Arquivo por Autor

España, te quiero

12/12/2013

Há um ano, por esta altura, andava eu por terras de Espanha. Era a primeira vez, desde há muito, que saía sozinha em viagem. O trabalho pedido exigia muita disponibilidade num curto espaço de tempo, pelo que as crianças ficaram com o pai, a cumprirem as rotinas escolares. Soube-me bem essa liberdade.

Com nuestros hermanos tenho uma relação semelhante à que dedicamos à família mais chegada: somos os primeiros a apontar os defeitos mas também os seus mais aguerridos defensores. Talvez por não ter companhia que me ouvisse as queixas habituais, desta vez deixei-me cativar pelo que Espanha tem de melhor.

A começar pelas estradas, onde é tão agradável conduzir: um civismo de outra Europa, os carros à direita a deixar passar quem tem pressa, prioridades cumpridas, que tornavam fácil a entrada numa cidade desconhecida, à hora de ponta.

Tendo por companhia a radio 3, durante mais de mil quilómetros vi desfilar cumes nevados, vilas que mal constam do mapa recheadas de igrejas sumptuosas, paisagens onde me apeteceu voltar para passar uma férias longas, a dedilhar caminhos com lentidão de aprendiz.

Em Burgos, rendi-me com o mesmo espanto de António Gedeão, “Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura! “ (na realidade mede 84 metros metros, da base ao mais alto dos torrões), a essa filigrana de pedra que domina a cidade. Da mesma forma que me rendi às suas tapas (inesquecível a morcilla com travo a cominhos) em cafetarias com vista para o rio, onde por 5€ fazia uma refeição gourmet.

Lembro-me da quantidade de famílias com crianças, que numa manhã de sábado visitavam o Parque Arqueológico de Atapuerca, sem que a neve que caía esfriasse o entusiasmo por aprender. Logo a seguir vi espanhóis de todas as idades a encher o Museu da Evolução Humana, numa afluência pouco vulgar por aqui.

A Segóvia vai-se como quem vai à Bairrada, só que ali os restaurantes de leitão assado estão rodeados de ruas com muitos séculos de História, e o almoço desgasta-se em passeios pelas vielas do bairro judeu ou na subida à torre mais alta do Alcázar. Fugi das multidões (era domingo) num restaurante vegetariano, com muy buena pinta. Mas não deixei de ir onde todos vão ao fim da tarde: o aqueduto romano. Deixei-me ficar por ali durante muito tempo, a fotografar os que se fotografavam com o monumento milenar ao fundo, a captar também aquela exuberância latina a que nós, os melancólicos da península, somos tão alheios.

Em contraste, a Ávila dos palácios e das igrejas românicas, com o seu recolhimento místico encerrado nas muralhas, pareceu-me uma cidade triste, mais dada ao recolhimento do que à alegria.

Valeu-me Salamanca, que a princípio me assustou. Como iria conseguir traduzir para palavras todo aquele excesso? A Plaza Mayor e as Escuelas Menores, catedrais siamesas, palácios, conventos, ruas inundadas por uma maré de estudantes que dão vida a uma movida imparável… e eu a jantar sozinha, com horários desacertados, a sair quando chegavam os outros clientes.

Guardo ainda gestos, frases que me fizeram sorrir, imagens insólitas e, mais uma vez, as estradas com aldeias nas margens. Se um dia fizer um road movie será em Espanha. O que não me faltam são argumentos.

Se tiverem paciência e vontade, podem ler aqui mais sobre minha contraditória paixão pelo país vizinho – com banda sonora incluída.

On / Off

15/11/2012

Apetecia-nos desligar. Passar um fim de semana em família, longe de compromissos, telejornais agoirentos e computadores a exigir-nos a atenção.

Enfim, sair de casa para quebrar a rotina, sem outras intenções que não fossem usufruir da companhia uns dos outros e de gozar este outono glorioso.

Na mala, uma muda de roupa, papel e lápis para desenhar, jogos de tabuleiro e duas máquinas fotográficas para usar com moderação.

