Dar-lhes mundo

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Se refletir um pouco, depressa chegarei à conclusão que muito daquilo que sei – e até muito daquilo que sou – se deve às viagens. Viagens de mente aberta, sem preconceitos sobre povos e lugares. Viagens a sítios frios e a sítios quentes; simples ou sofisticados; naturais ou urbanos; próximos ou distantes.
Pois bem, vai sendo tempo de partilhar.

Gansos

Viajar com crianças é um compromisso, já se sabe. Mas sempre que pude, nunca deixei de levar os meus filhos a conhecer outros sítios, mesmo quando havia reportagens a fazer – com as intermináveis esperas pela luz ideal para captar uma só imagem, ou enfrentando enfadonhos diálogos com estranhos, apenas para dar mais sumo a um qualquer texto que virá a ser escrito; isto, claro, na perspetiva deles.
É muito difícil dar a entender aos miúdos conceitos vagos como a beleza da paisagem ou o conhecimento que se adquire numa simples conversa de rua; é como ver as notícias… “não serve para nada!” (bem, aqui talvez tenham razão).

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A explicação para isto é muito simples: o mundo deles é diferente do nosso. As coisas são vistas por um prisma completamente distinto, que produz um espetro de maior riqueza cromática – para lá do comprimento de onda percetível pelos adultos. E é a mesma coisa para todos os outros sentidos, incluindo o paladar.
Um dia, um amigo resolveu levar o filho pelas montanhas de Marrocos, uma região que adorava e que fazia questão de mostrar ao pequeno. A viagem foi estudada ao detalhe para o miúdo, até mesmo o aluguer duma mula, que certamente traria outra animação ao percurso. Regressados a casa, numa conversa em jeito de balanço, os avós perguntaram o que ele mais tinha gostado nessa viagem, afinal tão exótica e bela… fez-se silêncio… o pequeno refletiu… e disse: “o gelado que comi na esplanada!”. Um gelado! Um simples gelado numa qualquer esplanada de Marraquexe – ora aqui está a magia das viagens.

Que paisagem! - algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças... agora se for para subir ao cone de dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Que paisagem! – algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças… agora se for para subir ao cone dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Com mais de 10 anos cada um, os meus filhos já têm naturalmente outra perceção das coisas, mas isso não quer dizer que as viagens sejam mais simples para nós… são antes diferentemente complexas.
Este ano fomos à Islândia, um destino que me apaixona verdadeiramente, onde já havia estado três vezes. Como fotógrafo, quero sempre fazer mais, melhor e, sobretudo, diferente. Mas a experiência ensinou-me a ser moderado nas ambições quando se viaja com crianças, por isso muni-me de uma simples câmara compacta, na esperança de produzir algo parecido com fotografia profissional ao mesmo tempo que vivia a viagem ao ritmo deles.
O compromisso, nem sempre pacífico para uma das partes, acabou por me mostrar, uma vez mais, que o simples facto de viajar sem câmaras reflex, várias objetivas, tripé, etc., induz uma abordagem diferente aos temas que queremos fotografar (ao mesmo tempo que nos livra de dores nas costas).

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Para além da austeridade no equipamento fotográfico, tivemos também de ser comedidos nas despesas de alojamento e alimentação, porque isto de viajar a quatro é… bem… é fazer as contas. Por isso levámos tendas, sacos-cama e demais equipamento para cozinhar de forma prática e muito leve. Aqui a lição foi para eles, aprendendo a partilhar a montagem e desmontagem das tendas, a ser mais autónomos e responsáveis nas tarefas de higiene pessoal em locais de utilização pública, a ver que, afinal, há muita gente a viajar desta forma – de todas as idades e estratos sociais (neste caso, com mentalidades bem diferentes da portuguesa). Serviu também para mostrar que podemos ver sítios incríveis se estivermos dispostos a abdicar de algumas mordomias – e que às vezes essa é mesmo a única forma de os ver.

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

À medida que o tempo ia passando, estabelecia-se um equilíbrio feito de compromissos, cedências de parte a parte, algumas chatices passageiras, mas sempre com a garantia disso resultar num maior respeito e conhecimento mútuos. Pelo caminho, divertíamo-nos. Não foi preciso consolas de jogos, nem filmes, nem internet (tive de comprar uma bola de futebol e ir enchê-la à piscina municipal de Vík, no entanto).

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos...

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos…

Os dias sem fim, os glaciares, as focas, os parques infantis, os passeios a cavalo, a partilha com miúdos islandeses – do skate de Reiquejavique ao “parkour” em rolos de feno nas quintas isoladas -, uma sopa e pão caseiros num sítio tão improvável quanto acolhedor, as fotografias pacientes e demoradas… um aromático café numa manhã luminosa. Afinal não é assim tão difícil conciliar interesses.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Sempre defendi que não vale a pena lamentar-me daquilo que não posso fazer por ter crianças comigo; tenho antes de saber aproveitar as excelentes oportunidades que eles me dão para fazer coisas realmente diferentes. De ver a vida por esse outro prisma que trazem sempre com eles, ao mesmo tempo que lhes empresto o meu, para que aprendam e cresçam um pouco mais.

Há uns anos, um amigo disse-me em jeito de conselho para a educação dos filhos: “dá-lhes mundo… dá-lhes mundo!”. Não podia estar mais certo.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

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7 Respostas to “Dar-lhes mundo”

  1. Luís Reina Says:

    Obrigado pela partilha em mais uma das tuas viagens. Só ou acompanhado viajar é uma lição de amadurecimento humano. Parabéns pelo relato e pelas fotos seja com compacta seja com reflex és um ás.

  2. Maria da Conceição Guimarães Says:

    Sempre inspiradores os teus textos. Obrigada António!

  3. Francisco M Pericão Faria Says:

    Toni, as tuas cronicas e fotos sao deliciosas, grande abraco.
    Xico

  4. António Sá Says:

    Obrigado pelos vossos simpáticos comentários, Luís, Conceição e Xico. Mais do que viajar com crianças, esta crónica é sobre a pertinência de mantermos para toda a vida um olhar puro sobre o que nos rodeia – algo que as crianças nunca se cansam de nos demonstrar.

  5. Manuela Vaz Says:

    Na próxima vida quero ser vossa filha. Aceitam-me?? Bjssss aos 4

  6. Sofia Sampaio Says:

    Que ensinamentos… e que lindas fotos!
    Os nossos filhos têm apenas 8 meses. Mas vamos querer mostrar-lhes o mundo com certeza!
    Os vossos exemplos serão sempre muito inspiradores…
    Bj e saudades,

    Sofia Sampaio

  7. Sara Cameira Says:

    Viva António! as crianças de facto vivem, pensam e disfrutam dos momentos de forma singular; nós já por lá passamos mas…o peso da responsabilidade, do educar, faz-nos esquecer disso…parabéns pelo exemplo que nos deixas e, como habitualmente, pela beleza das fotos e texto!
    Sara Cameira

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