Archive for the ‘Em viagem’ Category

España, te quiero

12/12/2013

Há um ano, por esta altura, andava eu por terras de Espanha. Era a primeira vez, desde há muito, que saía sozinha em viagem. O trabalho pedido exigia muita disponibilidade num curto espaço de tempo, pelo que as crianças ficaram com o pai, a cumprirem as rotinas escolares. Soube-me bem essa liberdade.

Com nuestros hermanos tenho uma relação semelhante à que dedicamos à família mais chegada: somos os primeiros a apontar os defeitos mas também os seus mais aguerridos defensores. Talvez por não ter companhia que me ouvisse as queixas habituais, desta vez deixei-me cativar pelo que Espanha tem de melhor.

A começar pelas estradas, onde é tão agradável conduzir: um civismo de outra Europa, os carros à direita a deixar passar quem tem pressa, prioridades cumpridas, que tornavam fácil a entrada numa cidade desconhecida, à hora de ponta.

Tendo por companhia a radio 3, durante mais de mil quilómetros vi desfilar cumes nevados, vilas que mal constam do mapa recheadas de igrejas sumptuosas, paisagens onde me apeteceu voltar para passar uma férias longas, a dedilhar caminhos com lentidão de aprendiz.

Em Burgos, rendi-me com o mesmo espanto de António Gedeão, “Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura! “ (na realidade mede 84 metros metros, da base ao mais alto dos torrões), a essa filigrana de pedra que domina a cidade. Da mesma forma que me rendi às suas tapas (inesquecível a morcilla com travo a cominhos) em cafetarias com vista para o rio, onde por 5€ fazia uma refeição gourmet.

Lembro-me da quantidade de famílias com crianças, que numa manhã de sábado visitavam o Parque Arqueológico de Atapuerca, sem que a neve que caía esfriasse o entusiasmo por aprender. Logo a seguir vi espanhóis de todas as idades a encher o Museu da Evolução Humana, numa afluência pouco vulgar por aqui.

A Segóvia vai-se como quem vai à Bairrada, só que ali os restaurantes de leitão assado estão rodeados de ruas com muitos séculos de História, e o almoço desgasta-se em passeios pelas vielas do bairro judeu ou na subida à torre mais alta do Alcázar. Fugi das multidões (era domingo) num restaurante vegetariano, com muy buena pinta. Mas não deixei de ir onde todos vão ao fim da tarde: o aqueduto romano. Deixei-me ficar por ali durante muito tempo, a fotografar os que se fotografavam com o monumento milenar ao fundo, a captar também aquela exuberância latina a que nós, os melancólicos da península, somos tão alheios.

Em contraste, a Ávila dos palácios e das igrejas românicas, com o seu recolhimento místico encerrado nas muralhas, pareceu-me uma cidade triste, mais dada ao recolhimento do que à alegria.

Valeu-me Salamanca, que a princípio me assustou. Como iria conseguir traduzir para palavras todo aquele excesso? A Plaza Mayor e as Escuelas Menores, catedrais siamesas, palácios, conventos, ruas inundadas por uma maré de estudantes que dão vida a uma movida imparável… e eu a jantar sozinha, com horários desacertados, a sair quando chegavam os outros clientes.

Guardo ainda gestos, frases que me fizeram sorrir, imagens insólitas e, mais uma vez, as estradas com aldeias nas margens. Se um dia fizer um road movie será em Espanha. O que não me faltam são argumentos.

Se tiverem paciência e vontade, podem ler aqui mais sobre minha contraditória paixão pelo país vizinho – com banda sonora incluída.

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Dar-lhes mundo

26/07/2013

Se refletir um pouco, depressa chegarei à conclusão que muito daquilo que sei – e até muito daquilo que sou – se deve às viagens. Viagens de mente aberta, sem preconceitos sobre povos e lugares. Viagens a sítios frios e a sítios quentes; simples ou sofisticados; naturais ou urbanos; próximos ou distantes.
Pois bem, vai sendo tempo de partilhar.

Gansos

Viajar com crianças é um compromisso, já se sabe. Mas sempre que pude, nunca deixei de levar os meus filhos a conhecer outros sítios, mesmo quando havia reportagens a fazer – com as intermináveis esperas pela luz ideal para captar uma só imagem, ou enfrentando enfadonhos diálogos com estranhos, apenas para dar mais sumo a um qualquer texto que virá a ser escrito; isto, claro, na perspetiva deles.
É muito difícil dar a entender aos miúdos conceitos vagos como a beleza da paisagem ou o conhecimento que se adquire numa simples conversa de rua; é como ver as notícias… “não serve para nada!” (bem, aqui talvez tenham razão).

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A explicação para isto é muito simples: o mundo deles é diferente do nosso. As coisas são vistas por um prisma completamente distinto, que produz um espetro de maior riqueza cromática – para lá do comprimento de onda percetível pelos adultos. E é a mesma coisa para todos os outros sentidos, incluindo o paladar.
Um dia, um amigo resolveu levar o filho pelas montanhas de Marrocos, uma região que adorava e que fazia questão de mostrar ao pequeno. A viagem foi estudada ao detalhe para o miúdo, até mesmo o aluguer duma mula, que certamente traria outra animação ao percurso. Regressados a casa, numa conversa em jeito de balanço, os avós perguntaram o que ele mais tinha gostado nessa viagem, afinal tão exótica e bela… fez-se silêncio… o pequeno refletiu… e disse: “o gelado que comi na esplanada!”. Um gelado! Um simples gelado numa qualquer esplanada de Marraquexe – ora aqui está a magia das viagens.

