O tempo, agora.

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Esta foto foi captada poucos minutos antes de escrever estas linhas, às 11h33, a cerca de 800m de altitude. Está de chuva e a temperatura exterior é de 9ºC (igual à máxima de Oslo, para hoje); a humidade relativa é de 98% (como nas florestas do Bornéu).

Não sabia bem o que escrever neste post, por isso pensei naquilo que as pessoas falam quando não têm mais nada para falar (como quando se partilha o espaço exíguo do elevador com o vizinho do 3º esq, logo pela manhã): o tempo.
Como, felizmente, já não vivo num sítio com elevador, e todas as minhas janelas dão para a imagem que vêem acima, pensei partilhar estas conversas do tempo com todos vocês.
Mas não pensem que não tenho nada para dizer. Como sempre, o tempo é só um pretexto para avançar para outras conversas. Por isso, a partir deste canto nordestino vou contar-vos algumas coisas.

Às vezes, o mais importante em fotografia é vencermos a preguiça, a rotina e forçarmo-nos a sair; não precisa ser para muito longe nem temos de gastar muito dinheiro com isso. Basta bater a porta da rua, de máquina ao peito, e damos de cara com o mundo. Um mundo de possibilidades.
No meu caso, e como pretexto para escrever este post, peguei numa Nikon D300, encaixei um vulgar zoom 18-70mm, vesti um impermeável, abri a porta e fui até às árvores do fundo do terreno – umas ginjeiras que agora estão com cores bonitas.
No solo revestido a folhas, reparei que havia várias hipóteses fotográficas… era só uma questão de olhar uma e outra vez, fazendo variar a perspectiva e a composição, ou afastando e aproximando a câmara dos meus objectos fotográficos. A luz era fraca, mas nestes modernos equipamentos contamos com a facilidade de subir o ISO para garantir velocidades de obturador mais rápidas (garantindo fotos nítidas ao mesmo tempo que se evita andar com o tripé às costas).

Desta forma, e como tantas vezes acontece, comecei a ver uma imagem dentro de outra… e mais uma dentro dessa – como é o caso das 2 fotos anteriores. Este processo de destilação visual fez-me lembrar um belo trabalho do fotógrafo americano Jim Brandenburg, publicado em 1997 pela National Geographic: a reportagem com maior número de imagens de sempre dessa revista.

Jim Brandenburg encontrava-se na sua casa no Minesota (rodeada de bosques e lagos fantásticos) para uma espécie de retiro criativo. Após dezenas de anos a fotografar a natureza para revistas e outros clientes, consolidando um percurso profissional notável e obtendo prémios atrás de prémios, sentiu necessidade de pôr à prova a sua real capacidade de detectar uma boa foto. Assim, decidiu fazer apenas uma foto por dia, ao longo de 90 dias… seria este o derradeiro teste pessoal ao sentido de observação e aos critérios estéticos. Nas suas próprias palavras: In autumn I set out to make one photograph – one single exposure – each day for 90 days. I hoped with patience and endurance to renew my vision of the natural world. There would be no second exposure, no second chance. My work would be stripped to the bone…

O número de Novembro de 1997 da revista National Geographic, onde foi publicada a reportagem de Jim Brandenburg. Ontem como hoje, o que conta é o fotógrafo.

Por um mero acaso, durante esse período Brandenburg foi visitado pelo editor de fotografia da National Geographic, seu amigo, que ficou entusiasmado com toda a ideia, bem como com a beleza de alguns slides que já eram visíveis na mesa de luz (não esqueçamos que tudo foi captado em película de diapositivo, logo sem acesso imediato aos resultados). E gostou tanto do que viu que propôs imediatamente que a National Geographic publicasse aquele trabalho.
E é isto que me leva a reforçar a ideia de que a fotografia digital brutaliza, por vezes, a nossa capacidade de análise, de triagem visual, de sentido estético e de sentido de oportunidade. Tudo é fácil, tudo é rápido, tudo é tecnológico… e onde é que isso nos leva? Bem, frequentemente, à banalidade. À inconsistência técnica. À insignificância artística e criativa. É o mal deste tempo, deste tempo de agora – como no título deste post.

