Quantos pixeis tem a alma de uma fotografia?

08/02/2010 por António Sá

© Paula Aguiar - É a neve a cair ou são as almas a subir?

Como fotógrafo, é muito gratificante ver que as actividades que organizo dão belos frutos.
Falo das imagens dos participantes, que me vão surpreendendo com novas formas de olhar aquilo que eu pensava conhecer bem.

© António Lousada - Uma poça gelada é um universo de possibilidades.

Não me canso de dizer que a boa fotografia é, sobretudo, saber olhar. A técnica também deve lá estar, claro, mas sempre que uma imagem me chama a atenção, não faço questão de saber se foi captada com prioridade à abertura ou em automático, ou qual o equilíbrio de brancos utilizado. Uma boa foto é uma boa foto. Ponto.

© Rui Aguiar - E quanto à perspectiva, há quem olhe para cima...

© José Miguel Vieira - ...e há quem olhe para baixo!


As imagens que alimentam as galerias dos passeios, no nosso site, provêm de uma diversidade incrível de pessoas, faixas etárias, conhecimentos técnicos e equipamentos. Qual foi captada com uma compacta e qual corresponde ao olhar de um amador experiente? Tem a certeza que consegue acertar? Pois olhe que estas páginas estão minadas de surpresas.

© Carlos Silva - Quem disse que à noite não há luz?

Este post vive do olhar atento de alguns dos participantes no “Inverno em Sanábria”, realizado no último fim-de-semana de Janeiro. Como sempre, o grupo era heterogéneo, e eu não escolhi quem iria estar aqui representado. Aqueles que tiveram tempo para enviar imagens, estão cá (e realmente eu não dei muito tempo!).

© Isabel Neves... Ou a paisagem como espelho do próprio nome.

© Afonso Silva - Uma outra interpretação do carvalhal.

Nesta confusa e cruel era de pixéis e bytes, é reconfortante saber que o que conta, acima de tudo, é alma da fotografia, e que a tecnologia não substitui a pertinência do olhar. Não sei se estão a ver…

© Jaime Silva - San Ciprián, como num postal de outros tempos.

BOM ANO!

04/01/2010 por António Sá

Pois… até podia ser Oslo outra vez, mas não é! A imagem abaixo foi captada no passado dia 1 às 7h30 da manhã, numa latitude bem menos setentrional…

Latitude: 42º; temperatura: -2ºC. Um pouco de imaginação e ajuda meteorológica levam-nos muito longe.

Até parece que a casinha de estilo nórdico está ali só para enganar, mas na verdade trata-se da povoação espanhola de Galende, em Sanábria. O nevão desta primeira madrugada acabou por converter-se numa excelente forma de iniciar 2010: as nuvens deram lugar a algum sol e partimos em família – botas, gorros, trenó e tudo o mais – para uma caminhada matinal por campos e bosques.
Como páginas em branco à espera de serem preenchidas, esperamos que os dias deste ano sejam passados da melhor maneira. Por aqui, vamos tentar que a fotografia continue um óptimo argumento para vos tirar de casa ou do escritório, por isso, como o passeio fotográfico a Sanábria já se encontra esgotado – e há quem tenha ficado de fora -, decidimos realizar uma segunda edição (curiosamente, antes mesmo da “primeira”).

Como diz o nosso amigo Navia: que a neve seja o melhor presságio! BOM ANO!

... E não esqueçam de manter um certo espírito infantil.

OSLO!

13/12/2009 por António Sá

Desta vez viajámos a quatro. Há muito que esta família merecia uns dias assim… sem pensar em nada que não fosse caminhar na neve, patinar no gelo, encher os olhos, o paladar e a alma com o bom gosto escandinavo… luzes quentes ao fundo de jardins brancos, maçãs reluzentes vidradas de açúcar, chocolate quente e cheiro a lenha no conforto de uma casa de madeira.

A cidade preparava-se para receber Obama, e não resistimos a espreitá-lo numa exposição que decorria no Nobel Peace Center, cumprindo a admiração especial que temos por este homem. O original chegou poucas horas depois de descolarmos da Noruega.

A Mariana fez o seu melhor para captar esta bela pose.

Um grande obrigado ao Nuno e à Xana por nos terem adoptado estes dias neste seu novo país de adopção.
FRED BEGYNNER MED ET SMIL: A PAZ COMEÇA COM UM SORRISO.
FELIZ NATAL.

And Now For Something Completely Different

13/12/2009 por António Sá

Às vezes surgem-me trabalhos assim: têm tanto de sedução criativa como de suicídio profissional.

Gel de agarose com produtos de PCR - tipificação de microorganismos... não faço ideia o que quer dizer, mas esteticamente resulta bem.

São uma espécie de bomba relógio que vou tentando desarmar, e que tanto podem pender para um desfecho positivo como negativo. Essencialmente, os detonadores são de três tipos, quase sempre presentes em simultâneo: recursos criativos, volume de trabalho e prazo limite. Se corto o fio “recursos criativos” para cumprir o volume de trabalho e o prazo limite, a bomba rebenta; se ignoro o tic-tac do “prazo limite” para não cortar o fio “recursos criativos”, a bomba rebenta; resta o volume de trabalho, que é um tipo de detonador intocável, porque me disseram para não mexer aí.

Afinal, nestes laboratórios assépticos também há cor... mas o toque mágico da lanterna dá outra graça à imagem. Mas é preciso tranquilidade para nos lembrarmos disto. Só que às vezes tranquilidade é coisa rara.

Durante o assignment fotográfico no âmbito do documentário “Portugal: um outro olhar” (National Geographic Channel, 2007), achei várias vezes que ia morrer com a bomba nas mãos. Da parte do NGC pediam-me: queremos imagens que evidenciem o teu estilo pessoal, mas que também espelhem o estilo National Geographic. A outra parte envolvida, o Turismo de Portugal, pedia: queremos uma abordagem clássica, mais institucional, mas com um toque de modernidade, que mostre um Portugal de vanguarda. E de que estamos nós a falar, afinal? Dos 13 sítios classificados pela UNESCO como Património Mundial. E qual é o prazo? cerca de 24 dias non-stop. E não há mais nada a ter em conta? Bem… grande parte desse tempo terás “apenas” de funcionar como protagonista do documentário, diante das câmaras de filmar (no time for photos, sorry), e depois tudo acabará com um exposição – fotográfica – no Mosteiro dos Jerónimos! “Exposição fictícia… só para o documentário”, perguntei a medo. A resposta não se fez esperar: “Não! Será uma exposição real, com o melhor do teu trabalho captado nesses dias!”. Pensei 2 segundos, engoli em seco e aceitei. O resultado final é algo de que me orgulho bastante, mas há que dizer que durante a execução deste trabalho passei uma tarde em Sintra estendido na carrinha da produção em estado de coma criativo e, mais adiante, em Alcobaça, saí moribundo do mosteiro directamente para um consultório médico: ansiedade incontrolável, pois claro.

Centro de Ciência Animal e Vetrinária da UTAD... no trabalho para o National Geographic Channel não fiquei no estado deste cão, mas andei lá perto!

Uma proposta recente veio colocar-me num cenário parecido, só que numa temática completamente nova. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) pedia-me uma abordagem criativa à investigação científica que ali se produz. É para uma exposição, diziam-me. E foi!

Concentrado de zircões à lupa binocular... parece um planeta, não é? E a ideia era criar essa ilusão. Inclinei ligeiramente a objectiva da G10 para criar uma sombra. A imagem escolhida pela UTAD foi, no entanto, a versão perfeita, sem sombra. Os artistas são uns incompreendidos.

Acontece que o volume de trabalho ultrapassou em muito os meus pesadelos mais delirantes; a matéria-prima criativa (provetas, microscópios, batas brancas, etc.) representavam o menos polido de todos os diamantes da estética fotográfica (por sinal, o departamento de geologia também foi abordado); e os prazos… bem, nem quero falar disso (digo apenas que a expressão DEAD-LINE ganha aqui todo o sentido!). O resultado foram mais de dois milhares de disparos, que culminaram numa exposição de 46 imagens – algumas das quais ilustram este texto.

Identificando genes de tolerância ao alumínio em cereais... quando vejo o trabalho que tenho pela frente e o tempo para o fazer, às vezes os meus cabelos ficam assim: em pé como estas folhas verdes e grisalhos como as raízes.

Na fotografia, comecei pela natureza. Durante o meu percurso profissional já fotografei em discotecas, no deserto, em fábricas, debaixo de água; músicos, minorias étnicas, circuitos integrados, fósseis; e agora, pipetas, placas de Petri, reagentes… porque não? Invariavelmente, a meio dos trabalhos mais exigentes sempre achei que era louco para aceitar desafios naquelas condições. Mas, há que reconhecer, trabalhar sob pressão também tem a perversa virtude de nos aguçar o engenho criativo.

Ao fim de alguns dias na UTAD, lá encontrei um pouco de natureza... in vitro, é certo, mas senti-me em casa!

Não foi à toa que escolhi uma frase dos Monty Python para título deste post. Acham que eles são normais? E, no entanto, vejam onde chegaram. Sem querer estabelecer comparações presunçosas, gosto pois de pensar: que a loucura esteja sempre comigo.

Chuvadas outonais… que as há, há.

11/12/2009 por António Sá

Entre passeios fotográficos e workshops, as actividades deste Outono foram suficientemente húmidas e frias, honrando os bons velhos dias da estação (que julgávamos para sempre perdidos neste mundo climaticamente alterado).

Na primeira edição do “Outono no Barroso” fotografámos carvalhais, líquenes, lameiros verdíssimos e uma profusão de cogumelos. Depois, inspirados pelas imagens de Georges Dussaud, experimentámos o universo preto e branco de Pitões as Júnias: vielas, currais, gado e pastores com as suas capas de lã. As últimas imagens de cada dia eram quase sempre captadas sob uma luz crepuscular, ao que se seguiam magustos improvisados por bons amigos (obrigado, João!) e longos jantares retemperadores.

Na segunda edição, acho que nos virámos mais para a aura sobrenatural daquelas paragens – mosteiros perdidos na bruma, alminhas iluminadas de forma surreal e bosques que pareciam tirados de Blair Witch Project. Não sei se foi influência de sexta-feira 13 (que em Montalegre é coisa séria), ou se por a chuva ser agora ainda mais intensa do que na semana anterior, mas a verdade é que foi assim que vivi estes dias.

Valeu-nos o fantástico alojamento em Tourém (quartos quentinhos e jantares épicos) e o novo Ecomuseu do Barroso onde passámos uma manhã inteira, por imperativos meteorológicos nunca antes experimentados.
No final, acho que valeu a pena. A avaliar pelos sorrisos nas fotos de grupo, todos parecem concordar que mais vale apanhar uma molha no campo, que uma seca em casa!

Uma outra actividade, que teve a sua edição inaugural no final de Novembro, foi o “Workshop Avançado de Fotografia da Natureza”, realizado em parceria com o estúdio fotográfico portuense R93. Após uma semana de aulas pós-laborais, partimos para dois dias de prática em ecossistemas distintos: montanha e zona húmida.

No Baixo Vouga, durante a chuva...

... e logo após um aguaceiro.

Esta última, era escusado estar tão húmida, mas a dose de trovoada e granizo que caiu (vividos dentro dos automóveis) trouxe também uma luz fantástica… talvez mesmo a melhor luz que apanhei neste Outono. E ficou a satisfação de pôr em prática todos os conceitos teóricos, incluindo o módulo dedicado ao planeamento fotográfico em função da meteorologia. Para o ano há mais!

L Mirandés

14/11/2009 por Ana Pedrosa

La mie pátria ten dues lhénguas é o título do artigo publicado hoje na Fugas, uma sugestão de roteiro por terras de Miranda do Douro em busca da segunda língua oficial de Portugal.

DuasIgrejas

Depois de tantos anos a percorrer Portugal ainda descobrimos mundos novos e pessoas fantásticas, como a Balbina Mendes e o Carlos Ferreira. Com a Balbina passamos manhãs a percorrer caminhos idílicos na margem de ribeiros, a procurar caminhos secretos em penedias, a apanhar legumes para o almoço junto à lareira. Ao Carlos devemos informações preciosas, livros que já partilhámos com muitos outros, e descrições apaixonantes sobre tardes passadas a pescar.
A ambos ouvimos falar, com um entusiasmo contagiante, sobre a língua com que aprenderam as primeiras palavras. Este artigo não existiria sem eles. Obrigada aos dois pelos universos que nos desvendaram.

Poetry

02/11/2009 por António Sá

Vinhas

O passeio fotográfico ao Alto Douro Vinhateiro, realizado nos dias 24 e 25 de Outubro, teve um bouquet especial. Quando se trata de uma primeira edição (ou segunda, ou terceira, tanto faz) nem sempre é fácil conseguir que todos os aspectos se alinhem para um fim-de-semana em pleno. Estas coisas vivem de uma alquimia especial entre qualidade do alojamento, alimentação, meteorologia e, claro, da beleza e potencialidades fotográficas dos sítios a visitar. E mesmo que estes ingredientes estejam todos presentes na melhor das proporções, há que ter em conta que os participantes – tal como as castas dos melhores vinhos – são muito heterogéneos, e que a inspiração do orientador nem sempre é tão boa como um ano vintage.
Mas se havia qualquer ligeira angústia típica de primeira edição, ela foi destilada em serenidade assim que avistei o esplendor outonal da Quinta de Ervamoira. Robert Louis Stevenson escreveu um dia: wine is bottled poetry. Não conheço sítio melhor do que a Ervamoira para dar corpo a esta frase.

Canon G10, ISO 100 1/100 f8

Um breve aguaceiro serviu de inspiração...

Canon G10, ISO 400 15’’ f2.8

...e pinturas de luz sucederam-se à magia nocturna das gravuras rupestres.

O Barroso no Outono

22/10/2009 por Ana Pedrosa

bétulas

Os do Barroso costumam dizer que a região tem duas estações: o Inverno e a dos Correios. Como o frio não nos assusta e um pouco de neve até calha bem, vamos levar mais alguns fotógrafos num passeio fotográfico por terras de Montalegre.
A segunda data já está esgotada, mas para a edição de 6 a 8 Novembro ainda há algumas vagas… e lugar junto à lareira, com uma posta barrosã para retemperar o corpo e o espírito.
Para obter informações sobre esta actividade enviem-nos um mail para info@antoniosa.com

Pitões das Júnias

Tourém

Hopebama

13/10/2009 por António Sá

Obama

Cá em casa temos o hábito de pendurar nas paredes mensagens que nos dão alento, transmitem optimismo ou, simplesmente, põem um sorriso nos lábios logo pela manhã. A última delas foi uma prenda de aniversário, que no passado mês de Setembro me chegou de surpresa pelo correio.
Há muito que eu desejava ter o mítico poster de Barack Obama, concebido por Shepard Fairey em 2008, e agora tenho-o finalmente nas mãos. Para além de se tratar de uma excelente criação gráfica (que já faz parte dos compêndios de design), e do alcance da palavra “HOPE” – aqui também personificada pelo meu filho -, o que conta principalmente para mim é o próprio Obama enquanto ser humano de excepção.
É certo que não poderá fazer milagres, mas é claramente uma pessoa boa, com alma e convicções. E acontece que foi eleito presidente dos Estados Unidos. É quanto me basta para ter esperança.

Penso que a única coisa que nos resta fazer é descobrir a melhor maneira de viver e as melhores razões para nos mantermos vivos. Woody Allen

Penso que a única coisa que nos resta fazer é descobrir a melhor maneira de viver e as melhores razões para nos mantermos vivos. Woody Allen

Quanto às outras mensagens, tenho frente à minha mesa de trabalho um recorte de jornal com uma citação de Woody Allen, que põe as coisas como elas realmente são e nos deixa tão “despidos” como quando viemos ao mundo (há pessoas que deviam ler isto a cada minuto!). Tenho-a ali, para nunca me esquecer do que diz.
Noutro tom, tenho também na cozinha um rectângulo de chapa que reproduz uma velha publicidade à cerveja Guinness, que comprei algures na costa Oeste da Irlanda, em 1997. Lovely day for a Guinness… esta é a tal que me põe o sorriso nos lábios.

Não, não é o Obama que vai sozinho mudar o mundo. Isso é uma tarefa reservada para uma outra atitude de cada um de nós: mais humana, mais tolerante, mais humilde, mais generosa, mais optimista. Só então poderemos concluir de cabeça erguida, como ele o faz: yes, we… !

Al fama e proveito

13/10/2009 por António Sá

Alfama_1

A primeira edição Lisboa do workshop “Viagem: uma nova abordagem”, realizou-se no passado fim-de-semana, com 15 participantes a verem-se obrigados a subir e a descer as escadarias de Alfama em busca da foto perfeita. O toque de exotismo veio dos sabores da gastronomia nepalesa, num agradável restaurante lá do bairro, onde pudemos finalmente esticar as pernas (a edição Porto passou pela cozinha japonesa). Este workshop destina-se a viajantes que gostam de fotografar e a fotógrafos que querem viajar… para que ninguém se sinta excluído.

painel de azulejos em chafariz e a caixa que me chamou a atenção

painel de azulejos em chafariz e a caixa que me chamou a atenção

Durante a prospecção, percorri Alfama ao fim de tarde e noite, e fiz uma pausa num cafezinho onde reparei num lote de revistas numa caixa de Porto Ramos Pinto, da Quinta de Ervamoira. Pois é precisamente nessa quinta que se realizará parte do passeio fotográfico ao Alto Douro Vinhateiro, também agendado para este mês. E assim, enquanto se saboreia uma bica, se vai num instante do litoral ao interior; chama-se a isto… Espresso do Oriente!