Baixo Vouga – Lagomar: crónica de um regresso

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Nasci – e vivi boa parte da minha vida – no distrito de Aveiro. A minha primeira fotografia foi captada aos 11 anos na serra da Freita e as primeiras imagens com uma câmara reflex surgiram três anos mais tarde, no Baixo Vouga Lagunar.

© Paulo Canaveira / Um olhar atento e uma lente macro captaram o melhor de um dia de chuva.

© Paulo Canaveira / Um olhar atento e uma lente macro captaram o melhor de um dia de chuva.

O título pode confundir, pela sonoridade semelhante, mas o trocadilho acaba por sintetizar um regresso a casa (à aldeia transmontana de Lagomar) bem diferente daquele que teve lugar durante quase três décadas, cada vez que visitava esta zona húmida do litoral.
Aos 14 anos, ir fotografar ao Baixo Vouga, significava apanhar o comboio das seis da manhã em Espinho e desembarcar meia hora mais tarde no apeadeiro deserto de Salreu. Ao fim do dia, repetia o eixo no sentido inverso. Na primavera, sob uma temperatura amena e a azáfama fascinante das garças, das cegonhas e dos patos, via o nascer do sol logo aos primeiros passos em direção ao canal principal. No inverno, as primeiras horas eram quase sempre frias, invariavelmente escuras e silenciosas… mas não menos belas. Lembro-me, por exemplo, de ver os canais mais estreitos cobertos com gelo, as árvores despidas espelhadas na quietude das águas, os bandos de abibes – aves elegantes vindas do norte – esbatidos ao longe pela névoa fria. Não conheço nada visualmente mais estimulante, ou mágico, do que estas manhãs com caráter.
É muito fácil gostar das coisas fáceis, mas em boa verdade são os dias mais temperamentais que nos fazem “pensar na vida”, ver o mundo de outra forma, apreciar uma outra beleza que quase sempre nos escapa.

© Luís Mestrinho / o aspeto depurado desta imagem foi acentuado por uma longa exposição. Num dia de sol seria mais difícil... ou mesmo impossível, sem recurso a filtros.

© Luís Mestrinho / O aspeto depurado desta imagem foi acentuado por uma longa exposição. Num dia de sol seria mais difícil… ou mesmo impossível, sem recurso a filtros.

© Rosa Maria Pereira / uma ligeira teleobjetiva destacou este conjunto de caniços. Não parece, mas estava a chover.

© Rosa Maria Pereira / uma ligeira teleobjetiva destacou este conjunto de caniços. Não parece, mas estava a chover.

© Jorge Rosa / A elegância quase nipónica desta macro deve-se em boa parte à composição e à escassa profundidade de campo... mas a luz difusa de um céu nublado ajuda muito.

© Jorge Rosa / A elegância quase nipónica desta macro deve-se em boa parte à composição e à escassa profundidade de campo… mas a luz difusa de um céu nublado ajuda muito.

A última edição do passeio “Primavera no Baixo Vouga Lagunar” trouxe-nos, mais uma vez, esses dias de chuva e céus de chumbo – frentes que entram terra adentro a partir do Atlântico, mesmo ali ao lado. Para quem está menos habituado a fotografar com chuva, encontrar motivos que resultem numa boa fotografia é tarefa ingrata, mas com o avançar das horas o olhar vai-se refinando, começamos a perceber aquilo que realmente funciona sob estas condições, concentramo-nos nos diferentes mundos que se abrem à nossa volta – círculos da chuva na superfície dos canais, pérolas de água nas folhas dos lírios, um inseto, uma flor, caniços e juncos despenteados pelo vento, a velha casa isolada num registo a preto e branco.

© Gisela Castro / A cores ou a preto e branco? O mesmo motivo possibilita abordagens distintas, como se pode ver na foto abaixo.

© Gisela Castro / A cores ou a preto e branco? O mesmo motivo possibilita abordagens distintas, como se pode ver na foto abaixo.

 © Luís Mestrinho / Mas não é só a cor ou falta dela: composição e perspetiva  são também elementos essenciais.

© Luís Mestrinho / Mas não é só a cor ou falta dela: composição e perspetiva são também elementos essenciais.

© Gisela Castro / Duas formas. Dois Volumes. Preto. Branco. Simple is Beatiful.

© Gisela Castro / Duas formas. Dois Volumes. Preto. Branco. Simple is Beatiful.

Pela primeira vez, não fiz uma única fotografia. Limitei-me a apreciar e a ajudar o olhar dos meus colegas de viagem. E, pouco a pouco, vi surgir nas diferentes câmaras fotográficas o Baixo Vouga com uma beleza renovada. Melhor do que fazer boas imagens em condições adversas, é levar outros a conseguirem o mesmo, nem que seja apenas pelo facto de agendar um destes passeios… e ter a determinação de não o desmarcar perante a evidência das previsões meteorológicas da véspera… e os telefonemas receosos de alguns participantes.

© Rosa Maria Pereira / As zonas claras do céu distraem do essencial. Cabe ao fotógrafo perceber isto e trabalhar na composição.

© Rosa Maria Pereira / As zonas claras do céu distraem do essencial. Cabe ao fotógrafo perceber isto e trabalhar na composição.

© Paulo Canaveira / O micro cosmos de um campo florido revela sempre novas imagens.

© Paulo Canaveira / O micro cosmos de um campo florido revela sempre novas imagens.

© Nuno Moreira / Toda a energia da primavera a irradiar de um solo aparentemente seco: um contraste que também se estende às cores.

© Nuno Moreira / Toda a energia da primavera a irradiar de um solo aparentemente seco: um contraste que também se estende às cores.

E assim, ao longo deste post, ficam algumas das fotografias captadas pelos participantes nesse fim de semana chuvoso de final de abril. Não estão cá todas, nem de todos, é verdade, mas antes que se faça mais tarde e outras aventuras se intrometam na memória, deixo-vos estes momentos de inspiração.

© Jorge Rosa / Uma macro captada por uma reflex (como é o caso) tem sempre menor profundidade de campo que uma macro captada por uma compacta (foto anterior). Mas ambas podem abordagens muito criativas.

© Jorge Rosa / Uma macro captada por uma reflex (como é o caso) tem sempre menor profundidade de campo que uma macro captada por uma compacta (foto anterior). Mas ambas podem ser abordagens muito criativas.

© Nuno Moreira / E o que é que eu dizia da chuva na superfície da água?  Aqui está uma imagem impossível em dias de céu azul.

© Nuno Moreira / E o que é que eu dizia da chuva na superfície da água? Aqui está uma imagem impossível em dias de céu azul.

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