O Monte

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Era uma vez uma casa singela no final de um longo caminho de terra. Quando se olhava à volta percebia-se que não era a única, mas todas as outras há muito se tinham desvanecido nos tons murchos da terra – vazias, arruinadas. Aquela, no entanto, irradiava a vivacidade da cal fresca, como um orgulhoso farol num mar de colinas douradas.
Nos raros dias de trovoada, quando o céu tinha o peso e a cor do chumbo, o sítio adquiria uma magia ainda maior, com sucessivos arco-íris a pintar os ares, a brancura da casa a fosforescer sobre o fundo cinza das nuvens, e a pele dos sobreiros a avermelhar-se como nunca, corada pela nudez de um corte recente. Passado o aguaceiro, distinguiam-se ao longe duas silhuetas escuras perfeitamente recortadas nas paredes, sondando o horizonte em busca do gado ou de balde na mão a caminho da horta.

A descrição pode parecer idílica ou ficcionada, mas não é uma coisa nem outra; é apenas o retrato da realidade, tal como a vi numa visita aos derradeiros habitantes deste local. Alda e Artur, ambos com mais de setenta anos, recebem-me com visível satisfação e a surpresa de sempre, porque não têm telefone para atender avisos prévios. Encostados a um velho forno exterior, típico nos montes alentejanos, a conversa é posta em dia enquanto o crepúsculo vai lentamente abraçando o céu. A certa altura, Alda vira-se para trás e começa a caminhar energicamente para o interior da casa: “vai comer connosco!”, afirma sem qualquer hipótese de recusa.
Já sentado à mesa, com uma açorda fumegante à frente, o meu olhar concentra-se em todos os pormenores, na medida que a conversa de Alda permite e a ténue luz do petróleo deixa ver. À entrada, pendurada na parede, há uma espécie de grade – espetadeira, como aqui lhe chamam – exibindo um trem de cozinha em esmalte verde-água; são uns poucos tachos, panelas, cafeteiras, fervedores e até um funil que parecem nunca ter sido usados, algo que passa a fazer sentido quando venho a saber tratar-se da mais valiosa prenda de casamento.

Do lado direito da porta, a aresta sobre a lareira mostra também outra curiosidade: um “tecido” laboriosamente trabalhado sobre o qual estão pousados diversos utensílios, incluindo duas tinas de cobre levadas à cor do ouro pelas mãos da dona; a textura deste napperon, bem como as letras que nele estão impressas são, porém, um pouco estranhas. Aproximo-me. Mesmo antes que tenha oportunidade de tirar conclusões, Alda esclarece-me que um dia resolveu entreter-se a recortar sacos de rações, dando-lhes uma nova utilidade. Para onde quer que olhe, há sempre um objecto com uma história, um artefacto caído em desuso, mas aqui em plena aplicação, e gestos seculares que se repetem num arrojado desafio ao tempo. É assim com o ferro de passar, que ainda funciona a brasas, o pote de três patas de onde veio a açorda que agora saboreio, ou o lavatório de esmalte onde todos lavámos as mãos antes do jantar. De repente, sinto-me um visitante privilegiado de um museu vivo e genuíno, mais ainda quando Artur abre uma cortina para mostrar a selha onde conservam a carne de porco em salga. É fácil esquecer, mas sem electricidade não há congeladores.

O aroma a orégãos, suspensos em ramo sobre a minha cabeça, traz-me de volta à açorda e às conversas sobre comidas. Tanto quanto pode Alda cozinha a lenha porque, como diz, o gás é caro e quando se acaba há que trocar a garrafa na mercearia, a quatro quilómetros de carroça. Uma ida à “venda” serve também para comprar vinagre, sabão, levantar a escassa correspondência na caixa postal e manterem-se informados do que se vai passando nas redondezas; já para saber o que vai pelo resto do país e do mundo continuam a confiar no pequeno rádio a pilhas. De vez em quando também recebem notícias através dos vizinhos de fim-de-semana que há uns anos compraram e recuperaram um monte aqui perto. Para além disto, sobra-lhes ainda a ocasional ida à vila, para fazer outras compras ou esperar a consulta no centro de saúde; “quando vou ao médico”, conta Alda, “levanto-me às quatro da manhã para lá estar às seis e marcar lugar”. Sete quilómetros a pé que faz por atalhos na escuridão da noite.

Talvez por passar o dia todo no silêncio dos campos, ou simplesmente por feitio, o circunspecto Artur é de poucas falas. Às primeiras horas da manhã decido acompanhá-lo nesta tarefa de andar a pastorear as vacas, que conhece pelo nome e até chama para acariciar com o inseparável cajado. Os cães seguem-no para toda a parte: deitam-se quando ele se senta, despertam mal se levanta, e quando lhes dá na ideia desatam a ladrar aos bovinos como quem pede um coice para animar o dia. Ao final da manhã, Artur faz trabalhar a enxada nuns terrenos que lhe confiaram junto a um monte abandonado e, minutos depois, junta-se a esposa que veio entre o trigo trazer a cesta com aquilo a que a esta hora chamam de “jantar”. Tirando o que me disse sobre a pacata mula e um bezerro que não conseguiu salvar à nascença, pouco mais fiquei a saber sobre o que vai na alma deste homem.

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Alda, pelo contrário, não pára de contar coisas enquanto se ocupa das tarefas diárias – dar comida aos porcos e às galinhas, lavar a roupa, cozinhar ou regar a horta -, como se quisesse aproveitar a companhia para se desforrar do tempo que passou a sós com os seus pensamentos. Uma vez por semana também coze pão, e uma ao ano dedica-se a caiar o lar por dentro e por fora, apenas com a ajuda de uma escada para chegar às partes mais altas; é assim que este monte se mantém imaculado desde há cinquenta anos, quando veio para aqui viver.
Ao fim da tarde prepara a lenha e vai ao quintal buscar coentros para aprimorar uma última refeição antes de se deitarem; pouco depois, já se ouvem os chocalhos do gado que se abeira da água para matar a sede: Artur está de volta e em breve acenderá as mechas que inundarão esta casa de uma luz quente e bruxuleante… como um farol num mar de colinas.

Quando olho para este casal, não vejo apenas duas pessoas idosas cujas rugas se confundem com as dos próprios sobreiros. Vejo toda a ruralidade de um país, tal como existiu durante séculos; um Alentejo a tão-só catorze quilómetros do litoral e hoje atravessado pela indiferença das auto-estradas. Mas Alda e Artur continuam cá e fazem parte do retrato português do século XXI.

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4 Respostas to “O Monte”

  1. Cap Créus Says:

    E fazem muita falta!
    Abraço

  2. Sónia Guerreiro Says:

    Olá António,

    Já tinha comentado contigo… Esta reportagem é daquelas que mexe com a alma. No meu caso, transporta-me a um passado que afinal não está tão longe assim (mesmo vivendo na era da tecnologia). Ainda consigo sentir o cheiro do candeeiro a ser cheio com petróleo, a comida a ser cozinhada na panela de ferro numa “trempe”… e quando abrimos a porta pela manhã e sentimos o cheiro da terra brindada pelas primeiras gotas de orvalho?

    Beijinhos para vocês e excelente trabalho de reportagem!

  3. Catarina Borfges Says:

    Poesia! Pura poesia….
    Repito o que já foi dito por Sónia Guerreiro: esta reportagem mexe com alma! Por isso, o meu sincero muito obrigado
    Continuação de excelentes reportagens (texto e fotos, claro está!)
    Um abraço de Dublin

  4. Miguel Vieira Says:

    Por esta bela e tocante reportagem perpassa a imensa nostalgia do Alentejo mais recôndito, cenário de um tempo sem tempo, de um estar que é um fim em si mesmo…

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