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Arquivo organizado, fotógrafo melhorado!

20/02/2015

Depois do “mais vale uma molha no campo do que uma seca em casa” e do “when in doubt, go out” – ambos para espicaçar os participantes dos passeios fotográficos perante adversidades meteorológicas, acho que o título deste post é o slogan mais pertinente que alguma vez me lembrei.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas - e a evoluir na fotografia.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas – e a evoluir na fotografia.

Volvidas algumas semanas de clausura, consegui – finalmente! – ter o arquivo fotográfico limpo e suficientemente organizado. Nos últimos anos, e por mais que tentasse, a sucessão de trabalhos e respetivos prazos para os apresentar nunca me permitiu ter o arquivo em dia: por cada bloco de 500 imagens que editava (no sentido de escolher, legendar e guardar), havia sempre, e praticamente em simultâneo, umas 5000 que entravam para a “caixa” das não editadas – ou seja, material novo, sem qualquer triagem.

Pouco a pouco, o desequilíbrio descambou numa espécie de balança comercial do sul da Europa, com as importações do cartão de memória claramente superiores à minha capacidade de exportação para o disco de arquivo final. Pensei que nunca mais veria luz ao fundo do túnel.

Claro que isto não era tão mau quanto possa parecer. Sempre consegui encontrar a imagem A ou B para entregar prontamente a um cliente, ainda que a tivesse de escolher entre tantas outras menos boas (ligeiramente desfocadas, tremidas, sub ou sobre-expostas, ou esteticamente dispensáveis). Contudo, no momento de aperto dos dead-lines, não é nada agradável ter de procurar as imagens certas entre centenas ou milhares de variantes que deviam estar no lixo há muito tempo; as seleções tornam-se morosas e enfadonhas, justamente quando mais precisamos de ser rápidos e lúcidos.
E isto nem sequer é o pior. À medida que vamos vasculhando entre as asneiras que fomos capazes de produzir – por distração ou incompetência – vai-nos assaltando uma sensação de pânico, uma náusea crescente que induz a pensar que o trabalho que temos não tem, afinal, a qualidade que julgávamos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho, torna-nos melhores fotógrafos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho é essencial para evoluir em fotografia.

Neste ponto da leitura, poderá pensar-se que isto é preocupação de profissional, assunto para quem tem de vender imagens, honrar compromissos com clientes, etc. Mas desenganem-se: a forma mais rápida de evoluir na fotografia – seja ela ganha-pão ou passatempo – é confrontarmo-nos com os erros que vamos acumulando sucessivamente nos cartões de memória. Deixar milhares de imagens a marinar nos discos rígidos sem tirar qualquer ilação dos nossos convictos disparos – que deviam, logo à partida, ser o resultado de uma cuidada reflexão visual – não só ocupa espaço potencialmente útil como dificulta e atraiçoa a perceção do nosso trabalho.

De resto, todos achamos que temos imagens excelentes daquela viagem à Islândia até ao dia em que metemos a mão na massa para fazer delas uma exposição… ou uma apresentação… um site… um blog. Aí, quando finalmente ampliamos as fotografias uma a uma para lhes detetarmos os defeitos, quando somos confrontados com a sentença “save” ou “delete” na ponta do indicador, sentimos um enorme aperto no coração: afinal, aquilo que fizemos não está nada de especial; no fundo, aproveita-se apenas uns megabytes de coisas boas e deita-se fora gigas de oportunidades perdidas. Isto, se formos coerentes, porque face à desgraça a tendência é quase sempre o sentimentalismo e a misericórdia: “com jeito e paciência, salvo isto no Photoshop”… num tempo livre que nunca teremos ou então com resultados duvidosos, digo eu.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves... essas já foram para o lixo.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves… essas já foram para o lixo.

Sejamos francos: se até hoje não conseguiu arranjar tempo para uma simples triagem, acha mesmo que vai tê-lo para o pós-processamento milagroso de milhares de ficheiros que deviam era estar no lixo? Se uma imagem nasceu com estética pouco cuidada e com técnica não menos defeituosa, e se tem alternativas melhores na mesma sequência, acha mesmo que vale a pena tentar salvá-la num eventual pós-processamento? Se ainda está pensar na resposta, antecipo-me: NÃO!

Esta nossa condição humana é curiosa: a fotografia digital trouxe-nos a fantástica oportunidade de ver as imagens no momento em que as captamos. As câmaras fotográficas permitem-nos ampliar, comparar e apagar os respetivos ficheiros nesse mesmo instante. Viajamos com tablets e computadores portáteis. Mais do que nunca, temos os meios para ser criteriosos e organizados, e o que é que fazemos com tudo isto? Fotografamos com menos cuidado, guardamos o bom e o mau em volumes que se agigantam a cada dia e, pior, não aprendemos nada no processo. E da próxima vez que sairmos à rua, recalcamos os erros que estão por analisar ou então compramos novo equipamento fotográfico – o bode expiatório habitual – como bons militantes da fuga para a frente!

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão... e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão… e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Para abreviar a tarefa hercúlea de organizar o meu arquivo numa assentada, adotei, entretanto, um sistema que reduziu as importações ao mínimo indispensável: ao fim do dia, ou sempre que faço uma pausa (para tomar um café, por exemplo) analiso diretamente na câmara as imagens captadas, apagando logo de seguida o que não interessa (para quê deixar no cartão uma imagem desfocada ou um disparo acidental?); este confronto imediato com os erros tem a grande virtude de nos obrigar a fazer melhor enquanto ainda estamos no local onde viemos fotografar. Por outro lado, logo após o regresso a casa, deixei de adiar a triagem e o arquivo definitivo das imagens: se é para ser coerente e criterioso, nada melhor do que trabalhar com a memória fresca, caso contrário, o coração sobrepõe-se à razão e daqui a uns tempos lá estaremos nós a perdoar uma imagem por causa da saudade, do fado e sei lá mais o quê.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Quando finalmente vemos a nata do nosso trabalho – classificada e organizada – e damos connosco em campo a evitar erros técnicos ou a obter sistematicamente melhores fotografias com menos disparos, saberemos então que os critérios impostos pela organização do arquivo estão a dar os seus maduros e saborosos frutos.

Mãos à obra.

As dificuldades que aguçam o engenho

01/11/2014

Volta e meia aparece-me um daqueles trabalhos tipo “presente envenenado”. Mas em vez de me deixar abater pelas “toxinas” do caminho, desenvolvi vários antídotos.

Havia um aviso laranja para a costa de Viana do Castelo. Eu precisava obter uma boa fotografia de surf. E já não me sobrava tempo para adiar a entrega deste trabalho. Estacionado diante da praia do Cabedelo, sabia perfeitamente que não bastava descer ao areal, apontar a objetiva ao mar e carregar no disparador enquanto alguém apanhava a onda perfeita; especialmente num dia como este: chove a cântaros, o mar está cinzento, o céu está cinzento, a areia está com um ar cinzento. De resto, há apenas quatro ou cinco surfistas na água e nenhum deles tem, sequer, uma prancha particularmente colorida. Mesmo assim, abri a mala do carro e comecei lentamente a vestir o fato de mergulho.

Surfista

Foi um trabalho muito difícil, este do Alto Minho. O cliente pedia um conjunto de imagens suficientemente sólido para a publicação de um livro – paisagens, atividades de ar livre, natureza, e também algum património – uma espécie de retrato do território captado a partir dos trilhos pedestres que o atravessam… só que durante o período que viria a revelar-se como o inverno mais húmido dos últimos anos.

É nestes dias que damos importância à qualidade e resistência das câmaras fotográficas.

Eis o resultado de uma breve incursão junto à aldeia de Sistelo. É nestes dias que damos importância à qualidade e resistência das câmaras fotográficas.

Para além da fotografia propriamente dita – muito dependente das condições atmosféricas, da qualidade da luz, do aspeto da paisagem durante a estação – qualquer trabalho está naturalmente condicionado pelo respetivo orçamento. Ficar mais uns dias (“a ver se a coisa melhora”) é o mesmo que aumentar a fatura de alojamento; percorrer mais umas centenas de quilómetros, faz derrapar os custos com combustível; voltar cá para a semana, empurra a entrega do trabalho para cima do dead-line… e aumenta a fatura de alojamento… e faz derrapar os custos de combustível. Se avaliarmos estas opções enquanto admiramos o terceiro dia consecutivo de dilúvio através do pára-brisas (e a trezentos quilómetros de casa), facilmente se depreende que o estado de espírito não será o melhor.

Rio-Minho

É nestas situações que nos vale a experiência. Como fotografar debaixo de chuva? Que fotografar debaixo de chuva? Que recursos utilizar quando a luz não ajuda, quando não temos mais tempo, quando o orçamento para despesas está a esgotar-se?
As respostas parecem sempre mais fáceis depois de batermos no fundo – algo que me aconteceu há uns anos, mas com um desfecho (felizmente) positivo. A partir desse momento, penoso mas importante para a evolução de qualquer profissional, começamos a nadar em direção à superfície… ou, pelo menos, sempre acima do fundo.

Aqui ficam, então, mais algumas imagens e uma breve descrição da minha abordagem ao mau tempo.

Canoagem

Graças à preciosa dica do José Gomes, que conheci durante este trabalho (provando que os contactos locais são determinantes), marquei na agenda um fim de semana de provas de caiaque, que se realizariam no rio Coura, em Vila Nova de Cerveira. Mais uma vez, estava a chover, mas a luz difusa filtrada pelo teto de nuvens anulava as sombras que tantas vezes parasitam as imagens. As cores dos caiaques eram suficientemente vivas para as coisas resultarem bem, e pude fazer brincadeiras com longas exposições (conferindo movimento) que nunca resultariam num dia de sol, devido ao brilho intenso da água. Para a captação fotográfica, privilegiei o dia de treinos, porque havia vários atletas em simultâneo no rio – algo que não acontece no dia de provas.

Depois de um dia inteiro de chuva na serra da Peneda, cheguei ao fim da tarde a Melgaço debaixo de… chuva. Nessas condições, a torre de menagem não era mais que um bloco pardo de granito, molhado e sem graça. E a alameda onde estacionei o carro também não acrescentava nenhuma cor. Foi então que me lembrei do crepúsculo e da possibilidade de ganhar alguma magia com o acender da iluminação pública. Esperei neste sítio cerca de uma hora até que os candeeiros se acendessem, aproveitando entretanto para estudar a perspetiva e montar o tripé no sítio certo. Há uma janela muito curta – uns 15 minutos – para fotografar nesta altura do dia; depois o céu fica completamente negro e a imagem nunca será a mesma.

Trekking, era uma das atividades que eu teria de fotografar para este trabalho. Desde logo, imaginei uma situação de neve, porque acrescentaria mais interesse a uma imagem de inverno. Era então preciso alinhar a queda de neve com uma caminhada de fim de semana – porque o grupo em causa, Elos da Montanha, não as organizava durante a semana – e com um percurso que passasse em cotas superiores a 1000 metros (abaixo disto, apenas mais chuva). Depois de cruzar as previsões meteorológicas de vários sites, arrisquei então uma viagem de 250 quilómetros de carro e uma caminhada de 11Km, até que… bingo! É preciso alguma sorte, mas sem planeamento não há sorte.

A questão da altitude é tão relevante para neve como para nevoeiro. Um dia cinzentão de chuva pode dar lugar a um belo ambiente de nevoeiro desde que estejamos à mesma altitude das nuvens. Em Arcos de Valdevez, lembrando-me disto, decidi rumar aos bosques mais altos do concelho. A paisagem ficou muito mais interessante e pude fazer esta foto.

Nos dias de céu nublado, às vezes há abertas que nos dão uns escassos segundos para fazer uma fotografia suficientemente interessante. Mas para isso é preciso antecipar as oportunidades e ser persistente: colocarmo-nos no sítio certo e avaliar a direção do vento, enquanto localizamos os buracos entre as nuvens, são processos que podem dar frutos. Cheguei a este prado em Paredes de Coura de manhã cedo, quando a luz não estava nada de especial. Troquei de objetiva, aproximei-me lentamente dos cordeiros e sondei o céu à procura de uma aberta. Aninhei-me junto à cerca para uma perspetiva mais baixa e esperei um pouco. O sol surgiu durante uns 10 segundos… fiz a foto e… nunca mais vi o sol nesse dia.

Depois da tempestade, vem a bonança… mas já nem sei o que é melhor. Durante os meses de inverno, os dias de céu imaculadamente azul têm uma luz tão contrastada e fria que quase fico com saudades dos aguaceiros. Nestes casos, há que fazer um reset mental e tentar uma abordagem completamente diferente. No porto de Viana, no final de um treino de vela, tapei grande parte do céu com uma das embarcações, deixando ao mesmo tempo um túnel visual para outro barco que se aproximava. Mas é claro que as perspetivas baixas têm o seu preço: nesta foto, acabei com os pés e o traseiro molhados.

A moral da história, na fotografia como noutras profissões, é quase sempre a mesma: no pain, no gain! Por isso, dizia eu no início deste post, lá tive de vestir o fato de mergulho e fazer-me a um mar agitado, num dia chuvoso e frio de janeiro. Ia determinado a conseguir uma perspetiva muito próxima, para que a imagem resultante fosse suficientemente original. Desliguei a focagem automática da câmara para que não focasse as gotas sobre a lente de proteção; acionei a cadência de disparo para potenciar as oportunidades; escolhi uma abertura com grande profundidade de campo; subi o ISO para que as fotos não ficassem tremidas; introduzi a câmara no saco estanque; testei o conjunto para ver se não havia entradas de água; lancei-me à água e segui os surfistas na corrente da baixa mar; enfrentei as primeiras vagas e… comecei a fotografar.
Assim nasceu a foto do surfista.

Testando o equipamento: Nikon D80 com 12-24mm em saco estanque Aquapac

Testando o equipamento: Nikon D80 com 12-24mm em saco estanque Aquapac

España, te quiero

12/12/2013

Há um ano, por esta altura, andava eu por terras de Espanha. Era a primeira vez, desde há muito, que saía sozinha em viagem. O trabalho pedido exigia muita disponibilidade num curto espaço de tempo, pelo que as crianças ficaram com o pai, a cumprirem as rotinas escolares. Soube-me bem essa liberdade.

Com nuestros hermanos tenho uma relação semelhante à que dedicamos à família mais chegada: somos os primeiros a apontar os defeitos mas também os seus mais aguerridos defensores. Talvez por não ter companhia que me ouvisse as queixas habituais, desta vez deixei-me cativar pelo que Espanha tem de melhor.

A começar pelas estradas, onde é tão agradável conduzir: um civismo de outra Europa, os carros à direita a deixar passar quem tem pressa, prioridades cumpridas, que tornavam fácil a entrada numa cidade desconhecida, à hora de ponta.

Tendo por companhia a radio 3, durante mais de mil quilómetros vi desfilar cumes nevados, vilas que mal constam do mapa recheadas de igrejas sumptuosas, paisagens onde me apeteceu voltar para passar uma férias longas, a dedilhar caminhos com lentidão de aprendiz.

Em Burgos, rendi-me com o mesmo espanto de António Gedeão, “Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura! “ (na realidade mede 84 metros metros, da base ao mais alto dos torrões), a essa filigrana de pedra que domina a cidade. Da mesma forma que me rendi às suas tapas (inesquecível a morcilla com travo a cominhos) em cafetarias com vista para o rio, onde por 5€ fazia uma refeição gourmet.

Lembro-me da quantidade de famílias com crianças, que numa manhã de sábado visitavam o Parque Arqueológico de Atapuerca, sem que a neve que caía esfriasse o entusiasmo por aprender. Logo a seguir vi espanhóis de todas as idades a encher o Museu da Evolução Humana, numa afluência pouco vulgar por aqui.

A Segóvia vai-se como quem vai à Bairrada, só que ali os restaurantes de leitão assado estão rodeados de ruas com muitos séculos de História, e o almoço desgasta-se em passeios pelas vielas do bairro judeu ou na subida à torre mais alta do Alcázar. Fugi das multidões (era domingo) num restaurante vegetariano, com muy buena pinta. Mas não deixei de ir onde todos vão ao fim da tarde: o aqueduto romano. Deixei-me ficar por ali durante muito tempo, a fotografar os que se fotografavam com o monumento milenar ao fundo, a captar também aquela exuberância latina a que nós, os melancólicos da península, somos tão alheios.

Em contraste, a Ávila dos palácios e das igrejas românicas, com o seu recolhimento místico encerrado nas muralhas, pareceu-me uma cidade triste, mais dada ao recolhimento do que à alegria.

Valeu-me Salamanca, que a princípio me assustou. Como iria conseguir traduzir para palavras todo aquele excesso? A Plaza Mayor e as Escuelas Menores, catedrais siamesas, palácios, conventos, ruas inundadas por uma maré de estudantes que dão vida a uma movida imparável… e eu a jantar sozinha, com horários desacertados, a sair quando chegavam os outros clientes.

