And Now For Something Completely Different

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Às vezes surgem-me trabalhos assim: têm tanto de sedução criativa como de suicídio profissional.

Gel de agarose com produtos de PCR - tipificação de microorganismos... não faço ideia o que quer dizer, mas esteticamente resulta bem.

São uma espécie de bomba relógio que vou tentando desarmar, e que tanto podem pender para um desfecho positivo como negativo. Essencialmente, os detonadores são de três tipos, quase sempre presentes em simultâneo: recursos criativos, volume de trabalho e prazo limite. Se corto o fio “recursos criativos” para cumprir o volume de trabalho e o prazo limite, a bomba rebenta; se ignoro o tic-tac do “prazo limite” para não cortar o fio “recursos criativos”, a bomba rebenta; resta o volume de trabalho, que é um tipo de detonador intocável, porque me disseram para não mexer aí.

Afinal, nestes laboratórios assépticos também há cor... mas o toque mágico da lanterna dá outra graça à imagem. Mas é preciso tranquilidade para nos lembrarmos disto. Só que às vezes tranquilidade é coisa rara.

Durante o assignment fotográfico no âmbito do documentário “Portugal: um outro olhar” (National Geographic Channel, 2007), achei várias vezes que ia morrer com a bomba nas mãos. Da parte do NGC pediam-me: queremos imagens que evidenciem o teu estilo pessoal, mas que também espelhem o estilo National Geographic. A outra parte envolvida, o Turismo de Portugal, pedia: queremos uma abordagem clássica, mais institucional, mas com um toque de modernidade, que mostre um Portugal de vanguarda. E de que estamos nós a falar, afinal? Dos 13 sítios classificados pela UNESCO como Património Mundial. E qual é o prazo? cerca de 24 dias non-stop. E não há mais nada a ter em conta? Bem… grande parte desse tempo terás “apenas” de funcionar como protagonista do documentário, diante das câmaras de filmar (no time for photos, sorry), e depois tudo acabará com um exposição – fotográfica – no Mosteiro dos Jerónimos! “Exposição fictícia… só para o documentário”, perguntei a medo. A resposta não se fez esperar: “Não! Será uma exposição real, com o melhor do teu trabalho captado nesses dias!”. Pensei 2 segundos, engoli em seco e aceitei. O resultado final é algo de que me orgulho bastante, mas há que dizer que durante a execução deste trabalho passei uma tarde em Sintra estendido na carrinha da produção em estado de coma criativo e, mais adiante, em Alcobaça, saí moribundo do mosteiro directamente para um consultório médico: ansiedade incontrolável, pois claro.

Centro de Ciência Animal e Vetrinária da UTAD... no trabalho para o National Geographic Channel não fiquei no estado deste cão, mas andei lá perto!

Uma proposta recente veio colocar-me num cenário parecido, só que numa temática completamente nova. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) pedia-me uma abordagem criativa à investigação científica que ali se produz. É para uma exposição, diziam-me. E foi!

Concentrado de zircões à lupa binocular... parece um planeta, não é? E a ideia era criar essa ilusão. Inclinei ligeiramente a objectiva da G10 para criar uma sombra. A imagem escolhida pela UTAD foi, no entanto, a versão perfeita, sem sombra. Os artistas são uns incompreendidos.

Acontece que o volume de trabalho ultrapassou em muito os meus pesadelos mais delirantes; a matéria-prima criativa (provetas, microscópios, batas brancas, etc.) representavam o menos polido de todos os diamantes da estética fotográfica (por sinal, o departamento de geologia também foi abordado); e os prazos… bem, nem quero falar disso (digo apenas que a expressão DEAD-LINE ganha aqui todo o sentido!). O resultado foram mais de dois milhares de disparos, que culminaram numa exposição de 46 imagens – algumas das quais ilustram este texto.

Identificando genes de tolerância ao alumínio em cereais... quando vejo o trabalho que tenho pela frente e o tempo para o fazer, às vezes os meus cabelos ficam assim: em pé como estas folhas verdes e grisalhos como as raízes.

Na fotografia, comecei pela natureza. Durante o meu percurso profissional já fotografei em discotecas, no deserto, em fábricas, debaixo de água; músicos, minorias étnicas, circuitos integrados, fósseis; e agora, pipetas, placas de Petri, reagentes… porque não? Invariavelmente, a meio dos trabalhos mais exigentes sempre achei que era louco para aceitar desafios naquelas condições. Mas, há que reconhecer, trabalhar sob pressão também tem a perversa virtude de nos aguçar o engenho criativo.

Ao fim de alguns dias na UTAD, lá encontrei um pouco de natureza... in vitro, é certo, mas senti-me em casa!

Não foi à toa que escolhi uma frase dos Monty Python para título deste post. Acham que eles são normais? E, no entanto, vejam onde chegaram. Sem querer estabelecer comparações presunçosas, gosto pois de pensar: que a loucura esteja sempre comigo.

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