iCan!

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Não tenho iPod, não tenho iPhone, não tenho iPad.
Mas o meu primeiro computador foi um Macintosh.
E Macintosh continua a ser.

Nunca fui muito de ligar a marcas ou a etiquetas, naquilo que elas eventualmente emprestam de prestígio; nem embarco facilmente em modas tecnológicas para acenar ao mundo que sou uma pessoa cool (que até dava jeito, com este calor).
A tecnologia é uma ferramenta e, como ferramenta, é sempre a melhor coisa do mundo desde que sirva os meus propósitos profissionais ou pessoais.
Por isso, em 1995, quando precisei comprar o meu primeiro computador, optei por um Macintosh. Não havia nada de utilização mais fácil, mais intuitiva e de design simultaneamente inteligente e bonito.

Powerbook 150... o meu primeiro computador. Em 1995 isto era design de vanguarda.

Aquela marca, como se veio a provar, não era apenas mais uma marca; ela representa também – e sobretudo – a alma do seu autor: uma pessoa sonhadora, criativa, empenhada.
Às vezes, na história do mundo, aparecem pessoas assim. As lições que tiramos das suas vidas podem ser altamente inspiradoras para as nossas próprias vidas, e é por isso que tenho sempre presente o slogan da Apple: Think different!

1995 foi também o ano em que mudei de rumo. De um trabalho estável, com um bom vencimento mensal e ajudas de custo, atirei-me para a incerteza de uma vida como freelance, movido apenas pela minha vontade de fazer o que gosto, mas sem qualquer garantia financeira – nem pelos cálculos mais optimistas, que eu insistia ver como fiáveis.
Lembro-me perfeitamente do tom em que o meu pai respondeu, quando lhe comuniquei esta minha decisão. Da sua poltrona entoou de forma densa e um pouco carrancuda: “és um sonhador… tu és um sonhador”. Sendo o meu pai um empresário que subiu a pulso, baseando todas as suas opções na enorme vontade de fugir às humildes origens, claro que estas palavras transpareciam um descrédito na minha opção; mas lá no fundo – porque um pai conhece bem os seus filhos –, a mensagem também continha alguma esperança, de quem se habituara a ver, desde sempre, aquele catraio fugir à norma.
Com 26 anos e já casado, não tinha propriamente de lhe dar satisfações ou fazer uma consulta (de qualquer forma, a decisão já estava tomada), mas perante o “pesado” rótulo de sonhador que me colocou, acabei por lhe transmitir um raciocínio… só para o tranquilizar: “pai,… se não sonharmos, nunca atingimos nada”. Acho que a frase caiu bem, porque afinal (embora com objectivos financeiros), esse tinha sido também o princípio orientador da sua vida.

Em boa verdade, de uma forma ou de outra, todos somos fruto de influências. Quando, em 2001, fiz um workshop com o fotógrafo americano David Alan Harvey, ele disse-me que a sua grande inspiração tinha sido o estilo de Henri Cartier-Bresson. A isso, David Alan Harvey juntou ingredientes e temáticas pessoais, que resultaram num novo estilo próprio. E eis que, depois de muitas reportagens para a National Geographic, David Alan Harvey consegue finalmente entrar para a Magnum – a mítica agência de fotógrafos fundada pelo seu mentor (e onde só se entra por convite de outro membro).
E como parte de uma interminável cadeia de passagem de testemunho, em matéria de influências, lá estava eu a aprender fotografia com um discípulo de Cartier-Bresson. Nunca serei um fotógrafo da Magnum, é quase certo, mas o percurso que fiz até hoje dá-me muitos motivos para sorrir. Se não sonharmos, nunca atingimos nada.

E onde é que isto nos leva a Steve Jobs? Bem, ele é a prova evidente de que vale a pena sonhar e lutar pelos sonhos: ousou criar um tipo de computador diferente de tudo o que havia até aí; um computador intuitivo, fácil, brilhante, que me serviu como uma luva numa altura em que um PC era ainda, para muita gente como eu, sinónimo de “Parte Cabeças”.

No fundo, a Apple representa toda a originalidade e irreverência com que Jobs enfrentou a vida. Think different! é o seu maior legado para todos aqueles que sempre encararam o sonho como a mais provável das realidades.

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Uma resposta to “iCan!”

  1. Pedro Brochado Lemos Says:

    Cheguei ao mundo Apple em 2006, com um iPod.
    Fiquei maravilhado com a simplicidade.
    Em Fevereiro de 2007 já estava a trabalhar num Imac e rendi-me à fiabilidade do sistema operativo e à elegância da máquina.
    Em Julho de 2008 abandonei completamente o Windows com um MacbookPro que uso até hoje.
    Em Fevereiro de 2011, um iMac 27″, não por necessidade, mas por devaneio, já que continuo a usar o anterior 24″ em casa
    Pelo caminho o iPhone 1 (na altura, tinha de ser importado e usado com recurso ao jailbreak), depois o 3GS e agora o 4.
    Oferecido pela minha mulher, um iPad 1, que não tem real utilidade, é mais um instrumento de recreio.
    O que mais me marcou em Jobs, não foram tanto os instrumentos (todos eles extraordinários), nem sequer o software (igualmente de grande qualidade) mas, sobretudo, uma concepção da computação integrada, que culminou com o iCloud, trazido à vida no dia anterior ao da sua morte. Digitalizou-me a vida. Todos os dados, em várias plataformas, sempre sincronizados. Música, fotos, video, calendário, correio, contactos, documentos, sempre em boa ordem, à minha disposição, em qualquer lugar, a qualquer hora.
    Pode não parecer importante, mas, ao simplificá-la, melhorou a qualidade da minha vida.

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