8 Vidas

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As inúmeras vivências que fui coleccionando desde que me tornei repórter independente, há 15 anos, enriqueceram-me tanto a existência que costumo dizer que neste período já somei mais “vidas” do que o mais resistente dos gatos. Alguns episódios são felizes, outros menos; muitos são apenas insólitos. Nem todos ficaram registados em imagem, no entanto aqui fica uma mão cheia deles.

Chacim, Julho de 1998: “Tem alguma coisa para mim?”
Foi precisamente assim que num café desta aldeia transmontana fui abordado por um senhor de idade, vestido com um fato escuro impecável, encimado por um chapéu de feltro – como se usava dantes. O meu ar perplexo deixou perceber facilmente que eu não tinha entendido a razão da pergunta, pelo que o empregado atrás do balcão se apressou a esclarecer: “ó senhor Eduardo… esse senhor não é o carteiro”. Só então percebi a origem da confusão.
Na altura, fazia uma reportagem para a revista Evasões sobre a produção da seda em Portugal, e levava comigo um saco fotográfico Domke, de cor bege, que o senhor Eduardo obviamente confundiu com o dos carteiros – que costumavam ser feitos de couro e com um corte bem diferente. A ironia desta história, no entanto, é que o saco Domke é uma criação do fotógrafo americano Jim Domke, que em 1976 se inspirou nos antigos sacos dos… Serviços Postais Americanos.

Parque Nacional de Doñana, Espanha, Janeiro de 2003: a minha bela gola de pele
Para o número de Março de 2003 da edição portuguesa da National Geographic, fui autorizado a fotografar dois linces em cativeiro no Centro de Reprodução de El Acebuche. Um deles, uma fêmea baptizada de Esperanza pelos biólogos do Centro, estava mais habituada à presença humana, pelo que pude captar imagens dentro do cercado. A certa altura, sem que nada o fizesse prever, Esperanza lança-se numa corrida na minha direcção, atira-se para os ombros e enrola-se à volta do meu pescoço; como não sabia exactamente o que fazer, achei melhor ficar quieto, enquanto o fotógrafo e vigilante da natureza Caros Carrapato aproveitava para registar o precioso momento. Contudo, há sempre coisas que as imagens são incapazes de revelar: nesse dia, senti na pele que os linces também ronronam – como camiões, é certo, mas ronronam.



Vila Nova de Gaia, Novembro de 2000: encontrei a bala perdida

Precisava concluir um trabalho sobre o Porto com algumas imagens da Foz Velha. Estava um belo dia de sol e, por isso, optei pela via marginal que liga a cidade de Espinho à Invicta, ao longo de todas as praias deste troço litoral: Granja, Aguda, Miramar, Madalena, Canidelo… fiquemos por aqui. Quando conduzia frente a uma zona habitacional, avistei quatro homens à volta de um carro com armas na mão; a cena era tão insólita (pessoas a passear à beira-mar, cafés de portas abertas) que pensei tratar-se de um grupo de amigos na brincadeira… até ouvir os primeiros tiros. Acabado de passar o local do incidente, vi pelo retrovisor um indivíduo correr o mais que podia na retaguarda do meu carro e, uns 50 metros mais atrás, quatro homens parados a apontarem-lhe pistolas. Primeiro tiro (“que foi isto?”), segundo tiro (“eu não acredito”), terceiro tiro… acertaram-me no carro. Baixei-me, acelerei e só parei dois quilómetros à frente. Em resumo: o bandido foi baleado, um agente foi ferido, e a Judiciária lá acabou por me pagar a reparação do furo na mala.
E eu que nunca quis ser repórter de guerra!



Seul, Coreia do Sul, Outubro de 1999: António Sá de visita à Coreia

No dia seguinte à minha chegada à Coreia, enquanto passeava pela Insadonggil (uma rua do centro conhecida pelas suas lojas de antiguidades) fui abordado por uma equipa de um dos principais canais de televisão do país. A razão? Queriam apenas saber a opinião de um turista sobre a origem e autenticidade dos artigos que aqui se vendiam. A reportagem passou no noticiário principal dessa mesma noite e eu aproveitei para fazer uma foto ao pequeno ecrã que tinha no quarto. Quem ficou boquiaberto foram duas amigas coreanas que constituíam o meu único contacto no país: para elas era simplesmente inacreditável verem-me na televisão no próprio dia em que as tinha conhecido pessoalmente. Enfim, um verdadeiro sucesso mediático, apesar de não me encontrar no meu melhor (nessa altura já tinha às costas quatro meses de viagem pela Ásia). Quanto à enigmática legenda, apenas sei que o meu nome está por ali.

Sanábria, Espanha, Fevereiro de 2006: digi…coisa e tal
Desde sempre habituado a fotografar em diapositivo, com tudo o que isso implica em rigor de exposição, fidelidade cromática, disciplina na composição, etc., a minha adaptação aos sistemas digitais revelava-se lenta e, às vezes, conflituosa. Durante um passeio fotográfico de Inverno, uma das participantes apanhou-me num daqueles momentos embaraçosos, em que me cobri com um anoraque para visualizar melhor no LCD as imagens que tinha acabado de fazer. Estamos na era digital, é verdade, mas para mim esta foto remete ironicamente para os fotógrafos do início do século passado, que se tapavam com um pano escuro atrás das pesadas câmaras, curiosamente também montadas sobre um tripé.

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3 Respostas to “8 Vidas”

  1. João Almeida Says:

    Bem, aquela foto com o lince é mesmo daquelas para ser guardada para a posteridade!

  2. Margarida Pinto Says:

    Grandes momentos!
    A cena da Coreia fez-me lembrar a de uma amiga minha que foi de férias para a Arménia e assim que lá chegou foi convidada para ir à televisão.
    O notíciário dessa noite abriu com a notícia da chegada dela, seguida de uma pequena conversa.

    Bj
    margarida

    http://olho-pessarinho.blogspot.com
    http://mochila-as-costas.blogspot.com/

  3. Pedro Says:

    Maravilhosa, a imagem do lince.
    Momento de uma vida.

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