Do Duero ao Douro

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Dois países. 11 sítios Património da Humanidade. Uma viagem de 3400 quilómetros pela bacia hidrográfica do Douro. O meu último assignment está pronto e entregue. A exposição inaugura hoje no Porto em plena Cimeira Ibérica.

Numa das cavernas de Atapuerca, um paleontólogo mostra um crânio de Homo heidelbergensis.

Mariano Rajoy e Passos Coelho podem até ser dos primeiros a ver as imagens deste projeto (ver aqui), mas dificilmente terão oportunidade de conhecer os bastidores do trabalho, algo que reservo sempre para os fieis seguidores do The Quality Times.
Pois então aqui ficam alguns episódios desta viagem que, espero, também tenham o dom da pedagogia.

Ávila
Uma vez dei no Porto uma palestra que tinha como subtítulo “Afinal, porque é que não basta fazer boas imagens para se ser fotógrafo profissional?” A resposta encontra-se, por exemplo, no facto de eu ter estado sentado cerca de uma hora, à espera de ser atendido pelo vigário geral do bispado de Ávila. Motivo? A obtenção de uma autorização formal para fotografar o interior de edifícios e bens pertencentes à igreja (boa parte do património classificado, portanto). Sem autorização, não há fotos… é tão simples como isto.

A maior parte das autorizações – como para fotografar na Catedral de Burgos ou em Atapuerca – obtive-as com grande antecedência (algo que obriga o fotógrafo a uma boa organização e o vincula a datas precisas), mas nem sempre se obtém a permissão em tempo útil. Daí eu ter ficado a conhecer bem os vários gabinetes deste bispado.

Segóvia
Após fotografar em Salamanca e Ávila, tinha previsto um regresso a casa. No entanto, as previsões meteorológicas apontavam para a forte possibilidade de neve para os dias seguintes. Mudei de planos. Quando vimos de fotografar igrejas, muralhas, catedrais, praças e pontes, e ainda temos muito mais do mesmo pela frente, a brancura da neve vem mesmo a calhar… sempre dá um toque diferente ao património.

O resultado foi três dias a fotografar o centro histórico de Segóvia que, dadas as circunstâncias, parecia tirado de um conto de fadas. Claro, custou um bocado passar tantas horas debaixo de temperaturas negativas, mas o gozo de ter tomado a decisão certa superou em muito as dores nos ossos e o nariz a pingar.
Felizmente, desde que vivo na Terra Fria Transmontana, habituei-me a trazer na mala do carro as correntes para a neve… era isso ou não voltava tão cedo a casa.

Burgos
Ao fim de tantos disparos, foi com toda a naturalidade que vi surgir pontos e manchas nas imagens, sempre no mesmo sítio, ou seja, sujidade no sensor. Ainda que para muitos fotógrafos isto seja uma tarefa proibida, há muito que aprendi a viajar com um kit de limpeza (líquido e espátulas de uso único). Os fabricantes recomendam que o sensor seja limpo apenas por técnicos especializados… só que eles não estão ao nosso lado sempre que precisamos. Além disso, há que reconhecer, não existe técnico mais cuidadoso do que o dono do equipamento.
Não custa nada, resolve o problema e ocupa-nos parte das insónias típicas de quarto de hotel; basta ter o kit de limpeza, uma lanterna-frontal bem luminosa (que nos liberta as mãos) e baterias carregadas ao máximo (para não correr o risco da máquina desligar, fechando o obturador).

O meu pequeno atelier de limpeza de sensores, num quarto do hotel Cordon, Burgos.

Um outro problema colateral surge quando planeamos fotografar bem cedo. De nada serve programar o despertador para as seis da manhã se chegamos ao carro e o encontramos coberto de gelo. Em invernos muito frios, e nesta parte da Península, há que contar com isto numa base diária (Burgos tem invernos absolutamente polares). A prevenção passa por colocar de véspera um cartão sobre o pára-brisas e deixar o carro estacionado para nascente, num local onde o sol bata logo pela manhã. Já a solução consiste em raspar o gelo do pára-brisas com um pequeno cartão de plástico (que não o VISA Gold). Nunca despejar água fria (porque isso só vai criar uma nova camada de gelo), nem água quente (porque pode fragilizar ou estalar o vidro). Há muito que conheço estes métodos, mas há sempre um dia que me esqueço deles.

