Uma coruja, uma raposa… e tudo o que está por trás.

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Por estes dias estarei mergulhado na selecção e tratamento de imagens de um trabalho pedido pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). As fotografias recém-captadas são o complemento de um trabalho de maior envergadura que, após a exposição decorrida na biblioteca central da instituição, verá também a luz do dia nas páginas da edição portuguesa da National Geographic.

Pilhagens de ninhos, envenenamentos, abate ou mesmo mutilações são casos recorrentes que vitimizam as aves de rapina nocturnas.

Na minha última visita à UTAD, na semana passada, fui confrontado com vários animais feridos, debilitados ou, simplesmente, apreendidos a gente sem escrúpulos que insiste em manter enjaulados exemplares da fauna selvagem. Infelizmente, nada disto foi surpresa para mim; o meu já longo percurso de naturalista – ou ambientalista, se quiserem (por cá, o exercício normal da cidadania ainda é visto como algo exótico) – há muito se encarregou de me demonstrar esta triste realidade. Lembro-me de garças vermelhas (uma espécie migratória, não cinegética) abatidas por caçadores frustrados; corujas-das-torres envenenadas por as considerarem agoirentas; raposas, toirões, fuinhas, texugos – não importa – exterminados ou decepados por armadilhas, por “andarem a comer as perdizes todas”!! Por várias vezes me chegaram às mãos alguns destes casos, animais que vinham em caixas de cartão, frequentemente em estado irrecuperável ou quase mortos. Outras vezes, eram apenas denúncias telefónicas ou por carta, que me punham a mim e a outros colegas de associação no encalço de mais alguma atrocidade.

Raposa encontrada junto à estrada. Que aconteceu à progenitora? Atropelamento? abate? Às vezes não se sabe, mas felizmente esta cria está agora em boas mãos.

No nosso país, o cerco à vida selvagem e aos habitats de que ela depende é constante e assume as mais diversas formas: caça, barragens, incêndios, um número crescente de auto-estradas e os famosos PIN (Projectos de Interesse Nacional, leia-se campos de golfe, empreendimentos turísticos e outros projectos para lucro privado). Por outro lado, as dotações financeiras e humanas destinadas à conservação da natureza e ao ambiente são histórica e sistematicamente irrisórias. Por isso, nesta minha última visita à UTAD – dizia eu -, fiquei contente por ver que finalmente começa a haver gente que se ocupa destes casos de forma profissional, no mais amplo sentido do termo. Mais: fiquei a saber que foi investido dinheiro num Centro Hospitalar para Recuperação de Fauna Selvagem, que inclui um pioneiro túnel de voo para recuperação de aves e equipamento de diagnóstico e tratamento.

No Ano Internacional da Biodiversidade, bem como em todos os outros, é importante relembrar que está tudo nas nossas mãos. E que a ignorância e a indiferença são as piores das ameaças.

http://www.countdown2010.net/year-biodiversity

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2 Respostas to “Uma coruja, uma raposa… e tudo o que está por trás.”

  1. Ruben Vicente Says:

    É bom saber que algo anda a ser feito a favor da nossa natureza. Dá raiva ler os primeiros 2/3 do texto com tanta atrocidade.

    Um projecto que achei interessante em Espanha, do qual faz parte o fotógrafo José Ruiz, serve para alertar contra a destruição costeira do país vizinho, fauna e flora que se quer dizimar para complexos turísticos e afins…mais uma coisa a combater.

  2. Cap Créus Says:

    Ainda estamos a anos luz do que se deveria fazer.
    Claro que é muito bom, haver este tipo de iniciativas, pois alguém tem de desbravar caminho, no entanto coimas e prisão para esses assassinos é que nada! Continuam impunes!
    Tanta gente sem emprego e não se poderia colocá-los a trabalhar como guardas florestais?
    Enfim…haja esperança!
    Um abraço

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