Não é a rela. É aquilo de que ela depende!

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Durante muitos anos, procurei relas sem nunca as ter encontrado. Acho que são como os cogumelos: nunca os vemos até encontrar o primeiro; depois estão por toda a parte!

Fotogénica e fácil de fotografar... o mais difícil é mesmo encontrá-la.

Isto é uma forma de dizer, claro, até porque algumas espécies de anfíbios são muito vulneráveis às mudanças no meio ambiente… se calhar, já houve mais relas… e as que existem são bem difíceis de observar: penduram-se na vegetação das margens (não é à toa que a espécie se chama Hyla arborea), ficam imóveis à espera de insectos, e têm um verde incrível que, afinal, parece confundir-se com tudo.
Em dois passeios fotográficos recentes, consecutivos e geograficamente muito afastados – Baixo Vouga Lagunar e Douro Internacional – encontrámos relas. Ou antes, alguém as encontrou, porque eu continuo num historial de falhanço com estes bichos. Consegui até a proeza de perder a primeira rela que fotografei (também no mesmo ribeiro do Douro Internacional), graças a uma sobreposição de ficheiros digitais com o mesmo número! É obra!

A primeira que fotografei... para pouco depois perder o ficheiro original!

Mas estas linhas que hoje escrevo não são tanto para sublinhar a sorte que nos coube nestes encontros, ou a euforia fotográfica que se gerou a seguir. Enquanto organizador e orientador destes passeios, foi muito gratificante poder adicionar mais esta peça de conhecimento a todos os que me acompanhavam. Em boa verdade, poucos sabiam o que era uma rela, ou que sequer existia tal anfíbio em Portugal. Em boa verdade, o “sapo” da “banda larga ADSL” não é um sapo, mas sim uma rela. E quem sabe disto em Portugal? E para que é isto importante, afinal?
A conservação da natureza depende em grande medida do conhecimento que os cidadãos têm do meio natural. Quanto mais se sabe, mais se aprecia; e quanto mais se aprecia, mais se defende. No nosso país há um défice tremendo de conhecimento da natureza: para muitos, as aves são apenas gaivotas e pardais; e as árvores, pinheiros e eucaliptos. À custa da nossa ignorância, há zonas de grande biodiversidade que se perdem irreversivelmente (para barragens, para auto-estradas… para mais plantações de pinheiros e eucaliptos) antes que os cidadãos consigam perceber, sequer, aquilo que estão a perder.

© Rosa Furtado - relas ou lobos, castanheiros ou carvalhos... conhecer um pouco mais da nossa realidade natural está nas nossas mãos.

À medida que a população se concentra nas grandes cidades, também diminui o contacto com o meio natural, por isso restam estas incursões de fim-de-semana e férias para aprender coisas realmente importantes sobre a nossa paisagem, os nossos ecossistemas, o nosso território. A fotografia, em registo de diário de viagem ou numa variante mais artística, desempenha um papel importante nesta consciencialização – porque aguça o olhar, afina a perspicácia, e assim… questiona a realidade.
E agora que já conhece a rela, saiba que existe também o sapo-parteiro, o sapo-comum, a rã ibérica, o sapo-de-unha-negra… alguns são comuns, outros raros, outros endémicos da Península… e ainda vamos só nos anfíbios.

O pequeno sapo-de-unha-negra habita as dunas que só agora começaram a ser protegidas... as que sobram.

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2 Respostas to “Não é a rela. É aquilo de que ela depende!”

  1. Miguel Vieira Says:

    Gostei do artigo, gostei muito da foto da segunda foto de relas (com aquele rasgo de luz por entre a zona de sombra) e ganhei umpouco mais de consciência da importância da biodiversidade! Obrigado por este posts semanais dos quais sou fan indefectível!

  2. Cap Créus Says:

    Obrigado por mais este momento de boas fotos e de mais uma lição!
    Abraço

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