Considerações de final de verão

26/09/2014 by

Há muito que por aqui não se dava notícias, bem sei, mas isso é porque andei suficientemente ocupado. E quando desocupado, foi assim que me quis manter.

 07h30. Vista da nossa janela estival, na Galiza.

07h30. Vista da nossa janela estival, na Galiza.

Agora que se cumprem dez anos de passeios fotográficos, quinze de workshops e dezanove de atividade profissional como repórter, decidi conceder-me uma espécie de licença sabática.
Por aqui, há muito em que ocupar o corpo, enquanto se liberta a mente para outros voos. Nem imaginam o suado prazer duma manhã de nevoeiro, a cortar a lenha que há de alimentar os serões de inverno – “aquece agora e aquece depois”, como um dia me gritou do caminho um vizinho, no seu típico humor transmontano. Cada vez que desligava a motosserra, o vale desentorpecia num silêncio profundo, para logo depois fazer ecoar o crocitar danado das gralhas… imagino, estariam só à espera duma trégua para conversar (sempre gostei ter estes bichos por companhia; têm carácter!). E ali estava eu, deitado no meio dum prado a diluir o cansaço, enquanto a chuva miúda me inundava o rosto e o nevoeiro se divertia a desenhar mistérios no carvalhal. Não há fotografia que faça justiça a isto, mas partilho a espreitadela sorrateira da Ana, que nesta casa há sempre uma câmara à mão.

Untitled-1

Toda a gente se queixa do verão murcho que tivemos. Mas se há coisa que a fotografia me ensinou, é que os dias de chuva não são necessariamente maus – nem mesmo no verão; apenas têm uma beleza mais subtil, e precisam ser compreendidos. A diferença entre uma manhã de praia cinzenta e húmida e outra soalheira é essencialmente a mesma entre ler um livro e ver um filme: ler dá um bocadinho mais de trabalho, mas estimula muito mais a imaginação.
Há muito que as nossas férias de praia são passadas na Galiza, por isso sempre nos habituámos a encontrar soluções engenhosas para os dias de chuva – que os há, por aquelas bandas, quase na mesma proporção dos dias de sol… verão após verão. A costa galega é, pois, como as gralhas… tem carácter. E eu também gosto de a ter como companhia.

_DSF3974

Vasculhar as pedras na maré baixa, vestir o impermeável e dar um vigoroso passeio até ao farol, deambular pelos pequenos portos a ouvir os cordames e mastros dos veleiros tilintar ao vento, observar atentamente o vaivém de botes pesqueiros para as mexilhoeiras suspensas na bruma… ou será para o viveiro de salmões que no ano passado não estava cá? Tudo isto é ler um livro! Passar os dias de cara na net, ainda que tentador, nem sequer é ver um filme… é a nova forma de embrutecer.

_DSF3978

A janela e o assunto são sempre os mesmos, mas as coisas estão sempre a mudar...

A janela e o assunto são sempre os mesmos, mas as coisas estão sempre a mudar…

Um desses dias, fui mergulhar com os miúdos. As águas não estavam particularmente límpidas – mar de fondo, como lhe chamam os galegos – mas deu para encontrar um belo polvo sobre uma rocha (foi o meu filho que o viu). Mergulhei até ao fundo e trouxe-o entre as mãos para mostrar aos catraios. O olhar sábio do cefalópode fitava-nos com inteligência (não fica nada atrás das gralhas) e após segundos de manipulação um pouco atrapalhada, disparou para longe numa nuvem de tinta. Não vimos mais nada de especial, mas aquele momento com o polvo encheu-nos o dia. Por fim, o sol lá acabou por aparecer, enviando-nos no que sobrava de dias para o invariável trajeto areia-água-areia de que é feita a maior parte das férias de praia dos portugueses. E de que também nós gostamos, que não somos nenhuns extra-terrestres!

_DSF3911-copy

_DSF4012-copy

De regresso a casa, bem distante da costa galega, passámos dias amenos a colher sacos de amoras para fazer compota, enquanto os corpos, quase bronzeados, se iam habituando à escassa humidade e a uma altitude rente aos mil metros. O ar daqui deixa-nos mais letárgicos quando se regressa da beira-mar; por isso, houve que esperar o final da aclimatação para devolver às águas o caiaque que inaugurámos na Galiza – coisa que exige força de braços e alguma perseverança mental até poder desfrutar em pleno.
Uma vez mais, as previsões de chuva não nos demoveram, e rumámos ao vizinho lago de Sanábria – o maior de origem glaciar de toda a Península. As águas estavam plácidas, convidativas na temperatura e, em jeito de bónus, não havia quase ninguém nas suas margens: um daqueles dias de Setembro-Mais-Que-Perfeito… tempo que sabe tão bem conjugar.

FILE0260-copy

Vim aqui muitas vezes – mais do que suficientes para saber de cor outra das regras que se aprende na fotografia: nunca há duas visitas iguais, ainda que para o mesmo sítio e na mesma época do ano. E foi assim, nesta constatação sublime, que deslizámos umas boas horas ao longo da margem norte do lago, onde não há caminhos nem vivalma – apenas carvalhais densos, penedos graníticos e a ocasional baía de águas claras a convidar ao banho. Foi mesmo perfeito!

FILE0216-copy

E assim, de lago e de mar, se fazem dias plenos no clima que nos vai calhando.
E, se calhar, nem é coincidência ter vindo morar para um lugar chamado… Lagomar.

P.S.: andando um pouco mais para trás no tempo, as próximas crónicas deste jornal (estranha forma de dizer as coisas!) darão conta dos trabalhos profissionais que me mantiveram ocupado – textos e fotos – não vá o leitor desconfiar.

It’s the photographer, stupid!

14/01/2014 by

Numa altura de plena obesidade tecnológica, autênticos tsunamis de fotografias e vídeos invadem a net e o nosso espaço mental. Ironicamente, o bom fotojornalismo está em crise… parece que não tem lugar nesta sociedade cada vez mais “mastiga e deita fora”. Veremos o que vem a seguir.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 16:38

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 16:38

Em boa verdade, não é o fotojornalismo que está em crise. Somos nós – o ser humano – que estamos em crise. De repente, parece que cessou a busca pela elevação ética e cultural que paulatinamente vínhamos perseguindo desde o pós-guerra. E tornámo-nos em aborrecidos consumidores de tecnologia descartável. Até a forma como a informação é produzida, divulgada e consumida é ligeira… cada vez mais ligeira.

Cingindo a análise ao mundo da fotografia, é fácil constatar que os smartphones se têm vindo a impor como aparelhos muito capazes de captar imagens com qualidade; paralelamente, o espaço de partilha dessas imagens é cada vez mais a internet – com as redes sociais à cabeça. Não haveria nada de mal nisto, se tudo não descambasse numa banalidade tremenda… que é o que parece estar a acontecer.

Na vertente da tecnologia, é impossível não questionar a cadência de lançamento de novas câmaras digitais. O que é que uma marca criou, entretanto, de tão bom e avançado que justifique a comercialização de um modelo idêntico, poucas semanas depois da “novidade absoluta”? Mais importante ainda: o que é que nós – fotógrafos – vamos fazer de tão melhor com esses supostos avanços com que a indústria nos brinda constantemente? Bem… é aqui que entra a conhecida frase: it’s the economy, stupid!
De facto, a roda dentada da economia moderna parece arrastar-nos para uma nulidade profunda, onde palavras como refletir, contemplar, rebater, relativizar, aprender… já não têm lugar no léxico do cidadão.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:41

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:41

Por outro lado, enquanto nos munimos das últimas versões do iPhone e do iPad (com aplicações fascinantes que nunca vamos usar) e aprendemos a captar imagens (discretamente) com um tabuleiro à frente da cara, aproveitamos para divulgar nas redes sociais as obras-primas da nossa criação… aos milhares! Uma verdadeira ode ao point-and-shoot, no seu melhor: sem preocupações estéticas, sem a mínima reflexão visual, sem cuidado de escolha, sem critério. Depois, os amigos colocam lá um “like” e ficamos felizes!

Sinais desta crise cultural têm vindo à superfície aqui e ali, como pequenos alarmes que deviam despertar o polícia que há em nós. Em maio do ano passado, o Chicago Sun-Times despedia de uma assentada o seu corpo de 28 fotógrafos; em substituição, entregava iPhones aos jornalistas para que estes captassem as fotos com que se passaria a ilustrar as páginas do jornal… como se fosse a mesma coisa! (o pior é que os leitores já nem questionam as diferenças).

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:16

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:16

Do outro lado da barricada e – quem sabe – com uma pitadinha de orgulho francês (nous, les inventeurs de la photographie…), o Libération decide publicar a sua edição de 14 de novembro sem qualquer imagem, em jeito de grito de protesto pela depreciação gratuita e economicista do fotojornalismo. Claro que ao folhear aquelas páginas, de quadrados em branco cercados pela tipografia escura, fica-nos uma irremediável sensação de vazio. Afinal, a fotografia faz falta. A boa fotografia faz falta.

E é por tudo isto que me apetece elevar ainda mais a fasquia enquanto fotógrafo e formador.
Nos projetos que me entregam e nos passeios e workshops que conduzo, tem de estar implícita a busca da qualidade, pelo prazer de fazer bem. Há dias melhores e piores, como também há constrangimentos próprios do trabalho – prazos, meteorologia, restrições orçamentais -, mas no final isso até pode ter a virtude de nos fazer encontrar recursos que desconhecíamos.
É preciso recusar a banalidade. Fotografar muito nunca foi sinónimo de fotografar bem, da mesma forma que a qualidade da câmara não atesta a qualidade do fotógrafo.

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:36

Serra da Nogueira; 4/1/2014, 17:36

Enquanto escrevo estas linhas, vejo pela janela um grande carvalhal em repouso. Os líquenes cobrem todos os ramos, num verde tornado ainda mais inebriante pelo aguaceiro que passou. Mais perto, três gralhas – pretas como carvão – equilibram-se impávidas ao vento que dobra as pontas mais altas de uma nogueira. E espalha-se um brilho tremendo sempre que há uma aberta no céu de chumbo.
As fotografias deviam começar assim.

Bom ano.

P.S.: Antes que o wordpress coloque aqui uma publicidade qualquer, deixo-vos esta, de 1964, quando para vender uma câmara se enaltecia o papel do fotógrafo. It’s the photographer…

España, te quiero

12/12/2013 by

Há um ano, por esta altura, andava eu por terras de Espanha. Era a primeira vez, desde há muito, que saía sozinha em viagem. O trabalho pedido exigia muita disponibilidade num curto espaço de tempo, pelo que as crianças ficaram com o pai, a cumprirem as rotinas escolares. Soube-me bem essa liberdade.

Com nuestros hermanos tenho uma relação semelhante à que dedicamos à família mais chegada: somos os primeiros a apontar os defeitos mas também os seus mais aguerridos defensores. Talvez por não ter companhia que me ouvisse as queixas habituais, desta vez deixei-me cativar pelo que Espanha tem de melhor.

A começar pelas estradas, onde é tão agradável conduzir: um civismo de outra Europa, os carros à direita a deixar passar quem tem pressa, prioridades cumpridas, que tornavam fácil a entrada numa cidade desconhecida, à hora de ponta.

Tendo por companhia a radio 3, durante mais de mil quilómetros vi desfilar cumes nevados, vilas que mal constam do mapa recheadas de igrejas sumptuosas, paisagens onde me apeteceu voltar para passar uma férias longas, a dedilhar caminhos com lentidão de aprendiz.

Em Burgos, rendi-me com o mesmo espanto de António Gedeão, “Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura! “ (na realidade mede 84 metros metros, da base ao mais alto dos torrões), a essa filigrana de pedra que domina a cidade. Da mesma forma que me rendi às suas tapas (inesquecível a morcilla com travo a cominhos) em cafetarias com vista para o rio, onde por 5€ fazia uma refeição gourmet.

Lembro-me da quantidade de famílias com crianças, que numa manhã de sábado visitavam o Parque Arqueológico de Atapuerca, sem que a neve que caía esfriasse o entusiasmo por aprender. Logo a seguir vi espanhóis de todas as idades a encher o Museu da Evolução Humana, numa afluência pouco vulgar por aqui.

A Segóvia vai-se como quem vai à Bairrada, só que ali os restaurantes de leitão assado estão rodeados de ruas com muitos séculos de História, e o almoço desgasta-se em passeios pelas vielas do bairro judeu ou na subida à torre mais alta do Alcázar. Fugi das multidões (era domingo) num restaurante vegetariano, com muy buena pinta. Mas não deixei de ir onde todos vão ao fim da tarde: o aqueduto romano. Deixei-me ficar por ali durante muito tempo, a fotografar os que se fotografavam com o monumento milenar ao fundo, a captar também aquela exuberância latina a que nós, os melancólicos da península, somos tão alheios.

Em contraste, a Ávila dos palácios e das igrejas românicas, com o seu recolhimento místico encerrado nas muralhas, pareceu-me uma cidade triste, mais dada ao recolhimento do que à alegria.

Valeu-me Salamanca, que a princípio me assustou. Como iria conseguir traduzir para palavras todo aquele excesso? A Plaza Mayor e as Escuelas Menores, catedrais siamesas, palácios, conventos, ruas inundadas por uma maré de estudantes que dão vida a uma movida imparável… e eu a jantar sozinha, com horários desacertados, a sair quando chegavam os outros clientes.

Guardo ainda gestos, frases que me fizeram sorrir, imagens insólitas e, mais uma vez, as estradas com aldeias nas margens. Se um dia fizer um road movie será em Espanha. O que não me faltam são argumentos.

Se tiverem paciência e vontade, podem ler aqui mais sobre minha contraditória paixão pelo país vizinho – com banda sonora incluída.

Muda-se o tempo… muda-se a perspetiva

25/10/2013 by

Tratava-se duma saída para fotografar veados; mas os veados mostraram-se estranhamente tímidos para o que é habitual nessa época do ano. Enquanto vamos tentando compreender as razões, redirecionamos a veia criativa – e as objetivas – para outros assuntos. E aprendemos.

O simples facto de acordarmos cedo para tentar fotografar fauna, por si só, já nos coloca perante condições interessantes para captar a paisagem no seu melhor. Um banco de nevoeiro matinal cobria por completo o vale de Pedroso de la Carballeda, deixando de fora apenas as pontas dos pinheiros e as silhuetas longínquas das árvores mais frondosas. A luz do amanhecer espalhava-se em todas as direções, numa interminável e delicada cortina dourada. Quando nos detivemos finalmente no silêncio do caminho, ecoaram do vale os potentes bramidos de veados machos… mas longe, demasiado longe.

Foi quase sempre assim, ao longo de três dias. Temperaturas anormalmente altas para este final de setembro, para esta altitude, para esta parte da Península… com a penalização adicional da falta de chuva. Os animais ficavam então mais recatados, imóveis à sombra, ainda o dia mal tinha começado. Que diferença para outros anos!

Mas se é verdade que nos últimos tempos o verão se tem deslocado tendencialmente para o Outono, também são bem conhecidas as queixas dos fotógrafos em relação à meteorologia. Quem vê de fora, diz que nunca estamos contentes com o que temos: “a luz hoje está demasiado forte”, “estas nuvens vieram estragar tudo”, “Ah!… se aquela colina tivesse uma pontinha de sol…”, enfim, um rol de problemas que se atravessa teimosa e repetidamente no caminho da arte!

Pois bem, seus ignorantes, deviam tentar vocês fazer imagens bonitas sem os ingredientes certos, que eu bem queria ver qual era o resultado.
(Digo ignorantes com todo o carinho, porque na verdade há uma certa tranquilidade e beleza na ignorância… quantas vezes eu quis sê-lo, também na fotografia, só para me libertar dos dogmas que tantas vezes me atormentam). Mas, há que dizê-lo, os fotógrafos são realmente uns queixinhas.

Com esta brama tão próxima (uma das noites, perfeitamente audível a poucos metros dos quartos onde dormíamos) e simultaneamente tão inacessível para as câmaras fotográficas, não restou outra alternativa senão domesticar os olhos para outros assuntos.
Bem alojados, bem alimentados, em boa companhia, e com o ocasional copo de tinto de Toro para afogar as mágoas, não foi difícil encontrar recursos para explorar as outras mais-valias da Sierra de la Culebra: afinal, havia um ribeiro de águas límpidas, uma ponte medieval, cristas quartzíticas no alto dos montes, bosques de castanheiros seculares em abraço à pitoresca aldeia de Santa Cruz… e até as geométricas plantações de Pinus sylvestris, com os característicos fustes direitos e casca avermelhada.

Da minha parte, optei por uma reinterpretação da paisagem que eu já bem conhecia, passando a trabalhar quase exclusivamente a preto e branco.
Para fotografar a preto e branco, é preciso ver a preto e branco, já se sabe, por isso é tão interessante dissecarmos a paisagem apenas pelo crivo da luz e das sombras, das texturas e do grafismo.
Os meus companheiros de viagem fizeram coisas diferentes, cada um à sua maneira, vendo belas coisas – ou vendo coisas de uma forma bela – que para mim eram simplesmente invisíveis (não era do vinho, era da magia própria da arte fotográfica). Imagino que também se tenham divertido.

Uma coisa é certa: nesta nossa demanda dos cervídeos da Culebra, acabámos por aprender mais sobre a paisagem e a identidade da serra… ao mesmo tempo que nos íamos dando conta do pouco que sabemos desta nossa jangada de pedra, pese embora a sábia ajuda do peculiar marinheiro que nos acolheu.

Ao José Paulo, à Regina, ao José Martins, à Fernanda, ao Domingos e ao João, muito obrigado por me relembrarem que vale sempre a pena.

Dar-lhes mundo

26/07/2013 by

Se refletir um pouco, depressa chegarei à conclusão que muito daquilo que sei – e até muito daquilo que sou – se deve às viagens. Viagens de mente aberta, sem preconceitos sobre povos e lugares. Viagens a sítios frios e a sítios quentes; simples ou sofisticados; naturais ou urbanos; próximos ou distantes.
Pois bem, vai sendo tempo de partilhar.

Gansos

Viajar com crianças é um compromisso, já se sabe. Mas sempre que pude, nunca deixei de levar os meus filhos a conhecer outros sítios, mesmo quando havia reportagens a fazer – com as intermináveis esperas pela luz ideal para captar uma só imagem, ou enfrentando enfadonhos diálogos com estranhos, apenas para dar mais sumo a um qualquer texto que virá a ser escrito; isto, claro, na perspetiva deles.
É muito difícil dar a entender aos miúdos conceitos vagos como a beleza da paisagem ou o conhecimento que se adquire numa simples conversa de rua; é como ver as notícias… “não serve para nada!” (bem, aqui talvez tenham razão).

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A minha filha não resistiu subir a um pequeno icebergue encalhado na praia.

A explicação para isto é muito simples: o mundo deles é diferente do nosso. As coisas são vistas por um prisma completamente distinto, que produz um espetro de maior riqueza cromática – para lá do comprimento de onda percetível pelos adultos. E é a mesma coisa para todos os outros sentidos, incluindo o paladar.
Um dia, um amigo resolveu levar o filho pelas montanhas de Marrocos, uma região que adorava e que fazia questão de mostrar ao pequeno. A viagem foi estudada ao detalhe para o miúdo, até mesmo o aluguer duma mula, que certamente traria outra animação ao percurso. Regressados a casa, numa conversa em jeito de balanço, os avós perguntaram o que ele mais tinha gostado nessa viagem, afinal tão exótica e bela… fez-se silêncio… o pequeno refletiu… e disse: “o gelado que comi na esplanada!”. Um gelado! Um simples gelado numa qualquer esplanada de Marraquexe – ora aqui está a magia das viagens.

Que paisagem! - algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças... agora se for para subir ao cone de dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Que paisagem! – algo afinal tantas vezes irrelevante para as crianças… agora se for para subir ao cone dum vulcão, já é diferente. E também dá para aprender.

Com mais de 10 anos cada um, os meus filhos já têm naturalmente outra perceção das coisas, mas isso não quer dizer que as viagens sejam mais simples para nós… são antes diferentemente complexas.
Este ano fomos à Islândia, um destino que me apaixona verdadeiramente, onde já havia estado três vezes. Como fotógrafo, quero sempre fazer mais, melhor e, sobretudo, diferente. Mas a experiência ensinou-me a ser moderado nas ambições quando se viaja com crianças, por isso muni-me de uma simples câmara compacta, na esperança de produzir algo parecido com fotografia profissional ao mesmo tempo que vivia a viagem ao ritmo deles.
O compromisso, nem sempre pacífico para uma das partes, acabou por me mostrar, uma vez mais, que o simples facto de viajar sem câmaras reflex, várias objetivas, tripé, etc., induz uma abordagem diferente aos temas que queremos fotografar (ao mesmo tempo que nos livra de dores nas costas).

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Com uma pequena câmara compacta (Fuji X10) não me restou alternativa senão aproximar-me fisicamente das focas. Os miúdos estavam comigo e gostaram do desafio.

Para além da austeridade no equipamento fotográfico, tivemos também de ser comedidos nas despesas de alojamento e alimentação, porque isto de viajar a quatro é… bem… é fazer as contas. Por isso levámos tendas, sacos-cama e demais equipamento para cozinhar de forma prática e muito leve. Aqui a lição foi para eles, aprendendo a partilhar a montagem e desmontagem das tendas, a ser mais autónomos e responsáveis nas tarefas de higiene pessoal em locais de utilização pública, a ver que, afinal, há muita gente a viajar desta forma – de todas as idades e estratos sociais (neste caso, com mentalidades bem diferentes da portuguesa). Serviu também para mostrar que podemos ver sítios incríveis se estivermos dispostos a abdicar de algumas mordomias – e que às vezes essa é mesmo a única forma de os ver.

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

As tarefas diárias eram partilhadas. Neste tipo de viagem aprende-se a prescindir de muita coisa e a ser prático. © Mariana Sá

À medida que o tempo ia passando, estabelecia-se um equilíbrio feito de compromissos, cedências de parte a parte, algumas chatices passageiras, mas sempre com a garantia disso resultar num maior respeito e conhecimento mútuos. Pelo caminho, divertíamo-nos. Não foi preciso consolas de jogos, nem filmes, nem internet (tive de comprar uma bola de futebol e ir enchê-la à piscina municipal de Vík, no entanto).

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos...

A paisagem vista da sela teve outro encanto para os miúdos…

Os dias sem fim, os glaciares, as focas, os parques infantis, os passeios a cavalo, a partilha com miúdos islandeses – do skate de Reiquejavique ao “parkour” em rolos de feno nas quintas isoladas -, uma sopa e pão caseiros num sítio tão improvável quanto acolhedor, as fotografias pacientes e demoradas… um aromático café numa manhã luminosa. Afinal não é assim tão difícil conciliar interesses.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Dois dias em cheio com miúdos duma quinta islandesa é a melhor forma de aprenderem sobre o país. Ou, pelo menos, a mais divertida.

Sempre defendi que não vale a pena lamentar-me daquilo que não posso fazer por ter crianças comigo; tenho antes de saber aproveitar as excelentes oportunidades que eles me dão para fazer coisas realmente diferentes. De ver a vida por esse outro prisma que trazem sempre com eles, ao mesmo tempo que lhes empresto o meu, para que aprendam e cresçam um pouco mais.

Há uns anos, um amigo disse-me em jeito de conselho para a educação dos filhos: “dá-lhes mundo… dá-lhes mundo!”. Não podia estar mais certo.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

E afinal até houve tempo para eu fotografar.

A fotografia como ferramenta pedagógica

08/04/2013 by

Amanhã estarei no Politécnico de Bragança no âmbito de um encontro de educação ambiental. Quando me foi proposta uma intervenção, não tive grandes dúvidas quanto ao título: precisamente o mesmo que leva este post.

As cidades embrutecem-nos os sentidos, roubam-nos a perceção do funcionamento dos sistemas naturais... como se não dependêssemos deles.

As cidades embrutecem-nos os sentidos, roubam-nos a perceção do funcionamento dos sistemas naturais… como se não dependêssemos deles (Nova Iorque).

Ao longo do meu percurso como repórter, nunca abdiquei da minha costela naturalista. Em boa verdade, e para utilizar uma linguagem quase darwiniana, o António Sá naturalista apareceu antes do António Sá fotógrafo. A fotografia foi uma evolução lógica de quem já nutria uma razoável curiosidade pelo meio natural e pela conservação da natureza, daí que, aos 11 anos de idade, o meu primeiro disparo fotográfico apenas tenha confirmado a primeira paixão e aberto definitivamente as portas para a segunda. De tal forma isto é verdade, que ainda me lembro da fotografia número 1 da minha vida: uma pequena queda de água junto à nascente do rio Caima (uma zona abrangida pelo recém-criado Geopark Arouca, retratado no número deste mês da revista National Geographic Portugal). Teria todo o gosto em partilhá-la aqui, não lhe tivesse eu perdido o rasto há muito tempo; a câmara com que a captei, no entanto, é minha companhia diária no escritório, onde ocupa um lugar de destaque entre livros e outros objetos que estimo.

já repararam bem nos detalhes morfológicos desta borboleta? Eu também não tinha dado conta até ao dia em que me dediquei a fotografar uma de perto.

já repararam bem nos detalhes morfológicos desta borboleta? Eu também não tinha dado conta até ao dia em que me dediquei a fotografar uma de perto (Douro Internacional).

Hoje, aos 44 anos, posso dizer com toda a propriedade que o gosto pela natureza me levou a fotografias memoráveis, da mesma forma que a curiosidade fotográfica ajudou a consolidar o meu conhecimento pelo mundo natural – uma simbiose perfeita, para manter a terminologia à altura do assunto. A decisão de viajar à Península do Iucatão (1992), à Islândia (1994), ao Bornéu (1995) ou à Eslovénia (1996), entre outros destinos, foi sempre alicerçada na relevância de um destes dois aspetos: porque queria mergulhar num recife de coral e, já agora, aproveitava para fazer algumas imagens subaquáticas, ou porque me interessava captar belas imagens de glaciares e, com esse pretexto, acabava por testemunhar (e interiorizar em “direto”) conceitos como alterações climáticas ou aquecimento global.

Na vastidão do oceano, um pináculo calcário ergue-se 600 metros do fundo do mar. Mergulhar neste neste sítio abriu-me os olhos para a importância e fragilidade dos recifes de coral (Sipadan).

Na vastidão do oceano, um pináculo calcário ergue-se 600 metros do fundo do mar. Megulhar neste sítio abriu-me os olhos para a importância e fragilidade dos recifes de coral (Sipadan).

