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Baixo Vouga – Lagomar: crónica de um regresso

09/06/2015

Nasci – e vivi boa parte da minha vida – no distrito de Aveiro. A minha primeira fotografia foi captada aos 11 anos na serra da Freita e as primeiras imagens com uma câmara reflex surgiram três anos mais tarde, no Baixo Vouga Lagunar.

© Paulo Canaveira / Um olhar atento e uma lente macro captaram o melhor de um dia de chuva.

© Paulo Canaveira / Um olhar atento e uma lente macro captaram o melhor de um dia de chuva.

O título pode confundir, pela sonoridade semelhante, mas o trocadilho acaba por sintetizar um regresso a casa (à aldeia transmontana de Lagomar) bem diferente daquele que teve lugar durante quase três décadas, cada vez que visitava esta zona húmida do litoral.
Aos 14 anos, ir fotografar ao Baixo Vouga, significava apanhar o comboio das seis da manhã em Espinho e desembarcar meia hora mais tarde no apeadeiro deserto de Salreu. Ao fim do dia, repetia o eixo no sentido inverso. Na primavera, sob uma temperatura amena e a azáfama fascinante das garças, das cegonhas e dos patos, via o nascer do sol logo aos primeiros passos em direção ao canal principal. No inverno, as primeiras horas eram quase sempre frias, invariavelmente escuras e silenciosas… mas não menos belas. Lembro-me, por exemplo, de ver os canais mais estreitos cobertos com gelo, as árvores despidas espelhadas na quietude das águas, os bandos de abibes – aves elegantes vindas do norte – esbatidos ao longe pela névoa fria. Não conheço nada visualmente mais estimulante, ou mágico, do que estas manhãs com caráter.
É muito fácil gostar das coisas fáceis, mas em boa verdade são os dias mais temperamentais que nos fazem “pensar na vida”, ver o mundo de outra forma, apreciar uma outra beleza que quase sempre nos escapa.

© Luís Mestrinho / o aspeto depurado desta imagem foi acentuado por uma longa exposição. Num dia de sol seria mais difícil... ou mesmo impossível, sem recurso a filtros.

© Luís Mestrinho / O aspeto depurado desta imagem foi acentuado por uma longa exposição. Num dia de sol seria mais difícil… ou mesmo impossível, sem recurso a filtros.

© Rosa Maria Pereira / uma ligeira teleobjetiva destacou este conjunto de caniços. Não parece, mas estava a chover.

© Rosa Maria Pereira / uma ligeira teleobjetiva destacou este conjunto de caniços. Não parece, mas estava a chover.

© Jorge Rosa / A elegância quase nipónica desta macro deve-se em boa parte à composição e à escassa profundidade de campo... mas a luz difusa de um céu nublado ajuda muito.

© Jorge Rosa / A elegância quase nipónica desta macro deve-se em boa parte à composição e à escassa profundidade de campo… mas a luz difusa de um céu nublado ajuda muito.

A última edição do passeio “Primavera no Baixo Vouga Lagunar” trouxe-nos, mais uma vez, esses dias de chuva e céus de chumbo – frentes que entram terra adentro a partir do Atlântico, mesmo ali ao lado. Para quem está menos habituado a fotografar com chuva, encontrar motivos que resultem numa boa fotografia é tarefa ingrata, mas com o avançar das horas o olhar vai-se refinando, começamos a perceber aquilo que realmente funciona sob estas condições, concentramo-nos nos diferentes mundos que se abrem à nossa volta – círculos da chuva na superfície dos canais, pérolas de água nas folhas dos lírios, um inseto, uma flor, caniços e juncos despenteados pelo vento, a velha casa isolada num registo a preto e branco.

© Gisela Castro / A cores ou a preto e branco? O mesmo motivo possibilita abordagens distintas, como se pode ver na foto abaixo.

© Gisela Castro / A cores ou a preto e branco? O mesmo motivo possibilita abordagens distintas, como se pode ver na foto abaixo.

 © Luís Mestrinho / Mas não é só a cor ou falta dela: composição e perspetiva  são também elementos essenciais.

© Luís Mestrinho / Mas não é só a cor ou falta dela: composição e perspetiva são também elementos essenciais.

© Gisela Castro / Duas formas. Dois Volumes. Preto. Branco. Simple is Beatiful.