Que paisagem! - algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças... agora se for para subir ao cone de dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Que paisagem! – algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças… agora se for para subir ao cone dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Com mais de 10 anos cada um, os meus filhos já têm naturalmente outra perceção das coisas, mas isso não quer dizer que as viagens sejam mais simples para nós… são antes diferentemente complexas.
Este ano fomos à Islândia, um destino que me apaixona verdadeiramente, onde já havia estado três vezes. Como fotógrafo, quero sempre fazer mais, melhor e, sobretudo, diferente. Mas a experiência ensinou-me a ser moderado nas ambições quando se viaja com crianças, por isso muni-me de uma simples câmara compacta, na esperança de produzir algo parecido com fotografia profissional ao mesmo tempo que vivia a viagem ao ritmo deles.
O compromisso, nem sempre pacífico para uma das partes, acabou por me mostrar, uma vez mais, que o simples facto de viajar sem câmaras reflex, várias objetivas, tripé, etc., induz uma abordagem diferente aos temas que queremos fotografar (ao mesmo tempo que nos livra de dores nas costas).

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Para além da austeridade no equipamento fotográfico, tivemos também de ser comedidos nas despesas de alojamento e alimentação, porque isto de viajar a quatro é… bem… é fazer as contas. Por isso levámos tendas, sacos-cama e demais equipamento para cozinhar de forma prática e muito leve. Aqui a lição foi para eles, aprendendo a partilhar a montagem e desmontagem das tendas, a ser mais autónomos e responsáveis nas tarefas de higiene pessoal em locais de utilização pública, a ver que, afinal, há muita gente a viajar desta forma – de todas as idades e estratos sociais (neste caso, com mentalidades bem diferentes da portuguesa). Serviu também para mostrar que podemos ver sítios incríveis se estivermos dispostos a abdicar de algumas mordomias – e que às vezes essa é mesmo a única forma de os ver.

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

À medida que o tempo ia passando, estabelecia-se um equilíbrio feito de compromissos, cedências de parte a parte, algumas chatices passageiras, mas sempre com a garantia disso resultar num maior respeito e conhecimento mútuos. Pelo caminho, divertíamo-nos. Não foi preciso consolas de jogos, nem filmes, nem internet (tive de comprar uma bola de futebol e ir enchê-la à piscina municipal de Vík, no entanto).

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos...

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos…

Os dias sem fim, os glaciares, as focas, os parques infantis, os passeios a cavalo, a partilha com miúdos islandeses – do skate de Reiquejavique ao “parkour” em rolos de feno nas quintas isoladas -, uma sopa e pão caseiros num sítio tão improvável quanto acolhedor, as fotografias pacientes e demoradas… um aromático café numa manhã luminosa. Afinal não é assim tão difícil conciliar interesses.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Sempre defendi que não vale a pena lamentar-me daquilo que não posso fazer por ter crianças comigo; tenho antes de saber aproveitar as excelentes oportunidades que eles me dão para fazer coisas realmente diferentes. De ver a vida por esse outro prisma que trazem sempre com eles, ao mesmo tempo que lhes empresto o meu, para que aprendam e cresçam um pouco mais.

Há uns anos, um amigo disse-me em jeito de conselho para a educação dos filhos: “dá-lhes mundo… dá-lhes mundo!”. Não podia estar mais certo.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

A Propósito de Ursos

06/03/2013

Às vezes, quando vou dar uma volta no carvalhal em frente a casa, tenho a sorte de observar corços, raposas… ou javalis. Notícias recentes dão agora conta de um avistamento de dois ursos-pardos a tão-só 70 Km a nordeste do local onde vivo.

Um urso negro que fotografei no Alasca... escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações...

Um urso-negro que fotografei no Alasca… escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações…

Ao que parece, os ursos que vivem aqui no norte de Espanha estão em ligeira expansão (são tão poucos que não dá para grandes entusiasmos). Mas o facto de estarem em dispersão, procurando novos territórios, não quer dizer que apareçam tão cedo nas nossas terras. E mesmo que apareçam, prefiro não me cruzar com um deles nos meus passeios matinais.

Por duas ocasiões, já tive a felicidade de ver e fotografar ursos no espaço selvagem. Mas há uma diferença grande entre ver e fotografar, como contei numa crónica que escrevi em tempos para a revista FotoDigital, e que agora recupero… para quem não leu na altura.