Guardo ainda gestos, frases que me fizeram sorrir, imagens insólitas e, mais uma vez, as estradas com aldeias nas margens. Se um dia fizer um road movie será em Espanha. O que não me faltam são argumentos.

Se tiverem paciência e vontade, podem ler aqui mais sobre minha contraditória paixão pelo país vizinho – com banda sonora incluída.

Tempo!

22/01/2013

Há alturas em que saboreamos até ao tutano o sítio onde agora vivemos. Dias que dão sentido à intuição que nos trouxe até cá. Hoje nevou.

De manhã abri devagar a persiana e pouco depois sussurrei ao ouvido da M: “queres espreitar lá para fora?”; o sorriso que se seguiu não tem preço… como não tem preço a vontade que lhe vi em despertar o irmão com a mesma surpresa.

O cenário, já de si bonito, esteve hoje mágico, com uma constelação de flocos a cair leve, levemente até preencherem de branco todas as rugas da terra.

Este dia parece o culminar perfeito de uma série de outros igualmente belos.

Temos estado envolvidos em trabalhos que andam à volta do fumeiro tradicional… eu por um lado, a Ana por outro, mas com conversas e histórias fantásticas que se cruzam ao final do dia, à volta da mesa. Da minha parte, confesso que tenho visto autênticas pinturas diante dos olhos… cenas belas desta arte centenária de preparar os enchidos que hão-de aguentar os lares transmontanos até ao ano que vem.

O convite para encher alheiras partiu de bons amigos que temos na aldeia. Seguiram-se fotos e notas soltas que tomavam o pulso a tantas histórias, e almoços ou jantares animados, sempre à volta do lume com aroma a carvalho e castanheiro.

Pelo meio, um fantástico jantar no mítico Solar Bragançano, com o Desidério e a Ana Maria a presentearem-nos com um magnífico butelo com cascas.

Uma amiga brasileira que conhecemos nos confins da China rural disse-nos, nessa altura, que sobre Portugal achava particularmente mágico o nome de Trás-os-Montes. Como era bonito deixar ao critério de quem ouvisse tal nome, imaginar o que haveria para lá das montanhas; e ao mesmo tempo, ela própria entoava essas palavras num sopro, como o vento que trouxe a neve hoje pela manhã: Traaaaaaássss-oooosssss-Mooonteeeesss.

Pouco a pouco, parece que estamos a descobrir essa tal magia.

Como é bom estar deste lado dos montes.

Notícias

05/11/2012

Para o Henrique, que me tem “acompanhado” nestas viagens.

Há muito que não damos notícias. Não por falta de histórias para contar… antes por falta de tempo para as escrever.

Do ponto de vista fotográfico, entrei num interessante rodopio ainda no correr do mês de agosto; depois, vieram as chuvas… céus fantásticos, lameiros verdejantes, as cores do outono – que me lembre, um dos melhores dos últimos anos (acreditem, é mesmo difícil tirar os olhos da janela enquanto escrevo estas linhas!).

O levantamento fotográfico que me foi pedido, fez-me viajar por boa parte de Trás-os-Montes e pelas províncias espanholas de Zamora e Salamanca. E deu-me a sentir, uma vez mais, o privilégio que é viver e trabalhar nesta região da Península.

Num dia repleto de boas observações, captei este macho solitário ao crepúsculo… num arrojado ISO de 1600.

Pelo caminho, captei os derradeiros mergulhos em rios de águas límpidas (no que sobrava de verão), assisti à brama do veado nos amanheceres frescos de setembro, segui rebanhos de churras-bragançanas (a mesma raça do cordeiro que há tempos criei aqui em casa), acompanhei a vindima nas encostas suaves e mornas de Valle Pradinhos, vi tratar o queijo terrincho nas mãos sábias que o produzem, como também vi a amêndoa ser descascada e as primeiras castanhas serem colhidas.

Pessoas simples, generosas e sempre disponíveis para me ajudar no meu trabalho… ainda que interrompendo temporariamente o seu.

Deambulei por bosques de bétulas, carvalhais e soutos (que abundância de cogumelos, este ano!) e assisti às primeiras neves. Conheci gente generosa e acolhedora – que não poupa nos sorrisos e tem sempre alguma coisa para dar: um copo de vinho, pêssegos, uvas, amêndoas, queijo, figos, pão… quando descarregava o carro parecia que vinha do supermercado. Tanta coisa boa, até parece alucinação, não é? Ou então é só a minha forma de ver e sentir as coisas.

Passei todo um dia neste bosque, onde cheguei logo pela manhã com neve nos cumes e -2ºC. Não é raro ver aqui corços… uma jóia perto de casa.

Há muito que não via tantos cogumelos. O outono tem sido generoso…

Ontem, regressei do Barroso. Um passeio fotográfico calmo, chuvoso, mas muito bonito. Reencontrei amigos. Senti-me em casa (o efeito Trás-os-Montes, outra vez).

Agora, com o passeio fotográfico a Villafáfila a espreitar no calendário, parece que já ouço os bandos de gansos a chegar do Norte e a encher os céus e a planície. As chuvas abundantes deste outono são um bom presságio…

Poucas horas após fotografar esta fêmea, apanhei um susto de morte : dois grandes veados cruzaram repentinamente a estrada a poucos metros do pára-choques.

Para a fotografia de veados, às vezes o melhor é ficar dentro do carro. Para os gansos de Villafáfila o princípio também se aplica.

Se tudo correr bem, devem estar a chegar…

Do Duero ao Douro

09/05/2012

Dois países. 11 sítios Património da Humanidade. Uma viagem de 3400 quilómetros pela bacia hidrográfica do Douro. O meu último assignment está pronto e entregue. A exposição inaugura hoje no Porto em plena Cimeira Ibérica.

Numa das cavernas de Atapuerca, um paleontólogo mostra um crânio de Homo heidelbergensis.

Mariano Rajoy e Passos Coelho podem até ser dos primeiros a ver as imagens deste projeto (ver aqui), mas dificilmente terão oportunidade de conhecer os bastidores do trabalho, algo que reservo sempre para os fieis seguidores do The Quality Times.
Pois então aqui ficam alguns episódios desta viagem que, espero, também tenham o dom da pedagogia.

Ávila
Uma vez dei no Porto uma palestra que tinha como subtítulo “Afinal, porque é que não basta fazer boas imagens para se ser fotógrafo profissional?” A resposta encontra-se, por exemplo, no facto de eu ter estado sentado cerca de uma hora, à espera de ser atendido pelo vigário geral do bispado de Ávila. Motivo? A obtenção de uma autorização formal para fotografar o interior de edifícios e bens pertencentes à igreja (boa parte do património classificado, portanto). Sem autorização, não há fotos… é tão simples como isto.

A maior parte das autorizações – como para fotografar na Catedral de Burgos ou em Atapuerca – obtive-as com grande antecedência (algo que obriga o fotógrafo a uma boa organização e o vincula a datas precisas), mas nem sempre se obtém a permissão em tempo útil. Daí eu ter ficado a conhecer bem os vários gabinetes deste bispado.

Segóvia
Após fotografar em Salamanca e Ávila, tinha previsto um regresso a casa. No entanto, as previsões meteorológicas apontavam para a forte possibilidade de neve para os dias seguintes. Mudei de planos. Quando vimos de fotografar igrejas, muralhas, catedrais, praças e pontes, e ainda temos muito mais do mesmo pela frente, a brancura da neve vem mesmo a calhar… sempre dá um toque diferente ao património.

O resultado foi três dias a fotografar o centro histórico de Segóvia que, dadas as circunstâncias, parecia tirado de um conto de fadas. Claro, custou um bocado passar tantas horas debaixo de temperaturas negativas, mas o gozo de ter tomado a decisão certa superou em muito as dores nos ossos e o nariz a pingar.
Felizmente, desde que vivo na Terra Fria Transmontana, habituei-me a trazer na mala do carro as correntes para a neve… era isso ou não voltava tão cedo a casa.

Burgos
Ao fim de tantos disparos, foi com toda a naturalidade que vi surgir pontos e manchas nas imagens, sempre no mesmo sítio, ou seja, sujidade no sensor. Ainda que para muitos fotógrafos isto seja uma tarefa proibida, há muito que aprendi a viajar com um kit de limpeza (líquido e espátulas de uso único). Os fabricantes recomendam que o sensor seja limpo apenas por técnicos especializados… só que eles não estão ao nosso lado sempre que precisamos. Além disso, há que reconhecer, não existe técnico mais cuidadoso do que o dono do equipamento.
Não custa nada, resolve o problema e ocupa-nos parte das insónias típicas de quarto de hotel; basta ter o kit de limpeza, uma lanterna-frontal bem luminosa (que nos liberta as mãos) e baterias carregadas ao máximo (para não correr o risco da máquina desligar, fechando o obturador).

O meu pequeno atelier de limpeza de sensores, num quarto do hotel Cordon, Burgos.

Um outro problema colateral surge quando planeamos fotografar bem cedo. De nada serve programar o despertador para as seis da manhã se chegamos ao carro e o encontramos coberto de gelo. Em invernos muito frios, e nesta parte da Península, há que contar com isto numa base diária (Burgos tem invernos absolutamente polares). A prevenção passa por colocar de véspera um cartão sobre o pára-brisas e deixar o carro estacionado para nascente, num local onde o sol bata logo pela manhã. Já a solução consiste em raspar o gelo do pára-brisas com um pequeno cartão de plástico (que não o VISA Gold). Nunca despejar água fria (porque isso só vai criar uma nova camada de gelo), nem água quente (porque pode fragilizar ou estalar o vidro). Há muito que conheço estes métodos, mas há sempre um dia que me esqueço deles.

Esqueci-me de dizer que devemos usar luvas enquanto retiramos o gelo. A fotografia também exige sensibilidade nos dedos.

Côa
Depois de tanto ver fotos de gravuras rupestres, e tendo eu que regressar ao Côa no âmbito deste trabalho, optei pelo mais seguro: fotografar à noite, com a ajuda de focos de LED. Nada propriamente original, mas sempre bonito. Lembrei-me, no entanto, de uma pequena inovação: um ponteiro laser.
Com isto, podia redesenhar as formas dos animais gravados, algo que remete para os riscos coloridos das técnicas de decalque que os arqueólogos utilizaram durante os levantamentos nos diferentes núcleos do vale do Côa. Com a ajuda de um técnico do Parque, lá estive em longas exposições a ver os desenhos reaparecerem, desta vez com o traço tecnológico do século XXI.

Uma técnica simples, que me ocoreu numa visita anterior ao núcleo de gravuras da Penascosa.

Siega verde
Em Siega Verde, extensão classificada do Vale do Côa (do lado espanhol), voltei à fotografia de gravuras… não de noite, mas durante o dia (há que procurar alguma diversidade). Este é um tema em que os resultados só aparecem com muita persistência… ao fim de muitas tentativas com diferentes tipos de luz.
Feito um reconhecimento prévio, onde verifiquei a orientação solar e o tipo de gravuras dos diferentes núcleos, dediquei algum tempo a refletir sobre como faria as imagens no dia seguinte.
Em Ciudad Rodrigo, onde pernoitei, havia uma festa com muitas diversões coloridas. Fotografei por brincadeira… para relaxar… sem LEDs… sem lasers… sem tripé… apenas com uma compacta. Às vezes é preciso relembrar que as coisas mais simples são as que funcionam melhor. Foi muito terapêutico!

A diversão chamava-se Giga Canguru. Algumas pessoas saíam de lá tão verdes como as luzes.

