A fotografia como ferramenta pedagógica

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Amanhã estarei no Politécnico de Bragança no âmbito de um encontro de educação ambiental. Quando me foi proposta uma intervenção, não tive grandes dúvidas quanto ao título: precisamente o mesmo que leva este post.

As cidades embrutecem-nos os sentidos, roubam-nos a perceção do funcionamento dos sistemas naturais... como se não dependêssemos deles.

As cidades embrutecem-nos os sentidos, roubam-nos a perceção do funcionamento dos sistemas naturais… como se não dependêssemos deles (Nova Iorque).

Ao longo do meu percurso como repórter, nunca abdiquei da minha costela naturalista. Em boa verdade, e para utilizar uma linguagem quase darwiniana, o António Sá naturalista apareceu antes do António Sá fotógrafo. A fotografia foi uma evolução lógica de quem já nutria uma razoável curiosidade pelo meio natural e pela conservação da natureza, daí que, aos 11 anos de idade, o meu primeiro disparo fotográfico apenas tenha confirmado a primeira paixão e aberto definitivamente as portas para a segunda. De tal forma isto é verdade, que ainda me lembro da fotografia número 1 da minha vida: uma pequena queda de água junto à nascente do rio Caima (uma zona abrangida pelo recém-criado Geopark Arouca, retratado no número deste mês da revista National Geographic Portugal). Teria todo o gosto em partilhá-la aqui, não lhe tivesse eu perdido o rasto há muito tempo; a câmara com que a captei, no entanto, é minha companhia diária no escritório, onde ocupa um lugar de destaque entre livros e outros objetos que estimo.

já repararam bem nos detalhes morfológicos desta borboleta? Eu também não tinha dado conta até ao dia em que me dediquei a fotografar uma de perto.

já repararam bem nos detalhes morfológicos desta borboleta? Eu também não tinha dado conta até ao dia em que me dediquei a fotografar uma de perto (Douro Internacional).

Hoje, aos 44 anos, posso dizer com toda a propriedade que o gosto pela natureza me levou a fotografias memoráveis, da mesma forma que a curiosidade fotográfica ajudou a consolidar o meu conhecimento pelo mundo natural – uma simbiose perfeita, para manter a terminologia à altura do assunto. A decisão de viajar à Península do Iucatão (1992), à Islândia (1994), ao Bornéu (1995) ou à Eslovénia (1996), entre outros destinos, foi sempre alicerçada na relevância de um destes dois aspetos: porque queria mergulhar num recife de coral e, já agora, aproveitava para fazer algumas imagens subaquáticas, ou porque me interessava captar belas imagens de glaciares e, com esse pretexto, acabava por testemunhar (e interiorizar em “direto”) conceitos como alterações climáticas ou aquecimento global.

Na vastidão do oceano, um pináculo calcário ergue-se 600 metros do fundo do mar. Mergulhar neste neste sítio abriu-me os olhos para a importância e fragilidade dos recifes de coral (Sipadan).

Na vastidão do oceano, um pináculo calcário ergue-se 600 metros do fundo do mar. Megulhar neste sítio abriu-me os olhos para a importância e fragilidade dos recifes de coral (Sipadan).

Infelizmente, à medida que ia aprendendo, constatava também uma realidade inquietante; quase tão inquietante como as próprias alterações climáticas, a perda acelerada da biodiversidade ou o abate das florestas tropicais: o enorme défice de conhecimento do meio natural na generalidade das pessoas. A certa altura, apoderou-se de mim uma sensação de vazio, de impotência, como se as fotos que fazia e os textos que escrevia não tivessem o alcance que eu lhes queria dar, apenas porque não seriam entendidos na sua verdadeira dimensão. É impossível dar a entender a beleza e a importância de um carvalhal enquanto a maior parte da população continua a achar que eucaliptos são sinónimo de floresta! É absurdo enaltecer as virtudes de fotografar num dia de chuva, se a chuva não passa de uma chatice para quase toda a gente das cidades (esquecendo-se que a água do duche diário provém totalmente daí… para não falar da energia que alimenta o plasma lá de casa). Por outras palavras, vivemos numa ignorância e indiferença alarmantes.

No Bornéu (foto) percebi em tempo real que a destruição das florestas tropicais tem uma causa: a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Na Amazónia, num gigantesco carregamento de toros pude ler a tinta branca: Leixões, Portugal.

No Bornéu (foto) percebi em tempo real que a destruição das florestas tropicais tem uma causa: a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Na Amazónia, num gigantesco carregamento de toros, pude ler a tinta branca: Leixões, Portugal.

Em 2004, quando lancei a primeira edição dos passeios fotográficos, por trás da atividade com objetivos “claramente” fotográficos, havia uma genuína intenção de pôr as pessoas em contacto com o meio natural… com o território desconhecido que também lhes pertencia. Afinal, talvez pudesse aplicar aos outros aquilo que tinha sido verdade para mim: a fotografia poderia levar a um melhor conhecimento da natureza, da biodiversidade, da geografia, da meteorologia, ao mesmo tempo que premiava os participantes com imagens fantásticas que nunca lhes ocorrera. A fotografia como ferramenta pedagógica, portanto.

E foi assim que nasceu o “Outono em Montesinho”, o “Inverno em Sanábria”, a “Primavera no Douro Internacional” (as estações do ano como motor da alternância da paisagem) ou destinos como o Baixo Vouga Lagunar e El Bierzo – para ajudar a entender melhor as zonas húmidas e de montanha, respetivamente.

Os bosques caducifólios mistos acolhem uma grande biodiversidade, mas são raros no nosso país. Infelizmente, tentam impingir-nos que eucalipal é floresta (omitindo que se trata de uma monocultura de uma espécie exótica).

Os bosques caducifólios acolhem uma grande biodiversidade, mas são raros no nosso país. Infelizmente, tentam impingir-nos que eucaliptal é o mesmo que floresta (omitindo que se trata de uma monocultura de uma espécie exótica). Foto: bosque de carvalhos e bétulas, Barroso.

Em todos estes anos, e em muitas destas pessoas que me acompanharam, constatei a satisfação da aprendizagem, da obtenção da imagem perfeita, do momento feliz, da redescoberta dos sentidos, do gozo de um dia passado à chuva, até.

Não sei se isso teve o efeito que eu ambicionei desde o início, nem posso ter a pretensão da mensagem tocar todos da mesma forma mas, à custa de tanto falar em lameiro e carvalhal, em ganso-bravo e pegadas de corço, em lago glaciar e na “probabilidade de neve acima dos 1300 metros, se isto continuar assim”,… o mínimo que posso esperar é ter conseguido fazer a diferença nalgumas almas.

E se as fotos ficaram boas, tanto melhor.

Para muitas aves migratórias, é crucial o bom estado das zonas húmidas ao longo das suas rotas... ou não chegam aos seus locais de nidificação. Uma ideia bem patente na Islândia (foto).

Para muitas aves migratórias, é crucial o bom estado das zonas húmidas ao longo das suas rotas… ou não chegam aos seus locais de nidificação. Uma ideia bem patente na Islândia (foto).

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2 Respostas to “A fotografia como ferramenta pedagógica”

  1. João Almeida Says:

    A legenda da primeira foto ficou aqui a ecoar na cabeça…

  2. António Sá Says:

    Pois é, João, nunca estive muito longe do campo, mas agora que cá vivo é que me dou conta do que nas cidades perdemos (ou deixamos de ganhar) em conhecimento… quanto mais não seja, pela própria disponibilidade mental para aprender.

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