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O crepúsculo já se tinha instalado quando captei a última imagem do dólmen de Poulnabrone, em pleno Burren irlandês. De regresso ao automóvel, acendi os faróis e retomei a condução pela mesma estrada, com o desenho irremediavelmente estreito e sinuoso comum a muitas vias desta parte do país. Tinha ainda percorrido poucos metros quando vi um coelho saltitar à frente do feixe de luz, mesmo no centro do asfalto; reduzi a velocidade e lá fui entretido no encalço curioso da pobre criatura – que se chateou ao fim de pouco tempo e desapareceu na vegetação. Surpreendentemente, ainda mal tirara os olhos da berma, tinha já uma marta à frente do carro, que se assustou com o encontro e meteu por um caminho lateral. Aproveitando a quietude do trânsito, virei o volante e fui atrás. Quando os faróis iluminaram finalmente a escuridão, deparo com outro bicho no meio do caminho, que nada tinha a ver com a marta, entretanto “evaporada”. Era um texugo, de olhos vidrados e ar aterrado, tão incrédulo quanto eu naquilo que se estava a passar.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

Tudo isto aconteceu em pouco menos de dois minutos, e a não ser que se tenha tratado de um estranho fenómeno de metamorfose, vi, na realidade, três animais silvestres num curtíssimo espaço de tempo. Provas? Não tenho. Como também não tenho de inúmeras outras observações fantásticas, ocorridas enquanto realizava reportagens: um lobo correndo sobre o manto de neve a poucos metros do automóvel onde seguia; mãe e cria de veado despertados pelos meus passos, madrugada após madrugada, enquanto acedo a um abrigo; crias de javali que cruzam o regato três metros ao lado do local onde me encontro sentado; um urso que entra na clareira ao cair da noite, afugentando o gato-bravo que já lá se encontrava… Fotos? Nicles!; népia!; rien! E a lista podia continuar…

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. 3 horas à espera, uma 300 f2.8 e um converso rmas era quase noite e a película de apenas 100 ISO!

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. Três horas à espera, quieto e em silêncio para isto! Uma 300mm f2.8 e um conversor não chegaram para superar o início da noite e a película de apenas 100 ISO!

Bem sei que isto soa àquelas histórias mirabolantes que os pescadores gostam de contar – “tinha ali mesmo um robalo de 200 quilos e a linha partiu-se-me…” – mas conto-as porque, ao fim de 3 anos e meio de blog, o mínimo que posso esperar é que acreditem no que escrevo. E, já agora, que nenhum dos leitores seja pescador.

Na verdade, a fotografia da natureza conta com um enorme desfasamento entre aquilo que se vê e aquilo que se consegue fotografar, principalmente num país como o nosso, onde a fauna é tremendamente esquiva… e aquela que não é, acaba sistematicamente por ver a sua vida encurtada pelos caçadores do costume. Em todas as situações que mencionei trazia comigo uma máquina fotográfica e, em boa parte dos casos, nem sequer ousei apontá-la ao animal em causa; umas vezes porque tudo se passou muito rapidamente, outras porque fiquei simplesmente deslumbrado com a observação e nada consegui fazer. E nas raras vezes que estes encontros fortuitos tiveram resposta da minha parte, as fotos ou foram para o lixo ou passaram ao arquivo por razões sentimentais – tremidas, desfocadas, sub-expostas. Desilusão? Nem por isso. A vida encarrega-se de nos demonstrar que a boa fotografia de vida selvagem raramente resulta do acaso, por isso mais vale gozar o momento com um bom par de olhos panorâmicos do que deixá-lo fugir através de um ridículo visor, acoplado a um tubo de não sei quantos quilos. É bom na mesma e só nos vai aguçar o apetite para voltar àquele local uma e outra vez, possivelmente melhor preparados.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Por outro lado, mesmo quando planeamos as fotos com todo o cuidado – abrigos, engodos, células de infra-vermelhos e toda a tralha que se conhece aos fotógrafos da natureza mais empenhados – nem sempre as coisas resultam. Como daquela vez que permaneci dentro de um abrigo à espera de veados, das seis às oito da manhã, com neve por todos os lados e uma temperatura de -2ºC, sem que visse uma orelha que fosse dos bichos. Ou quando me meti entre os caniços de uma lagoa, de fato de mergulho e com água até ao peito, apenas para descobrir que os mergulhões nadavam serenamente a dois palmos da objetiva (e demasiado perto para focar) de tão bom que era o disfarce.

Pois é, às vezes sentimos que a natureza faz troça de nós. Mesmo assim não me arrependo nem me martirizo com as “ocasiões perdidas”, e continuo a recomendar que saiam para o campo tanto quanto puderem. É que em casa só nos saem moscas e formigas.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post... subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post… subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

Marraquexe

03/05/2011

Quando, há poucas semanas, passeava em plena praça Djemaa el Fna, na companhia da minha família, estava muito longe de imaginar que esta seria palco de um brutal atentado.

Regressei a Marrocos precisamente para mostrar aos meus filhos que o mundo é feito de diversidade; que os nossos vizinhos não são todos iguais – no vestuário, na língua, nas tradições, na arquitectura, nas crenças – mas que apesar disso, e no essencial, partilhamos as mesmas necessidades, as mesmas paixões, as mesmas alegrias e as mesmas tristezas… Quis mostrar-lhes como é fácil sentirmo-nos em casa em qualquer parte do planeta; quis ensinar-lhes que é nesta universalidade que reside a magia da espécie humana.

Ter curiosidade pelo próximo, procurar entender o seu ponto de vista sem nunca tentar impor o nosso, fazer esbater a condição social, religião ou raça e saber ignorar nacionalidades, fronteiras, hegemonias e patriotismos bacocos, sempre foram princípios que me ajudaram a crescer como viajante, como pessoa e, também, como fotógrafo.

