A câmara fotográfica é aquilo que fazemos dela

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Quase todas as semanas, alguém me pergunta qual a câmara fotográfica que deve comprar ou o que penso deste ou daquele modelo. Agradeço terem-me em tão boa conta, mas no ponto em que está a tecnologia, quase arrisco dizer que qualquer coisa serve.

É da luz ou do equilíbrio de brancos? É da câmara ou do fotógrafo?

Em primeiro lugar, deixem-me pôr o dedo na ferida.
Uma câmara fotográfica é apenas uma ferramenta; e como qualquer ferramenta, a sua prestação depende da habilidade de quem a opera. Se me dessem para as mãos as melhores ferramentas de carpintaria e me mandassem fazer um pipo, provavelmente não passaria da primeira tábua.
A história já seria diferente se me dessem apenas umas ferramentas medianas e aproveitassem a diferença de preço para me pagarem umas sessões de formação numa tanoaria: podia então chegar à segunda tábua ou até um pouco mais além!

Embora possa parecer mal eu fazer a apologia da formação em fotografia – porque sou parte interessada – parece-me muito pior iludir as pessoas que me consultam fazendo-as acreditar que uma câmara mais cara e sofisticada vai torná-las, de facto, melhores fotógrafos. Eis a crua realidade: não vai.

O olhar e a sensibilidade do fotógrafo não é um software que se compra nas lojas e se descarrega nas máquinas.

Dito isto, e antes que muitos leitores tenham um colapso, tenho de admitir que câmaras melhores produzem resultados melhores. Não na composição, perspetiva ou qualidade da luz (que, obviamente, dependem da sensibilidade do fotógrafo), mas sim em aspetos como resolução dos ficheiros ou fidelidade cromática, dependentes em boa parte do tamanho e qualidade do sensor ou do tipo de processador. O resto – cadência de disparo, focagem, medição de luz, equilíbrio de brancos, ISO, modos de exposição, etc. – é cada vez mais parecido de máquina para máquina, de modelo para modelo. Já nem sequer se verifica o fosso enorme entre compactas e reflexas, porque agora quem manda é a eletrónica – cada vez mais barata, cada vez mais pequena, cada vez mais eficaz.

Captar esta perspetiva rasante de uma placa de gelo com uma reflex teria sido 2 vezes mais complicado. As máquinas mais pequenas estão a ganhar terreno!

Por tudo isto – respondia eu há dias a mais um pedido de informação – creio que o mais importante na escolha da câmara, nos dias de hoje, são os aspetos estéticos e ergonómicos – coisas palpáveis, portanto.
Eu nunca desprezei a beleza de um modelo específico na altura de comprar uma câmara fotográfica. Embora possa parecer um critério algo superficial, para mim o design sempre foi muito importante. Outro critério diretamente relacionado com o design (que não apenas o look) é a ergonomia: os comandos principais estão bem localizados? Operam-se de forma intuitiva? A câmara adapta-se bem à minha mão? É relativamente equilibrada no peso?

Como veem, se calhar não vale a pena partir a cabeça a ler as letras pequeninas das características técnicas… nem dar mais 200 euros por uma cadência de disparo de mais 2 fotos por segundo que o modelo imediatamente abaixo (que já era capaz de umas inimagináveis 8 fotos por segundo!).

Esta imagem, captada com uma Panasonic Lumix GF1, foi ampliada até ao tamanho de 60x40cm.

Recentemente, dei comigo a escolher imagens para uma exposição que terá lugar em Zamora. Para minha surpresa, ao fim de umas horas de trabalho tinha à frente vários ficheiros captados com a Canon G10: uma compacta.
Se parte da explicação advém do facto de eu ter recorrido bastante a esta câmara nos últimos passeios fotográficos (pela facilidade que oferece em demonstrar conceitos técnicos aos participantes e porque, de qualquer forma, nessas alturas não tenho muito tempo para fotografar para mim próprio), a verdade é que mesmo em saídas a solo, esta é a câmara mais leve, intuitiva e prática que possuo. Por outras palavras, liberta-me do peso das reflexas (e respetivas objetivas) e deixa-me mais disponibilidade mental para os aspetos criativos – os tais que fazem a diferença. É um gozo trabalhar com estes pequenos prodígios da tecnologia fotográfica!

Esta minúscula orquídea - aqui numa impressão de 60x40cm - foi fotografada no modo macro com uma Canon G10. Esta câmara consegue focar à distância de apenas 1cm dos objetos.

Mas, claro, não há bela sem senão. O tamanho e tipo de sensor que equipa uma Canon G10 – ou 11 ou 12 – fica ainda a anos-luz da qualidade oferecida pelos que equipam a mais barata das reflexas.
Mas agora pergunto: o que é que vamos fazer com as imagens que exija assim tanta qualidade e rigor? Na maior parte dos casos, a resposta é um desarmante “nada!”.

Para preencher esta lacuna entre compactas (leves e versáteis) e reflexas (com bons sensores, visores óticos luminosos e lentes intermutáveis) surgiram recentemente no mercado câmaras que aparentemente oferecem o melhor dos dois mundos: têm lentes intermutáveis, são pequenas, leves e têm sensores que rivalizam com os de algumas reflexas – em tamanho e qualidade). Esse caminho foi aberto pela Panasonic GF-1, seguindo-a as gerações de câmaras Olympus Pen e Sony Nex.

Como se não bastasse, para atrapalhar ainda mais qualquer decisão, a Fuji lançou a X100 (sem objetivas intermutáveis) e, logo a seguir, a X10 – compactas state of the art, com um irresistível ar retro e uma qualidade de fabrico irrepreensível, “made in Japan”. O sensor da X10 é mais pequeno que o da Panasonic GF1 e similares, mas depois de ver aquilo de que é capaz o micro sensor de uma Canon G10, who cares?
Ah! Esqueci-me de dizer que o preço desta Fuji é mais do dobro das pequenas Canon G – colocando-a na mesma ordem de valor (ou até mais cara) da Panasonic GF1 e similares.

A nova Fuji X10 - uma compacta com qualidade de fabrico imbatível... made in Japan, como dantes.

Chegando aqui, alguns de vocês já devem estar ansiosos para fazer uma pergunta: ó António, deixa-te de tretas e responde objetivamente: se tivesses de comprar uma só câmara, hoje em dia qual é que escolhias?
Bem, creio que me inclinaria para algo como as novas Nikon 1: são bonitas, facilmente transportáveis, devem ter qualidades mais do que suficientes para produzir impressões gigantes, dão para trocar de objetivas e, inclusive, utilizar as que equipam as reflexas da marca (através de um adaptador). O resto, está lá tudo, incluindo a possibilidade de fazer vídeos HD. Ah! e parece que o visor da Nikon 1 V1 tem uma excelente qualidade e cobertura de 100% (poucas reflexas o têm). Ou seja, não sendo uma reflex e não sendo uma compacta, dá-me o melhor dos dois mundos.

Já viu o que faz uma Canon G10. Agora imagine uma destas, com apenas 383g... para quê dar cabo das costas com uma reflex?

A minha segunda opção seria a Fuji X10, pela excelente construção e características, incluindo a possibilidade de fazer macro apenas a 1cm: belissima!

Esta é claramente a direção que o mercado está a levar: câmaras mais pequenas, equipadas com quase tudo que um profissional pode desejar.

Claro que tudo o que digo acima pode ser rapidamente posto em causa, porque se é verdade que as compactas estão a ficar cada vez mais próximas das reflexas, também é verdade que as reflexas estão a aproximar-se das compactas, naquilo que são as suas vantagens inequívocas: o tamanho e o peso.

Mais do que indicar o caminho certo, o objetivo deste post é pôr algumas pessoas a ponderar sobre o sentido de uma compra iminente.

As contribuições para esta discussão serão bem-vindas.

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3 Respostas to “A câmara fotográfica é aquilo que fazemos dela”

  1. João Almeida Says:

    Para mim as Nikon 1 desiludiram-me um pouco, continuo a achar que lançaram uma máquina com medo de roubar mercado às reflex, só assim se percebe que as Nikon 1 tenham um sensor pouco maior que uma compacta e mais pequeno que as micro 4/3 com que pretende concorrer
    (apesar do sensor até nem se portar mal:
    http://www.petapixel.com/2011/09/29/nikon-1-system-sensor-performs-very-well-for-its-small-size). Se é para gastar alguma coisa na casa dos 1000€ mais rapidamente me viraria para uma máquina com um sensor mais com tamanho mais generoso e consequente melhor qualidade de imagem: as fuji x100 ou x10 que o antónio escreveu, ou mesmo uma micro 4/3 como a nova olympus ep-3.

    Quanto à fuji X100 já brinquei com ela alguma vezes, ainda hoje dei um tirinho e é um mimo, mesmo tendo problemas com auto-foco. Para fotografia de rua é um espectáculo, é robusta e adoro os controlos manuais!

  2. Pedro Brochado Lemos Says:

    Não sei quem disse que a melhor máquina fotográfica é a que está connosco.
    A maior parte das minhas fotografias são feitas com uma pequena Leica d lux 5 (que vai comigo para todo o lado e que acho excelente) mas não me importaria de gastar algum dinheiro numa câmara que pesasse metade da minha mk2 (que acabo por usar apenas nos dias santos), que permitisse usar qualquer coisa como 16, 24, 35, 50 e 100mm apenas com duas ou três lentes leves e rápidas (não pedia 0,95, 2 chegava muito bem) e com pouco ruído em condições de luz fraca.
    Por isso, aguardo, com expectativa, mais notícias sobre o rumor segundo o qual a Canon poderia lançar uma mirorless com um sensor ff ou aps-c e com lentes intermutáveis.
    Assim a modos que uma Leica M9/M8, com viewfinder, foco automático rápido, um LCD em condições e um preço decente.
    Era capaz de passar a ser a minha única máquina.
    Nenhuma dos dois exemplos que refere satizfaz as minhas exigências e, por isso, não me convencem.
    O mundo não é perfeito, que se vai fazer…
    Mas lá chegará o dia.

  3. Pedro Brochado Lemos Says:

    Um desafio: tem de fazer um post sobre a o output final das imagens: como imprime para exposição, por exemplo. Fiquei curioso acerca dessas impressões…

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