Esqueci-me de dizer que devemos usar luvas enquanto retiramos o gelo. A fotografia também exige sensibilidade nos dedos.

Côa
Depois de tanto ver fotos de gravuras rupestres, e tendo eu que regressar ao Côa no âmbito deste trabalho, optei pelo mais seguro: fotografar à noite, com a ajuda de focos de LED. Nada propriamente original, mas sempre bonito. Lembrei-me, no entanto, de uma pequena inovação: um ponteiro laser.
Com isto, podia redesenhar as formas dos animais gravados, algo que remete para os riscos coloridos das técnicas de decalque que os arqueólogos utilizaram durante os levantamentos nos diferentes núcleos do vale do Côa. Com a ajuda de um técnico do Parque, lá estive em longas exposições a ver os desenhos reaparecerem, desta vez com o traço tecnológico do século XXI.

Uma técnica simples, que me ocoreu numa visita anterior ao núcleo de gravuras da Penascosa.

Siega verde
Em Siega Verde, extensão classificada do Vale do Côa (do lado espanhol), voltei à fotografia de gravuras… não de noite, mas durante o dia (há que procurar alguma diversidade). Este é um tema em que os resultados só aparecem com muita persistência… ao fim de muitas tentativas com diferentes tipos de luz.
Feito um reconhecimento prévio, onde verifiquei a orientação solar e o tipo de gravuras dos diferentes núcleos, dediquei algum tempo a refletir sobre como faria as imagens no dia seguinte.
Em Ciudad Rodrigo, onde pernoitei, havia uma festa com muitas diversões coloridas. Fotografei por brincadeira… para relaxar… sem LEDs… sem lasers… sem tripé… apenas com uma compacta. Às vezes é preciso relembrar que as coisas mais simples são as que funcionam melhor. Foi muito terapêutico!

A diversão chamava-se Giga Canguru. Algumas pessoas saíam de lá tão verdes como as luzes.

Porto
Mesmo antes de começar este trabalho, em janeiro, já sabia que o centro histórico do Porto iria ser a minha maior dor de cabeça. Como se fotografa bem um sítio que conhecemos desde pequenos? Como posso eu ser original a fotografar a Ribeira, a Sé, a ponte D. Luís, a praça do Infante, a estação de S. Bento e tudo o mais incluído no perímetro classificado pela UNESCO?
Ao fim do primeiro dia, só me apetecia atirar ao rio… esse mesmo Douro que há dois meses, da nascente até à foz, era tema do meu olhar. Para enganar a alma, enquanto esperava pelos minutos mágicos do crepúsculo, fiz uma foto aos teleféricos que passavam sobre as caves de vinho do Porto.

Gostei da foto… mas não encaixava no trabalho.

Palácio da Bolsa: tinha a composição, tinha a perspetiva; faltava apenas o pianista que era suposto vir ensaiar dentro de uns minutos…

Mas este post já vai longo. Muita coisa teria ainda eu para falar destes 6 sítios e dos outros 5 que constituem o Património da Humanidade na Bacia Hidrográfica do Douro. Mas nada melhor do que deixar a exposição falar por mim, assim que estiver aberta ao público em geral (informarei sobre datas e locais). Para já terão de se contentar com estas fotos de bastidores – as tais que contam coisas que Coelho e Rajoy jamais saberão.

Não é difícil fazer 3400 Km num trabalho deste tipo… poucas pessoas sabem que a comunidade autónoma de Castela e Leão é maior que Portugal.

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5 Respostas to “Do Duero ao Douro”

  1. rubenovicente Says:

    Muitos parabéns caro amigo. É realmente um trabalho de outro nível, cheio de aventuras e peripécias, mas que mais uma vez superaste com distinção.

    Abc!

  2. Luís Pinto Says:

    Poder aceder aos bastidores é sempre um grande privilégio, obrigado!

  3. susanadelgado Says:

    Uma história de bastidores que gostei!
    Humilde e despretensiosa como o protagonista.

  4. Nuno Duarte Santos Says:

    Post… de ouro! E, com certeza, uma exposição brilhante. Fico à espera da digressão internacional. Abraço.

  5. Luis Says:

    Parabéns pelo trabalho e desde já o muito obrigado pela partilha, isto de saber coisas que não estão ao alcance do Passos e do Rajoy tem um sabor especial.
    Vou esperar pela divulgação “popular”.
    Abraço a todos

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