When in doubt, get out! (pela enésima vez…)

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Embora os receios dos participantes sejam sempre muitos, a experiência tem-me demonstrado que em dias de chuva vale mesmo a pena sair.

© Maria João Horta. Eis a luz que se obtém logo após um aguaceiro!

Como gosto de relembrar, não há dias maus para fotografar; apenas fotógrafos mal preparados. Desde o primeiro passeio fotográfico que organizei, em 2004, (também ele brindado com um generoso volume de água destilada), sempre assumi que não cancelaria estas atividades em função de previsões meteorológicas consideradas adversas. Mas o facto de resistir ao cancelamento, não quer dizer que não me preocupe com estas questões, bem pelo contrário. Na semana que antecede qualquer saída, debruço-me obsessivamente sobre as tendências do estado do tempo: cruzo informação com diversos sites de referência, tenho em conta as temperaturas máximas e mínimas, o avanço de bolsas de precipitação, a presença ou a ausência de nuvens, cotas de neve (caso se aplique), e até a direção e velocidade do vento – para avaliar qual será a sensação térmica real devido ao famoso wind chill factor.

© Ricardo Sousa. Luz dourada em contraste com um céu carregado. Resulta sempre.

© Helena Marramaque. Rotação do zoom associada a uma velocidade lenta... Um velho truque que surpreende desde que o objeto ou tema seja bem escolhido.

O resultado desta obsessão silenciosa tem sido muitas e boas oportunidades fotográficas, ajudadas pela insubstituível experiência de campo, que complementa na perfeição o que aprendo nos sites meteorológicos. Este conhecimento crescente está na base da relativa segurança com que decido esperar pela luz (em função de uma previsível aberta no céu), ou quando opto por subir a montanha em 200 ou 300 metros… para que a precipitação seja de neve e não de chuva (a temperatura baixa cerca de 0,6ºC por cada 100 metros); já aconteceu alterar um programa no próprio dia, reorientando a captação fotográfica para zonas mais fechadas, pela suspeita de aguaceiros pesados; ou antecipar belas nuvens sobre uma planície com base numa consulta de última hora da informação de radar (que indicava a aproximação de uma frente vinda de oeste).

© Luís Macieira. A mesma casa da imagem de abertura, mas a P&B e com uma composição e perspetiva bem diferentes.

© Joana Nunes. Em dias de chuva, nada mais prático do que fotografar com uma compacta... nem a macrofotografia está fora de alcance.

Por vezes, os participantes olham com desconfiança para estas minhas decisões. E fazem bem, porque nada disto é infalível… tudo se baseia na avaliação pessoal, na experiência de campo e na aposta em obter certo tipo de imagens. E é este último ponto que pode fazer toda a diferença, já que nem toda a gente encara as oportunidades fotográficas com a mesma convicção, e há quem não goste de apostar com as nuvens.

© Domingos Azevedo. O rebento de um salgueiro e a zona húmida que o contextualiza. Há muitas formas de fazer imagens representativas de um sítio.

© Hugo Boleto. A preparação dos campos inundados para a sementeira do arroz é também um campo fértil para o preto e branco: o contraste da luz, a textura da lama, o grafismo do trator... voilá!

Gerir as expectativas de um grupo amplo e heterogéneo é o maior desafio destes passeios, tanto mais que neste capítulo não há previsões que me valham. Para mim, uma fotografia bem conseguida vale bem uma molha no pêlo, sobretudo quando sei que dali a pouco tomo um duche quente, mudo de roupa e saboreio um copo de vinho acompanhado de uma iguaria local. A chuva, lá fora, soará então à melhor das melodias… e já ninguém me tira os momentos mágicos de luz que captei graças a uma certa persistência.

© Paula Rocha. A inclusão de ambas as margens deste arrozal - em primeiro e em último plano - ajuda a emoldurar o perna-longa e o seu reflexo.

© Luis Mestrinho. Algumas pérolas estão reservadas aos fotógrafos que se dispõem a sair nos dias de chuva.

A última edição do passeio ao Baixo Vouga Lagunar provou, uma vez mais, a teoria do “when in doubt, get out” – que, sublinho, se aplica melhor à fotografia do que a outras coisas (se fosse só para ir comprar o jornal, se calhar não arriscava uma saída).
Perante previsões de um fim de semana muito pouco risonho, ninguém se molhou irremediavelmente nem passou muito frio. Vimos cegonhas e garças-brancas num vai-vem para os arrozais, crinas de cavalos ao fundo de túneis de amieiros, um labirinto de canais onde a chuva desenhava círculos concêntricos. Houve até oportunidade para um piquenique num prado verdejante.
Ah, como é bela a primavera!

© Alda Mendonça. Sem nuvens, esta perspetiva seria bem menos interessante. Os dias de céu limpo são muito bons para passear; mas no que toca à fotografia...

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