O cordeiro e a oliveira. Uma história de Natal

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Esta história tem início em Espinho num dia de inverno, com a oferta de uma oliveira num vaso por um casal amigo. A prenda de aniversário tinha como intenção que a árvore, de não mais que 50cm e copa arredondada, fosse trazida para Bragança e plantada junto à casa, então em construção.

Mas a pequena oliveira havia ainda de passar ali várias estações, na varanda do apartamento, assolada pelo ar marítimo, atacada por uma praga de insectos, votada ao desleixo com que habitualmente trato as plantas, das quais só me lembro quando noto que estão desesperadamente a precisar de água. Mas nem por isso nos era menos estimada, a oliveira que queríamos ver crescer e frutificar em Bragança.
Quando chegou a altura da mudança, o vaso entrou no camião juntamente com os haveres mais frágeis. No entanto, havia tanto que desencaixotar e arrumar, que a oliveira no vaso continuou durante mais um outono e um inverno, agora no deck em frente ao escritório onde ocasionalmente a podíamos ver coberta de neve.
Até que a chegada da primavera impôs, finalmente, a escolha de um sítio definitivo onde a arvorezita pudesse ganhar raízes e atingir altura suficiente para nos dar sombra. Mas quis o acaso que essa fosse também a primavera em que um cordeiro rejeitado pela mãe encontrasse abrigo provisório cá em casa.

Durante as primeiras semanas, voltámos à rotina de preparar biberões (desta vez com leite de ovelha em pó!), de despertar ao som dos balidos esfomeados da cria, de planear saídas de acordo com os seus horários de alimentação, até de a deixar adormecer ao colo.

Em breve, tínhamos companhia nos passeios pelas redondezas, uma ovelha a balir quando os nossos filhos se deixavam ficar para trás, e um pequeno monstro devorador de todas as plantas tenras a que conseguisse deitar o dente. E é aqui que voltamos à oliveira, também ela cada vez mais desfolhada pelo apetite incontrolável do pequeno ovino. De nada valeu a muralha de ramos e paus que tentei erguer à volta da árvore; parecia que quanto mais tentava barricar a oliveira, mais o cordeiro arranjava forma de lá chegar. Até que um dia se deu o inevitável: já autónoma, a ovelha regressava para junto do rebanho onde nasceu, deixando no nosso prado uma planta careca, sem uma única folha.

Recusando fazer o funeral à oliveira, trouxemo-la para dentro de casa. Alguns amigos que nos visitavam, hesitavam em afirmar se se tratava de um bonsai, uma escultura, ou apenas mais uma excentricidade nossa, aquilo que viam em cima do frigorífico. A verdade é que, apesar de rodeados por árvores, nos afeiçoámos muito àquele pedaço de natureza-agora-morta, de copa redonda e ramos perfeitos.

Recentemente, a oliveira voltou a transformar-se. Um toque de tinta branca, umas bolas coloridas feitas de lã de ovelha (pareceu-nos justo, dado os contornos desta história), e aí está ela, de novo, uma bela árvore: um símbolo da amizade que perdura e vence adversidades; um híbrido entre um cordeiro e uma oliveira; uma exótica árvore de Natal, …o que quiserem. Para mim, é sobretudo um belo objecto, que me inspira e alegra os dias quando entro na cozinha pela manhã.

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11 Respostas to “O cordeiro e a oliveira. Uma história de Natal”

  1. diary.in.waiting Says:

    Feliz Natal e Bom Ano Novo, cheio de pequenas alegrias, pois é disso que o mundo é feito !
    Teresa Ogando

  2. Paulo Gaspar Ferreirra Says:

    Olha! As Azeitonas são muito estranhas na vossa terra. São alucinógenas?
    Proponho uma imediata revisão taxonómica para este ser (que me perdoe o meu amigo Linneu): Magicæ Olea Olivelha.

    Beijos e Oh-Oh-Oh !

  3. Nuno Duarte Santos Says:

    É uma bonita história para uma oliveira.
    Fez as delícias do pequeno cordeiro, serviu de modelo para fotógrafos e agora ajuda a celebrar mais um Inverno e um novo ano que nasce! E está mais bela que nunca! Bom 2012.

  4. Paulo Aguiar Says:

    Cá em casa também tenho uma multifunções. Infelizmente não é uma oliveira, é uma impressora… hehe. Mas gostei da história da oliveira radical e cheia de funcionalidades.

    Boas festas

  5. Patrícia Posse Says:

    Bela prosa a revestir uma boa história.

    Obrigada pelos votos de boas festas, aqui ficam também os meus desejos de um Natal muito feliz e um 2012 na mesma senda!

  6. Cláudia Fernandes Says:

    Mais uma história deliciosa da vossa nova vida por terras de Bragança. Desejo-vos um Feliz Natal e espero que no novo ano nos continuem a presentear com as vossas histórias e imagens. Bom 2012!!

  7. Sofia Touzet Says:

    Bela história. Identifiquei-me bastante com aquela parte das plantas desesperadamente a precisar de água………

    Um Feliz Natal para todos!

  8. Anabela Rey Esteves Says:

    Estória de encantar!! Uma delícia, de quem tem a vossa “coragem” de grandes mudanças!!

    Boas festas. Tudo de bom. Oh-Oh-Oh !

    Sorrisos mil

  9. Margarida e André Says:

    Fizestes-me sorrir… de orelha a orelha.

    Um conto de Natal como manda a ocasião e uma oliveira toda fashion para abrilhantar.

    Beijinhos e um feliz 2011 nos vossos sapatinhos, ou melhor, nos vossos quatro pares de galochas! 😉

    M & A (mas ele não sabe que respondi por ele)

  10. Margarida e André Says:

    Ops! 2012 (!)

  11. Miguel Vieira Says:

    Bela história e uma interessante obra de arte!
    Mas também fiquei impressionado pelo detalhe e naturalidade dos tons da mão do António na foto em que tem a bebé ao colo. Um regresso ao velho e bom Fujichrome?
    Um magnífico Natal para vós e também um 2012 cheio de realizações!
    Um abraço,
    Miguel Vieira

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