Andámos à chuva, entrámos em galerias mineiras, jogámos junto à lareira, vimos perdizes fugidias e ratinhos minúsculos, revimos velhos conhecidos, cortámos urzes para conseguir cruzar um caminho lamacento, comemos tortillas e crepes chineses.

E teríamos regressado a casa no domingo, felizes e relaxados, se os deuses não nos tivessem concedido ainda o brinde de cumes nevados e estradas com gelo. Não nos restou alternativa senão ficar por mais um dia, desligados do mundo mas ligados ao essencial.

As imagens, todas da autoria da Mariana e do Luís, mostram como é bom passar a câmara para outras mãos e deixar que revelem a sua forma de olhar.

Férias, doces férias

06/08/2012

Não era suposto estas férias terem sido assim. Havia uma viagem marcada há vários meses, projetada à volta de mapas, guias e recordações. Havia rotas desenhadas em tom fluorescente e expectativas. Sobretudo, muitas expectativas. Porque era um sítio onde há muito queria voltar e onde há tanto tempo planeávamos levar as crianças… Contas feitas, passagens aéreas reservadas, tenda a postos.

E depois dei uma queda no final de maio: nada de muito grave, nenhum osso partido, umas dores ocasionais. Faltavam cinco semanas para a partida, até lá a coisa resolvia-se. Não resolveu.
Cancelar a viagem foi mais doloroso do que todos os tratamentos. Um país é muito mais do que um ponto geográfico quando os sonhos se intrometem.

Felizmente, recorremos ao sítio ideal para seguir, à risca, as ordens do médico: evitar o sol, fazer caminhadas curtas, muito repouso.
Desde então, as férias tem sido passadas junto a margens sombrias de rios, onde os miúdos se lançam em saltos destemidos. Vozes cautelosas garantem que a água é gelada, mas ninguém diria, pelo tempo que passam lá dentro.
Há também estradas vazias para lançar papagaios ao vento… E prados verdes, palco de gritos e correrias, que abrigam insetos que apanham com cuidado para nos mostrarem as suas cores espantosas.

Nesse lugar, as noites mornas permitem jantares sob o céu estrelado, que uma noite nos brindou com o meteorito mais perfeito que alguma vez vimos. Ao crepúsculo, aparecem nuvens rosa e, em várias ocasiões, raposas que descortinamos em brincadeiras e caçadas. Nos dias mais quentes (e como são quentes, às vezes), abrigamo-nos à sombra de duas nogueiras, onde os almoços são acompanhados pela algazarra dos estorninhos, e as conversas giram à volta dos planos para os próximos dias.
Porque continua a haver ainda muito por explorar e descobrir à volta de casa, afinal um ótimo destino para passar as férias.

P.S. Mas o verão não fica completo sem dar um salto ao lugar de sempre, aquele que também nos aquece a alma nos dias mais frios, quando recordamos os dias fantásticos passados junto ao mar.

O cordeiro e a oliveira. Uma história de Natal

16/12/2011

Esta história tem início em Espinho num dia de inverno, com a oferta de uma oliveira num vaso por um casal amigo. A prenda de aniversário tinha como intenção que a árvore, de não mais que 50cm e copa arredondada, fosse trazida para Bragança e plantada junto à casa, então em construção.

Mas a pequena oliveira havia ainda de passar ali várias estações, na varanda do apartamento, assolada pelo ar marítimo, atacada por uma praga de insectos, votada ao desleixo com que habitualmente trato as plantas, das quais só me lembro quando noto que estão desesperadamente a precisar de água. Mas nem por isso nos era menos estimada, a oliveira que queríamos ver crescer e frutificar em Bragança.
Quando chegou a altura da mudança, o vaso entrou no camião juntamente com os haveres mais frágeis. No entanto, havia tanto que desencaixotar e arrumar, que a oliveira no vaso continuou durante mais um outono e um inverno, agora no deck em frente ao escritório onde ocasionalmente a podíamos ver coberta de neve.
Até que a chegada da primavera impôs, finalmente, a escolha de um sítio definitivo onde a arvorezita pudesse ganhar raízes e atingir altura suficiente para nos dar sombra. Mas quis o acaso que essa fosse também a primavera em que um cordeiro rejeitado pela mãe encontrasse abrigo provisório cá em casa.

