As dificuldades que aguçam o engenho

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Volta e meia aparece-me um daqueles trabalhos tipo “presente envenenado”. Mas em vez de me deixar abater pelas “toxinas” do caminho, desenvolvi vários antídotos.

Havia um aviso laranja para a costa de Viana do Castelo. Eu precisava obter uma boa fotografia de surf. E já não me sobrava tempo para adiar a entrega deste trabalho. Estacionado diante da praia do Cabedelo, sabia perfeitamente que não bastava descer ao areal, apontar a objetiva ao mar e carregar no disparador enquanto alguém apanhava a onda perfeita; especialmente num dia como este: chove a cântaros, o mar está cinzento, o céu está cinzento, a areia está com um ar cinzento. De resto, há apenas quatro ou cinco surfistas na água e nenhum deles tem, sequer, uma prancha particularmente colorida. Mesmo assim, abri a mala do carro e comecei lentamente a vestir o fato de mergulho.

Surfista

Foi um trabalho muito difícil, este do Alto Minho. O cliente pedia um conjunto de imagens suficientemente sólido para a publicação de um livro – paisagens, atividades de ar livre, natureza, e também algum património – uma espécie de retrato do território captado a partir dos trilhos pedestres que o atravessam… só que durante o período que viria a revelar-se como o inverno mais húmido dos últimos anos.

É nestes dias que damos importância à qualidade e resistência das câmaras fotográficas.

Eis o resultado de uma breve incursão junto à aldeia de Sistelo. É nestes dias que damos importância à qualidade e resistência das câmaras fotográficas.

Para além da fotografia propriamente dita – muito dependente das condições atmosféricas, da qualidade da luz, do aspeto da paisagem durante a estação – qualquer trabalho está naturalmente condicionado pelo respetivo orçamento. Ficar mais uns dias (“a ver se a coisa melhora”) é o mesmo que aumentar a fatura de alojamento; percorrer mais umas centenas de quilómetros, faz derrapar os custos com combustível; voltar cá para a semana, empurra a entrega do trabalho para cima do dead-line… e aumenta a fatura de alojamento… e faz derrapar os custos de combustível. Se avaliarmos estas opções enquanto admiramos o terceiro dia consecutivo de dilúvio através do pára-brisas (e a trezentos quilómetros de casa), facilmente se depreende que o estado de espírito não será o melhor.

Rio-Minho

É nestas situações que nos vale a experiência. Como fotografar debaixo de chuva? Que fotografar debaixo de chuva? Que recursos utilizar quando a luz não ajuda, quando não temos mais tempo, quando o orçamento para despesas está a esgotar-se?
As respostas parecem sempre mais fáceis depois de batermos no fundo – algo que me aconteceu há uns anos, mas com um desfecho (felizmente) positivo. A partir desse momento, penoso mas importante para a evolução de qualquer profissional, começamos a nadar em direção à superfície… ou, pelo menos, sempre acima do fundo.

Aqui ficam, então, mais algumas imagens e uma breve descrição da minha abordagem ao mau tempo.

Canoagem

Graças à preciosa dica do José Gomes, que conheci durante este trabalho (provando que os contactos locais são determinantes), marquei na agenda um fim de semana de provas de caiaque, que se realizariam no rio Coura, em Vila Nova de Cerveira. Mais uma vez, estava a chover, mas a luz difusa filtrada pelo teto de nuvens anulava as sombras que tantas vezes parasitam as imagens. As cores dos caiaques eram suficientemente vivas para as coisas resultarem bem, e pude fazer brincadeiras com longas exposições (conferindo movimento) que nunca resultariam num dia de sol, devido ao brilho intenso da água. Para a captação fotográfica, privilegiei o dia de treinos, porque havia vários atletas em simultâneo no rio – algo que não acontece no dia de provas.

Depois de um dia inteiro de chuva na serra da Peneda, cheguei ao fim da tarde a Melgaço debaixo de… chuva. Nessas condições, a torre de menagem não era mais que um bloco pardo de granito, molhado e sem graça. E a alameda onde estacionei o carro também não acrescentava nenhuma cor. Foi então que me lembrei do crepúsculo e da possibilidade de ganhar alguma magia com o acender da iluminação pública. Esperei neste sítio cerca de uma hora até que os candeeiros se acendessem, aproveitando entretanto para estudar a perspetiva e montar o tripé no sítio certo. Há uma janela muito curta – uns 15 minutos – para fotografar nesta altura do dia; depois o céu fica completamente negro e a imagem nunca será a mesma.

Trekking, era uma das atividades que eu teria de fotografar para este trabalho. Desde logo, imaginei uma situação de neve, porque acrescentaria mais interesse a uma imagem de inverno. Era então preciso alinhar a queda de neve com uma caminhada de fim de semana – porque o grupo em causa, Elos da Montanha, não as organizava durante a semana – e com um percurso que passasse em cotas superiores a 1000 metros (abaixo disto, apenas mais chuva). Depois de cruzar as previsões meteorológicas de vários sites, arrisquei então uma viagem de 250 quilómetros de carro e uma caminhada de 11Km, até que… bingo! É preciso alguma sorte, mas sem planeamento não há sorte.

