Bastidores de uma foto

by

Às vezes, perco o rasto a alguns dos trabalhos fotográficos mais exigentes que produzo. Até que um dia, o reencontro inesperado com a tal imagem me faz relembrar todos os passos tortuosos que levaram ao seu sucesso.

Recentemente, durante um workshop que ministrei no Porto, um dos participantes perguntou de súbito: António, esta imagem é tua?
Tratava-se de uma fotografia concebida para o Turismo de Portugal, que agora, no âmbito desse workshop, eu recuperava para ilustrar a distorção óptica comum às grandes-angulares extremas. Acontece, que este participante a tinha visto publicada numa página integral de publicidade na revista britânica Wallpaper. Não fosse este comentário (obrigado, Tiago), talvez eu nunca viesse a partilhar aqui a história da sua concepção.

O número de Junho deste ano onde aparece a publicidade a Portugal

Voltemos então uns bons meses atrás.
Era necessário captar uma imagem de paisagem para a campanha de promoção de Portugal no estrangeiro… uma paisagem que transparecesse Verão, sol, e que integrasse, preferencialmente, uma estrutura hoteleira/arquitectónica apelativa, depurada. Acontece que estávamos no pico de um Inverno particularmente frio e chuvoso, e os prazos não davam muita margem de manobra. Nada que me devesse assustar, no entanto, porque várias vezes tive oportunidade de comprovar que a dificuldade aguça o engenho.
Assim, após centenas de quilómetros de prospecção por locais possíveis, evitando sempre bosques despidos, céus carregados e tantos outros sinais próprios da estação, acabei numa unidade hoteleira no alto da serra de Bornes – por ironia, a tão-só 45 minutos do local onde agora vivo. A paisagem de montanhas estava lá, como também estava o céu azul e a luz quente de fim de tarde… faltava apenas o modelo para conferir escala e ajudar qualquer observador a sentir-se, ele próprio, naquele local.
Uns telefonemas bastaram para que um bom amigo, também fotógrafo (obrigado, Rui), me indicasse uma pessoa que se adaptou ao cenário e às imagens como uma luva. Sandra não é modelo profissional, mas a forma como interpretou as instruções e a coragem com que enfrentou os gélidos 2ºC das sessões mostrou bem a fibra de uma verdadeira transmontana (não se pode ilustrar o Verão envergando um sobretudo… e o espelho de água onde mergulhou os pés ainda estava parcialmente congelado). Obrigado, Sandra.

Imprimi os resultados da repérage, com indicação da respectiva hora. Depois, foi só voltar com a modelo e seguir escrupulosamente as mesmas perspectivas e composições. Quando se trabalha em contra-relógio, é crucial reduzir a margem de erro.

Para algumas perspectivas, utilizei uma escada que trouxe de casa.

Captado que estava um bom leque de imagens, seguindo com rigor de minuto as fotos da repérage, havia ainda um longo caminho a percorrer: a aprovação pelo Turismo de Portugal e, depois, o crivo e as exigências naturais dos criativos da agência responsável pela campanha – quando se fala de fotografia para fins publicitários, dificilmente o trabalho fica acabado com o fechar do obturador.
Após a reunião com o Turismo de Portugal, numa viagem relâmpago a Lisboa (descrita neste post), fiquei mais descansado: uma das imagens servia perfeitamente a mensagem que se pretendia para a campanha. Mas isto era só a bonança que antecedia a tempestade. As exigências dos criativos, em dead-lines quase impossíveis (mas habituais nos meios publicitários) iria colocar-me na teia do software, onde me sinto menos confortável: era preciso acrescentar céu (para adaptar o formato aos diferentes media), tornar a imagem mais quente (para uma atmosfera mais própria do Verão), abrir um pouco as sombras e, por fim, corrigir a distorção óptica, bem visível nos pilares inclinados da cabana que alberga dois jacuzzi.

Acrescentar uma generosa fatia de céu, endireitar os pilares da palafita para 90º e clarear zonas das montanhas e da água foram algumas sugestões devolvidas pela agência de publicidade.

Algumas destas coisas pude fazer pela minha própria mão, mas outras – como endireitar os pilares eficazmente, sem consequências para o resto da imagem – estão longe de ser automáticas ou fáceis mesmo com as últimas versões do Photoshop®. Uma vez mais, valeu-me a ajuda de quem sabe do assunto… por sinal, um familiar de quem nem sequer me lembrei no primeiro momento (obrigado, Marco).

A imagem depois dos retoques sugeridos...

... E a versão final, com um céu ligeiramente diferente.

A fotografia está agora a correr vários países em diferentes suportes, sob o lema “Portugal – A Beleza da Simplicidade”. Não está artificial nem desvirtua o local onde foi captada. Serviu o pedido do cliente e as exigências indispensáveis da agência de publicidade. E teve a virtude de me fazer utilizar todos os recursos que a experiência me vai concedendo: retratar o Verão no pico do Inverno, conseguir uma excelente modelo que afinal não o é, tratar digitalmente a fotografia escolhida mesmo não dominando todas as ferramentas de software.
Bem vistas as coisas, experiência não é apenas conhecimento acumulado… é também – e principalmente – ter amigos a quem recorrer.

Esta minha outra imagem, captada no âmbito de um documentário do National Geographic Channel, também foi utilizada numa campanha de promoção de Portugal que abrangeu 9 países.

Felizmente, alguém reconheceu a fotografia e enviou-me este recorte... de uma revista polaca.

P.S.: Agradeço notícias de quem souber outros paradeiros da foto que fiz para a campanha deste ano.

Anúncios

2 Respostas to “Bastidores de uma foto”

  1. Cap Créus Says:

    Foto esta que se bem me lembro, tinha algum lixo à volta. 🙂
    Um abraço

  2. susana ferreira Says:

    Excelente como sempre… orgulho-me de te conhecer pessoalmente e de ter começado na fotografia contigo em 2008! Bjo

Os comentários estão fechados.


%d bloggers like this: