Viver no campo

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Oito meses passados sobre a nossa mudança para os arredores de Bragança, é altura de fazer um balanço. Muitas vezes pensei fazê-lo antes, mas achei que era demasiado cedo e tudo o que escrevesse seria contaminado pelo optimismo dos primeiros tempos – uma lua-de-mel com o sítio, como alguns amigos apelidavam as notícias felizes sobre a mudança.

Oito meses depois a alegria de viver aqui não amainou, muito pelo contrário, agora que vivemos uma Primavera gloriosa. Por isso este post está impregnado de coisas boas.
Como é então viver no campo para duas almas fascinadas com a natureza e o ritmo das estações?
Viver no campo é aprender que as nogueiras são as primeiras árvores a perder as folhas, no Outono, e que os abrunheiros são os primeiros a florir. É descobrir a localização das cerejeiras-bravas no bosque porque se enchem de flores brancas no início de Abril – e hão-de distinguir-se pelas folhas cor de labareda no meio do dourado outonal.
É acordar com o silêncio profundo das manhãs de neve, adiar a hora de jantar para assistir a um espectáculo de relâmpagos, sentados no jardim, ou embrulharmo-nos em sacos-camas para numa noite de Inverno ficar a contar estrelas cadentes, apontando constelações num céu liberto de poluição luminosa.

Viver no campo é ir buscar os miúdos à escola para ir ouvir a brama dos veados com amigos, é vê-los a sair das aulas trazendo uma caixa com bichos-da-seda, reparar que se esquecem do computador para fazerem pinturas índias com folhas de esteva e ouvi-los a fazer planos para a montagem de um abrigo com ramos.
É dar um passeio de bicicleta pelos caminhos da aldeia e regressar a casa carregados de sacos com cebolas, abóboras e ramos de groselha. É ter vizinhas a bater à porta para nos oferecerem produtos do fumeiro e da horta e permissão para lá irmos sempre que precisarmos. É ter vizinhos que nos vêm ajudar a semear o prado e espreitam pelo muro para nos verem a cavar, com sorrisos complacentes – coisa exótica, assistir aos nossos primeiros passos no uso da enxada.

Só vivendo no campo surgiria a oportunidade de adoptar um cordeiro, que nos segue como um cachorrinho quando saímos em passeios pelos montes. Só aqui poderíamos encontrar raposas à beira da estrada ao regressarmos à noite, observar corços a alimentarem-se num souto depois de um grande nevão, ou ter abutres a sobrevoar-nos a casa. Já para não falar da diversidade de aves que vemos da janela e justificam a presença constante dos binóculos na cozinha.

Viver no campo é ver surgir jardins espontâneos de flores silvestres à entrada da casa, ter um canteiro inesperado de papoilas frente à janela da cozinha, descobrir ginjeiras novas quando se cortam as silvas.
É ficar (ainda) extasiada com os arco-irís depois de uma chuvada intensa, com a forma das nuvens neste horizonte imenso, com a paisagem por onde passo todas as manhãs a caminho da cidade, com a revoada dos estorninhos que se solta dos lameiros quando o automóvel passa.

Quando se vive no campo os velhos amigos já não aparecem para jantar, mas sim para passar dois ou três dias, trazendo consigo boas ideias e uma imensa tranquilidade. Estando aqui podemos partilhar tudo isto, levando-os aos nossos lugares preferidos, para chegar a casa pouco depois com a sensação que estamos de férias.
Avisei que este texto estaria impregnado de optimismo, pois é assim que nos sentimos, a cada dia que passa. Perguntem-me daqui a oito anos se tenho queixas, ou estou arrependida. Mas não se admirem se, nessa altura, ainda continuar a dizer que adoro o cheiro a terra molhada.

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3 Respostas to “Viver no campo”

  1. Márcio Silva Says:

    Olá António e Ana!

    Fascinante essa vossa descrição! Verdadeiramente inspiradora.

    Apenas alguém que realmente ama o local que o envolve consegue escrever de modo tão belo e, simultâneamente, directo; expressando a alegria e o optimismo que a mudança lhe conferiu.

    Fico muito contente por todas essas vossas novas e fascinantes vivências.

    Espero, tão breve quanto possível, poder seguir os vossos passos e evadir-me desta prisão mental e social que é uma cidade litoral…

    Tal como expressa a música de Rui Veloso (Lagos de Cristais):
    “Lá nas serranias
    É outro amanhecer!
    Junto com os dias
    Você vai renascer!”

    Um abraço,

    Márcio Silva

  2. Diogo Says:

    Descrição fantástica! 🙂
    Parabéns pela decisão! 🙂

  3. Paulo Lemos Says:

    Excelente mesmo! É isto que tento explicar todos os dias às pessoas que me rodeiam e que não me apoiam nesta transição. Também ambiciono este tipo de vida e com a maior brevidade possível. Alguns conselhos?

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