Porto
Mesmo antes de começar este trabalho, em janeiro, já sabia que o centro histórico do Porto iria ser a minha maior dor de cabeça. Como se fotografa bem um sítio que conhecemos desde pequenos? Como posso eu ser original a fotografar a Ribeira, a Sé, a ponte D. Luís, a praça do Infante, a estação de S. Bento e tudo o mais incluído no perímetro classificado pela UNESCO?
Ao fim do primeiro dia, só me apetecia atirar ao rio… esse mesmo Douro que há dois meses, da nascente até à foz, era tema do meu olhar. Para enganar a alma, enquanto esperava pelos minutos mágicos do crepúsculo, fiz uma foto aos teleféricos que passavam sobre as caves de vinho do Porto.

Gostei da foto… mas não encaixava no trabalho.

Palácio da Bolsa: tinha a composição, tinha a perspetiva; faltava apenas o pianista que era suposto vir ensaiar dentro de uns minutos…

Mas este post já vai longo. Muita coisa teria ainda eu para falar destes 6 sítios e dos outros 5 que constituem o Património da Humanidade na Bacia Hidrográfica do Douro. Mas nada melhor do que deixar a exposição falar por mim, assim que estiver aberta ao público em geral (informarei sobre datas e locais). Para já terão de se contentar com estas fotos de bastidores – as tais que contam coisas que Coelho e Rajoy jamais saberão.

Não é difícil fazer 3400 Km num trabalho deste tipo… poucas pessoas sabem que a comunidade autónoma de Castela e Leão é maior que Portugal.

Bastidores de uma foto

12/07/2011

Às vezes, perco o rasto a alguns dos trabalhos fotográficos mais exigentes que produzo. Até que um dia, o reencontro inesperado com a tal imagem me faz relembrar todos os passos tortuosos que levaram ao seu sucesso.

Recentemente, durante um workshop que ministrei no Porto, um dos participantes perguntou de súbito: António, esta imagem é tua?
Tratava-se de uma fotografia concebida para o Turismo de Portugal, que agora, no âmbito desse workshop, eu recuperava para ilustrar a distorção óptica comum às grandes-angulares extremas. Acontece, que este participante a tinha visto publicada numa página integral de publicidade na revista britânica Wallpaper. Não fosse este comentário (obrigado, Tiago), talvez eu nunca viesse a partilhar aqui a história da sua concepção.

O número de Junho deste ano onde aparece a publicidade a Portugal

Voltemos então uns bons meses atrás.
Era necessário captar uma imagem de paisagem para a campanha de promoção de Portugal no estrangeiro… uma paisagem que transparecesse Verão, sol, e que integrasse, preferencialmente, uma estrutura hoteleira/arquitectónica apelativa, depurada. Acontece que estávamos no pico de um Inverno particularmente frio e chuvoso, e os prazos não davam muita margem de manobra. Nada que me devesse assustar, no entanto, porque várias vezes tive oportunidade de comprovar que a dificuldade aguça o engenho.
Assim, após centenas de quilómetros de prospecção por locais possíveis, evitando sempre bosques despidos, céus carregados e tantos outros sinais próprios da estação, acabei numa unidade hoteleira no alto da serra de Bornes – por ironia, a tão-só 45 minutos do local onde agora vivo. A paisagem de montanhas estava lá, como também estava o céu azul e a luz quente de fim de tarde… faltava apenas o modelo para conferir escala e ajudar qualquer observador a sentir-se, ele próprio, naquele local.
Uns telefonemas bastaram para que um bom amigo, também fotógrafo (obrigado, Rui), me indicasse uma pessoa que se adaptou ao cenário e às imagens como uma luva. Sandra não é modelo profissional, mas a forma como interpretou as instruções e a coragem com que enfrentou os gélidos 2ºC das sessões mostrou bem a fibra de uma verdadeira transmontana (não se pode ilustrar o Verão envergando um sobretudo… e o espelho de água onde mergulhou os pés ainda estava parcialmente congelado). Obrigado, Sandra.

Imprimi os resultados da repérage, com indicação da respectiva hora. Depois, foi só voltar com a modelo e seguir escrupulosamente as mesmas perspectivas e composições. Quando se trabalha em contra-relógio, é crucial reduzir a margem de erro.

Para algumas perspectivas, utilizei uma escada que trouxe de casa.

Captado que estava um bom leque de imagens, seguindo com rigor de minuto as fotos da repérage, havia ainda um longo caminho a percorrer: a aprovação pelo Turismo de Portugal e, depois, o crivo e as exigências naturais dos criativos da agência responsável pela campanha – quando se fala de fotografia para fins publicitários, dificilmente o trabalho fica acabado com o fechar do obturador.
Após a reunião com o Turismo de Portugal, numa viagem relâmpago a Lisboa (descrita neste post), fiquei mais descansado: uma das imagens servia perfeitamente a mensagem que se pretendia para a campanha. Mas isto era só a bonança que antecedia a tempestade. As exigências dos criativos, em dead-lines quase impossíveis (mas habituais nos meios publicitários) iria colocar-me na teia do software, onde me sinto menos confortável: era preciso acrescentar céu (para adaptar o formato aos diferentes media), tornar a imagem mais quente (para uma atmosfera mais própria do Verão), abrir um pouco as sombras e, por fim, corrigir a distorção óptica, bem visível nos pilares inclinados da cabana que alberga dois jacuzzi.

Acrescentar uma generosa fatia de céu, endireitar os pilares da palafita para 90º e clarear zonas das montanhas e da água foram algumas sugestões devolvidas pela agência de publicidade.

Algumas destas coisas pude fazer pela minha própria mão, mas outras – como endireitar os pilares eficazmente, sem consequências para o resto da imagem – estão longe de ser automáticas ou fáceis mesmo com as últimas versões do Photoshop®. Uma vez mais, valeu-me a ajuda de quem sabe do assunto… por sinal, um familiar de quem nem sequer me lembrei no primeiro momento (obrigado, Marco).