Como muitos visitantes estrangeiros de Marraquexe, também eu passei várias vezes pelo Café Argana. Agora que explodiu, levando com ele a vida de uma quinzena de inocentes, importa travar as ondas de choque, para que estas não desencadeiem mais um terrível mal entendido. Importa lembrar que também França, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos e Portugal já viram, na sua história, atentados bombistas movidos por cidadãos dos respectivos países. E importa lembrar isso, porque deste lado do Estreito não faltarão pessoas a catalogar de radicais islâmicos todo um povo que não tem nada a ver com o que aconteceu.

O que aconteceu em Marraquexe foi um acto de loucura – como são os tiroteios fatais nas escolas americanas, finlandesas ou alemãs. E um acto de loucura ou um atentado terrorista – tanto faz – é mau em qualquer altura, em qualquer país.

Os meus filhos gostaram muito dos 5 dias que passaram em Marraquexe. Após o regresso, pude ver como apreciaram todas as diferenças e todas as semelhanças entre as duas culturas – e como isso os fez crescer na admiração que vão tendo pelo mundo.

E porque tudo isto é precioso demais para se perder no discurso baço das televisões, ilustro este post com momentos bons da nossa passagem por aquela cidade… quanto mais não seja, em homenagem àqueles que já não os podem viver.

© Mariana Sá

Quem anda à chuva…

10/01/2011

No que diz respeito à forma como se relacionam com o equipamento, conheço três tipos de fotógrafos:

Na turquia deixei cair um tripé do alto de uma queda d´água. Mesmo assim, sobreviveu para ajudar nesta imagem captada numa mesquita de Istambul.

os “museólogos”, que tratam máquinas e objectivas como peças de joalharia; os pragmáticos, que tiram partido do material e se conformam com os eventuais acidentes; e os “cruéis”, que não se importam de atirar a máquina para dentro do saco, mesmo que este se encontre a um metro de distância. Enquanto reconheço legitimidade àqueles que se enquadram na primeira categoria – porque estas coisas são caras e há que tratá-las com cuidado -, nunca vi grande utilidade em maltratar as ferramentas que ajudam a concretizar o nosso trabalho, nem acho que isso confira um estilo particularmente cool ou profissional, como alguns dos “cruéis” parecem querer transmitir com esta atitude. Também neste caso, é no meio é que está a virtude, e é a esses que dirijo os relatos abaixo: para que encarem os acidentes como algo inerente à prática fotográfica e, espero eu, para que possam prevenir futuras ocorrências com os meus próprios desaires.

Pico, Açores, 1998

Levava ao ombro uma Nikon F801s com uma objectiva 80-200, ao mesmo tempo que segurava na mão uma F4 equipada com outra lente mais “curta”. Quando me baixei para fazer uma imagem, o longo zoom da F801 bateu no chão, partindo o pára-sol, bem como um dos contactos electrónicos que transmite as aberturas à máquina. A partir desse momento, e durante o resto da viagem, deixei de poder utilizar a 80-200 com a F801, mas pude fazê-lo sem problemas com a F4. Moral da história: se viaja com duas máquinas, há vantagens em que os modelos sejam diferentes; tanto quanto possível, utilize as correias de forma curta (quer ao pescoço, quer ao ombro); como norma, utilize pára-sol em todas objectivas: para além da sua função mais óbvia, também protegem os elementos ópticos frontais de qualquer embate.

Deserto do Gobi, Mongólia, 1999

Um passeio de fim de tarde no topo das dunas de Khongoryn Els revelou-se um pesadelo quando, de súbito, se levantou uma violenta tempestade de areia. Nessa altura tinha duas máquinas a descoberto, cada uma com a sua objectiva (uma 80-200mm e uma 20-35mm). Como não queria abrir a mochila para guardar o equipamento (porque tinha lá outras lentes e acessórios), optei por abrigá-lo debaixo da t-shirt, enquanto descia até à tenda da família mongol onde estava a pernoitar. Lá dentro, pude então confirmar o estado das máquinas e objectivas. A areia fina tinha-se infiltrado nos respectivos anéis de focagem, bloqueando-os quase por completo; e mesmo após longas horas de cuidadosa limpeza, não consegui recuperar o seu funcionamento manual. Felizmente, ambas as lentes tinham focagem interna e lá pude continuar a fotografar nos restantes 4 meses que ainda tinha pela frente. Moral da história: as objectivas com focagem interna (IF) são mais caras, mas compensam (para além de serem mais práticas quando se usa um filtro polarizador ou dégradé); quando fotografar em desertos onde ocorrem tempestades de areia, utilize apenas uma máquina de cada vez; nestas circunstâncias, recorra apenas a mochilas ou sacos com fecho.

Zhaoxing, China, 1999 / Kayakoy, Turquia, 2000

Desta vez, acidentes com um tripé; em ambos os casos por rebentamento da correia de transporte – um improviso por não ter conseguido arranjar em Portugal uma solução da própria marca (nem saco, nem correia). Na China, caiu-me de um camião em andamento, enquanto na Turquia foi do alto de uma queda d’água. Numa e noutra situação, o tripé (um Gitzo Mountaineer) pouco sofreu, o que prova que é verdade aquilo que dizem da resistência do material com que é feito. Moral da história: os tripés de fibra de carbono não só são 30% mais leves, como também são muito mais resistentes do que a sua variante em alumínio (embora também sejam 30% mais caros); não tente improvisar correias para este equipamento; se não conseguir da própria marca, compre, pelo menos, um saco com alças.

Sotillo de Sanábria, Espanha, 2001

Estava a fotografar um manada de vacas sanabresas junto a um carvalhal quando vi dois lenhadores atravessar o campo em direcção ao bosque. Corri então para o carro para recolher a mochila onde tinha uma 80-200mm; abri a porta e puxei com rapidez pela pega da parte superior… só que a mochila estava com os fechos abertos. Lembro-me de ver (em pânico, claro) o zoom descrever um voo para logo se estatelar no asfalto, a cerca de dois metros de distância. O caroço da minha garganta depressa de tornou numa maçã inteira… numa meloa… numa abóbora. Contudo, para meu espanto, a lente continuava a funcionar, muito embora com o êmbolo do zoom ligeiramente empenado. Após uma intervenção pouco dispendiosa, hoje mantém-se em perfeitas condições. Moral da história: o material mais pesado é, em regra, mais resistente (porque é feito com metal e não com polímeros); se quer mesmo deixar a mochila aberta, não finja que a deixa fechada: abra-lhe a “tampa” para trás.

Para que servem as fotografias, afinal?

20/12/2010

Antes de mais, gostaria de vos cumprimentar com a mensagem abaixo.

Agora que o fiz, falemos um pouco da razão e do alcance das imagens que vamos captando ao longo da vida.
A revolução digital trouxe, no meu entender, um problema grave à fotografia: o incremento indisciplinado no número de disparos que fazemos. Aquilo que há uns anos era resultado de análise, técnica e observação, passou (para muitos) a ser um acto gratuito, um facilitismo redutor, que em nada beneficia a qualidade final. Hoje, enchemos gigas de cartões com o mesmo critério de quem vai ao supermercado perante um cenário de guerra iminente. Já não temos de pagar rolos nem revelações, nem sequer estamos limitados ao fatídico número 36, é certo, mas… pensemos um pouco: para quê tantas imagens, se nem nos dignamos a dar-lhes sentido com uma qualquer utilização?
Era aqui que eu queria chegar.

O rol de imagens deste post mostra alguns dos últimos cartões de Boas Festas que concebi para enviar por correio electrónico e convencional. Para tal, escolhi imagens de Sanábria (o postal deste ano), do Alasca, do Barroso, da Noruega. Ao ter de seleccionar uma imagem para enviar aos familiares e amigos, não só revisitei o respectivo ano fotográfico (com memórias de excelentes passeios e viagens), como também me obriguei a uma análise criteriosa daquilo que consegui fazer. E isto, caros leitores, é para mim o melhor motor da técnica e da criatividade.

Em boa verdade, sempre fiz questão de reafirmar o papel crucial que a escolha de imagens tem na nossa evolução enquanto fotógrafos. Quando somos confrontados com os disparates que fazemos, vamos certamente tentar evitá-los na próxima saída. De igual forma, só analisando o nosso trabalho podemos concluir que as fotos captadas com a câmara mais cara são, afinal, as piores (isto é uma hipótese, mas acontece!).
Mas nem tudo tem de ser assim tão trágico. Às vezes, lá pelo meio, descobrimos uma sequência de fotografias que nos mostram um novo discurso estético; algo que até aí desconhecíamos em nós próprios e que pode apontar um novo caminho.

Por isso, aqui fica o meu repto para o novo ano que aí vem: vamos lá procurar uma bela imagem para desejar um bom 2011. E para que a coisa não fique apenas pelo mundo virtual (que é outro senão da era digital), toca a imprimir o resultado numa impressora de qualidade fotográfica. Vai ver que não há nada que chegue ao objecto físico! Uma fotografia a sério, caramba!

E a seguir, o que fazemos? Bem, agora que conseguiu o postal, poderá passar ao poster para afixar no seu local preferido (não tem de comprar a impressora, pode mandar imprimir o ficheiro); ou então elabore um calendário com as imagens que captou nas diferentes estações do ano. Se gostar do resultado, então mais cedo ou mais tarde vai querer fazer uma exposição. E depois outra… e mais outra.

Uma das hipóteses para este ano - um rebento que emerge do gelo - foi preterida em relação à dos cavalos na neve. Ambas foram captadas em Sanábria.

De repente, quando olhar para trás, verá o quão distante está das primeiras imagens. Porquê? Porque de cada vez que se obrigava a fazer uma selecção – para o postal, para o calendário, para o poster, para a exposição – colocava todo o seu trabalho em perspectiva. E apesar das angústias, foi isso que o fez evoluir.

E, sobretudo, sempre que voltamos a olhar para a imagem que um dia colámos na parede, regressa aquela boa sensação que nos faz querer pegar na máquina uma e outra vez.

Bom ano!

Crianças na bagagem

03/05/2010

Quando anunciámos à família e amigos que iríamos viajar para Cabo Verde recebemos reacções entusiásticas… durante os primeiros minutos.

No deserto de Viana, ilha da Boa Vista, após o trabalho fotográfico seguiram-se momentos de descontração.

