Primeiro estranha-se…

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Às vezes, aquilo a que chamamos intrusão visual abre a porta a excelentes oportunidades fotográficas. Basta respirar fundo, reflectir sobre a situação, e corrigir ligeiramente a rota criativa.

Quando entrei na igreja de S. Pedro de Montes, durante o recente passeio fotográfico a El Bierzo, deparei-me com vários santos apoiados no chão, fora dos seus locais habituais. São figuras esculpidas em madeira, muito belas, que nunca tinha visto de tão perto e que podia agora fotografar… ou antes, não podia – porque estavam cobertas por um plástico. A sensação imediata foi de uma certa frustração, mas antes mesmo que Marisol – a guardiã do monumento – me adiantasse que podia retirar o plástico, já eu tinha decidido captar a imagem tal como a tinha visto inicialmente.
Por trás da santa padroeira de Montes de Valdueza, a intensa luz de um foco tornava-se difusa através da fina película plástica, dando àquele quadro um toque mágico. Aquilo que eu via agora na penumbra da igreja era um vulto azulado coberto por um estranho véu de luz. E foi assim que uma situação sem sentido passou a fazer sentido.

Há uns anos, em Serpa, aconteceu-me uma coisa parecida. Durante uma reportagem para a revista Evasões, entrei numa sacristia revestida de azulejos setecentistas. A luz da manhã entrava por um lanternim superior, inundando suavemente o espaço e ganhando intensidade no calcário branco da pia de água benta. A cena tinha tanto de belo como de simbólico… não fosse aquela cadeira de plástico laranja encostada à parede. E porque se tratava de uma clara “intrusão”, decidi afastá-la para captar algumas imagens. Depois, pensei melhor, voltei a colocá-la no sitio onde estava e fiz mais algumas fotografias. E são precisamente estas que eu gosto mais.

Não é que eu advogue os plásticos dentro das igrejas – ou em qualquer outro sítio -, mas às vezes é preciso dar uma segunda oportunidade ao olhar. Um destes dias, falo-vos de postes eléctricos e fios telefónicos.

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4 Respostas to “Primeiro estranha-se…”

  1. João Almeida Says:

    Este momento quase que me passou ao lado, estava entretido com um confessionário decadente a poucos metros desta santa.

  2. Ruben Vicente Says:

    Eu estava lá! Nessa altura tal como o João estava entretido com outra coisa, desta feita os relevos, formas e cores das figuras no altar lateral =)

    E olha que o toque da cadeira laranja ficou genial!

  3. Nuno Duarte Santos Says:

    Adoro cadeiras laranja. :o)
    … E acho que um destes dias vou começar a gostar de postes eléctricos!
    Obrigado.

  4. Paula Rocha Says:

    Eu confesso: eu também estava lá…a observar a “intrusão” de uns quantos fotógrafos em “rituais” pagãos em local sagrado e de culto para tantos e fiquei convicta que a Marisol estaria a pensar “perdoai-lhes Senhor que eles pensam que sabem o que estão a fazer”

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