Istambul, um telemóvel e a boca doce

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Tenho muito boas memórias de Istambul. E da Turquia, em geral.
E como agora se celebra aí a Capital Europeia da Cultura, decidi dar o meu contributo.

Cada vez gosto menos de fotografar algo que não tenho tempo de compreender. Às vezes, as coisas são tão avassaladoras que tenho medo de as enfrentar com a máquina, de cometer uma injustiça enorme e ficar apenas com uma colecção de clichés que perpetuam a imagem pobre (quando não mesmo errada) de um determinado local. Istambul é para mim um desses casos.

Estive lá por duas vezes, sinto-me particularmente descontraído a deambular pelas ruas e até lá tenho bons amigos – que me alojaram nos epicentros de Taksim e Beyoglu -, mas o universo desta cidade é tão grande e complexo que nunca tive coragem de fazer qualquer trabalho fotográfico “a sério”. Em vez disso, refugiei-me em apontamentos com o telemóvel, sem qualquer preocupação de colocar uma reportagem aqui ou ali.

As imagens que podem ver neste post saíram da minha última passagem. Já o disse várias vezes: fotografar com um telemóvel é muito terapêutico, porque dependemos mais do cérebro, dos olhos e do coração do que da tecnologia ou dos parâmetros técnicos… a abertura é um estado de espírito local e a velocidade é a que o próprio momento determina – sempre sem pressas.

Foi assim, numa simples e descontraída caminhada, que nasceram as fotos do reflexo da mesquita Sultan Ahmet, dos pescadores no Bósforo, dos gatos com a mesquita ao fundo, da oficina de néons e tantas outras.

O facto de lá ter ido leccionar um workshop, concedeu-me ainda o privilégio de espreitar as gavetas da Leica Gallery onde estão arquivadas algumas imagens de Ara Güler.

De vez em quando perguntam-me se não me arrependo de ter captado imagens apenas com o telemóvel. Em boa verdade, não. Em sítios destes, é aí que encontro uma certa liberdade e paz de espírito… e ainda sobra espaço na bagagem para trazer a caixa de gomas que me ofereceram.

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5 Respostas to “Istambul, um telemóvel e a boca doce”

  1. istambul5dias Says:

    É isso, o principal é a cabeça com tudo o que tem dentro: saberes, emoções, memórias, afectos. E os olhos estão na cabeça.
    Por isso, estas fotografias feitas com um telemóvel são excelentes fotografias. Que viva Istambul!

    Manuela Matos Monteiro

  2. Ruben Vicente Says:

    Ainda hoje pensei em algo parecido. O limite entre o fotografar por prazer, divertimento e simples captura de imagens para mais tarde recordar, e o stress e ansiedade da procura constante de boas fotografias quando o resto do mundo nos passa ao lado.

    Uma coisa que gosto de fazer é pegar na máquina e numa só lente de focal fixa e ir dar uma volta assim, é uma excelente terapia.

  3. margarida Says:

    Ó Toni! Cada vez melhor!

  4. Says:

    Depois de ter estado em Istambul, de ter ouvido e lido tanto sobre esta maravilhosa cidade, o teu texto e as fotografias deixaram-me a reflectir sobre a liberdade e paz de espirito. Conciliar tudo isto, é a verdadeira Arte. Um abraço de sol para o António e Ana.

  5. Rui Cardoso Says:

    Este fim de semana vi-me fazer uma coisa estranhissima, estava a jantar depois de ter atravessado o Algarve de Bicicleta e peguei na segunda maquina mais compacta lá de casa que já não era usada há tempos… Fiz dois disparos e arrumei-a de volta… Sem que percebesse, minutos mais tarde tinha pegado no telemovel e pareciam saltar imagens de todos os lados…

    Às vezes olho para algumas imagens feitas com o telemovel e fico com pena de nunca as poder vir a imprimir em 1x1m ou mais como as minhas imagens de médio e grande formato, mas a verdade é que a ideia de que o que estou a fazer vai ser impresso um dia ou até só ocupar 15MB no disco do computador faz com que nunca chegue a fazer certas imagens…

    Sinto que o telemovel acaba por ser libertador exactamente pela falta de compromisso sobre o que vai acontecer posteriormente com a imagem… É o resultado de uma vontade do momento, da necessidade de me abstrair de uma conversa de trabalho mais aborrecida, ou do simples facto de estar ali…

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