Em que mar navegas agora, capitão?

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Por aqui habituámo-nos a viver com tanto, que nos damos ao luxo de queixar por nada. Talvez este texto vos faça sentir uns afortunados. Escrevi-o em 2007. A experiência foi em 2005.

Pouco depois desta foto encontrei um náufrago da vida.

A noite acabara de se instalar nas vielas decadentes do “casco antiguo” quando um vulto se abeirou de mim. Era um homem de trinta e muitos anos, com ar esgotado e olhos esbugalhados, não de susto ou admiração, mas da magreza que lhe fazia sobressair todos os ossos da cabeça – do topo do crânio ao maxilar inferior. Mal o vi, sabia que estavas prestes a ser confrontado com algo, mas não sabia exactamente o quê, e a sensação não era muito confortável.
A zona velha da cidade do Panamá é conhecida pelo crime e violência praticada por gangs que disputam droga, armas, ou qualquer outra coisa que entendam valer a pena. Com o cair da noite e o patrulhamento militar das ruas a diminuir abruptamente (logo após a partida do derradeiro autocarro de turistas) a segurança simplesmente desaparece, e os panameños que aqui vivem ficam entregues à sua própria sorte, até que o amanhecer os venha resgatar. Durante o dia, entre avisos de militares armados e olhares sinistros que me arpoavam de todas as esquinas, já tinha sentido “na pele” o risco iminente de fotografar nestes bairros. Agora que a noite estava aí, o meu ar visivelmente forasteiro e a parca iluminação não me davam nenhuma garantia no percurso dali para fora, quanto mais para fazer registos fotográficos.

No meu caderno, fiz esquemas para evitar as zonas mais perigosas. Te matan y te quitán las cameras, avisou-me um polícia.

E foi neste contexto que aquele homem me abordou, numa voz grave e profunda: good evening, ao que retorqui com o mesmo cumprimento. Ele continuou: bon soir, e eu respondi, igualmente, bon soir. Deste pequeno jogo saiu-lhe uma pergunta que tinha tanto de admiração como de ansiedade: Ah! Vous parlez français, monsieur? A partir deste momento, decidi ouvir pacientemente a sua longa história, escutando e falando sempre em francês. Num cenário de casas decrépitas e lixo espalhado por cães escanzelados, disse-me ser o capitão de um navio que zarpara meses antes do Haiti com destino a um porto no Pacífico; a carga fora entregue, mas a embarcação estava sem solução à vista, fundeada há já duas semanas ao largo da capital do Panamá, com vários dos seus companheiros, respectivas mulheres e doze crianças em situação desesperada. O armador desinteressou-se pelo barco e, sem carga a bordo, não havia nada a que pudessem deitar mão para trocar por comida. Para piorar a situação, as autoridades locais não lhe haviam concedido uma audiência, nem sequer a embaixada de França, para onde este homem francófono se virou depois. À medida que esta história me era desenrolada, conseguia detectar nela partes verdadeiras e outras menos credíveis. Para mim, era claro que se tratava de uma fuga planeada, mas só quem não conhecesse a situação caótica do Haiti é que não entendia a necessidade absoluta de escapar com os seus a um destino muito mais sombrio do que andar a mendigar ajuda. No entanto, uma das partes mais verosímeis deste relato dizia respeito àquela figura óssea e abatida que agora tinha diante de mim: muito provavelmente, ele era o capitão do navio. Não havia dúvida que o seu trato delicado, a forma como falava e os conhecimentos que demonstrava – até quando lhe disse que era português – sustentavam solidamente as suas afirmações e uma formação bem acima do que será a média no Haiti. Outra parte eventualmente verídica era a de que, infelizmente, havia muita gente aflita e dependente das diligências deste homem. Para ele, pelo facto de poder finalmente ser entendido em francês (numa zona onde apenas se comunica em espanhol), eu representava uma relíquia inesperada, e notei que se agarrava cada vez mais a mim como uma tábua de salvação. Mesmo assim, mantive algumas reservas e aguardei que me pedisse uma ajuda em dólares.

Jovens sem recursos ocupam os edifícios abandonados.

Para meu espanto, quase que a custo, perguntou se o podia acompanhar a uma mercearia próxima para lhe comprar uma lata de leite em pó. “As crianças não têm comido nada; ninguém me ouve, não sei mais o que fazer”. Decidi então oferecer-lhe três latas grandes de “NIDO”, não sem ele me ter interpelado várias vezes até à caixa: tem a certeza, senhor? tem a certeza?
Dias mais tarde encontrei-o na mesma zona, cruzando um parque em passo apressado. Assim que me viu, aproximou-se com um grande sorriso e os olhos marejados: vous êtes un ange, monsieur… vous êtes un ange. Contou então como achava que a sua sorte tinha mudado desde o momento em que me encontrou. As crianças tinham comido todo o leite em pó à colherada nessa mesma noite e, no dia seguinte, foi finalmente ouvido pelas autoridades portuárias que o encaminharam para um potencial empregador. E era de lá que vinha agora, naquele passo apressado, quase eufórico: acabara de arranjar trabalho para ele e para todos os outros tripulantes numa propriedade agrícola do interior; não iam receber nenhum tipo de pagamento, apenas alimentação, alojamento e autorização para lá ficar com as crianças… E, no entanto, estava radiante – como se de repente lhe tivessem oferecido um futuro risonho.

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Uma resposta to “Em que mar navegas agora, capitão?”

  1. José Miguel Vieira Says:

    Que realização deves ter sentido quando verificaste os resultados da tua simples mas eficaz atitude…

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