Quem anda à chuva…

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No que diz respeito à forma como se relacionam com o equipamento, conheço três tipos de fotógrafos:

Na turquia deixei cair um tripé do alto de uma queda d´água. Mesmo assim, sobreviveu para ajudar nesta imagem captada numa mesquita de Istambul.

os “museólogos”, que tratam máquinas e objectivas como peças de joalharia; os pragmáticos, que tiram partido do material e se conformam com os eventuais acidentes; e os “cruéis”, que não se importam de atirar a máquina para dentro do saco, mesmo que este se encontre a um metro de distância. Enquanto reconheço legitimidade àqueles que se enquadram na primeira categoria – porque estas coisas são caras e há que tratá-las com cuidado -, nunca vi grande utilidade em maltratar as ferramentas que ajudam a concretizar o nosso trabalho, nem acho que isso confira um estilo particularmente cool ou profissional, como alguns dos “cruéis” parecem querer transmitir com esta atitude. Também neste caso, é no meio é que está a virtude, e é a esses que dirijo os relatos abaixo: para que encarem os acidentes como algo inerente à prática fotográfica e, espero eu, para que possam prevenir futuras ocorrências com os meus próprios desaires.

Pico, Açores, 1998

Levava ao ombro uma Nikon F801s com uma objectiva 80-200, ao mesmo tempo que segurava na mão uma F4 equipada com outra lente mais “curta”. Quando me baixei para fazer uma imagem, o longo zoom da F801 bateu no chão, partindo o pára-sol, bem como um dos contactos electrónicos que transmite as aberturas à máquina. A partir desse momento, e durante o resto da viagem, deixei de poder utilizar a 80-200 com a F801, mas pude fazê-lo sem problemas com a F4. Moral da história: se viaja com duas máquinas, há vantagens em que os modelos sejam diferentes; tanto quanto possível, utilize as correias de forma curta (quer ao pescoço, quer ao ombro); como norma, utilize pára-sol em todas objectivas: para além da sua função mais óbvia, também protegem os elementos ópticos frontais de qualquer embate.

Deserto do Gobi, Mongólia, 1999

Um passeio de fim de tarde no topo das dunas de Khongoryn Els revelou-se um pesadelo quando, de súbito, se levantou uma violenta tempestade de areia. Nessa altura tinha duas máquinas a descoberto, cada uma com a sua objectiva (uma 80-200mm e uma 20-35mm). Como não queria abrir a mochila para guardar o equipamento (porque tinha lá outras lentes e acessórios), optei por abrigá-lo debaixo da t-shirt, enquanto descia até à tenda da família mongol onde estava a pernoitar. Lá dentro, pude então confirmar o estado das máquinas e objectivas. A areia fina tinha-se infiltrado nos respectivos anéis de focagem, bloqueando-os quase por completo; e mesmo após longas horas de cuidadosa limpeza, não consegui recuperar o seu funcionamento manual. Felizmente, ambas as lentes tinham focagem interna e lá pude continuar a fotografar nos restantes 4 meses que ainda tinha pela frente. Moral da história: as objectivas com focagem interna (IF) são mais caras, mas compensam (para além de serem mais práticas quando se usa um filtro polarizador ou dégradé); quando fotografar em desertos onde ocorrem tempestades de areia, utilize apenas uma máquina de cada vez; nestas circunstâncias, recorra apenas a mochilas ou sacos com fecho.

Zhaoxing, China, 1999 / Kayakoy, Turquia, 2000

Desta vez, acidentes com um tripé; em ambos os casos por rebentamento da correia de transporte – um improviso por não ter conseguido arranjar em Portugal uma solução da própria marca (nem saco, nem correia). Na China, caiu-me de um camião em andamento, enquanto na Turquia foi do alto de uma queda d’água. Numa e noutra situação, o tripé (um Gitzo Mountaineer) pouco sofreu, o que prova que é verdade aquilo que dizem da resistência do material com que é feito. Moral da história: os tripés de fibra de carbono não só são 30% mais leves, como também são muito mais resistentes do que a sua variante em alumínio (embora também sejam 30% mais caros); não tente improvisar correias para este equipamento; se não conseguir da própria marca, compre, pelo menos, um saco com alças.

Sotillo de Sanábria, Espanha, 2001

Estava a fotografar um manada de vacas sanabresas junto a um carvalhal quando vi dois lenhadores atravessar o campo em direcção ao bosque. Corri então para o carro para recolher a mochila onde tinha uma 80-200mm; abri a porta e puxei com rapidez pela pega da parte superior… só que a mochila estava com os fechos abertos. Lembro-me de ver (em pânico, claro) o zoom descrever um voo para logo se estatelar no asfalto, a cerca de dois metros de distância. O caroço da minha garganta depressa de tornou numa maçã inteira… numa meloa… numa abóbora. Contudo, para meu espanto, a lente continuava a funcionar, muito embora com o êmbolo do zoom ligeiramente empenado. Após uma intervenção pouco dispendiosa, hoje mantém-se em perfeitas condições. Moral da história: o material mais pesado é, em regra, mais resistente (porque é feito com metal e não com polímeros); se quer mesmo deixar a mochila aberta, não finja que a deixa fechada: abra-lhe a “tampa” para trás.

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2 Respostas to “Quem anda à chuva…”

  1. Pedro Says:

    Uma pergunta idiota, a este propósito: qual a técnica que usa para trocar lentes?
    Eu, com a correia ao pescoço, viro a câmara para cima com a mão esquerda, saco a lente com a direita, encosto ao corpo, com a mão livre meto a lente no saco com a parte de trás para cima, troco a tampa com a que vou usar, tiro a nova lente e enrosco.
    Mas já não é a primeira vez que estou quase a espetar com uma meio do chão.
    Um destes dias, apanhei uma a meio caminho de se estatelar.

  2. António Sá Says:

    Caro Pedro,
    Não utilizo uma técnica em especial, apenas tento segurar o melhor possível nas objectivas enquanto as troco. Mas como na maior parte das vezes utilizo uma mochila, acabo sempre por apoiá-la no solo durante essa operação; isto é, utilizo a mochila aberta como bancada de trabalho.
    Obviamente, em dias de chuva e neve (e quase sempre, de resto) nunca viro o corpo da câmara para cima, para evitar que qualquer gota ou sujidade chegue ao sensor.
    Um abraço e boas fotos (seguras!),

    António

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