© Gisela Castro / Duas formas. Dois Volumes. Preto. Branco. Simple is Beatiful.

Pela primeira vez, não fiz uma única fotografia. Limitei-me a apreciar e a ajudar o olhar dos meus colegas de viagem. E, pouco a pouco, vi surgir nas diferentes câmaras fotográficas o Baixo Vouga com uma beleza renovada. Melhor do que fazer boas imagens em condições adversas, é levar outros a conseguirem o mesmo, nem que seja apenas pelo facto de agendar um destes passeios… e ter a determinação de não o desmarcar perante a evidência das previsões meteorológicas da véspera… e os telefonemas receosos de alguns participantes.

© Rosa Maria Pereira / As zonas claras do céu distraem do essencial. Cabe ao fotógrafo perceber isto e trabalhar na composição.

© Rosa Maria Pereira / As zonas claras do céu distraem do essencial. Cabe ao fotógrafo perceber isto e trabalhar na composição.

© Paulo Canaveira / O micro cosmos de um campo florido revela sempre novas imagens.

© Paulo Canaveira / O micro cosmos de um campo florido revela sempre novas imagens.

© Nuno Moreira / Toda a energia da primavera a irradiar de um solo aparentemente seco: um contraste que também se estende às cores.

© Nuno Moreira / Toda a energia da primavera a irradiar de um solo aparentemente seco: um contraste que também se estende às cores.

E assim, ao longo deste post, ficam algumas das fotografias captadas pelos participantes nesse fim de semana chuvoso de final de abril. Não estão cá todas, nem de todos, é verdade, mas antes que se faça mais tarde e outras aventuras se intrometam na memória, deixo-vos estes momentos de inspiração.

© Jorge Rosa / Uma macro captada por uma reflex (como é o caso) tem sempre menor profundidade de campo que uma macro captada por uma compacta (foto anterior). Mas ambas podem abordagens muito criativas.

© Jorge Rosa / Uma macro captada por uma reflex (como é o caso) tem sempre menor profundidade de campo que uma macro captada por uma compacta (foto anterior). Mas ambas podem ser abordagens muito criativas.

© Nuno Moreira / E o que é que eu dizia da chuva na superfície da água?  Aqui está uma imagem impossível em dias de céu azul.

© Nuno Moreira / E o que é que eu dizia da chuva na superfície da água? Aqui está uma imagem impossível em dias de céu azul.

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Arquivo organizado, fotógrafo melhorado!

20/02/2015

Depois do “mais vale uma molha no campo do que uma seca em casa” e do “when in doubt, go out” – ambos para espicaçar os participantes dos passeios fotográficos perante adversidades meteorológicas, acho que o título deste post é o slogan mais pertinente que alguma vez me lembrei.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas - e a evoluir na fotografia.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas – e a evoluir na fotografia.

Volvidas algumas semanas de clausura, consegui – finalmente! – ter o arquivo fotográfico limpo e suficientemente organizado. Nos últimos anos, e por mais que tentasse, a sucessão de trabalhos e respetivos prazos para os apresentar nunca me permitiu ter o arquivo em dia: por cada bloco de 500 imagens que editava (no sentido de escolher, legendar e guardar), havia sempre, e praticamente em simultâneo, umas 5000 que entravam para a “caixa” das não editadas – ou seja, material novo, sem qualquer triagem.

Pouco a pouco, o desequilíbrio descambou numa espécie de balança comercial do sul da Europa, com as importações do cartão de memória claramente superiores à minha capacidade de exportação para o disco de arquivo final. Pensei que nunca mais veria luz ao fundo do túnel.

Claro que isto não era tão mau quanto possa parecer. Sempre consegui encontrar a imagem A ou B para entregar prontamente a um cliente, ainda que a tivesse de escolher entre tantas outras menos boas (ligeiramente desfocadas, tremidas, sub ou sobre-expostas, ou esteticamente dispensáveis). Contudo, no momento de aperto dos dead-lines, não é nada agradável ter de procurar as imagens certas entre centenas ou milhares de variantes que deviam estar no lixo há muito tempo; as seleções tornam-se morosas e enfadonhas, justamente quando mais precisamos de ser rápidos e lúcidos.
E isto nem sequer é o pior. À medida que vamos vasculhando entre as asneiras que fomos capazes de produzir – por distração ou incompetência – vai-nos assaltando uma sensação de pânico, uma náusea crescente que induz a pensar que o trabalho que temos não tem, afinal, a qualidade que julgávamos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho, torna-nos melhores fotógrafos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho é essencial para evoluir em fotografia.