Durante as primeiras semanas, voltámos à rotina de preparar biberões (desta vez com leite de ovelha em pó!), de despertar ao som dos balidos esfomeados da cria, de planear saídas de acordo com os seus horários de alimentação, até de a deixar adormecer ao colo.

Em breve, tínhamos companhia nos passeios pelas redondezas, uma ovelha a balir quando os nossos filhos se deixavam ficar para trás, e um pequeno monstro devorador de todas as plantas tenras a que conseguisse deitar o dente. E é aqui que voltamos à oliveira, também ela cada vez mais desfolhada pelo apetite incontrolável do pequeno ovino. De nada valeu a muralha de ramos e paus que tentei erguer à volta da árvore; parecia que quanto mais tentava barricar a oliveira, mais o cordeiro arranjava forma de lá chegar. Até que um dia se deu o inevitável: já autónoma, a ovelha regressava para junto do rebanho onde nasceu, deixando no nosso prado uma planta careca, sem uma única folha.

Recusando fazer o funeral à oliveira, trouxemo-la para dentro de casa. Alguns amigos que nos visitavam, hesitavam em afirmar se se tratava de um bonsai, uma escultura, ou apenas mais uma excentricidade nossa, aquilo que viam em cima do frigorífico. A verdade é que, apesar de rodeados por árvores, nos afeiçoámos muito àquele pedaço de natureza-agora-morta, de copa redonda e ramos perfeitos.

Recentemente, a oliveira voltou a transformar-se. Um toque de tinta branca, umas bolas coloridas feitas de lã de ovelha (pareceu-nos justo, dado os contornos desta história), e aí está ela, de novo, uma bela árvore: um símbolo da amizade que perdura e vence adversidades; um híbrido entre um cordeiro e uma oliveira; uma exótica árvore de Natal, …o que quiserem. Para mim, é sobretudo um belo objecto, que me inspira e alegra os dias quando entro na cozinha pela manhã.

Viver no campo

26/05/2011

Oito meses passados sobre a nossa mudança para os arredores de Bragança, é altura de fazer um balanço. Muitas vezes pensei fazê-lo antes, mas achei que era demasiado cedo e tudo o que escrevesse seria contaminado pelo optimismo dos primeiros tempos – uma lua-de-mel com o sítio, como alguns amigos apelidavam as notícias felizes sobre a mudança.

Oito meses depois a alegria de viver aqui não amainou, muito pelo contrário, agora que vivemos uma Primavera gloriosa. Por isso este post está impregnado de coisas boas.
Como é então viver no campo para duas almas fascinadas com a natureza e o ritmo das estações?
Viver no campo é aprender que as nogueiras são as primeiras árvores a perder as folhas, no Outono, e que os abrunheiros são os primeiros a florir. É descobrir a localização das cerejeiras-bravas no bosque porque se enchem de flores brancas no início de Abril – e hão-de distinguir-se pelas folhas cor de labareda no meio do dourado outonal.
É acordar com o silêncio profundo das manhãs de neve, adiar a hora de jantar para assistir a um espectáculo de relâmpagos, sentados no jardim, ou embrulharmo-nos em sacos-camas para numa noite de Inverno ficar a contar estrelas cadentes, apontando constelações num céu liberto de poluição luminosa.

Viver no campo é ir buscar os miúdos à escola para ir ouvir a brama dos veados com amigos, é vê-los a sair das aulas trazendo uma caixa com bichos-da-seda, reparar que se esquecem do computador para fazerem pinturas índias com folhas de esteva e ouvi-los a fazer planos para a montagem de um abrigo com ramos.
É dar um passeio de bicicleta pelos caminhos da aldeia e regressar a casa carregados de sacos com cebolas, abóboras e ramos de groselha. É ter vizinhas a bater à porta para nos oferecerem produtos do fumeiro e da horta e permissão para lá irmos sempre que precisarmos. É ter vizinhos que nos vêm ajudar a semear o prado e espreitam pelo muro para nos verem a cavar, com sorrisos complacentes – coisa exótica, assistir aos nossos primeiros passos no uso da enxada.

Só vivendo no campo surgiria a oportunidade de adoptar um cordeiro, que nos segue como um cachorrinho quando saímos em passeios pelos montes. Só aqui poderíamos encontrar raposas à beira da estrada ao regressarmos à noite, observar corços a alimentarem-se num souto depois de um grande nevão, ou ter abutres a sobrevoar-nos a casa. Já para não falar da diversidade de aves que vemos da janela e justificam a presença constante dos binóculos na cozinha.

Viver no campo é ver surgir jardins espontâneos de flores silvestres à entrada da casa, ter um canteiro inesperado de papoilas frente à janela da cozinha, descobrir ginjeiras novas quando se cortam as silvas.
É ficar (ainda) extasiada com os arco-irís depois de uma chuvada intensa, com a forma das nuvens neste horizonte imenso, com a paisagem por onde passo todas as manhãs a caminho da cidade, com a revoada dos estorninhos que se solta dos lameiros quando o automóvel passa.

Quando se vive no campo os velhos amigos já não aparecem para jantar, mas sim para passar dois ou três dias, trazendo consigo boas ideias e uma imensa tranquilidade. Estando aqui podemos partilhar tudo isto, levando-os aos nossos lugares preferidos, para chegar a casa pouco depois com a sensação que estamos de férias.
Avisei que este texto estaria impregnado de optimismo, pois é assim que nos sentimos, a cada dia que passa. Perguntem-me daqui a oito anos se tenho queixas, ou estou arrependida. Mas não se admirem se, nessa altura, ainda continuar a dizer que adoro o cheiro a terra molhada.

Hoje o dia acordou assim

30/11/2010

Quando as escolas fecham e a paisagem convida à brincadeira, não temos outra alternativa senão esquecer o trabalho e ir lá para fora fotografar.

Galiza

08/06/2010

Este fim-de-semana estivemos na Galiza. Inaugurámos os dias de praia exactamente no lugar onde os tínhamos terminado no ano passado, como se nove meses não tivessem passado entretanto.

Voltámos a pisar a mesma areia branca e fina, a entrar devagar na água fria (mas tão revigorante), a iludir o vento em baías abrigadas. Sentámo-nos em varandas já conhecidas para comer o pulpo à feira, junto a areais protegidos por pinheiros. Sentimo-nos em casa nestes lugares agrestes, que nos fazem lembrar paragens mais setentrionais.

Ontem, depois de quinze anos de ausência, embarcámos com destino às ilhas Cíes. Consta que a praia de Rodas foi considerada uma das mais belas do mundo, mas os nossos passos guiaram-nos em direcção à transparência da enseada de Nosa Señora, aos observatórios de aves para apreciar as acrobacias aéreas das gaivotas, às vistas de que já tínhamos saudades.

É bom descobrir o mundo (e só nós sabemos como essa vontade nos assalta todos os dias), mas sabe bem regressar aos locais de sempre. E a Galiza, afinal, é aqui tão perto.

Herbário

17/05/2010

Há sítios assim. Tão insólitos como encontrar uma papoila num dia de Outono ou ver cair a neve sobre as folhas tenras na Primavera. Acontecimentos raros mas não impossíveis, que nos fazem olhar o mundo com outros olhos e compreender que tudo é possível. Aconteceu-me isto quando descobri que existia, em pleno Canidelo, Gaia, uma quinta de três hectares com gado barrosão a pastar em lameiros, cavalos à solta e patos longe de gaiolas. Uma enorme surpresa, para quem sempre pensou que a zona fosse sinónimo de construção desenfreada num labirinto de ruas apertadas.
Nessa quinta cultivam-se sobretudo plantas aromáticas e medicinais mas isso não seria nada de extraordinário, não fosse o homem que dirige toda a sinfonia vegetal que ali cresce. É que o Luís não é apenas um agricultor e viveirista, como tão prosaicamente se define, mas um apaixonado por plantas, que consegue transmitir esse amor a todos os que o encontram. Uma visita guiada por ele não se resume a um percurso através de vasos assinalados com nomes tão bonitos como tomilho bela-luz ou apetitosos como mangericão-mel. Através das suas palavras entramos num universo fascinante de sabores, aromas, histórias curiosas e divertidas. E somos convidados a provar o travo familiar da salva-ananás, a cheirar o odor exótico da erva-caril, a conhecer o absinto como excelente repelente de insectos, a admirar plantas exóticas e ainda mais as autóctones, que crescem ao nosso lado sem darmos por isso.
Onde nós vemos uma erva, o Luís vê um poema. Há pessoas assim.

* crónica publicada no Jornal Meia Hora, em Maio 2008

Crianças na bagagem

03/05/2010

Quando anunciámos à família e amigos que iríamos viajar para Cabo Verde recebemos reacções entusiásticas… durante os primeiros minutos.

No deserto de Viana, ilha da Boa Vista, após o trabalho fotográfico seguiram-se momentos de descontração.

À medida que desvendávamos as intenções – duas ilhas, três semanas, oito voos -, o sorriso dos nossos interlocutores desaparecia para dar lugar a uma pergunta, cuja resposta já adivinhavam: “Mas… os miúdos… também vão?”.
O nosso inequívoco “Claro!!”, foi recebido com cepticismo. Fomos apelidados de loucos, de corajosos, de ingénuos. Era loucura pensar que iríamos poder trabalhar com duas crianças por perto, ingenuidade considerar que algum de nós se iria divertir em tais circunstâncias, um acto de coragem investir tempo e dinheiro no que só poderia resultar num desastre anunciado.
Essa não era uma viagem inaugural com os nossos filhos. O mais novo tinha um mês quando fizemos as primeiras férias juntos; e a mais velha, acompanhou-nos desde o nascimento nas mais diversas reportagens. Ambos tinham cumprido o primeiro aniversário no estrangeiro, feito o baptismo de voo, de barco, de comboio. Estavam habituados a viajar. E nós com eles.

Uma paragem para um sumo faz esquecer o arranhão no joelho.

No entanto, a viagem para Cabo Verde tinha o sabor de uma experiência iniciática. Seria a primeira vez que iríamos fazer a quatro aquilo que tantas vezes fizemos a dois: sair de mochila às costas, com reservas apenas para os voos e as primeiras noites, deixando que o acaso e a intuição nos guiassem na maior parte do tempo. Só que agora a bagagem também incluía fraldas, brinquedos, mochila porta-bebés, carrinho de rua – material indispensável para os nossos companheiros de aventura: um que haveria de apagar duas velinhas na ilha do Fogo e a irmã com o dobro da idade.
Partimos optimistas, regressámos com vontade de repetir. Pelo meio tivemos momentos em que fomos vencidos pelo calor e cansaço, um atraso que nos prendeu 9 horas no aeroporto do Sal, planos por cumprir. Tudo isso já se desvaneceu, tal como o bronzeado que trazíamos na pele. Na película e na memória de todos nós conservam-se os sorrisos dos amigos que lá deixámos, corridas em praias desertas, o sabor da papaia ao pequeno-almoço, o céu nocturno visto da cratera do Fogo, muitas brincadeiras aprendidas ali.

Os mergulhos nas águas transparentes servem tanto ao trabalho do pai como ao deleite do filho

Cinco anos passaram desde então. As crianças cresceram e a bagagem aligeirou-se. Cada anúncio de uma nova saída é recebido com entusiasmo redobrado. Na agenda que recebeu no início do ano a nossa filha anotou os sítios para onde gostava de viajar: Açores, Islândia, Galiza… Ainda nada foi decidido, a única certeza é de que continuaremos a viajar. Com os miúdos, claro!

Viagem à roda de um prato

19/04/2010

Em viagem, quando nos encontramos com outros estrangeiros, há sempre um assunto que acaba por vir à baila: comida. Por muito boa que seja a gastronomia do lugar onde estamos, todos sentem saudades de um prato em particular da sua terra de origem. No meu caso, depois de cinco meses a viajar pela Ásia, tentando iludir os estufados matinais com a fruta que encontrava, aquilo de que mais sentia falta era de um banal pequeno-almoço de café com leite acompanhado por uma torrada. E na manhã de regresso, a primeira coisa que fiz foi correr para a padaria habitual para me deleitar com um simples galão e pão com manteiga.

Na Mongólia há sempre chá e pão para oferecer a quem chega.

No entanto, considero que a culinária é uma parte importante da experiência de viajar. Provar as frutas locais, ensaiar combinações que nos são estranhas, olhar para uma ementa num língua desconhecida e fazer pim-pam-pum para ver o que nos aparece no prato, faz parte da aventura. Claro que o resultado pode ser surpreendentemente delicioso ou abominável, como a pasta de durian, um fruto que os malaios adoram, mas que só a muito custo consegui engolir, sob o olhar divertido de uma vendedora de Kuala Lumpur. Há também aqueles sabores que primeiro se estranham e depois se entranham: a primeira vez que provei chá salgado em Ulan Bator nunca diria que ficaria a gostar dessa mistura bizarra, e até ansiar por bebê-lo no conforto de uma tenda mongol.
Há dias, a vasculhar num caderno de viagens, descobri uma lista de coisas boas que provámos na China – e foram tantas. Desde um jantar gourmet num restaurante de vanguarda em Xangai a simples legumes salteados com arroz em mercados ao ar livre, sempre comemos muito bem. Como os chineses preparam a comida no momento em que é pedida, esta nunca é requentada. Às vezes é até fresca de mais… Num desses mercados, instalado ao lado de um riacho, vimos sapos gordos a serem apanhados imediatamente antes de passarem para a grelha. Nesse almoço contentámo-nos com batatas fritas, envolvidas numa mistura de amendoim ralado e piripiri… Noutras ocasiões, quando nos encontrávamos em regiões remotas onde ninguém falava inglês, conduziam-nos até à cozinha onde podíamos escolher os ingredientes que queríamos, apontando com o dedo. Passados alguns minutos tínhamos na mesa uma bela combinação de arroz e legumes.

Piripiri a secar na aldeia de Jitang, província de Guizhou, China

Houve também situações embaraçosas, alimentos que por diplomacia eram difícil de recusar. Como a bebida intragável que todas as manhãs nos serviam em casa da família Wang: chá em barra, da pior qualidade, misturado com manteiga rançosa, mas preparado com toda a atenção e cuidado à maneira tibetana. A custo, tentava disfarçar o sabor com dentadas nas batatas assadas nas brasas da lareira, bebendo devagar para que não me voltassem a encher o copo.
Na Mongólia, deparámo-nos uma vez com um festival Naadam, a decorrer numa planície rodeada de picos nevados. Na qualidade de forasteiros fomos convidados para nos juntarmos ao almoço dos notáveis. A refeição consistia em pedaços de carne de cabrito colocados numa lata de metal, intercalados com pedras quentes. A lata era enterrada, e a carne cozinhada assim retinha todo o seu sabor. O resultado era verdadeiramente delicioso. Já tínhamos um bocado de carne na mão, quando vimos sair um pedaço de gordura que nos foi oferecido com gestos cerimoniosos. Foi-nos dito então que aquela era a melhor parte, reservada a convidados especiais. Com o melhor sorriso, expliquei que ainda tinha comida na mão e estava já satisfeita. E lá roí o osso devagar, conseguindo esquivar-me a tão tentadora oferta.
Poderia ainda falar do leite de camela fermentado e transformado numa bebida ligeiramente alcoólica, no queijo duro como pedra e tantas outras situações que dariam assunto para vários posts.
Mas garanto que mil vezes trocaria o conforto de um bom pequeno-almoço para estar em qualquer sítio do mundo, a viver uma viagem em pleno. Se isso implicar mais uma chávena de chá, que venha então. Com ou sem sal.