À medida que desvendávamos as intenções – duas ilhas, três semanas, oito voos -, o sorriso dos nossos interlocutores desaparecia para dar lugar a uma pergunta, cuja resposta já adivinhavam: “Mas… os miúdos… também vão?”.
O nosso inequívoco “Claro!!”, foi recebido com cepticismo. Fomos apelidados de loucos, de corajosos, de ingénuos. Era loucura pensar que iríamos poder trabalhar com duas crianças por perto, ingenuidade considerar que algum de nós se iria divertir em tais circunstâncias, um acto de coragem investir tempo e dinheiro no que só poderia resultar num desastre anunciado.
Essa não era uma viagem inaugural com os nossos filhos. O mais novo tinha um mês quando fizemos as primeiras férias juntos; e a mais velha, acompanhou-nos desde o nascimento nas mais diversas reportagens. Ambos tinham cumprido o primeiro aniversário no estrangeiro, feito o baptismo de voo, de barco, de comboio. Estavam habituados a viajar. E nós com eles.

Uma paragem para um sumo faz esquecer o arranhão no joelho.

No entanto, a viagem para Cabo Verde tinha o sabor de uma experiência iniciática. Seria a primeira vez que iríamos fazer a quatro aquilo que tantas vezes fizemos a dois: sair de mochila às costas, com reservas apenas para os voos e as primeiras noites, deixando que o acaso e a intuição nos guiassem na maior parte do tempo. Só que agora a bagagem também incluía fraldas, brinquedos, mochila porta-bebés, carrinho de rua – material indispensável para os nossos companheiros de aventura: um que haveria de apagar duas velinhas na ilha do Fogo e a irmã com o dobro da idade.
Partimos optimistas, regressámos com vontade de repetir. Pelo meio tivemos momentos em que fomos vencidos pelo calor e cansaço, um atraso que nos prendeu 9 horas no aeroporto do Sal, planos por cumprir. Tudo isso já se desvaneceu, tal como o bronzeado que trazíamos na pele. Na película e na memória de todos nós conservam-se os sorrisos dos amigos que lá deixámos, corridas em praias desertas, o sabor da papaia ao pequeno-almoço, o céu nocturno visto da cratera do Fogo, muitas brincadeiras aprendidas ali.

Os mergulhos nas águas transparentes servem tanto ao trabalho do pai como ao deleite do filho

Cinco anos passaram desde então. As crianças cresceram e a bagagem aligeirou-se. Cada anúncio de uma nova saída é recebido com entusiasmo redobrado. Na agenda que recebeu no início do ano a nossa filha anotou os sítios para onde gostava de viajar: Açores, Islândia, Galiza… Ainda nada foi decidido, a única certeza é de que continuaremos a viajar. Com os miúdos, claro!

Viagem à roda de um prato

19/04/2010

Em viagem, quando nos encontramos com outros estrangeiros, há sempre um assunto que acaba por vir à baila: comida. Por muito boa que seja a gastronomia do lugar onde estamos, todos sentem saudades de um prato em particular da sua terra de origem. No meu caso, depois de cinco meses a viajar pela Ásia, tentando iludir os estufados matinais com a fruta que encontrava, aquilo de que mais sentia falta era de um banal pequeno-almoço de café com leite acompanhado por uma torrada. E na manhã de regresso, a primeira coisa que fiz foi correr para a padaria habitual para me deleitar com um simples galão e pão com manteiga.

Na Mongólia há sempre chá e pão para oferecer a quem chega.

No entanto, considero que a culinária é uma parte importante da experiência de viajar. Provar as frutas locais, ensaiar combinações que nos são estranhas, olhar para uma ementa num língua desconhecida e fazer pim-pam-pum para ver o que nos aparece no prato, faz parte da aventura. Claro que o resultado pode ser surpreendentemente delicioso ou abominável, como a pasta de durian, um fruto que os malaios adoram, mas que só a muito custo consegui engolir, sob o olhar divertido de uma vendedora de Kuala Lumpur. Há também aqueles sabores que primeiro se estranham e depois se entranham: a primeira vez que provei chá salgado em Ulan Bator nunca diria que ficaria a gostar dessa mistura bizarra, e até ansiar por bebê-lo no conforto de uma tenda mongol.
Há dias, a vasculhar num caderno de viagens, descobri uma lista de coisas boas que provámos na China – e foram tantas. Desde um jantar gourmet num restaurante de vanguarda em Xangai a simples legumes salteados com arroz em mercados ao ar livre, sempre comemos muito bem. Como os chineses preparam a comida no momento em que é pedida, esta nunca é requentada. Às vezes é até fresca de mais… Num desses mercados, instalado ao lado de um riacho, vimos sapos gordos a serem apanhados imediatamente antes de passarem para a grelha. Nesse almoço contentámo-nos com batatas fritas, envolvidas numa mistura de amendoim ralado e piripiri… Noutras ocasiões, quando nos encontrávamos em regiões remotas onde ninguém falava inglês, conduziam-nos até à cozinha onde podíamos escolher os ingredientes que queríamos, apontando com o dedo. Passados alguns minutos tínhamos na mesa uma bela combinação de arroz e legumes.

