Considerações de final de verão

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Há muito que por aqui não se dava notícias, bem sei, mas isso é porque andei suficientemente ocupado. E quando desocupado, foi assim que me quis manter.

 07h30. Vista da nossa janela estival, na Galiza.

07h30. Vista da nossa janela estival, na Galiza.

Agora que se cumprem dez anos de passeios fotográficos, quinze de workshops e dezanove de atividade profissional como repórter, decidi conceder-me uma espécie de licença sabática.
Por aqui, há muito em que ocupar o corpo, enquanto se liberta a mente para outros voos. Nem imaginam o suado prazer duma manhã de nevoeiro, a cortar a lenha que há de alimentar os serões de inverno – “aquece agora e aquece depois”, como um dia me gritou do caminho um vizinho, no seu típico humor transmontano. Cada vez que desligava a motosserra, o vale desentorpecia num silêncio profundo, para logo depois fazer ecoar o crocitar danado das gralhas… imagino, estariam só à espera duma trégua para conversar (sempre gostei ter estes bichos por companhia; têm carácter!). E ali estava eu, deitado no meio dum prado a diluir o cansaço, enquanto a chuva miúda me inundava o rosto e o nevoeiro se divertia a desenhar mistérios no carvalhal. Não há fotografia que faça justiça a isto, mas partilho a espreitadela sorrateira da Ana, que nesta casa há sempre uma câmara à mão.

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Toda a gente se queixa do verão murcho que tivemos. Mas se há coisa que a fotografia me ensinou, é que os dias de chuva não são necessariamente maus – nem mesmo no verão; apenas têm uma beleza mais subtil, e precisam ser compreendidos. A diferença entre uma manhã de praia cinzenta e húmida e outra soalheira é essencialmente a mesma entre ler um livro e ver um filme: ler dá um bocadinho mais de trabalho, mas estimula muito mais a imaginação.
Há muito que as nossas férias de praia são passadas na Galiza, por isso sempre nos habituámos a encontrar soluções engenhosas para os dias de chuva – que os há, por aquelas bandas, quase na mesma proporção dos dias de sol… verão após verão. A costa galega é, pois, como as gralhas… tem carácter. E eu também gosto de a ter como companhia.

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Vasculhar as pedras na maré baixa, vestir o impermeável e dar um vigoroso passeio até ao farol, deambular pelos pequenos portos a ouvir os cordames e mastros dos veleiros tilintar ao vento, observar atentamente o vaivém de botes pesqueiros para as mexilhoeiras suspensas na bruma… ou será para o viveiro de salmões que no ano passado não estava cá? Tudo isto é ler um livro! Passar os dias de cara na net, ainda que tentador, nem sequer é ver um filme… é a nova forma de embrutecer.

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A janela e o assunto são sempre os mesmos, mas as coisas estão sempre a mudar...

A janela e o assunto são sempre os mesmos, mas as coisas estão sempre a mudar…

Um desses dias, fui mergulhar com os miúdos. As águas não estavam particularmente límpidas – mar de fondo, como lhe chamam os galegos – mas deu para encontrar um belo polvo sobre uma rocha (foi o meu filho que o viu). Mergulhei até ao fundo e trouxe-o entre as mãos para mostrar aos catraios. O olhar sábio do cefalópode fitava-nos com inteligência (não fica nada atrás das gralhas) e após segundos de manipulação um pouco atrapalhada, disparou para longe numa nuvem de tinta. Não vimos mais nada de especial, mas aquele momento com o polvo encheu-nos o dia. Por fim, o sol lá acabou por aparecer, enviando-nos no que sobrava de dias para o invariável trajeto areia-água-areia de que é feita a maior parte das férias de praia dos portugueses. E de que também nós gostamos, que não somos nenhuns extra-terrestres!

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De regresso a casa, bem distante da costa galega, passámos dias amenos a colher sacos de amoras para fazer compota, enquanto os corpos, quase bronzeados, se iam habituando à escassa humidade e a uma altitude rente aos mil metros. O ar daqui deixa-nos mais letárgicos quando se regressa da beira-mar; por isso, houve que esperar o final da aclimatação para devolver às águas o caiaque que inaugurámos na Galiza – coisa que exige força de braços e alguma perseverança mental até poder desfrutar em pleno.
Uma vez mais, as previsões de chuva não nos demoveram, e rumámos ao vizinho lago de Sanábria – o maior de origem glaciar de toda a Península. As águas estavam plácidas, convidativas na temperatura e, em jeito de bónus, não havia quase ninguém nas suas margens: um daqueles dias de Setembro-Mais-Que-Perfeito… tempo que sabe tão bem conjugar.

