempre uma boa foto. No entanto, a inclusão de uma pessoa recortada no horizonte (um dos nossos colegas fotógrafos que andaram à volta deste mesmo pombal, p. ex.) conferiria escala à paisagem e ao próprio pombal.

© Domingos Matos - ruína de pombal na planície

Esta imagem conta com uma luz muito bonita. A forma como a ruína do pombal se destaca no cenário deve-se ao contraste entre a luz que o ilumina e a sombra da colina por trás, proporcionada por uma nuvem. Esta situação é altamente favorável em fotografia a cor e, frequentemente, vale a pena esperar que o vento ajude neste caprichoso jogo (imagine-se uma outra foto com sombra também no primeiro plano, deixando o pombal iluminado entre duas sombras). Contrariamente à fotografia anterior, nesta creio que prefiro ver o pombal ligeiramente descentrado (como exemplifico no crop à direita). Penso que assim tiramos mais partido do (subtil) dinamismo da colina, a ondular para fora da imagem. Quanto à perspetiva, uma abordagem mais próxima do solo colocaria o pombal um pouco mais na interseção da colina, recortando-o de forma mais nítida contra o céu.

© Aníbal Marques - pombal e laguna

Mais uma foto com excelente luz. Mas aqui, e ainda que isto corresponda a uma abordagem composicional perfeitamente assumida, custa-me ver o poste com tanta predominância. Pela sua proximidade e tamanho relativo na imagem, quase consegue eclipsar o fundo, que é deveras mais interessante e bonito (o pombal, as aves aquáticas na laguna, as nuvens). Há muito que deixei de ser purista em relação aos postes e fios – não me choca incluí-los na paisagem, se tal não a sacrificar em demasia – mas creio que uma abordagem como a da foto da direita (um crop da original) daria mais força e sentido a tudo aquilo que havia frente à objetiva e que, afinal, é bem representativo de Villafáfila. Ainda que os crops sejam uma possibilidade (e uma tentação) nesta era da fotografia digital e de software de pós-processamento, convém não esquecer que, ao fazê-los, estamos a roubar resolução à imagem. Nada melhor do que fazer trabalhar a ótica na fase de captação, sempre que possível.

© Alfredo Costa - mercado municipal, Zamora

Esta foto do mercado é uma imagem bem conseguida, principalmente pela estrutura recortada em primeiro plano (julgo que de uma paragem de autocarros). A sua inclusão não só tapa parte do céu – aqui, de um azul homogéneo, sem particular interesse – como também ajuda a direcionar o olhar do observador para o mais relevante na imagem: o edifício do mercado. Nem todos os fotógrafos sabem disto, mas o nosso cérebro interpreta em primeiro lugar as zonas claras e focadas de uma qualquer imagem. Ao criar uma moldura escura, a estrutura em primeiro plano “afunila” o olhar para o edifício iluminado com uma bela luz de fim de tarde. Na fotografia em espaço urbano, particularmente quando se tenta captar edifícios emblemáticos, a fuga ao cliché consegue-se muito com recurso a perspetivas invulgares. Uma outra colega nossa, captou esta mesma fachada refletida numa poça de água.

A chegada dos gansos e outros voos

18/09/2011

Os passeios fotográficos que organizamos tiveram início em 2004, coincidindo com a chegada do outono. Após 40 edições, em distintas regiões de Portugal e Espanha, e ao longo das diferentes estações do ano, o outono volta a ser a época escolhida para lançar um novo destino.

No outono, chegam milhares de gansos-bravos às planícies de Villafafila. Este foi fotografado em El Bierzo.

Villafáfila é uma localidade espanhola no centro de uma vasta planície cerealífera que ocupa boa parte da província de Zamora, em Castela-Leão. Esta zona, também conhecida por Tierra del Pan, constitui o habitat de eleição para uma das maiores populações mundiais de abetarda – uma ave estepária cujo peso é recordista entre as aves voadoras.
Mas esta não é a única particularidade alada da região. Com a chegada do frio às latitudes mais setentrionais da Europa, milhares de aves iniciam um voo migratório para os seus locais de invernada a sul, entre os quais se encontra Villafáfila.

Pombais tradicionais em adobe erguem-se como pagodes na planície.

É aqui, a partir do início de Novembro, que podemos encontrar mais de 25.000 gansos-bravos, em voos matinais para os campos de cereal ou em repouso crepuscular nas diversas lagunas da planície – um espetáculo mais associado ao Canadá do que à Península Ibérica e, seguramente, desconhecido da maior parte dos portugueses.

Mas nem só de aves vive este novo passeio fotográfico. A arquitetura tradicional tem nesta província espanhola vários exemplares de relevo – de invulgares pombais em adobe a medievais igrejas românicas – que merecem um olhar atento e uma captação fotográfica cuidada. E para quebrar a extensão fria e plana desta improvável estepe ibérica, nada melhor que uma incursão nos tons quentes da cidade de Zamora, erguida em cascata na margem direita do Douro.

Em Zamora brilham dezenas de igrejas românicas.

Entretanto, e porque muitos fotógrafos ainda não tiveram oportunidade de experimentar os destinos habituais – ou simplesmente porque não há duas visitas iguais, ainda que para o mesmo destino – vamos também realizar novas edições dos passeios fotográficos outonais El Bierzo, Douro Vinhateiro e Barroso.

Ao longo destes sete anos, mais de 500 participantes tiveram oportunidade de partilhar experiências e abordagens fotográficas nos mesmos locais que eu escolhi criteriosamente como tema de reportagem. Grupos pequenos mas heterogéneos, alimentação e alojamento cuidados, todo o tipo de condições meteorológicas, são os ingredientes habituais destas pequenas grandes aventuras fotográficas.

Uma boa forma de nos sentirmos vivos.

Las Medulas, el Bierzo: um cenário de sonho para qualquer fotógrafo.

No Barroso, bruxedos, alminhas e meteorologia inclemente criam um cenário do outro mundo.

Douro vinhateiro: o almoço deste passeio é na casa que se vê ao fundo. Wine is bottled poetry!

¿Y qué tal, Sanabria?

01/02/2011

Pues, muy bien! – diria eu! Houve neve com fartura, houve quem visse corços, um javali e até quem fotografasse uma raposa a atravessar uma laguna gelada, logo pela manhã.

A raposa, captada pelo olhar atento de Hugo Ferreira.

Viver a sazonalidade dos ecossistemas ibéricos através da fotografia foi o objectivo que, desde sempre, orientou os passeios que organizamos desde 2004. Não espantará, portanto, os nomes que levam estas actividades: Outono em Montesinho, Outono No Barroso, Inverno em Sanábria, Primavera no Douro Internacional, Primavera no Baixo Vouga Lagunar… e outras, que não tendo a estação do ano acoplada à respectiva região, se adaptam como uma luva a diferentes épocas (como é o caso de El Bierzo, realizado tanto no início do Verão, como no Outono).

Estes passeios são, afinal, o reflexo daquilo que durante tantos anos eu e a Ana fizemos aos fins-de-semana, desde que nos conhecemos, em 1989.
Daí para cá, e estendendo os horizontes com a mesma curiosidade e entusiasmo a vários pontos do globo, fomos publicando o conhecimento acumulado em diversas revistas da imprensa nacional e estrangeira – particularmente a espanhola – realçando, a cada reportagem (tanto quanto possível), os aspectos naturais dos destinos para onde viajávamos. Foi assim com o Bornéu, Islândia, Irlanda, Marrocos, Mongólia, China, Estados Unidos, Namíbia, Alasca, Brasil, Cabo Verde, Eslovénia, Finlândia… e por aí fora.
Apesar do exotismo de culturas e paisagens muito diferentes, nunca esquecemos a beleza e a biodiversidade da nossa Ibéria natal. Por isso, a certa altura, pareceu-nos mais do que óbvio partilhar com outras pessoas o “desconhecido” território onde vivemos.

A Península Ibérica representa um reduto importante para inúmeras espécies que há muito sucumbiram a uma Europa em desenvolvimento desenfreado. Poderia falar do lobo, a título de exemplo, mas temo que a lista precise de várias páginas para indicar o que já não podemos ver em boa parte do nosso continente: dos insectos aos répteis, dos peixes aos mamíferos, das aves à flora.
E é aqui que regresso a Sanábria.

Um simples passeio em caminhos nevados, ao longo de rios ainda limpos e carvalhais em repouso invernal, desperta-nos a mente para o que ainda temos de bom por aqui (Portugal ou Espanha, tanto faz, porque o nosso património natural é em tudo semelhante).
É crucial que vamos conhecendo a importância fundamental destas paisagens na manutenção da vida silvestre, para nunca deixarmos que políticos menos escrupulosos as hipotequem em nome de algo bem menos relevante.
Em Portugal temos ainda um grande défice de conhecimento sobre os aspectos naturais que nos rodeiam. Qualquer criança sabe o que é uma girafa ou um elefante, mas ignora (como muitos adultos, aliás) que nos nossos melhores bosques vivem lobos, corços, veados, javalis, texugos, ginetas… para falar apenas nalguns mamíferos.

A abordagem cautelosa... não vá o gelo partir. Foto © Mário Ferreira.

...E o resultado da minha aproximação.

Mas para aprender mais sobre a nossa natureza, abandonando temporariamente o conforto dos sofás, as luzes brilhantes da cidade e o mundo de gadgets disponíveis nos centros comerciais, precisamos de bons pretextos. A fotografia é um deles… uma espécie de porta mágica que nos puxa para fora da cama em manhãs gélidas, em busca do momento perfeito.

Da nossa parte, queremos continuar a abrir essa porta.
Neste ano tentaremos revelar novos destinos, mas é bom saber que as rotas de sempre se mostram fantásticas a cada visita… como Sanábria acaba de provar.

Um mar (gelado) de hipóteses

24/01/2011

Hoje de manhã levei os miúdos à escola. Estavam 4 graus negativos… tem sido assim nos últimos dias.

O tempo está seco, mas onde quer que haja um pouco de água, ela encontra-se no estado sólido, emprestando uma certa magia às coisas mais banais. Claro que eu gostava de um pouco de neve por estes dias, mas enquanto ela não volta a cair, percorro mentalmente algumas hipóteses criativas que esta água cristalizada já me ofereceu.

O melhor equipamento para esta tarefa é um bom par de olhos e outro de luvas, além da câmara fotográfica, claro, que pode muito bem ser uma compacta (fazem maravilhas nas macros!)

É nestes dias que a nossa atenção abandona os horizontes vastos da paisagem para se concentrar no solo, onde este universo vítreo se reconstrói a cada madrugada.

Neste tipo de fotografia, as hipóteses criativas são como os cogumelos: o mais difícil é ver a primeira… depois, ficamos horas de rabo para o ar num crescendo de entusiasmo e imagens bem conseguidas.
Foi assim num dos últimos passeios a Sanábria, quando mais de meio grupo ficou “colado” a uma grande poça gelada, quais garimpeiros em busca de uma pepita fotográfica.

E se nevar entretanto? Bom, então é só levantar os olhos do chão, esticar as pernas e reequacionar a abordagem estética.
A este propósito, para ver como se pode fazer muito com tanta simplicidade, não há como aceder ao portfolio de Lisa M. Robinson.

E assim vamos convivendo com os caprichos que a meteorologia nos reserva.

Dreaming in the rain

22/11/2010

Mais um passeio fotográfico se cumpriu este fim-de-semana. Que me lembre, o mais chuvoso de sempre.

Uma dezena de intrépidos fotógrafos acompanhou-me neste nobre desígnio de conhecer o mais agreste pedaço transmontano através da fotografia. Estava frio, estava húmido, estava escuro… estava Barroso. Mas, ao mesmo tempo, a luz brotava dos lameiros e das folhas molhadas, dos líquenes e da casca branca das bétulas, da água dos ribeiros e da chama das lareiras… e do calor das gentes.

E é precisamente graças às pessoas dali que vou onde vou, que chego onde chego. Não soubesse eu que a lenha provém do secular “esgalhar” dos carvalhos (que não mata a árvore), nem apreciava tanto o cheirinho a fumo quando ao crepúsculo entro nas aldeias. Não sentisse eu o frio que faz lá fora, nem me sabia tão bem o arroz dos grelos que alguém foi buscar à horta. Saber escutar a sabedoria local – os termos, as práticas, os caminhos – que povoam qualquer conversa informal, leva-nos muito mais longe, também enquanto fotógrafos.

Captar imagens que traduzam a essência de um local requer muito mais do que um par de olhos. A pertinência de registar um lameiro em toda a sua exuberante verdura ganha mais sentido quando sabemos que aquela paisagem só se mantém a golpes diários de enxada – faça chuva ou faça sol. Deambular pelo mosteiro de Santa Maria das Júnias assumiu outra magia quando no café da aldeia um dia me falaram do padre que se recolheu dois anos no moinho que fica ao lado. Atravessar um dos mais espantosos carvalhais que conheço seria muito diferente se nunca tivesse acompanhado um bom amigo barrosão, de cesta e navalha em punho, na busca de cogumelos para o almoço.

Quanto ao resto, vou alimentando com a minha própria sensibilidade… confesso a minha atracção por bétulas e pelo crocitar dos corvos em manhãs geladas junto ao rio; gosto de apanhar os rasgos de luz dourada logo após o desabar plúmbeo de um aguaceiro (ainda que isso signifique limpar várias vezes a objectiva). Até gosto de ver a minha respiração esvoaçar em temperaturas negativas e da água destilada a escorrer na cara.
Tudo isto me faz sentir vivo!

Não se fizeram muitas fotos? Paciência… mais uma razão para voltar lá uma e outra vez.

P.S.: Quando esta manhã a Ana voltou de levar os miúdos à escola, disse-me que os montes de Sanábria, aqui ao lado, estão debaixo de um belo manto de neve. Há por aí mais intrépidos fotógrafos para o próximo passeio?