Duas faces da mesma moeda

by

Quando se encara a vida com pragmatismo, e a curiosidade e o prazer de novas experiências superam a importância do dinheiro ou do prestígio, o resultado pode ser tão surpreendente quanto gratificante.

Um quadro improvável captado por Emília Pires num recanto de sua casa.

Poucos meses haviam passado da minha mudança para Bragança quando recebi um convite invulgar. Uma associação local convidava-me para ministrar um workshop de fotografia para habitantes da pequena aldeia de Portela. Os alunos teriam entre 58 e 85 anos, e era a primeira vez que estariam em contacto com câmaras fotográficas digitais.

A alegria durante um trabalho agrícola. Maria Assunção conseguiu a naturalidade que tantas vezes escapa a fotógrafos profissionais.

Parece fácil, mas é tudo menos isso.
Como se organiza, então, um programa para pessoas que nunca experimentaram conceitos de luz, perspetiva e composição associados à imagem fotográfica?
Como fazer com que os seus dedos robustos – habituados a cavar, amassar farinha e demais tarefas campestres – passeiem agilmente entre os minúsculos e sensíveis botões de uma câmara compacta?
E – antes de tudo – como espicaçar a pouca curiosidade que inicialmente nutriam por este assunto?

Teresa Afonso concentrou-se na sua gata e nas crias recém-nascidas.

O objetivo não se afigurava nada fácil, como ficou provado pelas horas que passei à secretária na tentativa de dosear corretamente uma receita que funcionasse. Volvido este tempo, posso agora dizer que este foi o workshop mais difícil que até hoje enfrentei.

Maria do Rosário mostra-nos a sua casa. Um olhar puro, genuíno, de uma realidade que não é comum ver em exposições.

Os resultados compensaram largamente as preocupações. Pouco a pouco, os participantes – ou as participantes, já que havia apenas um homem – lá foram captando aquilo que a sensibilidade individual lhes apontava. Na maior parte dos casos, as temáticas escolhidas espelhavam o seu quotidiano, estivesse ele contido no sofá e no louceiro lá de casa, numa jarra de flores, no gato de estimação, nos trabalhos da horta ou na visita que os netos fizeram durante o fim de semana. Fotografias espontâneas, puras, de um universo pessoal que só muito raramente chega aos olhos do público.

Os participantes e as suas obras. Foto de Isabel Pinto, co-autora de um livro sobre o projeto Entregerações, da Fundação Calouste Gulbenkian.

Deste enorme conjunto de imagens, resultou uma exposição que, ainda antes de passar pela Biblioteca Municipal de Bragança (com direito a visita organizada para os orgulhosos autores), esteve patente em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian – patrocinadora do projeto Entregerações, do qual esta experiência faz parte.

Mas esta é apenas uma das faces da moeda de que falo no título.
A outra – a minha própria exposição, a decorrer atualmente em Zamora – foi consequência direta desta pequena grande aventura com os habitantes de Portela.
Não cabe aqui explicar os contornos de como isso aconteceu, fica apenas a ideia de que as coisas (aparentemente) menores desaguam noutras (aparentemente) maiores.

Às vezes, a vida presenteia-nos com coisas destas. Um sinal claro de como é bom mantermos um espírito aberto.

A exposição Fronteira Invisível decorre na sala de exposições da Fundação Rei Afonso Henriques, em Zamora.

Anúncios

5 Respostas to “Duas faces da mesma moeda”

  1. istambul5dias Says:

    acho que a descriçao que fizeste de todo o processo torna difícil qualquer comentário. Arrisco: tocante com todos os significados que o termo pode ter.

  2. Miguel Vieira Says:

    O desafio que o este workshop te colocou pareceu-me atingido! Uma experiência interessante do meu ponto de vista. É que estou actualmente a dar aulas de informática num centro de idosos.

  3. Diogo Says:

    A foto da Maria Assunção tá espectacular! 🙂

  4. Raul Pereira da Costa Says:

    Fantástico António! Q experiência!!! abR

  5. Andreia Carvalho Says:

    A história, o post, as fotos… são espectaculares! Fiquei com os olhos cheios de lágrimas com tanta emoção! Concordo que a felicidade está nas pequenas coisas e que para colhermos “coisas maiores” temos que semear muitas “coisas” menores. Parabéns pelo(s) excelente(s) trabalho(s).

Os comentários estão fechados.


%d bloggers like this: