O nosso Great North

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Great North é, entre muitas coisas, a designação que os americanos dão aos bosques nevados de New Hampshire ou do Minesota. Na nossa Ibéria, também há um Great North… só que a maior parte dos portugueses ainda não sabe.

A foto acima foi captada às 13h de hoje, nas encostas da Serra da Nogueira, a poucos quilómetros de casa. Parece o Minesota, mas não é.

Toda esta questão do Grande Norte português, ou ibérico, anda a fermentar na minha cabeça desde que nos mudámos, em Setembro passado. Cada uma das quatro estações é aqui muito vincada, o que faz do Nordeste Transmontano um caso verdadeiramente único no país. No que toca ao Inverno, a sensação é ainda mais emocionante… como se estivéssemos, de facto, numa latitude mais setentrional, em paragens bem distantes da nossa. Pelo menos, é isso que sinto – e gosto de sentir.

Esta nossa pequena mas diversa geografia é espantosa.
Ontem viajei até Lisboa para uma reunião de trabalho. Saí de casa, estacionei à porta do aeródromo de Bragança e embarquei às 7h35 num bimotor Dornier de pouco mais de 15 lugares. Uma hora e vinte minutos depois – e uma escala em Vila Real – chegava ao aeroporto da Portela… e às 9h45 estava em pleno Chiado!

Finda a reunião, apanhei o voo de regresso.
Durante a rota, os pilotos lá foram dialogando com as nuvens, procurando o melhor caminho com a ajuda do radar de bordo. Às vezes tinham de ir a direito, ouvindo-se logo de seguida o gelo e a neve fustigarem a fuselagem do avião… mas nada de especial para estes homens do ar, que devem estar mais do que habituados a ver o pára-brisas congelado de um momento para o outro.
A viagem foi até bastante tranquila dadas as condições. É por isso que tenho a maior admiração pelos pilotos deste tipo de aviões. Desde um voo sobre a Namíbia, num pequeno Cessna, até ao hidroavião no Alasca, passando pelo Dornier Bragança-Lisboa-Bragança, várias vezes apreciei de perto o olhar sábio (mas humilde) com que estes homens se sentam ao comando das pequenas aeronaves.

Saí da capital com 15ºC e cheguei a Bragança com 1,5ºC. À chegada, meti-me no carro e segui para casa – a 15 minutos do aeródromo.
À entrada da aldeia fui cumprimentado pelo homem grande do costume (ainda não lhe fixei o nome), quase sempre vestido com um casaco grosso e um gorro justo de malha. Parece mesmo um lenhador tirado de um desses filmes que retrata o Alasca ou os Northwest Territories do Canadá (bem, a verdade é que este também vai à lenha, carvalhal adentro).
O aceno que me lançou fez-me sentir muito bem.
Talvez por acabar de regressar de Lisboa, talvez pela diferença radical na paisagem e no clima, esta foi a primeira vez que cheguei verdadeiramente a casa desde que para aqui me mudei. “Casa”, no sentido mais lato do termo: o lugar onde sinto pertencer; o lugar onde sempre quis estar.
Gosto de viver aqui – no Great North!

Hoje o dia acordou assim… como mostra a imagem acima, captada da cozinha. Os miúdos não foram à escola, porque não houve escolas para poderem ir.
Em vez disso, vestimos as “meias de neve” aos pneus do carro e lá fomos um pouco mais alto, até aos bosques da serra.

Foi divertido passear debaixo de um nevão, mas não encontrámos descidas ideais para o nosso trenó. Valeu o café, o chocolate quente e as bolachinhas que degustámos no interior do nosso versátil snowmobile.

E é aqui que volto ao Grande Norte.
Quando no passado domingo regressava de mais uma edição do passeio fotográfico “Inverno em Sanábria” (por sinal, também brindado com neve) revisitei a região onde brevemente irei orientar o workshop “Ibéria Agreste”.
Aproveitando a réstia de luz, captei algumas imagens que sintetizam a essência desta vasta e esquecida região – o prolongamento perfeito da Terra Fria Transmontana. Na altura, a neve apenas começara a cair… imagine-se agora.

Não, não é uma aurora boreal... mas é bonito na mesma!

A sierra de La Cabrera - um mundo solitário e agreste.