Piripiri a secar na aldeia de Jitang, província de Guizhou, China

Houve também situações embaraçosas, alimentos que por diplomacia eram difícil de recusar. Como a bebida intragável que todas as manhãs nos serviam em casa da família Wang: chá em barra, da pior qualidade, misturado com manteiga rançosa, mas preparado com toda a atenção e cuidado à maneira tibetana. A custo, tentava disfarçar o sabor com dentadas nas batatas assadas nas brasas da lareira, bebendo devagar para que não me voltassem a encher o copo.
Na Mongólia, deparámo-nos uma vez com um festival Naadam, a decorrer numa planície rodeada de picos nevados. Na qualidade de forasteiros fomos convidados para nos juntarmos ao almoço dos notáveis. A refeição consistia em pedaços de carne de cabrito colocados numa lata de metal, intercalados com pedras quentes. A lata era enterrada, e a carne cozinhada assim retinha todo o seu sabor. O resultado era verdadeiramente delicioso. Já tínhamos um bocado de carne na mão, quando vimos sair um pedaço de gordura que nos foi oferecido com gestos cerimoniosos. Foi-nos dito então que aquela era a melhor parte, reservada a convidados especiais. Com o melhor sorriso, expliquei que ainda tinha comida na mão e estava já satisfeita. E lá roí o osso devagar, conseguindo esquivar-me a tão tentadora oferta.
Poderia ainda falar do leite de camela fermentado e transformado numa bebida ligeiramente alcoólica, no queijo duro como pedra e tantas outras situações que dariam assunto para vários posts.
Mas garanto que mil vezes trocaria o conforto de um bom pequeno-almoço para estar em qualquer sítio do mundo, a viver uma viagem em pleno. Se isso implicar mais uma chávena de chá, que venha então. Com ou sem sal.

Livres como o vento

12/04/2010

Munido de excertos de diários de bordo, cartas e notas soltas, compilados num livro que encontrei na biblioteca de um amigo, na ilha do Faial, segui as pisadas de inúmeros navegadores que fundearam no porto da Horta entre 1817 e 1984. Apesar de decorridos quase dois séculos desde os primeiros relatos, estava determinado a captar imagens que os pudessem ilustrar.

Joshua Slocum, 1895 (primeiro velejador a dar a volta ao mundo em solitário): cedo na manhã de 20 de Julho avistei o Pico aparecendo por cima das nuvens por estibordo da proa. Terras mais baixas apareciam ao longe à medida que o Sol dissipava o nevoeiro matinal e ilha após ilha surgiam. Apenas aqueles que viram os Açores do convés de um barco compreendem a beleza da paisagem do meio do Oceano.

Num final de tarde encontrei um velho lobo do mar sentado no cais da marina. Rudolf Krautschneider tinha mais anos de oceano do que de terra firme… e era checo, vinha de um país sem mar. Esta era apenas uma história que acabara de nascer de outras. O que me levou a aproximar de Rudolf foi a sua fisionomia, que cabia perfeitamente numa descrição de 1981 sobre um outro marinheiro mítico – o velejador solitário Marcel Bardiaux. Se Rudolf consentisse, eu podia ilustrar esse relato com a sua própria imagem e assim continuar a minha odisseia visual.

Cintu e Nena Viladomiu, 1981 (velejadores espanhóis): centos de milhares de milhas debaixo dos seus pés, todos os ventos do Globo no seu rosto. Saúda a bombordo e estibordo sem conhecer todos, mas sabe que é conhecido por todos. Aproxima-se do Peter e recolhe o seu correio e vai-se embora com a sua capa caindo dos ombros…

Pouco depois de lhe fazer o retrato, eu, a Ana e a nossa filha estávamos já no interior do seu veleiro a tomar o café mais intragável das nossas vidas (excepto a pequena Mariana, que obviamente escapou). No caos confinado da embarcação entrámos numa conversa animada com este homem, que nos levou a viajar por todos os oceanos e portos, tempestades e bonanças que constituíam a sua vida até àquele dia.

Julia Middelmann, 1984 (construiu o próprio iate e navegou sozinha desde a Austrália até à Europa): aliviada por saber que a caça à baleia já não era praticada nas ilhas, pude apreciar, de consciência mais tranquila, à continuação da arte do scrimshaw, tradicional entre os marinheiros. E, mesmo, tentá-la sob a orientação de um dos actuais artistas. Othon da Silveira é, como o Peter Azevedo no famoso Café Sport, um verdadeiro amigo dos iatistas de passagem.

E sobre Rudy ficámos a saber realmente coisas espantosas: acabara de chegar da Gronelândia e Labrador e seguiria agora para as Canárias, Mauritânia ou Casablanca, ainda não sabia; escreveu 7 livros – o último dos quais intitulado Around the World in a Feather of a Penguin – e realizou vários filmes sobre as suas andanças pelo mar; construiu com as suas próprias mãos um veleiro que é uma réplica da embarcação “Victoria”, de Fernão de Magalhães.
Findo o meu trabalho, tinha nas mãos cerca de dez imagens para ilustrar outros tantos relatos. Mas podia continuar por aí fora… sem nunca me cansar. Como disse um dia o fotógrafo Chris Noble: There’s no dividing line between adventure and photography.

Reese Palley, 1976 (velejador e autor do primeiro artigo sobre a superstição criada à volta das pinturas): há oito ou dez anos os iatistas de passagem sentiram um estranho impulso para escreverem o seu nome aí e, assim, deixarem um traço de imortalidade atrás de si. Assim o primeiro nome, perdido no passar dos anos, foi pintado na muralha. À medida que os meses passavam outros marinheiros foram compelidos a pintarem os seus nomes. Um homem mais empreendedor do que os outros desenhou um retrato rústico do seu barco perto do nome na muralha. Depois disto o florescimento surgiu rápido e furioso.

Em que mar navegas agora, capitão?

