It’s the photographer, stupid!

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Numa altura de plena obesidade tecnológica, autênticos tsunamis de fotografias e vídeos invadem a net e o nosso espaço mental. Ironicamente, o bom fotojornalismo está em crise… parece que não tem lugar nesta sociedade cada vez mais “mastiga e deita fora”. Veremos o que vem a seguir.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 16:38

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 16:38

Em boa verdade, não é o fotojornalismo que está em crise. Somos nós – o ser humano – que estamos em crise. De repente, parece que cessou a busca pela elevação ética e cultural que paulatinamente vínhamos perseguindo desde o pós-guerra. E tornámo-nos em aborrecidos consumidores de tecnologia descartável. Até a forma como a informação é produzida, divulgada e consumida é ligeira… cada vez mais ligeira.

Cingindo a análise ao mundo da fotografia, é fácil constatar que os smartphones se têm vindo a impor como aparelhos muito capazes de captar imagens com qualidade; paralelamente, o espaço de partilha dessas imagens é cada vez mais a internet – com as redes sociais à cabeça. Não haveria nada de mal nisto, se tudo não descambasse numa banalidade tremenda… que é o que parece estar a acontecer.

Na vertente da tecnologia, é impossível não questionar a cadência de lançamento de novas câmaras digitais. O que é que uma marca criou, entretanto, de tão bom e avançado que justifique a comercialização de um modelo idêntico, poucas semanas depois da “novidade absoluta”? Mais importante ainda: o que é que nós – fotógrafos – vamos fazer de tão melhor com esses supostos avanços com que a indústria nos brinda constantemente? Bem… é aqui que entra a conhecida frase: it’s the economy, stupid!
De facto, a roda dentada da economia moderna parece arrastar-nos para uma nulidade profunda, onde palavras como refletir, contemplar, rebater, relativizar, aprender… já não têm lugar no léxico do cidadão.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:41

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:41

Por outro lado, enquanto nos munimos das últimas versões do iPhone e do iPad (com aplicações fascinantes que nunca vamos usar) e aprendemos a captar imagens (discretamente) com um tabuleiro à frente da cara, aproveitamos para divulgar nas redes sociais as obras-primas da nossa criação… aos milhares! Uma verdadeira ode ao point-and-shoot, no seu melhor: sem preocupações estéticas, sem a mínima reflexão visual, sem cuidado de escolha, sem critério. Depois, os amigos colocam lá um “like” e ficamos felizes!

Sinais desta crise cultural têm vindo à superfície aqui e ali, como pequenos alarmes que deviam despertar o polícia que há em nós. Em maio do ano passado, o Chicago Sun-Times despedia de uma assentada o seu corpo de 28 fotógrafos; em substituição, entregava iPhones aos jornalistas para que estes captassem as fotos com que se passaria a ilustrar as páginas do jornal… como se fosse a mesma coisa! (o pior é que os leitores já nem questionam as diferenças).

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:16

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:16

Do outro lado da barricada e – quem sabe – com uma pitadinha de orgulho francês (nous, les inventeurs de la photographie…), o Libération decide publicar a sua edição de 14 de novembro sem qualquer imagem, em jeito de grito de protesto pela depreciação gratuita e economicista do fotojornalismo. Claro que ao folhear aquelas páginas, de quadrados em branco cercados pela tipografia escura, fica-nos uma irremediável sensação de vazio. Afinal, a fotografia faz falta. A boa fotografia faz falta.

E é por tudo isto que me apetece elevar ainda mais a fasquia enquanto fotógrafo e formador.
Nos projetos que me entregam e nos passeios e workshops que conduzo, tem de estar implícita a busca da qualidade, pelo prazer de fazer bem. Há dias melhores e piores, como também há constrangimentos próprios do trabalho – prazos, meteorologia, restrições orçamentais -, mas no final isso até pode ter a virtude de nos fazer encontrar recursos que desconhecíamos.
É preciso recusar a banalidade. Fotografar muito nunca foi sinónimo de fotografar bem, da mesma forma que a qualidade da câmara não atesta a qualidade do fotógrafo.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:36

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:36

Enquanto escrevo estas linhas, vejo pela janela um grande carvalhal em repouso. Os líquenes cobrem todos os ramos, num verde tornado ainda mais inebriante pelo aguaceiro que passou. Mais perto, três gralhas – pretas como carvão – equilibram-se impávidas ao vento que dobra as pontas mais altas de uma nogueira. E espalha-se um brilho tremendo sempre que há uma aberta no céu de chumbo.
As fotografias deviam começar assim.

Bom ano.

P.S.: Antes que o wordpress coloque aqui uma publicidade qualquer, deixo-vos esta, de 1964, quando para vender uma câmara se enaltecia o papel do fotógrafo. It’s the photographer…

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15 Respostas to “It’s the photographer, stupid!”

  1. luis reina Says:

    Subscrevo inteiramente. António….

  2. Arnaldo Carvalho Says:

    Assino por baixo, caro António. Estou farto de tanta banalidade e de uma febre constante de consumismo e toneladas de “imagens” por segundo. Mas isto passa, quanto mais não seja porque produz um profundo enjoo de tanta porcaria que por aí anda. Um abraço e parabéns pela tua lucidez.

  3. Alfredo P. Costa Says:

    Fantástico António! Continuas na mesma, ie, melhor…e por isso te sigo! Qq dia vou visitar-vos p um raide transmontano, abraco

  4. Luis Ascenso Says:

    Concordo absolutamente!
    Abraço

  5. diary.in.waiting Says:

    Faz-me triste pensar assim, também. Não sou fotógrafa de profissão, mas aquilo que eu fui como fotógrafa amadora – com a minha Olympus OM1, analógica, e uma simples 50mm/macro – afastam-me hoje cada vez mais da fotografia com a máquina digital. Sim, até tenho uma Nikon D40, mas a banalidade e a falta de criticismo de quem vê afastam-me cada vez mais da fotografia, e fizeram-me regressar ao desenho. No entanto, as suas fotos são um oásis, na forma como olha à sua volta.

  6. jaime silva Says:

    Concordo totalmente com o teor deste texto.Para além de estar muito bem escrito,vem um pouco ao encontro de uma questão que há uns tempos me acompanha e inquieta,e que é a seguinte – ” o que é uma boa fotografia”.Fotografias às resmas,equipamentos aos quintais,críticos e opinantes aos milhares,já não mencionando o surto de formadores….Tudo isto, seria área para encontrar uma resposta.Mas não.Cada vez fico mais confuso.Resta-me ter esperança na ocorrência das leis da física:por gravidade a poeira cairá.
    Parabéns e um abraço

  7. Madalena Maggie Pina Says:

    concordo em absoluto. a busca da perfeição deixou de ser relevante. o banal parece bastar…

  8. António Vasco Costa Says:

    António, excelente artigo. Partilho totalmente. Não tenho praticado muito fotografia, mas tento, sempre, ter a preocupação de, antes de fazer uma imagem, “espreitar” primeiro pelo visor.
    Abraço e Um Óptimo 2014

  9. António Sá Says:

    Historicamente, há uma espécie de regulação física; como o Jaime diz… a poeira acaba por cair. O problema é quando as pessoas se habituam à poeira (que, como se sabe, é um vício) e ao mesmo tempo isso convém a um sistema económico cada vez mais implantado e potente: é muito mais fácil ganhar dinheiro com uma sociedade padronizada e previsível… os chamados hábitos de consumo… ou tendências de consumo.

    O melhor antídoto é não desistir de pensar… dá outro sentido à nossa existência (“penso, logo existo”, em vez do atual “tenho, logo existo”). Parte da frustração que muitos fotógrafos sentem com a era digital deve-se ao simples facto de que a película obrigava a pensar: era cara e acabava no 36.

    Obrigado pelos vossos comentários.

    António

  10. Cristina Simões Says:

    Absolutamente soberbo e assaz necessário! Como tenho pena de não ter, nos tempos mais próximos a possibilidade de ir num dos teus passeios…fica a vontade, pois com certeza! Bem hajas.

  11. Sílvia Lage Says:

    Como estudante de fotografia de de arte, percebo o que quer dizer e em certo aspecto concordo. Porem não foi o que a kodak fez quando foi inventada? Dar a hipotese de as pessoas “normais” conseguirem tirar fotos sem terem que pagar muito dinheiro indo a um fotografo profissional e mesmo assim não deixarem de ter as duas lembranças de familia, passeios, etc…a fotografia acaba por ser um pouco como a pintura: existe de tudo um pouco, para todos os gostos e feitios, porem nem tudo é bom, temos que saber procurar, escolher, saber ver….mas as perguntas aparecem outra vez: o que é uma boa pintura? O que é uma boa fotografia? O que é boa arte?

  12. Natércia Segurado Says:

    Concordo plenamente, um excelente artigo António.

  13. b Says:

    Parabéns António!
    Pelo texto e pelas imagens. Beleza e coerência. Como a paisagem, como a vida. A beleza está lá, só temos de aprender a vê-la.
    Aumentas em cada convite, a minha curiosidade.
    P. F. manda-me programa e condições, talvez desta consiga.

    Um abraço
    Balbina

  14. João Almeida Says:

    Vai um pouco mais além da fotografia, estamos numa altura onde todos os conteúdos tem de ser simplificados, pré-digeridos e quase “estupidificados”, as pessoas estão a habituar-se a consumir coisas cada vez mais curtas, cada vez mais simples, que façam pensar cada fez menos. Quem produz conteúdos, de uma maneira ou doutra, sabe que o intervalo de atenção de um leitor é cada vez menos, há estudos que dizem que na internet anda na ordem dos poucos segundos. É um ciclo complicado e difícil de sair…

    Muita da actividade online é equivalente a fast-food: sabe bem na altura mas não tem grande substância e valor nutricional, apenas cria habituação e leva a que, no caso da fotografia, se troque a qualidade pela quantidade. A única solução aparente ao beco sem saída que é fazer muitas fotos sem pensar é a tal vertigem consumista mencionada no post, na miragem que equipamento melhor ou diferente irá resolver tudo. Isto foi-me brutalmente real nos meus primeiros tempos de fotografia digital, ao ver que minha expectativa de que ao tirar muitas fotos iria evoluir exponencialmente caiu por terra.

    Sou um techie assumido, mas não gosto de trocar de gadgets só porque sim. Gosto de usar as coisas até aos seus limites físicos, ou até estas me limitarem. Gosto que as coisas tenham uso, e por isso tenho muito pouco material arrumado na prateleira, prefiro vender ou dar para que alguém lhe dê uso. Estou permanentemente online, mesmo em viagem, mas mais do que andar à procura do tal reconhecimento para me alimentar o ego concentro o meu esforço em marcar a minha presença sem pensar em ninguém.

    Por isto tudo é que sou fã assumido do Instagram mas sempre com a perfeita noção do “lugar fotográfico” que ocupa, e mesmo com instagram forço-me cada vez mais a fazer cada vez menos disparos. Se há coisa que aprendi com o António ao longo dos anos, e mais que a técnica que se pode aprender em qualquer bom livro, é a não nos limitarmos a “primeira foto”, a parar, pensar, olhar e a dar a volta.

  15. António Miguel Lucena Says:

    Para refletir…

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