A questão da altitude é tão relevante para neve como para nevoeiro. Um dia cinzentão de chuva pode dar lugar a um belo ambiente de nevoeiro desde que estejamos à mesma altitude das nuvens. Em Arcos de Valdevez, lembrando-me disto, decidi rumar aos bosques mais altos do concelho. A paisagem ficou muito mais interessante e pude fazer esta foto.

Nos dias de céu nublado, às vezes há abertas que nos dão uns escassos segundos para fazer uma fotografia suficientemente interessante. Mas para isso é preciso antecipar as oportunidades e ser persistente: colocarmo-nos no sítio certo e avaliar a direção do vento, enquanto localizamos os buracos entre as nuvens, são processos que podem dar frutos. Cheguei a este prado em Paredes de Coura de manhã cedo, quando a luz não estava nada de especial. Troquei de objetiva, aproximei-me lentamente dos cordeiros e sondei o céu à procura de uma aberta. Aninhei-me junto à cerca para uma perspetiva mais baixa e esperei um pouco. O sol surgiu durante uns 10 segundos… fiz a foto e… nunca mais vi o sol nesse dia.

Depois da tempestade, vem a bonança… mas já nem sei o que é melhor. Durante os meses de inverno, os dias de céu imaculadamente azul têm uma luz tão contrastada e fria que quase fico com saudades dos aguaceiros. Nestes casos, há que fazer um reset mental e tentar uma abordagem completamente diferente. No porto de Viana, no final de um treino de vela, tapei grande parte do céu com uma das embarcações, deixando ao mesmo tempo um túnel visual para outro barco que se aproximava. Mas é claro que as perspetivas baixas têm o seu preço: nesta foto, acabei com os pés e o traseiro molhados.

A moral da história, na fotografia como noutras profissões, é quase sempre a mesma: no pain, no gain! Por isso, dizia eu no início deste post, lá tive de vestir o fato de mergulho e fazer-me a um mar agitado, num dia chuvoso e frio de janeiro. Ia determinado a conseguir uma perspetiva muito próxima, para que a imagem resultante fosse suficientemente original. Desliguei a focagem automática da câmara para que não focasse as gotas sobre a lente de proteção; acionei a cadência de disparo para potenciar as oportunidades; escolhi uma abertura com grande profundidade de campo; subi o ISO para que as fotos não ficassem tremidas; introduzi a câmara no saco estanque; testei o conjunto para ver se não havia entradas de água; lancei-me à água e segui os surfistas na corrente da baixa mar; enfrentei as primeiras vagas e… comecei a fotografar.
Assim nasceu a foto do surfista.

Testando o equipamento: Nikon D80 com 12-24mm em saco estanque Aquapac

Testando o equipamento: Nikon D80 com 12-24mm em saco estanque Aquapac

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9 Respostas to “As dificuldades que aguçam o engenho”

  1. Joaquim Peixoto Says:

    Sempre inovador, sempre profissional. Parabéns!

  2. Filipe Morato Gomes Says:

    Excelente, adorei, não há mau tempo que te vença! Grande abraço (em dia de dilúvio aqui em Matosinhos)

  3. Mário Ferreira Says:

    Muito interessante, como sempre! 🙂 (by the way, depois dos dilúvios que apanhei na Costa Rica, dentro duma canoa em pleno parque Tortuguero, acho que as minhas câmaras ficaram com mais água do que as tuas 😉 … e com o calor tropical, quando voltei à “civilização”, as lentes (Canon L, pressupostamente estanques …) ficaram com brutal condensação por dentro, que durou horas … salvou-me a minha Panasonic compacta, que agora substituí pela Fuji X30 🙂 Grande abraço. M

  4. António Sá Says:

    Mário,

    Em relação às tuas lentes Canon, série L, podia dizer que aconteceu o que aconteceu porque… não são Nikon! Mas não… não vou dizer isso (Ooops!, já disse). Brincadeiras à parte, nas zonas tropicais, não há muito a fazer: é aplicar uma variante da “regra dos terços”… e rezar muito. P.S.: depois dá notícias da tua X30… estou curioso.

    Para o Peixoto e para o Filipe (independentemente dos vossos simpáticos comentários), aproveito para enviar um grande abraço de amizade.

    António

  5. António Morais Says:

    Grande artigo António! Gostei muito de ler e te acompanhar nas tuas aventuras através da tua explicação detalhada de cada situação enfrentada e superada. Abraço e fico à espera de mais artigos como este aqui no The Quality Times.

  6. rubenovicente Says:

    Genial como sempre caro amigo =)

  7. Raul P Costa Says:

    Viva António. É sempre um grande prazer ver e ler as tuas “aventuras” … obrigado. gr abR

  8. José Gomes Says:

    Foi um enorme prazer poder ter-te acompanhado pela tua passagem por Vila Nova de Cerveira. Grande abraço

  9. assime Says:

    Não sei o que ilustra o quê. Ou quem nasceu primeiro, o ovo, etc. Belas palavras ilustradas com belíssimas fotos, ou vice-versa. Este Minho tem disto, é sempre um regalo para o olho e uma inspiração para a mente. Parabens.

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