Livres como o vento

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Munido de excertos de diários de bordo, cartas e notas soltas, compilados num livro que encontrei na biblioteca de um amigo, na ilha do Faial, segui as pisadas de inúmeros navegadores que fundearam no porto da Horta entre 1817 e 1984. Apesar de decorridos quase dois séculos desde os primeiros relatos, estava determinado a captar imagens que os pudessem ilustrar.

Joshua Slocum, 1895 (primeiro velejador a dar a volta ao mundo em solitário): cedo na manhã de 20 de Julho avistei o Pico aparecendo por cima das nuvens por estibordo da proa. Terras mais baixas apareciam ao longe à medida que o Sol dissipava o nevoeiro matinal e ilha após ilha surgiam. Apenas aqueles que viram os Açores do convés de um barco compreendem a beleza da paisagem do meio do Oceano.

Num final de tarde encontrei um velho lobo do mar sentado no cais da marina. Rudolf Krautschneider tinha mais anos de oceano do que de terra firme… e era checo, vinha de um país sem mar. Esta era apenas uma história que acabara de nascer de outras. O que me levou a aproximar de Rudolf foi a sua fisionomia, que cabia perfeitamente numa descrição de 1981 sobre um outro marinheiro mítico – o velejador solitário Marcel Bardiaux. Se Rudolf consentisse, eu podia ilustrar esse relato com a sua própria imagem e assim continuar a minha odisseia visual.

Cintu e Nena Viladomiu, 1981 (velejadores espanhóis): centos de milhares de milhas debaixo dos seus pés, todos os ventos do Globo no seu rosto. Saúda a bombordo e estibordo sem conhecer todos, mas sabe que é conhecido por todos. Aproxima-se do Peter e recolhe o seu correio e vai-se embora com a sua capa caindo dos ombros…

Pouco depois de lhe fazer o retrato, eu, a Ana e a nossa filha estávamos já no interior do seu veleiro a tomar o café mais intragável das nossas vidas (excepto a pequena Mariana, que obviamente escapou). No caos confinado da embarcação entrámos numa conversa animada com este homem, que nos levou a viajar por todos os oceanos e portos, tempestades e bonanças que constituíam a sua vida até àquele dia.

Julia Middelmann, 1984 (construiu o próprio iate e navegou sozinha desde a Austrália até à Europa): aliviada por saber que a caça à baleia já não era praticada nas ilhas, pude apreciar, de consciência mais tranquila, à continuação da arte do scrimshaw, tradicional entre os marinheiros. E, mesmo, tentá-la sob a orientação de um dos actuais artistas. Othon da Silveira é, como o Peter Azevedo no famoso Café Sport, um verdadeiro amigo dos iatistas de passagem.

E sobre Rudy ficámos a saber realmente coisas espantosas: acabara de chegar da Gronelândia e Labrador e seguiria agora para as Canárias, Mauritânia ou Casablanca, ainda não sabia; escreveu 7 livros – o último dos quais intitulado Around the World in a Feather of a Penguin – e realizou vários filmes sobre as suas andanças pelo mar; construiu com as suas próprias mãos um veleiro que é uma réplica da embarcação “Victoria”, de Fernão de Magalhães.
Findo o meu trabalho, tinha nas mãos cerca de dez imagens para ilustrar outros tantos relatos. Mas podia continuar por aí fora… sem nunca me cansar. Como disse um dia o fotógrafo Chris Noble: There’s no dividing line between adventure and photography.

Reese Palley, 1976 (velejador e autor do primeiro artigo sobre a superstição criada à volta das pinturas): há oito ou dez anos os iatistas de passagem sentiram um estranho impulso para escreverem o seu nome aí e, assim, deixarem um traço de imortalidade atrás de si. Assim o primeiro nome, perdido no passar dos anos, foi pintado na muralha. À medida que os meses passavam outros marinheiros foram compelidos a pintarem os seus nomes. Um homem mais empreendedor do que os outros desenhou um retrato rústico do seu barco perto do nome na muralha. Depois disto o florescimento surgiu rápido e furioso.

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4 Respostas to “Livres como o vento”

  1. José Miguel Vieira Says:

    Belíssimas fotos, principalmente a última! Estarei enganado ao presumir que ainda fora slides? Um abraço!

  2. António Sá Says:

    Tens razão, caro Miguel, os originais são mesmo slides.

  3. margarida Says:

    Adoro a última!

  4. Raul Costa Says:

    Fantástico … (como sempre ;-)!!!
    Abr
    rc

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