Coisas simples, para variar

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É impressionante verificar como nesta sociedade moderna nos desviamos tanto daquilo que é, de facto, simples ou essencial. E de como o simples e o essencial nos podem fazer, de facto, mais felizes. Para 2012 desejo-vos, pois, a capacidade de saborear as coisas simples.

Quando hoje de manhã fui levar os meus filhos à escola, num belo percurso de 6km, todo ele mergulhado em nevoeiro, gelo e -4ºC, levei também comigo um exemplar do Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry.
Os 30 minutos de espera que separam a entrada de um e outro na escola servem, quase sempre, para ler algo ao mais novo; assim, hoje pude também reler algumas passagens desta bela peça literária.
O Principezinho fala-nos de coisas simples. Coisas que os adultos, no seu mundo complexo e alheado, há muito se esqueceram que existem. Fala-nos da natureza – de plantas, de mamíferos, de répteis… de aves migratórias, até.
E são precisamente as aves que me vêm à memória, fruto de uma experiência em Castela-Leão, onde estive recentemente com 15 participantes para uma edição inaugural de um passeio fotográfico.

Nas planícies a norte de Zamora havia em dezembro mais de 15.000 gansos selvagens, recém-chegados do Norte da Europa para aqui passarem o inverno. Observá-los em tal quantidade faz-nos invariavelmente refletir sobre a espantosa odisseia das migrações e o pouco que sabemos sobre elas. A mim, faz-me também sentir pequenino, quase envergonhado, perante o milenar ciclo vital daqueles seres vivos, num planeta para eles cada vez mais difícil de enfrentar. Como é para quase todos os seres vivos não humanos. Por culpa dos tais “adultos” distraídos de que nos fala Principezinho.

Felizmente, a fotografia é uma tremenda ferramenta terapêutica. Obriga-nos a focar (até mentalmente) nas coisas essenciais: observamos detalhes, avaliamos a luz, estudamos a composição, mudamos a perspetiva (também no sentido lato). Neste processo, pensamos no que vemos e, pouco a pouco, interiorizamos a beleza das coisas simples, que podem também fazer-nos mais felizes.

Prometi a mim mesmo fazer deste post um trabalho pedagógico sobre fotografia e não quero desviar-me em considerações mais ou menos filosóficas.
Avanço então para imagens captadas por alguns participantes durante esse tal passeio a Villafáfila e Zamora, que mas enviaram para um comentário crítico – que segue imediatamente abaixo das fotos, tal como o remeti aos respetivos fotógrafos.
As opiniões são sempre subjetivas, mas espero que as observações que faço sobre as imagens do Alfredo Costa, do Aníbal Marques e do Domingos Matos sirvam um leque alargado de pessoas que gostam de fotografia – e todos os outros que, não sendo fotógrafos, gostam de refletir sobre aquilo que veem.

Bom ano!

© Alfredo Costa - ruína de pombal ao crepúsculo

O crepúsculo é uma altura excelente para pintar com luz artificial. A estas horas, já sem a luz direta do sol, mas ainda com alguma claridade no céu, obtemos um equilíbrio perfeito entre luz ambiente e luz artificial (de uma lanterna ou de uns faróis de automóvel, p. ex.). Os resultados dependem muito do próprio objeto fotografado e do tempo de exposição, que deve manter um equilíbrio ótimo entre os dois tipos de luz. Nesta imagem, ressalta a importância de um outro aspeto: o ângulo de iluminação. De facto, só percebemos bem a textura do adobe e as cavidades onde os pombos faziam ninho porque o foco de luz é praticamente paralelo à parede. Se esse foco fosse apontado no eixo da objetiva, a luz preencheria essas cavidades tornando a imagem bem menos interessante – mais “flat”, por assim dizer. Melhor do que isto, só com algumas nuvens no céu e, talvez, uns 15 minutos mais cedo (para haver uma fusão mais natural entre a luz da lanterna e a claridade do céu). Uma perspetiva mais grande-angular permitiria também perceber melhor o contexto de planura onde o pombal se insere.

© Aníbal Marques - Plaza Viriato, Zamora

As sombras longas da manhã, a textura do pavimento e a folhagem da copa das árvores a culminar o topo da imagem conferem um padrão quase palpável. A luz é suave e muito agradável… apetece estar ali sentado a ouvir o restolhar das folhas. E, qual cereja em cima do bolo, uma pessoa ao fundo num (oportuníssimo) casaco vermelho, a conferir escala ao conjunto e a colocar-nos dentro do cenário (os editores das revistas de viagens sempre me avisaram que a inclusão de pessoas nos locais fotografados ajuda o próprio leitor a sentir-se lá). Quanto à composição e à perspetiva, nada a dizer: estão perfeitas.
Podíamos aqui especular sobre a classificação desta imagem… até que ponto ela é ou não de pendurar na parede (um tipo de desafio que coloco às fotografias que faço). Eu diria que, não sendo uma obra-prima para funcionar isoladamente, é de certeza uma excelente fotografia de Zamora. Caberia em qualquer boa revista de viagens.

© Domingos Matos - pombal circular

Quando a luz é boa, é meio caminho andado para uma imagem conseguida. As bonitas nuvens no céu, o verde vibrante do cereal a despontar de um solo escuro e o volume estático do pombal conferem a esta imagem uma beleza simples mas eficaz. No que toca à composição, o facto do pombal estar ao centro vai de encontro a esta ideia de monólito estático, “aterrado” na planície – perfeito, portanto. A perspetiva ligeiramente compactada daquilo que me parece corresponder a uma teleobjetiva também acaba por beneficiar a fotografia: adensa o verde ralo das ervas, tornando-o num plano visual e cromaticamente mais pujante. A imagem funciona bem como está; se num livro quiséssemos ilustrar os pombais de Villafáfila, esta seria sempre uma boa foto. No entanto, a inclusão de uma pessoa recortada no horizonte (um dos nossos colegas fotógrafos que andaram à volta deste mesmo pombal, p. ex.) conferiria escala à paisagem e ao próprio pombal.

© Domingos Matos - ruína de pombal na planície

Esta imagem conta com uma luz muito bonita. A forma como a ruína do pombal se destaca no cenário deve-se ao contraste entre a luz que o ilumina e a sombra da colina por trás, proporcionada por uma nuvem. Esta situação é altamente favorável em fotografia a cor e, frequentemente, vale a pena esperar que o vento ajude neste caprichoso jogo (imagine-se uma outra foto com sombra também no primeiro plano, deixando o pombal iluminado entre duas sombras). Contrariamente à fotografia anterior, nesta creio que prefiro ver o pombal ligeiramente descentrado (como exemplifico no crop à direita). Penso que assim tiramos mais partido do (subtil) dinamismo da colina, a ondular para fora da imagem. Quanto à perspetiva, uma abordagem mais próxima do solo colocaria o pombal um pouco mais na interseção da colina, recortando-o de forma mais nítida contra o céu.

© Aníbal Marques - pombal e laguna

Mais uma foto com excelente luz. Mas aqui, e ainda que isto corresponda a uma abordagem composicional perfeitamente assumida, custa-me ver o poste com tanta predominância. Pela sua proximidade e tamanho relativo na imagem, quase consegue eclipsar o fundo, que é deveras mais interessante e bonito (o pombal, as aves aquáticas na laguna, as nuvens). Há muito que deixei de ser purista em relação aos postes e fios – não me choca incluí-los na paisagem, se tal não a sacrificar em demasia – mas creio que uma abordagem como a da foto da direita (um crop da original) daria mais força e sentido a tudo aquilo que havia frente à objetiva e que, afinal, é bem representativo de Villafáfila. Ainda que os crops sejam uma possibilidade (e uma tentação) nesta era da fotografia digital e de software de pós-processamento, convém não esquecer que, ao fazê-los, estamos a roubar resolução à imagem. Nada melhor do que fazer trabalhar a ótica na fase de captação, sempre que possível.

© Alfredo Costa - mercado municipal, Zamora

Esta foto do mercado é uma imagem bem conseguida, principalmente pela estrutura recortada em primeiro plano (julgo que de uma paragem de autocarros). A sua inclusão não só tapa parte do céu – aqui, de um azul homogéneo, sem particular interesse – como também ajuda a direcionar o olhar do observador para o mais relevante na imagem: o edifício do mercado. Nem todos os fotógrafos sabem disto, mas o nosso cérebro interpreta em primeiro lugar as zonas claras e focadas de uma qualquer imagem. Ao criar uma moldura escura, a estrutura em primeiro plano “afunila” o olhar para o edifício iluminado com uma bela luz de fim de tarde. Na fotografia em espaço urbano, particularmente quando se tenta captar edifícios emblemáticos, a fuga ao cliché consegue-se muito com recurso a perspetivas invulgares. Uma outra colega nossa, captou esta mesma fachada refletida numa poça de água.

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3 Respostas to “Coisas simples, para variar”

  1. Carla Ramos Says:

    Como sempre post’s interessantes e didácticos!
    Parabéns em especial ao Aníbal Marques que conhecemos e que nos prazenteia os olhos com belas imagens (apesar do poste de electricidade 🙂

  2. sofia Sampaio Says:

    Excelentes fotos e ensinamentos!
    Dá vontade de participar no próximo workshop.

  3. Balbina Says:

    Os teus passeios fotográficos continuam a deixar-me de água na boca. Ainda por cima, estas belas imagens , condimentadas de simples palavras.
    Ainda não é desta. Com pena minha!
    Grande abraço tb à Ana.
    Bj à Mariana e Luís

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