Muda-se o tempo… muda-se a perspetiva

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Tratava-se duma saída para fotografar veados; mas os veados mostraram-se estranhamente tímidos para o que é habitual nessa época do ano. Enquanto vamos tentando compreender as razões, redirecionamos a veia criativa – e as objetivas – para outros assuntos. E aprendemos.

O simples facto de acordarmos cedo para tentar fotografar fauna, por si só, já nos coloca perante condições interessantes para captar a paisagem no seu melhor. Um banco de nevoeiro matinal cobria por completo o vale de Pedroso de la Carballeda, deixando de fora apenas as pontas dos pinheiros e as silhuetas longínquas das árvores mais frondosas. A luz do amanhecer espalhava-se em todas as direções, numa interminável e delicada cortina dourada. Quando nos detivemos finalmente no silêncio do caminho, ecoaram do vale os potentes bramidos de veados machos… mas longe, demasiado longe.

Foi quase sempre assim, ao longo de três dias. Temperaturas anormalmente altas para este final de setembro, para esta altitude, para esta parte da Península… com a penalização adicional da falta de chuva. Os animais ficavam então mais recatados, imóveis à sombra, ainda o dia mal tinha começado. Que diferença para outros anos!

Mas se é verdade que nos últimos tempos o verão se tem deslocado tendencialmente para o Outono, também são bem conhecidas as queixas dos fotógrafos em relação à meteorologia. Quem vê de fora, diz que nunca estamos contentes com o que temos: “a luz hoje está demasiado forte”, “estas nuvens vieram estragar tudo”, “Ah!… se aquela colina tivesse uma pontinha de sol…”, enfim, um rol de problemas que se atravessa teimosa e repetidamente no caminho da arte!

Pois bem, seus ignorantes, deviam tentar vocês fazer imagens bonitas sem os ingredientes certos, que eu bem queria ver qual era o resultado.
(Digo ignorantes com todo o carinho, porque na verdade há uma certa tranquilidade e beleza na ignorância… quantas vezes eu quis sê-lo, também na fotografia, só para me libertar dos dogmas que tantas vezes me atormentam). Mas, há que dizê-lo, os fotógrafos são realmente uns queixinhas.

Com esta brama tão próxima (uma das noites, perfeitamente audível a poucos metros dos quartos onde dormíamos) e simultaneamente tão inacessível para as câmaras fotográficas, não restou outra alternativa senão domesticar os olhos para outros assuntos.
Bem alojados, bem alimentados, em boa companhia, e com o ocasional copo de tinto de Toro para afogar as mágoas, não foi difícil encontrar recursos para explorar as outras mais-valias da Sierra de la Culebra: afinal, havia um ribeiro de águas límpidas, uma ponte medieval, cristas quartzíticas no alto dos montes, bosques de castanheiros seculares em abraço à pitoresca aldeia de Santa Cruz… e até as geométricas plantações de Pinus sylvestris, com os característicos fustes direitos e casca avermelhada.

Da minha parte, optei por uma reinterpretação da paisagem que eu já bem conhecia, passando a trabalhar quase exclusivamente a preto e branco.
Para fotografar a preto e branco, é preciso ver a preto e branco, já se sabe, por isso é tão interessante dissecarmos a paisagem apenas pelo crivo da luz e das sombras, das texturas e do grafismo.
Os meus companheiros de viagem fizeram coisas diferentes, cada um à sua maneira, vendo belas coisas – ou vendo coisas de uma forma bela – que para mim eram simplesmente invisíveis (não era do vinho, era da magia própria da arte fotográfica). Imagino que também se tenham divertido.

Uma coisa é certa: nesta nossa demanda dos cervídeos da Culebra, acabámos por aprender mais sobre a paisagem e a identidade da serra… ao mesmo tempo que nos íamos dando conta do pouco que sabemos desta nossa jangada de pedra, pese embora a sábia ajuda do peculiar marinheiro que nos acolheu.

Ao José Paulo, à Regina, ao José Martins, à Fernanda, ao Domingos e ao João, muito obrigado por me relembrarem que vale sempre a pena.

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7 Respostas to “Muda-se o tempo… muda-se a perspetiva”

  1. Luis Reina Says:

    Estou certo que surgiram imagens belissimas.

    E um fotografo deve saber sempre fotografar em qualquer condio metereolgica. Alis para mim os verdadeiros fotgrafos so os que consegue fazer boas imagens nas piores condies.Fotografar nas condies, digamos perfeitas, fcil….

    Parabns por mais este passeio fotogrfico. Quem sabe num prximo no o v fazer.

    Abrao

  2. José Paulo Madeira Says:

    Não precisas de agradecer… Enviamos depois a factura! Não podemos falar pelos outros, mas passámos um belo bocado. Um abraço para ti e beijos para o resto da família.
    Gina e Zé Paulo

  3. João Almeida Says:

    Uma das várias coisas aprendendo com o António ao longo dos anos, e bem mais importante que os detalhes técnicos da fotografia que se podem aprender em qualquer livro, é a usar os elementos a nosso favor mesmo quando parecem maus. Porque as condições que temos são sempre perfeitas para alguma coisa, basta tirar partido delas.

  4. ALFREDO Pereira da Costa Says:

    M/ caro António, tenho saudades tuas…pelas fotos q ajudas a captar, pelos belos textos q partilhas, e…tb importante, excelente companhia q proporcionas!parabéns por mais esta incursão na natureza…e até breve numa tua iniciativa, abraço Alfredo

  5. Francisco M Pericão Faria Says:

    Lindas, lindas fotos. A do riacho limpa-me o stress todo!
    Grande abraco, parabens pelo trabalho de altissima qualidade.
    Xico

  6. António Sá Says:

    Obrigado pelos generosos comentários, caros amigos. Vêm em boa altura, já que me encontro no Alto Minho, a braços com um trabalho fotográfico que se tem revelado particularmente penoso: uma objetiva com duas idas a Lisboa para reparação, Uma dor de costas que não me larga e, pior de tudo, o falecimento do meu pai no início de outubro.
    A criatividade ficou refém destes episódios, mas estou lentamente a recuperar. Abraço, António.

  7. Sofia Sampaio Says:

    Como gostava de ter ido… Mas para já as exigências dos gémeos perto de 1 ano de idade ainda são muitas.
    Belas fotografias e que descrição tão doce dos tempos em que as mesmas foram registadas!

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