España, te quiero

by

Há um ano, por esta altura, andava eu por terras de Espanha. Era a primeira vez, desde há muito, que saía sozinha em viagem. O trabalho pedido exigia muita disponibilidade num curto espaço de tempo, pelo que as crianças ficaram com o pai, a cumprirem as rotinas escolares. Soube-me bem essa liberdade.

Com nuestros hermanos tenho uma relação semelhante à que dedicamos à família mais chegada: somos os primeiros a apontar os defeitos mas também os seus mais aguerridos defensores. Talvez por não ter companhia que me ouvisse as queixas habituais, desta vez deixei-me cativar pelo que Espanha tem de melhor.

A começar pelas estradas, onde é tão agradável conduzir: um civismo de outra Europa, os carros à direita a deixar passar quem tem pressa, prioridades cumpridas, que tornavam fácil a entrada numa cidade desconhecida, à hora de ponta.

Tendo por companhia a radio 3, durante mais de mil quilómetros vi desfilar cumes nevados, vilas que mal constam do mapa recheadas de igrejas sumptuosas, paisagens onde me apeteceu voltar para passar uma férias longas, a dedilhar caminhos com lentidão de aprendiz.

Em Burgos, rendi-me com o mesmo espanto de António Gedeão, “Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura! “ (na realidade mede 84 metros metros, da base ao mais alto dos torrões), a essa filigrana de pedra que domina a cidade. Da mesma forma que me rendi às suas tapas (inesquecível a morcilla com travo a cominhos) em cafetarias com vista para o rio, onde por 5€ fazia uma refeição gourmet.

Lembro-me da quantidade de famílias com crianças, que numa manhã de sábado visitavam o Parque Arqueológico de Atapuerca, sem que a neve que caía esfriasse o entusiasmo por aprender. Logo a seguir vi espanhóis de todas as idades a encher o Museu da Evolução Humana, numa afluência pouco vulgar por aqui.

A Segóvia vai-se como quem vai à Bairrada, só que ali os restaurantes de leitão assado estão rodeados de ruas com muitos séculos de História, e o almoço desgasta-se em passeios pelas vielas do bairro judeu ou na subida à torre mais alta do Alcázar. Fugi das multidões (era domingo) num restaurante vegetariano, com muy buena pinta. Mas não deixei de ir onde todos vão ao fim da tarde: o aqueduto romano. Deixei-me ficar por ali durante muito tempo, a fotografar os que se fotografavam com o monumento milenar ao fundo, a captar também aquela exuberância latina a que nós, os melancólicos da península, somos tão alheios.

Em contraste, a Ávila dos palácios e das igrejas românicas, com o seu recolhimento místico encerrado nas muralhas, pareceu-me uma cidade triste, mais dada ao recolhimento do que à alegria.

Valeu-me Salamanca, que a princípio me assustou. Como iria conseguir traduzir para palavras todo aquele excesso? A Plaza Mayor e as Escuelas Menores, catedrais siamesas, palácios, conventos, ruas inundadas por uma maré de estudantes que dão vida a uma movida imparável… e eu a jantar sozinha, com horários desacertados, a sair quando chegavam os outros clientes.

Guardo ainda gestos, frases que me fizeram sorrir, imagens insólitas e, mais uma vez, as estradas com aldeias nas margens. Se um dia fizer um road movie será em Espanha. O que não me faltam são argumentos.

Se tiverem paciência e vontade, podem ler aqui mais sobre minha contraditória paixão pelo país vizinho – com banda sonora incluída.

Anúncios

3 Respostas to “España, te quiero”

  1. Luis Reina Says:

    Parabns Ana…d mesmo vontade de conhecer Burgos e Segvia que no conheo….

  2. Nuno Duarte Santos Says:

    A riqueza literária do costume, a deixar enormes saudades de voltar a Espanha.
    Ainda há dias comentava cá em casa que já lá vão 7(!) anos que não visitamos o antigo vizinho, tantas vezes percorrido. Não perde pela demora. Obrigado. :o)

  3. António Sá Says:

    A primeira foto da catedral ficou-me atravessada. Andei lá tanto tempo à volta – e no interior – e não vi nada disso! Mais uma piadinha dessas e peço a reforma. Tenho de passar a tomar conta das crianças? Paciência… pelo menos eles não me envergonham publicamente! Beijos do marido (ainda) fotógrafo.

Os comentários estão fechados.


%d bloggers like this: