Dreaming in the rain

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Mais um passeio fotográfico se cumpriu este fim-de-semana. Que me lembre, o mais chuvoso de sempre.

Uma dezena de intrépidos fotógrafos acompanhou-me neste nobre desígnio de conhecer o mais agreste pedaço transmontano através da fotografia. Estava frio, estava húmido, estava escuro… estava Barroso. Mas, ao mesmo tempo, a luz brotava dos lameiros e das folhas molhadas, dos líquenes e da casca branca das bétulas, da água dos ribeiros e da chama das lareiras… e do calor das gentes.

E é precisamente graças às pessoas dali que vou onde vou, que chego onde chego. Não soubesse eu que a lenha provém do secular “esgalhar” dos carvalhos (que não mata a árvore), nem apreciava tanto o cheirinho a fumo quando ao crepúsculo entro nas aldeias. Não sentisse eu o frio que faz lá fora, nem me sabia tão bem o arroz dos grelos que alguém foi buscar à horta. Saber escutar a sabedoria local – os termos, as práticas, os caminhos – que povoam qualquer conversa informal, leva-nos muito mais longe, também enquanto fotógrafos.

Captar imagens que traduzam a essência de um local requer muito mais do que um par de olhos. A pertinência de registar um lameiro em toda a sua exuberante verdura ganha mais sentido quando sabemos que aquela paisagem só se mantém a golpes diários de enxada – faça chuva ou faça sol. Deambular pelo mosteiro de Santa Maria das Júnias assumiu outra magia quando no café da aldeia um dia me falaram do padre que se recolheu dois anos no moinho que fica ao lado. Atravessar um dos mais espantosos carvalhais que conheço seria muito diferente se nunca tivesse acompanhado um bom amigo barrosão, de cesta e navalha em punho, na busca de cogumelos para o almoço.

Quanto ao resto, vou alimentando com a minha própria sensibilidade… confesso a minha atracção por bétulas e pelo crocitar dos corvos em manhãs geladas junto ao rio; gosto de apanhar os rasgos de luz dourada logo após o desabar plúmbeo de um aguaceiro (ainda que isso signifique limpar várias vezes a objectiva). Até gosto de ver a minha respiração esvoaçar em temperaturas negativas e da água destilada a escorrer na cara.
Tudo isto me faz sentir vivo!

Não se fizeram muitas fotos? Paciência… mais uma razão para voltar lá uma e outra vez.

P.S.: Quando esta manhã a Ana voltou de levar os miúdos à escola, disse-me que os montes de Sanábria, aqui ao lado, estão debaixo de um belo manto de neve. Há por aí mais intrépidos fotógrafos para o próximo passeio?

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9 Respostas to “Dreaming in the rain”

  1. Joao Maia Says:

    Ha pois !! Eu ja te tinha dito (ou teria sido à Ana ?) que eu e a Ana queremos ir a Sanabria… So estamos a espera que abras as inscricoes… 😉

  2. Ruben Vicente Says:

    Acho que conheço aquele tipo da primeira foto ahah.

    Digo-te, acho que foi dos melhores posts que escreveste no blog, as tuas palavras descrevem na perfeição os sentimentos destes três dias maravilhosos. E mais, o facto de termos apanhado tanta chuva e frio fez com que os jantares calorosos junto à lareira tivessem um sabor ainda mais especial.

    Para Sanabria podes contar já com a minha pre-pre-inscrição =)

  3. M Conceicao Araujo Says:

    Entao ainda foi pior que o ano passado. Gostei da sua descriçao é mesmo sua . Mas esse cantinho tão longe tem alguma magia boas recordaçoes de pessoas tao calorosas.

  4. João Almeida Says:

    Coisa boa destes passeios à chuva: como se tira a máquina da mochila o menos possível olha-se mais e pensa-se mais antes de carregar no botão.

    Então venha de lá Sanabria!

  5. isabel salazar Says:

    Ana e António

    Tudo verdade.
    ADOREI , mesmo com a chuva a zona é MÁGICA e vocês também

    Já disse no fim de semana e reforço que quero ir a Sanábria e portanto 2ª pré inscrição!

    ANTÓNIO, CONTINUE POIS FOI TALHADO PARA ISTO! (e muito mais , claro!)

    Beijinhos
    iSABEL

  6. susana ferreira Says:

    Post fantástico! Também o ano passado fiquei com a mesma impressão e só me lembrava de ter tido tanto frio numa cidade costeira do Norte de Inglaterra onde passei um mês em pleno Inverno… ainda me lembro daquele magusto improvisado na cozinha do João!
    Qnto a Sanábria? Sabes que é um dos 2 passeios que me falta fazer! Portanto, venham as inscrições, já que não aceitas pré-inscrições!

  7. antero gandra Says:

    António,
    Mais uma vez obrigado.
    Foi El Bierzo, foi agora Barroso, mas foi sobretudo a tua simplicidade em nos comunicar o indízivel da beleza, esse teu jeito seguro e calmo de nos transmitir essa tua busca, que partilhas generosamente, que me faz recordar estes passeios.
    Estes lugares, sem dúvida muito bonitos, não seriam vistos de igual forma sem a tua ajuda… nem fotografados, é claro!
    1 grande abraço

  8. Maria da Conceição Guimarães Says:

    Olá António,
    Mais uma vez fiquei deliciada a ler as tuas descrições. Como alguém já disse, parece que foste talhado para isto.
    A ver se é desta. Já vi que não aceitas pré-inscrições, por isso quando abrires as inscrições para o passeio a Sanábria, avisa.
    Um beijo

  9. Luis Says:

    Infelizmente a paternidade recente faz-me passar ao lado de todos os teus passeios, com muita pena minha pois revejo-me em muito do que escreveste por aqui.
    Para o ano, com o petiz mais velho conto ser presença mais assidua, lembro-me sempre de um fotografo que me comentou uma reportagem em Cabo Verde acompanhado pela esposa e pelos filhotes bem novinhos.
    Continuação de bons cliques e até a uma próxima oportunidade.
    Luis

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