Viagem à roda de um prato

by

Em viagem, quando nos encontramos com outros estrangeiros, há sempre um assunto que acaba por vir à baila: comida. Por muito boa que seja a gastronomia do lugar onde estamos, todos sentem saudades de um prato em particular da sua terra de origem. No meu caso, depois de cinco meses a viajar pela Ásia, tentando iludir os estufados matinais com a fruta que encontrava, aquilo de que mais sentia falta era de um banal pequeno-almoço de café com leite acompanhado por uma torrada. E na manhã de regresso, a primeira coisa que fiz foi correr para a padaria habitual para me deleitar com um simples galão e pão com manteiga.

Na Mongólia há sempre chá e pão para oferecer a quem chega.

No entanto, considero que a culinária é uma parte importante da experiência de viajar. Provar as frutas locais, ensaiar combinações que nos são estranhas, olhar para uma ementa num língua desconhecida e fazer pim-pam-pum para ver o que nos aparece no prato, faz parte da aventura. Claro que o resultado pode ser surpreendentemente delicioso ou abominável, como a pasta de durian, um fruto que os malaios adoram, mas que só a muito custo consegui engolir, sob o olhar divertido de uma vendedora de Kuala Lumpur. Há também aqueles sabores que primeiro se estranham e depois se entranham: a primeira vez que provei chá salgado em Ulan Bator nunca diria que ficaria a gostar dessa mistura bizarra, e até ansiar por bebê-lo no conforto de uma tenda mongol.
Há dias, a vasculhar num caderno de viagens, descobri uma lista de coisas boas que provámos na China – e foram tantas. Desde um jantar gourmet num restaurante de vanguarda em Xangai a simples legumes salteados com arroz em mercados ao ar livre, sempre comemos muito bem. Como os chineses preparam a comida no momento em que é pedida, esta nunca é requentada. Às vezes é até fresca de mais… Num desses mercados, instalado ao lado de um riacho, vimos sapos gordos a serem apanhados imediatamente antes de passarem para a grelha. Nesse almoço contentámo-nos com batatas fritas, envolvidas numa mistura de amendoim ralado e piripiri… Noutras ocasiões, quando nos encontrávamos em regiões remotas onde ninguém falava inglês, conduziam-nos até à cozinha onde podíamos escolher os ingredientes que queríamos, apontando com o dedo. Passados alguns minutos tínhamos na mesa uma bela combinação de arroz e legumes.

Piripiri a secar na aldeia de Jitang, província de Guizhou, China

Houve também situações embaraçosas, alimentos que por diplomacia eram difícil de recusar. Como a bebida intragável que todas as manhãs nos serviam em casa da família Wang: chá em barra, da pior qualidade, misturado com manteiga rançosa, mas preparado com toda a atenção e cuidado à maneira tibetana. A custo, tentava disfarçar o sabor com dentadas nas batatas assadas nas brasas da lareira, bebendo devagar para que não me voltassem a encher o copo.
Na Mongólia, deparámo-nos uma vez com um festival Naadam, a decorrer numa planície rodeada de picos nevados. Na qualidade de forasteiros fomos convidados para nos juntarmos ao almoço dos notáveis. A refeição consistia em pedaços de carne de cabrito colocados numa lata de metal, intercalados com pedras quentes. A lata era enterrada, e a carne cozinhada assim retinha todo o seu sabor. O resultado era verdadeiramente delicioso. Já tínhamos um bocado de carne na mão, quando vimos sair um pedaço de gordura que nos foi oferecido com gestos cerimoniosos. Foi-nos dito então que aquela era a melhor parte, reservada a convidados especiais. Com o melhor sorriso, expliquei que ainda tinha comida na mão e estava já satisfeita. E lá roí o osso devagar, conseguindo esquivar-me a tão tentadora oferta.
Poderia ainda falar do leite de camela fermentado e transformado numa bebida ligeiramente alcoólica, no queijo duro como pedra e tantas outras situações que dariam assunto para vários posts.
Mas garanto que mil vezes trocaria o conforto de um bom pequeno-almoço para estar em qualquer sítio do mundo, a viver uma viagem em pleno. Se isso implicar mais uma chávena de chá, que venha então. Com ou sem sal.

Anúncios

2 Respostas to “Viagem à roda de um prato”

  1. Ruben Vicente Says:

    Belas experiências. Já tive o prazer de provar o chá com manteiga e até nem desgosto. Há certas coisas que vi na tv que acho q não consigo mesmo comer, mas lembro-me de uns doces tailandeses que os locais adoram…e a minha mãe também, que durante várias semanas conseguia ficar mal disposto do estômago só de me recordar do seu sabor.

    No fundo, a comida é também uma forma de penetrarmos noutras culturas e um ponto essencial de uma boa viagem.

  2. Joao Maia Says:

    Eu nunca provei, mas pela descrição imagino que o melhor teste à nossa capacidade de degustar pratos tradicionais de cada local seja Hakarl (carne de tubarao putrefacta), na Islandia… Depois de se conseguir comer isso, acho que qualquer coisa marcha… 🙂

Os comentários estão fechados.


%d bloggers like this: