500 Palavras = Meia Imagem?

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Um dia alguém me disse, em tom elogioso sobre as minhas fotografias, que quando uma imagem é realmente boa dispensa qualquer tipo de informação.

O Vestuário de cor índigo é talvez o que melhor caracteriza a cultura da minoria Dong. As provas de um trabalho recente com essa pasta vegetal azulada estão ainda bem presentes nesta vendedora de patos. (Mercado de Linxi, Guangxi, China).

Tratava-se, portanto, de uma nova maneira de apresentar a velha fórmula “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Ora, naquilo que me diz respeito, o tiro não podia sair mais ao lado, porque nunca fiz nenhuma exposição que não levasse legendas – das alargadas, ainda por cima.
É óbvio que percebo perfeitamente o sentido daquela expressão, mas também entendo que, por vezes, se abusa do conceito; é como se perante uma boa fotografia as palavras já não tivessem poder para acrescentar algo, o que é completamente falso: as palavras têm sempre o seu lugar; dão sentido e força à imagem, complementam-na, fazem o observador ir um pouco mais longe. Nalguns casos até transformam uma imagem aparentemente banal num momento sublime, só porque revelam o contexto ou o detalhe “invisível” e aparentemente irrelevante que suscitou o disparo. Não, uma imagem não vale mais do que mil palavras. Ou, pelo menos, não devemos insistir tanto nesta máxima fotográfica.

O Dongba é uma escrita pictográfica, já extinta, utilizada pela minoria Naxi até ao início do século XX e que constava de cerca de 1.300 símbolos. Hoje, algures na província do Yunnan, não restam mais do que uma dezena de xamãs capazes de interpretar estes documentos. (Dazue, Sichuan, China).

Em vários concursos internacionais, incluindo o World Press Photo, as fotografias devem ser enviadas acompanhadas de um curto relato sobre o contexto em que foram obtidas. Esses relatos têm muito menos que mil palavras, mas frequentemente são eles que desempatam as diferentes candidatas. Também na revista National Geographic, por exemplo, há muitos anos que se dá um relevo especial às legendas que acompanham as fotos. Nestes breves textos há verdadeiras obras de arte literária, que nos obrigam a interpretar a imagem uma e outra vez, fazendo-nos apreciá-la até ao tutano. Falo sobretudo da edição americana, porque as traduções nem sempre permitem manter fiel o delicioso jogo entre as palavras e a fotografia. No número de Março de 1998, que ontem à noite peguei por acaso para uma leitura de cabeceira, deparei-me com uma reportagem sobre Nápoles, com fotografia de David Alan Harvey e texto de Erla Zwingle. Numa foto de dupla página vê-se marido e mulher, ela de cigarro na mão e cotovelo apoiado na mesa, ele um pouco mais atrás de cigarro ao canto da boca. Estão frente a uma mesa povoada de copos e garrafas de vinho abertas, numa situação que evoca claramente um momento relaxado após uma refeição. A legenda acrescenta que ele é taxista e fala também na devoção dos napolitanos pelos prazeres da mesa, terminando com a seguinte frase: “Loyal to their savoury city, the couple fear that the appetite for a better life will drive their two children away”. Repare-se nas palavras savoury, appetite e drive; acham que foram escolhidas ao acaso? Não, antes pelo contrário: apesar de serem aqui utilizadas com outro sentido, remetem com mestria para a gastronomia de Nápoles, para a refeição acabada e para a profissão do comensal fotografado. A “moldura” literária levou-me a apreciar ainda mais a foto. E eu acho esta combinação simplesmente brilhante.

Numa aldeia do Oeste da Irlanda, um homem escolhe ler o jornal no interior de um snug. Este cubículo exíguo, parte integrante de alguns pubs rurais, destinava-se a acolher exclusivamente as mulheres que quisessem frequentar estes estabelecimentos e a sua utilização foi imposta pela igreja católica ainda durante boa parte do século XX. Debaixo do postigo por onde eram servidas as bebidas (ligado ao balcão principal) está um Border Collie, uma reputada raça de cão pastor das ilhas britânicas. (Dingle, Irlanda).

Para este post escolhi três imagens que captei em locais diferentes. Acrescentei-lhes informação em forma de legenda (não tão brilhante, lamento) para que o leitor faça um simples exercício: imagine ver estas fotos sem qualquer legenda e depois de ler o texto volte a avaliá-las à luz dessa informação.
Uma imagem vale mais que mil palavras…
E quantas “imagens” nos valem as palavras?

P.S.: este texto cerca de 500 palavras. Quantas imagens precisaria eu para expor o meu raciocínio?

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2 Respostas to “500 Palavras = Meia Imagem?”

  1. Pedro Says:

    No inverso, a imagem pode ser um excelente pretexto para transmitir uma mensagem escrita, enquadrando-a, reforçando-a, explicando-a ou exemplificando-a.
    Faço muito isso lá por o meu sítio

  2. Nuno Says:

    No entanto, em duelo directo, as imagens ganham… uma imagem vale, seguramente, mais que uma palavra! 🙂

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