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Vim aqui muitas vezes – mais do que suficientes para saber de cor outra das regras que se aprende na fotografia: nunca há duas visitas iguais, ainda que para o mesmo sítio e na mesma época do ano. E foi assim, nesta constatação sublime, que deslizámos umas boas horas ao longo da margem norte do lago, onde não há caminhos nem vivalma – apenas carvalhais densos, penedos graníticos e a ocasional baía de águas claras a convidar ao banho. Foi mesmo perfeito!

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E assim, de lago e de mar, se fazem dias plenos no clima que nos vai calhando.
E, se calhar, nem é coincidência ter vindo morar para um lugar chamado… Lagomar.

P.S.: andando um pouco mais para trás no tempo, as próximas crónicas deste jornal (estranha forma de dizer as coisas!) darão conta dos trabalhos profissionais que me mantiveram ocupado – textos e fotos – não vá o leitor desconfiar.

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15 Respostas to “Considerações de final de verão”

  1. Daniel Bastos Says:

    Excelente artigo.

  2. silvia fernandes Says:

    Parabéns! Belíssima escrita: com conteúdo,forma e lindas ilustrações. Tudo de bom para esta belíssima família que nos orgulha com a sua presença.

  3. António Vasco Costa Says:

    Caro António, já estava com saudades das suas crónicas. Abraço

  4. João Almeida Says:

    Já tinha saudades de saber coisas de vocês 🙂

  5. Raul P Costa Says:

    Fantásticas ferias Antonio!

    Que saudades! abR

  6. Luis Reina Says:

    Bom dia António

    Que bem voltar a ouvir noticias tuas.

    Parabens pelo texto do Quality Times…e fotos…espero não nos deixes sem notícias tanto tempo.

    Abraço

  7. Manuela Vaz Says:

    Que maravilha ouvir/ler tão boas novas vossas! Um Bj grande aos 4 🙂

  8. Luis Ascenso Says:

    Já há muito tempo q não davas notícias! Foi bom voltar a ler a QT.
    Sou capaz de em Dezembro dar um salto a Bragança, onde nunca fui. Se for dou-te um toque. Abraço.

  9. Miguel Macedo Says:

    Viva Antonio, espero que a Sabática não seja muito prolongada :), estou com saudades dos passeios fotográficos. Um abraço. Miguel Macedo

  10. eulália Says:

    Sou seguidora esporádica do vosso blog que aprecio pela qualidade das fotos e textos e pela curiosidade de conhecer os seus trabalhos e passeios fotográficos. Conheci o António há alguns meses aqui no Porto no workshop “eu e a minha máquina” de que gostei muito especialmente pela empatia que transmite.
    Hoje ao ler este último post pus-me a pensar que um fotógrafo tem muito de poeta, de sensibilidade apurada e grande alma .
    Muitos êxitos profissionais e muitas felicidades para essa família linda que construiu.
    Eulália Mota

  11. Miguel Vieira Says:

    Que bom, António já tinha saudades de crónicas de “tempos com qualidade”

  12. António Sá Says:

    Obrigado pelos vossos comentários. Estas crónicas são escritas num total espírito de partilha do tal “tempo de qualidade”, conforme anunciamos nos princípios que regem este jornal/blog.

    Com isto, procuramos levar outras pessoas a experimentar os sítios que visitamos e as sensações que deles colhemos… com câmara fotográfica ou tão-só munidos dos sentidos.

    Um abraço,

    António

  13. Alberto Says:

    O blog é realmente muito interessante, muitas dicas legais e inspiradoras

  14. elsa Says:

    Olá António, há quanto tempo!
    “Não vás ao mar Toino, olha que o mar Toino,está ruim,Toino Se vais ao mar Toino, fico sem ti ,Toino!”
    “Adeus Maria, que eu vou pró mar, buscar sardinha pra seres rainha. Ela é fresquinha é como a prata , não tenhas medo que o mar não mata…” Rancho da Nazaré. Nunca fomos fotografar os ranchos folclóricos!O rodar daquelas saias das moças da Nazaré!
    Um grande abraço e até breve.

  15. Bruna Alves Says:

    Que legal! Adoro viajar e adoro ver quando as pessoas estão felizes fazendo o mesmo. O meu próximo destino será a Tailândia! Alguém pode me indicar um bom seguro viagem? Bjs.

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