Bom Ano!

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Em 2012 assistimos ao lançamento de centenas de novos modelos de câmaras fotográficas, creio que a um ritmo sem precedentes na era da fotografia digital. Ou mesmo de toda a história da fotografia.

Um diapositivo captado em 1988. Não havia Photoshop... um desfoque ligeiro, uma chuvada de véspera e a luz da manhã fizeram o efeito.

Um diapositivo captado em 1988. Não havia Photoshop… um desfoque ligeiro, uma chuvada de véspera e a luz da manhã fizeram o efeito.

Quando já achamos que não é possível melhorar, eis que surgem coisas mais sofisticadas, mais capazes, que parecem eclipsar de uma só penada tudo o que lhes antecedia. No plano da fotografia, não se trata apenas de câmaras fotográficas e respetivas objetivas, mas também de todo o software de pós-processamento associado a esta fulgurante era da imagem digital. O ritmo das novidades é tão frenético que chega a confundir qualquer potencial comprador na hora da decisão; e aqueles que acabaram de comprar uma câmara sentem que deitaram o dinheiro fora, poucos meses após a “gloriosa” aquisição.

No meio disto tudo, onde é que pára, afinal, a fotografia? Falo, claro, do seu lado estético e criativo – a genuína, bela, sábia arte fotográfica.

O preto e branco nem sempre funciona bem... tal como a cor. Aqui, os contrastes, a perspetiva  e o momento justificaram, para mim, o discurso monocromático.

Aqui, os contrastes, a perspetiva e o momento justificaram, para mim, o discurso monocromático. Tenho uma semelhante a cor, mas prefiro esta.

Não deixo de sentir uma grande desilusão cada vez que se apresentam imagens extremamente manipuladas como se fossem resultado da inspiração artística de quem as concebeu. Por todo o lado se multiplicam agora fotografias perfeitíssimas, de cores vibrantes, contornos retocados, contrastes surreais: um interminável desfile de artifícios de software, para ser realista. Por outro lado, e ainda com menos trabalho, temos os efeitos “fotográficos” do iPhone ou a moda dos HDR em versão automática. Francamente, só espero que passe – que seja um fenómeno de moda ou de deslumbramento, como aconteceu durante os anos 80 com os filtros arco-íris, névoa/sonho ou céus cor tabaco.

O fundo está um pouco queimado e a roupa do homem suja... lava-se tudo no Photoshop ou deixa-se assim? Por mim, prefiro o realismo da fotografia.

O fundo está um pouco queimado e a roupa do homem suja… lava-se tudo no Photoshop ou deixa-se assim? Por mim, prefiro o realismo da fotografia.

Não é pelo facto de eu ter começado na fotografia pelo diapositivo e pelas revelações a preto e branco em quarto escuro que me vejo detentor de toda a verdade fotográfica. Apesar de inicialmente cético, reconheço inúmeras qualidades à era digital, a quem devo alguns progressos na minha forma de fotografar. Hoje, por exemplo, consigo concluir uma reportagem de forma mais sólida e em menos tempo pelo simples facto de poder visualizar as imagens no LCD da câmara. Mas o que vejo em muitos casos supera a mais fértil imaginação: utilizam-se efeitos digitais só porque estão lá, no software ou na câmara; os autores nem sequer se interrogam sobre a pertinência desses efeitos, se melhora ou piora a imagem, se faz algum sentido. Num paralelo com a fotografia clássica, fazem-me lembrar os que só fotografavam a preto e branco porque “era mais artístico” ou o recurso a câmaras pinhole para captar tudo e mais alguma coisa; qualquer uma destas técnicas pode dar resultados extremamente belos ou apenas gratuitos, sem sentido… é tudo uma questão de critério ou falta dele.

Luz, perspetiva, composição... a, b, c... a fotografia não precisa muito mais do que isto.

Luz, perspetiva, composição… a, b, c… a fotografia não precisa muito mais do que isto.

Vivemos uma época de pouco discernimento: o que nos sobra em bugigangas eletrónicas falta-nos em tempo para aprender a utilizá-las ou, até, para questionar sobre a sua real utilidade. Os franceses têm uma expressão um pouco corrosiva quando aplicada à leviandade artística: n’importe quoi!

Por isso, em matéria de fotografia, o meu voto para 2013 é que haja mais tempo para a cultura visual e para a reflexão artística. Já basta de n’importe quoi!

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8 Respostas to “Bom Ano!”

  1. Ruben Vicente Says:

    Uma vénia ao mestre! Sinto-me muitas vezes sozinho quando faço comentários semelhantes.
    Espero que muita gente de “ouça” =)

  2. Alfredo P.Costa Says:

    M/caríssimo amigo e mestre António, apresso-me a felicitar-te pelo teu oportuno e pertinente mensagem de melhor ano fotográfico! Concordo com este teu alerta, acompanhado de magníficos registos q ja conhecia mas q náo fartam …nem a mensagem q transportam!temos saudades doutro teu projecto na natureza, para qdo?renovo votos ( viste o q te enviei?) de excelente novo ano, abraco Alf

  3. Miguel Vieira Says:

    Assim seja! Bem refletido! Um abraço, António

  4. Natércia Segurado Says:

    Um excelente artigo que diz muitas verdades. Bjos Natércia

  5. Teresa Ogando Says:

    Tendo começado também na fotografia a P&B – revelação e ampliação, feitas por mim – e agora na fotografia digital, com uma Nikon D-60, sinto-me um pouco desiludida com a fotografia, pois agora todos fotografam e são artistas, e quando vejo o que fazem pergunto o mesmo que o António : onde está o sentido estético ? a composição ? o olhar ?
    Bom Ano ! Tenhamos esperança. E que haja cada vez mais Que as pessoas a saberem VER e não apenas a olharem.
    Um abraço,
    Teresa Ogando

  6. Sofia Sampaio Says:

    Apoiado!

  7. Arnaldo Carvalho Says:

    Caro António. Muito oportuna a tua reflexão. Num momento em que muitos milhares pensam que a tecnologia é o mais importante na fotografia, sabe muito bem conhecer posições com as quais nos identificamos. Por mim, já ando, há um certo tempo, a procurar libertar-me dessa ideia tonta de que o material mais moderno é que torna melhores os fotógrafos. lembro-me de uma citação do Korda em que ele dizia mais ou menos isto: …a melhor fotografia faz-se com o coração. Um grande abraço e obrigado por partilhares e nos enriqueceres com o que fazes.

  8. Filipe Morato Gomes Says:

    É um belo desejo para o novo ano, sim senhor. Deve ser (também) por isso que todos continuamos a admirar o teu trabalho. Grande abraço e, claro, boas fotos!!!,

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