Uma só foto por dia, durante 90 dias. Parece uma receita médica, e a verdade é que Jim Brandenburg encarou este desafio como uma terapia.

Mas não deitem as vossas câmaras digitais fora, porque elas não têm culpa. Em vez disso, vistam um impermeável e saiam lá para fora.
Podem não estar no Minesota, podem não estar no Parque Natural de Montesinho (que também tem lobos, corços, veados e os mais belos bosques caducifólios de Portugal), mas saiam na mesma. Deambulem pelas ruas, pelos centros históricos, pela beleza das luzes públicas e dos automóveis reflectidas no asfalto molhado, ao crepúsculo. E se começar a chover de verdade, entrem num café, peçam um capcuccino ou um chá de especiarias bem quente, e continuem a fotografar e a reflectir bem no que estão a fazer.

De regresso a casa, folheiem bons livros, dos fotógrafos que mais apreciam, e continuem a tirar conclusões – como se fossem editores de uma qualquer revista.
E sonhem, porque isso ainda é de borla.

Olhem… parece que desanuviou um pouco.

Bom Outono.

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10 Respostas to “O tempo, agora.”

  1. Mário Vilar Says:

    Brilhante!
    Obrigado e um abraço

  2. João Peixe Says:

    Muito bom António. É mesmo, em todo o lado e tempo há uma oportunidade fotográfica.

    E por causa deste tópico queria partilhar com o António a minha galeria de Macro que foi toda feita aqui no meu jardim de casa, e algumas em casa, caso o António aceite o meu convite.

    Forte Abraço,

    João Peixe

  3. Miguel Vieira Says:

    Muito interessante, António!
    Parece-me que este teu texto foi concebido com o mesmo espírito do processo das 90 fotos mencionado (não havia um objecto específico para escrever/fotografar), o que lhe permitiu também tocar o âmago do processo criativo.

  4. Célia Mota Says:

    Belíssimo! Comecei a ler, sem pretensão de ir até o final do texto e não consegui tirar os olhos do monitor. Até bateu uma vontade de sair pelas ruas de Cuiabá, MT, a fotografar tudo!

  5. Luis Says:

    Essa vista do escritório é priceless

    Ando a ver se descubro essa NG no Ebay, mas não é facil, há verdadeiras pérolas nesses 90 dias.

    Abraço a toda a familia

  6. Carla Ramos Says:

    Adorei o texto, está simplesmente fluido, transporta-nos para a estória, e quando damos conta… queremos mais!! 🙂

    Parabéns!

  7. claudio alves Says:

    São as histórias que ilustram a banalidade da fotografia.

  8. Turma do Vinho Says:

    Antes de tudo preciso expressar que o seu blog está muito bom, assim como seus magníficos posts. Carecia mesmo saber mais sobre isso e você produziu uma grande fonte de conhecimentos aqui. Nunca deixe que a qualidade desse blog diminua, está simplesmente estupendo!

  9. arkana Says:

    Já há tempo que sigo este blog, mas só hoje me senti impelida a comentar… adorei o post. AS cores de outono são lindas!! é verdade que ando meia desmotivada de pegar na minha máquina. Fiquei a pensar na porta a bater 🙂
    Parabéns por este espaço. Beijos

  10. Mª Augusta Romao Veiga Says:

    Epicleto terá dito, e bem, que ” o homem não está impressionado pelas coisas, mas sim pelo significado que lhes atribui”. Quem tem esta sensibilidade de perspectiva para “as coisas” de vida, recria a vida em imagens paradas. é quando a imagem sazonal se perpetua em nós, e podemos retomar as memórias que emergem das imagens! Parabéns pelo vosso trabalho! Para quando Trás-os-Montes?

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