A Propósito de Ursos

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Às vezes, quando vou dar uma volta no carvalhal em frente a casa, tenho a sorte de observar corços, raposas… ou javalis. Notícias recentes dão agora conta de um avistamento de dois ursos-pardos a tão-só 70 Km a nordeste do local onde vivo.

Um urso negro que fotografei no Alasca... escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações...

Um urso-negro que fotografei no Alasca… escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações…

Ao que parece, os ursos que vivem aqui no norte de Espanha estão em ligeira expansão (são tão poucos que não dá para grandes entusiasmos). Mas o facto de estarem em dispersão, procurando novos territórios, não quer dizer que apareçam tão cedo nas nossas terras. E mesmo que apareçam, prefiro não me cruzar com um deles nos meus passeios matinais.

Por duas ocasiões, já tive a felicidade de ver e fotografar ursos no espaço selvagem. Mas há uma diferença grande entre ver e fotografar, como contei numa crónica que escrevi em tempos para a revista FotoDigital, e que agora recupero… para quem não leu na altura.

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O crepúsculo já se tinha instalado quando captei a última imagem do dólmen de Poulnabrone, em pleno Burren irlandês. De regresso ao automóvel, acendi os faróis e retomei a condução pela mesma estrada, com o desenho irremediavelmente estreito e sinuoso comum a muitas vias desta parte do país. Tinha ainda percorrido poucos metros quando vi um coelho saltitar à frente do feixe de luz, mesmo no centro do asfalto; reduzi a velocidade e lá fui entretido no encalço curioso da pobre criatura – que se chateou ao fim de pouco tempo e desapareceu na vegetação. Surpreendentemente, ainda mal tirara os olhos da berma, tinha já uma marta à frente do carro, que se assustou com o encontro e meteu por um caminho lateral. Aproveitando a quietude do trânsito, virei o volante e fui atrás. Quando os faróis iluminaram finalmente a escuridão, deparo com outro bicho no meio do caminho, que nada tinha a ver com a marta, entretanto “evaporada”. Era um texugo, de olhos vidrados e ar aterrado, tão incrédulo quanto eu naquilo que se estava a passar.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

Tudo isto aconteceu em pouco menos de dois minutos, e a não ser que se tenha tratado de um estranho fenómeno de metamorfose, vi, na realidade, três animais silvestres num curtíssimo espaço de tempo. Provas? Não tenho. Como também não tenho de inúmeras outras observações fantásticas, ocorridas enquanto realizava reportagens: um lobo correndo sobre o manto de neve a poucos metros do automóvel onde seguia; mãe e cria de veado despertados pelos meus passos, madrugada após madrugada, enquanto acedo a um abrigo; crias de javali que cruzam o regato três metros ao lado do local onde me encontro sentado; um urso que entra na clareira ao cair da noite, afugentando o gato-bravo que já lá se encontrava… Fotos? Nicles!; népia!; rien! E a lista podia continuar…

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. 3 horas à espera, uma 300 f2.8 e um converso rmas era quase noite e a película de apenas 100 ISO!

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. Três horas à espera, quieto e em silêncio para isto! Uma 300mm f2.8 e um conversor não chegaram para superar o início da noite e a película de apenas 100 ISO!

Bem sei que isto soa àquelas histórias mirabolantes que os pescadores gostam de contar – “tinha ali mesmo um robalo de 200 quilos e a linha partiu-se-me…” – mas conto-as porque, ao fim de 3 anos e meio de blog, o mínimo que posso esperar é que acreditem no que escrevo. E, já agora, que nenhum dos leitores seja pescador.

Na verdade, a fotografia da natureza conta com um enorme desfasamento entre aquilo que se vê e aquilo que se consegue fotografar, principalmente num país como o nosso, onde a fauna é tremendamente esquiva… e aquela que não é, acaba sistematicamente por ver a sua vida encurtada pelos caçadores do costume. Em todas as situações que mencionei trazia comigo uma máquina fotográfica e, em boa parte dos casos, nem sequer ousei apontá-la ao animal em causa; umas vezes porque tudo se passou muito rapidamente, outras porque fiquei simplesmente deslumbrado com a observação e nada consegui fazer. E nas raras vezes que estes encontros fortuitos tiveram resposta da minha parte, as fotos ou foram para o lixo ou passaram ao arquivo por razões sentimentais – tremidas, desfocadas, sub-expostas. Desilusão? Nem por isso. A vida encarrega-se de nos demonstrar que a boa fotografia de vida selvagem raramente resulta do acaso, por isso mais vale gozar o momento com um bom par de olhos panorâmicos do que deixá-lo fugir através de um ridículo visor, acoplado a um tubo de não sei quantos quilos. É bom na mesma e só nos vai aguçar o apetite para voltar àquele local uma e outra vez, possivelmente melhor preparados.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Por outro lado, mesmo quando planeamos as fotos com todo o cuidado – abrigos, engodos, células de infra-vermelhos e toda a tralha que se conhece aos fotógrafos da natureza mais empenhados – nem sempre as coisas resultam. Como daquela vez que permaneci dentro de um abrigo à espera de veados, das seis às oito da manhã, com neve por todos os lados e uma temperatura de -2ºC, sem que visse uma orelha que fosse dos bichos. Ou quando me meti entre os caniços de uma lagoa, de fato de mergulho e com água até ao peito, apenas para descobrir que os mergulhões nadavam serenamente a dois palmos da objetiva (e demasiado perto para focar) de tão bom que era o disfarce.

Pois é, às vezes sentimos que a natureza faz troça de nós. Mesmo assim não me arrependo nem me martirizo com as “ocasiões perdidas”, e continuo a recomendar que saiam para o campo tanto quanto puderem. É que em casa só nos saem moscas e formigas.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post... subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post… subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

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2 Respostas to “A Propósito de Ursos”

  1. Ruben Vicente Says:

    Brilhante! Adorei ler amigo, partilho mais uma vez da tua visão. Há momentos que são mesmo para nos deslumbrarmos, o resto é secundário =)

  2. António Sá Says:

    Obrigado, Ruben.
    Muitos pensam que o percurso de um fotógrafo profissional é uma coleção de imagens fantásticas; percentualmente falando, é muito mais um somatório de momentos falhados. A diferença, é que temos mais tempo para acertar. Um abraço.

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