Tempo!

by

Há alturas em que saboreamos até ao tutano o sítio onde agora vivemos. Dias que dão sentido à intuição que nos trouxe até cá. Hoje nevou.

De manhã abri devagar a persiana e pouco depois sussurrei ao ouvido da M: “queres espreitar lá para fora?”; o sorriso que se seguiu não tem preço… como não tem preço a vontade que lhe vi em despertar o irmão com a mesma surpresa.

O cenário, já de si bonito, esteve hoje mágico, com uma constelação de flocos a cair leve, levemente até preencherem de branco todas as rugas da terra.

Este dia parece o culminar perfeito de uma série de outros igualmente belos.

Temos estado envolvidos em trabalhos que andam à volta do fumeiro tradicional… eu por um lado, a Ana por outro, mas com conversas e histórias fantásticas que se cruzam ao final do dia, à volta da mesa. Da minha parte, confesso que tenho visto autênticas pinturas diante dos olhos… cenas belas desta arte centenária de preparar os enchidos que hão-de aguentar os lares transmontanos até ao ano que vem.

O convite para encher alheiras partiu de bons amigos que temos na aldeia. Seguiram-se fotos e notas soltas que tomavam o pulso a tantas histórias, e almoços ou jantares animados, sempre à volta do lume com aroma a carvalho e castanheiro.

Pelo meio, um fantástico jantar no mítico Solar Bragançano, com o Desidério e a Ana Maria a presentearem-nos com um magnífico butelo com cascas.

Uma amiga brasileira que conhecemos nos confins da China rural disse-nos, nessa altura, que sobre Portugal achava particularmente mágico o nome de Trás-os-Montes. Como era bonito deixar ao critério de quem ouvisse tal nome, imaginar o que haveria para lá das montanhas; e ao mesmo tempo, ela própria entoava essas palavras num sopro, como o vento que trouxe a neve hoje pela manhã: Traaaaaaássss-oooosssss-Mooonteeeesss.

Pouco a pouco, parece que estamos a descobrir essa tal magia.

Como é bom estar deste lado dos montes.

Anúncios

10 Respostas to “Tempo!”

  1. Gisela Castro Says:

    Estas belas imagens, que trazem as almas das gentes que lá vivem e de quem as fotografa, dão um “gosto” tão bom de viver neste país.
    Bem-hajas,

    Um abraço
    Gisela

  2. Luísa Pinto Says:

    Que bom que é viver desse lado de Trás-os-Montes, no meio deles, pertencer-lhes… sem dúvida. E que fome que me está a dar ao ver estas alheiras…

  3. manuela matos monteiro Says:

    estas fotografias nao sao só imagens, belas imagens! também têm cheiro! bom saber da vossa alegria de viver e conviver por terras longe e lindas.
    bjs para os 4

  4. joabarrote Says:

    Por momentos dei por mim a cheirar a minha roupa, para ter a certeza que esta não cheirava a fumeiro, tal foi o sentido com que fiquei.
    E ao ver estas fotos, vem-me à lembrança histórias de infância.
    Bjs
    Jorge Barrote

  5. Teresa Ogando Says:

    Deixou-me ainda mais vontade de conhecer Trááás-os-Montes… os passeios nas montanhas, o granito sólido, a cor, a não cor… Tenho saudades de quando fazia montanhismo. Aqui onde vivo agora há só mar e mar…
    Teresa

  6. Pedro pacheco Says:

    Muito bom . Calor do fumeiro com a beleza da neve .

  7. Nuno Duarte Santos Says:

    Tempos de qualidade! :o)

  8. Anabela Luís Says:

    Que bonito! Deu para sentir o crepitar da lenha e quase, quase, o cheiro do fumeiro… 🙂

  9. Joaquim Peixoto Says:

    “Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.” Miguel Torga.
    Um grande abraço.
    Peixoto

  10. Joao Maia (@littleguy_jm) Says:

    Tenho saudades de ir passear e fotografar por essas bandas… E tenho saudades do Solar Bragançano… =)

Os comentários estão fechados.


%d bloggers like this: