Tempo de reencontros

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Hoje ao fim da tarde – insh’Allah – chegarei à paisagem que podem ver na imagem abaixo.

Yousef, na foto, deu-me lições sobre fósseis e ensinou-me a atravessar as dunas com o mínimo de esforço.

Saí do Porto na passada sexta para mais uma incursão neste belo pedaço do Sara, a escassos quilómetros da fronteira com a Argélia. Neste périplo marroquino acompanham-me 15 fotógrafos, seguramente na expectativa de aprenderem algo mais sobre fotografia de viagem. No entanto, aquilo que (secretamente) mais ambiciono, enquanto orientador deste tipo de actividades, não é tanto ver as pessoas crescerem em aspectos técnicos e criativos, mas antes “ensiná-las” a deambular de olhos, ouvidos e, sobretudo, mente bem abertos, no seio de uma cultura simultaneamente tão distante e tão próxima da nossa Lusitânia. Se isso for feito através da fotografia, tanto melhor – porque é a minha arte, e porque sempre considerei a máquina fotográfica a melhor ferramenta de navegação alguma vez inventada.

Hummm! Azeitonas! Afinal até temos coisas em comum.

No que toca a países islâmicos, o preconceito tem-se agudizado nos últimos anos, por parte dos povos ditos desenvolvidos ou ocidentais. Na maior parte das vezes, é a ignorância a falar. Não sabemos nada sobre o Islão; não queremos aprender nada sobre a cultura árabe, berbere ou islâmica – esteja ela em que longitude estiver – nem tão-pouco sobre as tantas e tão boas coisas que elas emprestaram a esta Ibéria católica. Tanta gente vai a Marrocos e regressa tão vazia como no dia em que partiu, à excepção do tapete e do candeeiro em ferro forjado que hão-de enfeitar o hall lá de casa.
A televisão pouco ajuda… e os jornais e revistas – mesmo as de viagem – não vão muito além da banalidade (quantos bons artigos sobre estas culturas podemos ler com regularidade?); a informação, quando existe, é redutora, e com demasiada frequência é simplesmente errada. Já ninguém quer saber… são países de terroristas, de talibãs, confunde-se Turquia com Tunísia, Paquistão com Afeganistão… é uma geografia que não interessa.

A poucos metros desta mesquita, cruzam-se mulheres em mini-saia, de cabelos soltos, com outras de lenços e túnicas negras.

Mas eu não estou aqui para falar de “política”. Apenas quero relembrar que só experimentando se pode conhecer verdadeiramente. E ainda não encontrei melhor forma de conhecer do que viajando – seja em Trás-os-Montes ou na Mongólia… na Andaluzia ou no Irão.
Sabem, há uma doçura especial nesta universal condição humana. Afinal somos todos muito iguais, só que estamos sempre a querer esquecê-lo. É algo que não passa na televisão nem sai nos jornais. É uma notícia rara, apenas perceptível aos que sintonizam o canal inteligência ou frequentam o quiosque da humildade.

Fatima mostrou-me o kasbah onde vivia com a família. Fê-lo sem querer nada em troca... e com um sorriso inigualável.

A propósito: Caderno Afegão e Babel.

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2 Respostas to “Tempo de reencontros”

  1. Ruben Vicente Says:

    Pronto, conseguiste-me deixar ainda com mais vontade de visitar Marrocos e entrar e experimentar um mundo diferente do nosso.

  2. istambul5dias Says:

    Acho que este texto na sua aparente simplicidade é um manifesto contra os estereótipos que conduzem à discriminação. É também um manifesto contra a ignorância que por natureza é vaidosa.
    O mais extraordinário ganho de uma viagem é, através do contacto com o que é diferente e do conhecimento conquistado, podermos mudar para melhor. Não adianta sairmos do nosso lugar se mantivermos na viagem os nossos sítios físicos e mentais de todos os dias. A disponibilidade para conhecermos novos sabores, novos costumes, novas formas de ser e de estar é que nos permite, de facto, viajar.
    O texto do António é prova disso. Ainda bem que o escreveu.

    Manuela Matos Monteiro

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