Arquivo organizado, fotógrafo melhorado!

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Depois do “mais vale uma molha no campo do que uma seca em casa” e do “when in doubt, go out” – ambos para espicaçar os participantes dos passeios fotográficos perante adversidades meteorológicas, acho que o título deste post é o slogan mais pertinente que alguma vez me lembrei.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas - e a evoluir na fotografia.

Tempestade de areia no deserto marroquino. Esta fotografia foi uma das poucas da mesma sequência que passou ao arquivo final. Estes critérios de organização obrigam-nos a repensar as nossas capacidades técnicas e estéticas – e a evoluir na fotografia.

Volvidas algumas semanas de clausura, consegui – finalmente! – ter o arquivo fotográfico limpo e suficientemente organizado. Nos últimos anos, e por mais que tentasse, a sucessão de trabalhos e respetivos prazos para os apresentar nunca me permitiu ter o arquivo em dia: por cada bloco de 500 imagens que editava (no sentido de escolher, legendar e guardar), havia sempre, e praticamente em simultâneo, umas 5000 que entravam para a “caixa” das não editadas – ou seja, material novo, sem qualquer triagem.

Pouco a pouco, o desequilíbrio descambou numa espécie de balança comercial do sul da Europa, com as importações do cartão de memória claramente superiores à minha capacidade de exportação para o disco de arquivo final. Pensei que nunca mais veria luz ao fundo do túnel.

Claro que isto não era tão mau quanto possa parecer. Sempre consegui encontrar a imagem A ou B para entregar prontamente a um cliente, ainda que a tivesse de escolher entre tantas outras menos boas (ligeiramente desfocadas, tremidas, sub ou sobre-expostas, ou esteticamente dispensáveis). Contudo, no momento de aperto dos dead-lines, não é nada agradável ter de procurar as imagens certas entre centenas ou milhares de variantes que deviam estar no lixo há muito tempo; as seleções tornam-se morosas e enfadonhas, justamente quando mais precisamos de ser rápidos e lúcidos.
E isto nem sequer é o pior. À medida que vamos vasculhando entre as asneiras que fomos capazes de produzir – por distração ou incompetência – vai-nos assaltando uma sensação de pânico, uma náusea crescente que induz a pensar que o trabalho que temos não tem, afinal, a qualidade que julgávamos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho, torna-nos melhores fotógrafos.

Ampliar, comparar, rejeitar, classificar, são valências fundamentais no software de edição. Nem sempre é fácil decidir quais as imagens que ficam e as que serão descartadas, mas esse confronto com o nosso trabalho é essencial para evoluir em fotografia.

Neste ponto da leitura, poderá pensar-se que isto é preocupação de profissional, assunto para quem tem de vender imagens, honrar compromissos com clientes, etc. Mas desenganem-se: a forma mais rápida de evoluir na fotografia – seja ela ganha-pão ou passatempo – é confrontarmo-nos com os erros que vamos acumulando sucessivamente nos cartões de memória. Deixar milhares de imagens a marinar nos discos rígidos sem tirar qualquer ilação dos nossos convictos disparos – que deviam, logo à partida, ser o resultado de uma cuidada reflexão visual – não só ocupa espaço potencialmente útil como dificulta e atraiçoa a perceção do nosso trabalho.

De resto, todos achamos que temos imagens excelentes daquela viagem à Islândia até ao dia em que metemos a mão na massa para fazer delas uma exposição… ou uma apresentação… um site… um blog. Aí, quando finalmente ampliamos as fotografias uma a uma para lhes detetarmos os defeitos, quando somos confrontados com a sentença “save” ou “delete” na ponta do indicador, sentimos um enorme aperto no coração: afinal, aquilo que fizemos não está nada de especial; no fundo, aproveita-se apenas uns megabytes de coisas boas e deita-se fora gigas de oportunidades perdidas. Isto, se formos coerentes, porque face à desgraça a tendência é quase sempre o sentimentalismo e a misericórdia: “com jeito e paciência, salvo isto no Photoshop”… num tempo livre que nunca teremos ou então com resultados duvidosos, digo eu.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves... essas já foram para o lixo.

A seleção de imagens para uma exposição torna-se mais fácil a partir de um arquivo que está devidamente organizado. Pelo menos sabemos que não vamos encontrar fotos desfocadas, tremidas ou com outros problemas graves… essas já foram para o lixo.

Sejamos francos: se até hoje não conseguiu arranjar tempo para uma simples triagem, acha mesmo que vai tê-lo para o pós-processamento milagroso de milhares de ficheiros que deviam era estar no lixo? Se uma imagem nasceu com estética pouco cuidada e com técnica não menos defeituosa, e se tem alternativas melhores na mesma sequência, acha mesmo que vale a pena tentar salvá-la num eventual pós-processamento? Se ainda está pensar na resposta, antecipo-me: NÃO!

Esta nossa condição humana é curiosa: a fotografia digital trouxe-nos a fantástica oportunidade de ver as imagens no momento em que as captamos. As câmaras fotográficas permitem-nos ampliar, comparar e apagar os respetivos ficheiros nesse mesmo instante. Viajamos com tablets e computadores portáteis. Mais do que nunca, temos os meios para ser criteriosos e organizados, e o que é que fazemos com tudo isto? Fotografamos com menos cuidado, guardamos o bom e o mau em volumes que se agigantam a cada dia e, pior, não aprendemos nada no processo. E da próxima vez que sairmos à rua, recalcamos os erros que estão por analisar ou então compramos novo equipamento fotográfico – o bode expiatório habitual – como bons militantes da fuga para a frente!

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão... e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Com um bom LCD, não é difícil fazer uma triagem preliminar na própria câmara fotográfica: ganhamos tempo e espaço no cartão… e percebemos melhor aquilo que estamos a fazer.

Para abreviar a tarefa hercúlea de organizar o meu arquivo numa assentada, adotei, entretanto, um sistema que reduziu as importações ao mínimo indispensável: ao fim do dia, ou sempre que faço uma pausa (para tomar um café, por exemplo) analiso diretamente na câmara as imagens captadas, apagando logo de seguida o que não interessa (para quê deixar no cartão uma imagem desfocada ou um disparo acidental?); este confronto imediato com os erros tem a grande virtude de nos obrigar a fazer melhor enquanto ainda estamos no local onde viemos fotografar. Por outro lado, logo após o regresso a casa, deixei de adiar a triagem e o arquivo definitivo das imagens: se é para ser coerente e criterioso, nada melhor do que trabalhar com a memória fresca, caso contrário, o coração sobrepõe-se à razão e daqui a uns tempos lá estaremos nós a perdoar uma imagem por causa da saudade, do fado e sei lá mais o quê.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Comecei com Marrocos e acabo na Islândia, com este fulmar no ninho. Fiz dezenas de imagens desta situação, mas apenas sete passaram ao arquivo final.

Quando finalmente vemos a nata do nosso trabalho – classificada e organizada – e damos connosco em campo a evitar erros técnicos ou a obter sistematicamente melhores fotografias com menos disparos, saberemos então que os critérios impostos pela organização do arquivo estão a dar os seus maduros e saborosos frutos.

Mãos à obra.

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2 Respostas to “Arquivo organizado, fotógrafo melhorado!”

  1. Joao Batista Says:

    … bons conselhos, com sempre. Mas as desfocadas também se podem guardar 🙂

  2. António Sá Says:

    Tens razão, João. E ainda bem que falas nisso. Tenho várias imagens desfocadas e tremidas no arquivo, porque as considero momentos importantes na minha vida ou porque dessa forma até assumiram uma estética interessante. Os critérios de triagem devem ser individuais, mas não inflexíveis.

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