Neste ponto da leitura, poderá pensar-se que isto é preocupação de profissional, assunto para quem tem de vender imagens, honrar compromissos com clientes, etc. Mas desenganem-se: a forma mais rápida de evoluir na fotografia – seja ela ganha-pão ou passatempo – é confrontarmo-nos com os erros que vamos acumulando sucessivamente nos cartões de memória. Deixar milhares de imagens a marinar nos discos rígidos sem tirar qualquer ilação dos nossos convictos disparos – que deviam, logo à partida, ser o resultado de uma cuidada reflexão visual – não só ocupa espaço potencialmente útil como dificulta e atraiçoa a perceção do nosso trabalho.

De resto, todos achamos que temos imagens excelentes daquela viagem à Islândia até ao dia em que metemos a mão na massa para fazer delas uma exposição… ou uma apresentação… um site… um blog. Aí, quando finalmente ampliamos as fotografias uma a uma para lhes detetarmos os defeitos, quando somos confrontados com a sentença “save” ou “delete” na ponta do indicador, sentimos um enorme aperto no coração: afinal, aquilo que fizemos não está nada de especial; no fundo, aproveita-se apenas uns megabytes de coisas boas e deita-se fora gigas de oportunidades perdidas. Isto, se formos coerentes, porque face à desgraça a tendência é quase sempre o sentimentalismo e a misericórdia: “com jeito e paciência, salvo isto no Photoshop”… num tempo livre que nunca teremos ou então com resultados duvidosos, digo eu.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves... essas já foram para o lixo.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves… essas já foram para o lixo.

Sejamos francos: se até hoje não conseguiu arranjar tempo para uma simples triagem, acha mesmo que vai tê-lo para o pós-processamento milagroso de milhares de ficheiros que deviam era estar no lixo? Se uma imagem nasceu com estética pouco cuidada e com técnica não menos defeituosa, e se tem alternativas melhores na mesma sequência, acha mesmo que vale a pena tentar salvá-la num eventual pós-processamento? Se ainda está pensar na resposta, antecipo-me: NÃO!

Esta nossa condição humana é curiosa: a fotografia digital trouxe-nos a fantástica oportunidade de ver as imagens no momento em que as captamos. As câmaras fotográficas permitem-nos ampliar, comparar e apagar os respetivos ficheiros nesse mesmo instante. Viajamos com tablets e computadores portáteis. Mais do que nunca, temos os meios para ser criteriosos e organizados, e o que é que fazemos com tudo isto? Fotografamos com menos cuidado, guardamos o bom e o mau em volumes que se agigantam a cada dia e, pior, não aprendemos nada no processo. E da próxima vez que sairmos à rua, recalcamos os erros que estão por analisar ou então compramos novo equipamento fotográfico – o bode expiatório habitual – como bons militantes da fuga para a frente!

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão... e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão… e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Para abreviar a tarefa hercúlea de organizar o meu arquivo numa assentada, adotei, entretanto, um sistema que reduziu as importações ao mínimo indispensável: ao fim do dia, ou sempre que faço uma pausa (para tomar um café, por exemplo) analiso diretamente na câmara as imagens captadas, apagando logo de seguida o que não interessa (para quê deixar no cartão uma imagem desfocada ou um disparo acidental?); este confronto imediato com os erros tem a grande virtude de nos obrigar a fazer melhor enquanto ainda estamos no local onde viemos fotografar. Por outro lado, logo após o regresso a casa, deixei de adiar a triagem e o arquivo definitivo das imagens: se é para ser coerente e criterioso, nada melhor do que trabalhar com a memória fresca, caso contrário, o coração sobrepõe-se à razão e daqui a uns tempos lá estaremos nós a perdoar uma imagem por causa da saudade, do fado e sei lá mais o quê.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Quando finalmente vemos a nata do nosso trabalho – classificada e organizada – e damos connosco em campo a evitar erros técnicos ou a obter sistematicamente melhores fotografias com menos disparos, saberemos então que os critérios impostos pela organização do arquivo estão a dar os seus maduros e saborosos frutos.

Mãos à obra.