22/03/2010

Por aqui habituámo-nos a viver com tanto, que nos damos ao luxo de queixar por nada. Talvez este texto vos faça sentir uns afortunados. Escrevi-o em 2007. A experiência foi em 2005.

Pouco depois desta foto encontrei um náufrago da vida.

A noite acabara de se instalar nas vielas decadentes do “casco antiguo” quando um vulto se abeirou de mim. Era um homem de trinta e muitos anos, com ar esgotado e olhos esbugalhados, não de susto ou admiração, mas da magreza que lhe fazia sobressair todos os ossos da cabeça – do topo do crânio ao maxilar inferior. Mal o vi, sabia que estavas prestes a ser confrontado com algo, mas não sabia exactamente o quê, e a sensação não era muito confortável.
A zona velha da cidade do Panamá é conhecida pelo crime e violência praticada por gangs que disputam droga, armas, ou qualquer outra coisa que entendam valer a pena. Com o cair da noite e o patrulhamento militar das ruas a diminuir abruptamente (logo após a partida do derradeiro autocarro de turistas) a segurança simplesmente desaparece, e os panameños que aqui vivem ficam entregues à sua própria sorte, até que o amanhecer os venha resgatar. Durante o dia, entre avisos de militares armados e olhares sinistros que me arpoavam de todas as esquinas, já tinha sentido “na pele” o risco iminente de fotografar nestes bairros. Agora que a noite estava aí, o meu ar visivelmente forasteiro e a parca iluminação não me davam nenhuma garantia no percurso dali para fora, quanto mais para fazer registos fotográficos.

No meu caderno, fiz esquemas para evitar as zonas mais perigosas. Te matan y te quitán las cameras, avisou-me um polícia.

E foi neste contexto que aquele homem me abordou, numa voz grave e profunda: good evening, ao que retorqui com o mesmo cumprimento. Ele continuou: bon soir, e eu respondi, igualmente, bon soir. Deste pequeno jogo saiu-lhe uma pergunta que tinha tanto de admiração como de ansiedade: Ah! Vous parlez français, monsieur? A partir deste momento, decidi ouvir pacientemente a sua longa história, escutando e falando sempre em francês. Num cenário de casas decrépitas e lixo espalhado por cães escanzelados, disse-me ser o capitão de um navio que zarpara meses antes do Haiti com destino a um porto no Pacífico; a carga fora entregue, mas a embarcação estava sem solução à vista, fundeada há já duas semanas ao largo da capital do Panamá, com vários dos seus companheiros, respectivas mulheres e doze crianças em situação desesperada. O armador desinteressou-se pelo barco e, sem carga a bordo, não havia nada a que pudessem deitar mão para trocar por comida. Para piorar a situação, as autoridades locais não lhe haviam concedido uma audiência, nem sequer a embaixada de França, para onde este homem francófono se virou depois. À medida que esta história me era desenrolada, conseguia detectar nela partes verdadeiras e outras menos credíveis. Para mim, era claro que se tratava de uma fuga planeada, mas só quem não conhecesse a situação caótica do Haiti é que não entendia a necessidade absoluta de escapar com os seus a um destino muito mais sombrio do que andar a mendigar ajuda. No entanto, uma das partes mais verosímeis deste relato dizia respeito àquela figura óssea e abatida que agora tinha diante de mim: muito provavelmente, ele era o capitão do navio. Não havia dúvida que o seu trato delicado, a forma como falava e os conhecimentos que demonstrava – até quando lhe disse que era português – sustentavam solidamente as suas afirmações e uma formação bem acima do que será a média no Haiti. Outra parte eventualmente verídica era a de que, infelizmente, havia muita gente aflita e dependente das diligências deste homem. Para ele, pelo facto de poder finalmente ser entendido em francês (numa zona onde apenas se comunica em espanhol), eu representava uma relíquia inesperada, e notei que se agarrava cada vez mais a mim como uma tábua de salvação. Mesmo assim, mantive algumas reservas e aguardei que me pedisse uma ajuda em dólares.

Jovens sem recursos ocupam os edifícios abandonados.

Para meu espanto, quase que a custo, perguntou se o podia acompanhar a uma mercearia próxima para lhe comprar uma lata de leite em pó. “As crianças não têm comido nada; ninguém me ouve, não sei mais o que fazer”. Decidi então oferecer-lhe três latas grandes de “NIDO”, não sem ele me ter interpelado várias vezes até à caixa: tem a certeza, senhor? tem a certeza?
Dias mais tarde encontrei-o na mesma zona, cruzando um parque em passo apressado. Assim que me viu, aproximou-se com um grande sorriso e os olhos marejados: vous êtes un ange, monsieur… vous êtes un ange. Contou então como achava que a sua sorte tinha mudado desde o momento em que me encontrou. As crianças tinham comido todo o leite em pó à colherada nessa mesma noite e, no dia seguinte, foi finalmente ouvido pelas autoridades portuárias que o encaminharam para um potencial empregador. E era de lá que vinha agora, naquele passo apressado, quase eufórico: acabara de arranjar trabalho para ele e para todos os outros tripulantes numa propriedade agrícola do interior; não iam receber nenhum tipo de pagamento, apenas alimentação, alojamento e autorização para lá ficar com as crianças… E, no entanto, estava radiante – como se de repente lhe tivessem oferecido um futuro risonho.