E assim, com esta realidade, vou alimentando o meu imaginário de destinos mais longínquos. É bom acordar com neve. É bom passear em carvalhais silenciosos. É bom ver que ainda há sítios agrestes.

Bem-vindos ao Great North!
(olhei agora pela janela e continua a nevar)

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15 Respostas to “O nosso Great North”

  1. Miguel Vieira Says:

    Ai com que vontade fiquei de voltar ao Great North!

    Há alturas em que nos damos conta de que escolhemos o caminho certo. E claramente o António teve aqui um desses momentos!

  2. Luis Seguro Says:

    Gostei muito! Aliás, não fora o apego pela família (e a sua recusa), já tinha ido viver para um lugar assim!
    Parabéns pela reportagem escrita e fotográfica.
    Luís Seguro

  3. José Martins Says:

    Quanto mais leio as tuas palavras mais me apetece mudar de vida 🙂 Fosse eu um fotógrado de renome…..infelizmente a informática ainda não dá para estas “modernices” 🙂 1 grande abraço
    PS: as fotos estão jeitosas!

  4. Raul Costa Says:

    E q estoria perfeita p ir nanar … E Sonhar c coisas BOAS! Parabens Antonio, obr por partilhares! GAbr Raul.

  5. M Conceicao Araujo Says:

    Continuo a verificar o seu entusiasmo por tudo que o rodeia, ainda bem fico contente por isso. Bonitas fotorafias e obrigada pela partilha

  6. Diogo Says:

    Muito bom! 🙂

  7. Sandra martins Says:

    Muito bom:)!
    Agora com 3 crianças a cargo, cada vez pendo mais no q será verdadeirente importante. Gerir trabalho, escola, actividades deixa pouco tempo para apreciar o que nos rodeia com olhos de ver, deixa pouco tempo para momentos em família no meio da natureza. No entanto, vamos tentando, como a 3 semanas, que fomos para o marao procurar a neve, bebe de mês e meio incluído!! São momentos assim que valem a pena!
    Obrigada por partilhares os teus!

  8. Mário Vilar Says:

    Bom texto e igualmente deliciosas as fotos!
    Grande abraço, António

  9. sérgio Faria Says:

    Trás-os-Montes é o local onde vivi na Infância e, muito sinceramente, é a Terra que mais me puxa!!! O sotaque, o cheiro de terra seca no Verão, o frio seco no Inverno, a carne (ai, a carne!…) e as gentes!!! Gente Humilde, mas firme no pensar. Meus avós maternos estão a viver eternamente lá, virados para uma serra.
    Eu cresci junto ao castelo, a subir uma dantesca nogueira e sua namorada – a cerejeira – junto ao convento onde agora existem duas escolas!
    Não há nada melhor que acordar no dia de natal com neve a cair!
    Como eu adorava ir viver para lá!… quem sabe, um dia, não me dá na vinheta, e parto com minha esposa e filha de malas e bagagens, num dia frio e seco e vou visitar os BARATA!

  10. sérgio Faria Says:

    E quem quiser viajar para Trás-os-montes nesta altura, aconselho ir pela estrada antiga, antes do grande incêndio em 82/83 e para na tasquinha das moelas!…

  11. Rui Cardoso Says:

    Aproveitei uma reunião chata para finalmente conseguir ler este post… Quando os assuntos se tornam realmente aborrecidos, acaba por ser em grande parte pelos great norths do planeta que seguem as minhas divagações (nem sempre fotográficas)… É bom saber que há um aqui tão perto 🙂 …

  12. Luis Says:

    A primeira surpresa foi mesmo a ligação aérea, se pensarmos hoje no que se gasta em tempo, portagens e gasolina justifica perfeitamente ir de avião.
    As imagens são fantásticas, como sempre, e deixam um gostinho especial de conhecer o Grande Norte nesta altura do ano. Quem sabe em 2012.

  13. isabel salazar Says:

    Bem António esta “”aurora boreal”” está tão bonita e o bimotor! a fotografia está linda.
    Bj

  14. Javhlan Says:

    How lucky you are living in the snow. I miss it a lot. Fortunately, we went to England last Christmas and it was great for us who had holidays. Snow everywhere.

    I like your photo of the plane and big snow flakes.

    Bjs todos

  15. Nuno Duarte Santos Says:

    What a Great North!! :o)

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