A imagem depois dos retoques sugeridos...

... E a versão final, com um céu ligeiramente diferente.

A fotografia está agora a correr vários países em diferentes suportes, sob o lema “Portugal – A Beleza da Simplicidade”. Não está artificial nem desvirtua o local onde foi captada. Serviu o pedido do cliente e as exigências indispensáveis da agência de publicidade. E teve a virtude de me fazer utilizar todos os recursos que a experiência me vai concedendo: retratar o Verão no pico do Inverno, conseguir uma excelente modelo que afinal não o é, tratar digitalmente a fotografia escolhida mesmo não dominando todas as ferramentas de software.
Bem vistas as coisas, experiência não é apenas conhecimento acumulado… é também – e principalmente – ter amigos a quem recorrer.

Esta minha outra imagem, captada no âmbito de um documentário do National Geographic Channel, também foi utilizada numa campanha de promoção de Portugal que abrangeu 9 países.

Felizmente, alguém reconheceu a fotografia e enviou-me este recorte... de uma revista polaca.

P.S.: Agradeço notícias de quem souber outros paradeiros da foto que fiz para a campanha deste ano.

8 Vidas

25/10/2010

As inúmeras vivências que fui coleccionando desde que me tornei repórter independente, há 15 anos, enriqueceram-me tanto a existência que costumo dizer que neste período já somei mais “vidas” do que o mais resistente dos gatos. Alguns episódios são felizes, outros menos; muitos são apenas insólitos. Nem todos ficaram registados em imagem, no entanto aqui fica uma mão cheia deles.

Chacim, Julho de 1998: “Tem alguma coisa para mim?”
Foi precisamente assim que num café desta aldeia transmontana fui abordado por um senhor de idade, vestido com um fato escuro impecável, encimado por um chapéu de feltro – como se usava dantes. O meu ar perplexo deixou perceber facilmente que eu não tinha entendido a razão da pergunta, pelo que o empregado atrás do balcão se apressou a esclarecer: “ó senhor Eduardo… esse senhor não é o carteiro”. Só então percebi a origem da confusão.
Na altura, fazia uma reportagem para a revista Evasões sobre a produção da seda em Portugal, e levava comigo um saco fotográfico Domke, de cor bege, que o senhor Eduardo obviamente confundiu com o dos carteiros – que costumavam ser feitos de couro e com um corte bem diferente. A ironia desta história, no entanto, é que o saco Domke é uma criação do fotógrafo americano Jim Domke, que em 1976 se inspirou nos antigos sacos dos… Serviços Postais Americanos.

Parque Nacional de Doñana, Espanha, Janeiro de 2003: a minha bela gola de pele
Para o número de Março de 2003 da edição portuguesa da National Geographic, fui autorizado a fotografar dois linces em cativeiro no Centro de Reprodução de El Acebuche. Um deles, uma fêmea baptizada de Esperanza pelos biólogos do Centro, estava mais habituada à presença humana, pelo que pude captar imagens dentro do cercado. A certa altura, sem que nada o fizesse prever, Esperanza lança-se numa corrida na minha direcção, atira-se para os ombros e enrola-se à volta do meu pescoço; como não sabia exactamente o que fazer, achei melhor ficar quieto, enquanto o fotógrafo e vigilante da natureza Caros Carrapato aproveitava para registar o precioso momento. Contudo, há sempre coisas que as imagens são incapazes de revelar: nesse dia, senti na pele que os linces também ronronam – como camiões, é certo, mas ronronam.



Vila Nova de Gaia, Novembro de 2000: encontrei a bala perdida

Precisava concluir um trabalho sobre o Porto com algumas imagens da Foz Velha. Estava um belo dia de sol e, por isso, optei pela via marginal que liga a cidade de Espinho à Invicta, ao longo de todas as praias deste troço litoral: Granja, Aguda, Miramar, Madalena, Canidelo… fiquemos por aqui. Quando conduzia frente a uma zona habitacional, avistei quatro homens à volta de um carro com armas na mão; a cena era tão insólita (pessoas a passear à beira-mar, cafés de portas abertas) que pensei tratar-se de um grupo de amigos na brincadeira… até ouvir os primeiros tiros. Acabado de passar o local do incidente, vi pelo retrovisor um indivíduo correr o mais que podia na retaguarda do meu carro e, uns 50 metros mais atrás, quatro homens parados a apontarem-lhe pistolas. Primeiro tiro (“que foi isto?”), segundo tiro (“eu não acredito”), terceiro tiro… acertaram-me no carro. Baixei-me, acelerei e só parei dois quilómetros à frente. Em resumo: o bandido foi baleado, um agente foi ferido, e a Judiciária lá acabou por me pagar a reparação do furo na mala.
E eu que nunca quis ser repórter de guerra!



Seul, Coreia do Sul, Outubro de 1999: António Sá de visita à Coreia

No dia seguinte à minha chegada à Coreia, enquanto passeava pela Insadonggil (uma rua do centro conhecida pelas suas lojas de antiguidades) fui abordado por uma equipa de um dos principais canais de televisão do país. A razão? Queriam apenas saber a opinião de um turista sobre a origem e autenticidade dos artigos que aqui se vendiam. A reportagem passou no noticiário principal dessa mesma noite e eu aproveitei para fazer uma foto ao pequeno ecrã que tinha no quarto. Quem ficou boquiaberto foram duas amigas coreanas que constituíam o meu único contacto no país: para elas era simplesmente inacreditável verem-me na televisão no próprio dia em que as tinha conhecido pessoalmente. Enfim, um verdadeiro sucesso mediático, apesar de não me encontrar no meu melhor (nessa altura já tinha às costas quatro meses de viagem pela Ásia). Quanto à enigmática legenda, apenas sei que o meu nome está por ali.

Sanábria, Espanha, Fevereiro de 2006: digi…coisa e tal
Desde sempre habituado a fotografar em diapositivo, com tudo o que isso implica em rigor de exposição, fidelidade cromática, disciplina na composição, etc., a minha adaptação aos sistemas digitais revelava-se lenta e, às vezes, conflituosa. Durante um passeio fotográfico de Inverno, uma das participantes apanhou-me num daqueles momentos embaraçosos, em que me cobri com um anoraque para visualizar melhor no LCD as imagens que tinha acabado de fazer. Estamos na era digital, é verdade, mas para mim esta foto remete ironicamente para os fotógrafos do início do século passado, que se tapavam com um pano escuro atrás das pesadas câmaras, curiosamente também montadas sobre um tripé.

And Now For Something Completely Different

13/12/2009

Às vezes surgem-me trabalhos assim: têm tanto de sedução criativa como de suicídio profissional.

Gel de agarose com produtos de PCR - tipificação de microorganismos... não faço ideia o que quer dizer, mas esteticamente resulta bem.

São uma espécie de bomba relógio que vou tentando desarmar, e que tanto podem pender para um desfecho positivo como negativo. Essencialmente, os detonadores são de três tipos, quase sempre presentes em simultâneo: recursos criativos, volume de trabalho e prazo limite. Se corto o fio “recursos criativos” para cumprir o volume de trabalho e o prazo limite, a bomba rebenta; se ignoro o tic-tac do “prazo limite” para não cortar o fio “recursos criativos”, a bomba rebenta; resta o volume de trabalho, que é um tipo de detonador intocável, porque me disseram para não mexer aí.

Afinal, nestes laboratórios assépticos também há cor... mas o toque mágico da lanterna dá outra graça à imagem. Mas é preciso tranquilidade para nos lembrarmos disto. Só que às vezes tranquilidade é coisa rara.

Durante o assignment fotográfico no âmbito do documentário “Portugal: um outro olhar” (National Geographic Channel, 2007), achei várias vezes que ia morrer com a bomba nas mãos. Da parte do NGC pediam-me: queremos imagens que evidenciem o teu estilo pessoal, mas que também espelhem o estilo National Geographic. A outra parte envolvida, o Turismo de Portugal, pedia: queremos uma abordagem clássica, mais institucional, mas com um toque de modernidade, que mostre um Portugal de vanguarda. E de que estamos nós a falar, afinal? Dos 13 sítios classificados pela UNESCO como Património Mundial. E qual é o prazo? cerca de 24 dias non-stop. E não há mais nada a ter em conta? Bem… grande parte desse tempo terás “apenas” de funcionar como protagonista do documentário, diante das câmaras de filmar (no time for photos, sorry), e depois tudo acabará com um exposição – fotográfica – no Mosteiro dos Jerónimos! “Exposição fictícia… só para o documentário”, perguntei a medo. A resposta não se fez esperar: “Não! Será uma exposição real, com o melhor do teu trabalho captado nesses dias!”. Pensei 2 segundos, engoli em seco e aceitei. O resultado final é algo de que me orgulho bastante, mas há que dizer que durante a execução deste trabalho passei uma tarde em Sintra estendido na carrinha da produção em estado de coma criativo e, mais adiante, em Alcobaça, saí moribundo do mosteiro directamente para um consultório médico: ansiedade incontrolável, pois claro.

Centro de Ciência Animal e Vetrinária da UTAD... no trabalho para o National Geographic Channel não fiquei no estado deste cão, mas andei lá perto!

Uma proposta recente veio colocar-me num cenário parecido, só que numa temática completamente nova. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) pedia-me uma abordagem criativa à investigação científica que ali se produz. É para uma exposição, diziam-me. E foi!

Concentrado de zircões à lupa binocular... parece um planeta, não é? E a ideia era criar essa ilusão. Inclinei ligeiramente a objectiva da G10 para criar uma sombra. A imagem escolhida pela UTAD foi, no entanto, a versão perfeita, sem sombra. Os artistas são uns incompreendidos.

Acontece que o volume de trabalho ultrapassou em muito os meus pesadelos mais delirantes; a matéria-prima criativa (provetas, microscópios, batas brancas, etc.) representavam o menos polido de todos os diamantes da estética fotográfica (por sinal, o departamento de geologia também foi abordado); e os prazos… bem, nem quero falar disso (digo apenas que a expressão DEAD-LINE ganha aqui todo o sentido!). O resultado foram mais de dois milhares de disparos, que culminaram numa exposição de 46 imagens – algumas das quais ilustram este texto.

Identificando genes de tolerância ao alumínio em cereais... quando vejo o trabalho que tenho pela frente e o tempo para o fazer, às vezes os meus cabelos ficam assim: em pé como estas folhas verdes e grisalhos como as raízes.

Na fotografia, comecei pela natureza. Durante o meu percurso profissional já fotografei em discotecas, no deserto, em fábricas, debaixo de água; músicos, minorias étnicas, circuitos integrados, fósseis; e agora, pipetas, placas de Petri, reagentes… porque não? Invariavelmente, a meio dos trabalhos mais exigentes sempre achei que era louco para aceitar desafios naquelas condições. Mas, há que reconhecer, trabalhar sob pressão também tem a perversa virtude de nos aguçar o engenho criativo.

Ao fim de alguns dias na UTAD, lá encontrei um pouco de natureza... in vitro, é certo, mas senti-me em casa!

Não foi à toa que escolhi uma frase dos Monty Python para título deste post. Acham que eles são normais? E, no entanto, vejam onde chegaram. Sem querer estabelecer comparações presunçosas, gosto pois de pensar: que a loucura esteja sempre comigo.