Crianças na bagagem

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Quando anunciámos à família e amigos que iríamos viajar para Cabo Verde recebemos reacções entusiásticas… durante os primeiros minutos.

No deserto de Viana, ilha da Boa Vista, após o trabalho fotográfico seguiram-se momentos de descontração.

À medida que desvendávamos as intenções – duas ilhas, três semanas, oito voos -, o sorriso dos nossos interlocutores desaparecia para dar lugar a uma pergunta, cuja resposta já adivinhavam: “Mas… os miúdos… também vão?”.
O nosso inequívoco “Claro!!”, foi recebido com cepticismo. Fomos apelidados de loucos, de corajosos, de ingénuos. Era loucura pensar que iríamos poder trabalhar com duas crianças por perto, ingenuidade considerar que algum de nós se iria divertir em tais circunstâncias, um acto de coragem investir tempo e dinheiro no que só poderia resultar num desastre anunciado.
Essa não era uma viagem inaugural com os nossos filhos. O mais novo tinha um mês quando fizemos as primeiras férias juntos; e a mais velha, acompanhou-nos desde o nascimento nas mais diversas reportagens. Ambos tinham cumprido o primeiro aniversário no estrangeiro, feito o baptismo de voo, de barco, de comboio. Estavam habituados a viajar. E nós com eles.

Uma paragem para um sumo faz esquecer o arranhão no joelho.

No entanto, a viagem para Cabo Verde tinha o sabor de uma experiência iniciática. Seria a primeira vez que iríamos fazer a quatro aquilo que tantas vezes fizemos a dois: sair de mochila às costas, com reservas apenas para os voos e as primeiras noites, deixando que o acaso e a intuição nos guiassem na maior parte do tempo. Só que agora a bagagem também incluía fraldas, brinquedos, mochila porta-bebés, carrinho de rua – material indispensável para os nossos companheiros de aventura: um que haveria de apagar duas velinhas na ilha do Fogo e a irmã com o dobro da idade.
Partimos optimistas, regressámos com vontade de repetir. Pelo meio tivemos momentos em que fomos vencidos pelo calor e cansaço, um atraso que nos prendeu 9 horas no aeroporto do Sal, planos por cumprir. Tudo isso já se desvaneceu, tal como o bronzeado que trazíamos na pele. Na película e na memória de todos nós conservam-se os sorrisos dos amigos que lá deixámos, corridas em praias desertas, o sabor da papaia ao pequeno-almoço, o céu nocturno visto da cratera do Fogo, muitas brincadeiras aprendidas ali.

Os mergulhos nas águas transparentes servem tanto ao trabalho do pai como ao deleite do filho

Cinco anos passaram desde então. As crianças cresceram e a bagagem aligeirou-se. Cada anúncio de uma nova saída é recebido com entusiasmo redobrado. Na agenda que recebeu no início do ano a nossa filha anotou os sítios para onde gostava de viajar: Açores, Islândia, Galiza… Ainda nada foi decidido, a única certeza é de que continuaremos a viajar. Com os miúdos, claro!

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3 Respostas to “Crianças na bagagem”

  1. Prima Says:

    Belo testemunho do que o trabalho, prazer e educaçao podem, juntos, dar a vêr e partilhar. Bela “escrita” onde cada palavra tem o peso do que é ligeiro e simples.
    Partilho totalmente o que dizes.
    (Gostaria de ter uma copia da fotografia n°2 no meu frigorifico para nao esquecer que a familia é esse lugar “psicogeografico” onde o ser humano começa a sua construçao)

  2. Luis Matias Says:

    Concordo plenamente com a vossa opinião e com muita pena de não ter sido chamado de louco mais vezes.
    Aproveitem enquanto os miúdos não têm os compromissos que o caminho para a emancipação traz obrigatoriamente: escola, desporto, festas/amigos, etc..

  3. Luís Seco Says:

    Quero muito que este artigo me deixe inspirado, realmente. Comecei a escrever um site de viagens, precisamente, porque uma criança vinha a caminho. Foi há quase dois anos e não viajámos (para fora de Portugal), desde então. Acima de tudo, porque nos custaria bastante deixar a pequena para trás, por poucos dias que fossem.

    Vamos ver o que acontece. Boas viagens.

    PS: Há já bastante tempo que espero uma data compatível para fazer uma das workshops de fotografia de viagem. Até lá.

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