Infelizmente, à medida que ia aprendendo, constatava também uma realidade inquietante; quase tão inquietante como as próprias alterações climáticas, a perda acelerada da biodiversidade ou o abate das florestas tropicais: o enorme défice de conhecimento do meio natural na generalidade das pessoas. A certa altura, apoderou-se de mim uma sensação de vazio, de impotência, como se as fotos que fazia e os textos que escrevia não tivessem o alcance que eu lhes queria dar, apenas porque não seriam entendidos na sua verdadeira dimensão. É impossível dar a entender a beleza e a importância de um carvalhal enquanto a maior parte da população continua a achar que eucaliptos são sinónimo de floresta! É absurdo enaltecer as virtudes de fotografar num dia de chuva, se a chuva não passa de uma chatice para quase toda a gente das cidades (esquecendo-se que a água do duche diário provém totalmente daí… para não falar da energia que alimenta o plasma lá de casa). Por outras palavras, vivemos numa ignorância e indiferença alarmantes.

No Bornéu (foto) percebi em tempo real que a destruição das florestas tropicais tem uma causa: a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Na Amazónia, num gigantesco carregamento de toros pude ler a tinta branca: Leixões, Portugal.

No Bornéu (foto) percebi em tempo real que a destruição das florestas tropicais tem uma causa: a demanda da Europa e dos Estados Unidos. Na Amazónia, num gigantesco carregamento de toros, pude ler a tinta branca: Leixões, Portugal.

Em 2004, quando lancei a primeira edição dos passeios fotográficos, por trás da atividade com objetivos “claramente” fotográficos, havia uma genuína intenção de pôr as pessoas em contacto com o meio natural… com o território desconhecido que também lhes pertencia. Afinal, talvez pudesse aplicar aos outros aquilo que tinha sido verdade para mim: a fotografia poderia levar a um melhor conhecimento da natureza, da biodiversidade, da geografia, da meteorologia, ao mesmo tempo que premiava os participantes com imagens fantásticas que nunca lhes ocorrera. A fotografia como ferramenta pedagógica, portanto.

E foi assim que nasceu o “Outono em Montesinho”, o “Inverno em Sanábria”, a “Primavera no Douro Internacional” (as estações do ano como motor da alternância da paisagem) ou destinos como o Baixo Vouga Lagunar e El Bierzo – para ajudar a entender melhor as zonas húmidas e de montanha, respetivamente.

Os bosques caducifólios mistos acolhem uma grande biodiversidade, mas são raros no nosso país. Infelizmente, tentam impingir-nos que eucalipal é floresta (omitindo que se trata de uma monocultura de uma espécie exótica).

Os bosques caducifólios acolhem uma grande biodiversidade, mas são raros no nosso país. Infelizmente, tentam impingir-nos que eucaliptal é o mesmo que floresta (omitindo que se trata de uma monocultura de uma espécie exótica). Foto: bosque de carvalhos e bétulas, Barroso.

Em todos estes anos, e em muitas destas pessoas que me acompanharam, constatei a satisfação da aprendizagem, da obtenção da imagem perfeita, do momento feliz, da redescoberta dos sentidos, do gozo de um dia passado à chuva, até.

Não sei se isso teve o efeito que eu ambicionei desde o início, nem posso ter a pretensão da mensagem tocar todos da mesma forma mas, à custa de tanto falar em lameiro e carvalhal, em ganso-bravo e pegadas de corço, em lago glaciar e na “probabilidade de neve acima dos 1300 metros, se isto continuar assim”,… o mínimo que posso esperar é ter conseguido fazer a diferença nalgumas almas.

E se as fotos ficaram boas, tanto melhor.

Para muitas aves migratórias, é crucial o bom estado das zonas húmidas ao longo das suas rotas... ou não chegam aos seus locais de nidificação. Uma ideia bem patente na Islândia (foto).

Para muitas aves migratórias, é crucial o bom estado das zonas húmidas ao longo das suas rotas… ou não chegam aos seus locais de nidificação. Uma ideia bem patente na Islândia (foto).

A Propósito de Ursos

06/03/2013 by

Às vezes, quando vou dar uma volta no carvalhal em frente a casa, tenho a sorte de observar corços, raposas… ou javalis. Notícias recentes dão agora conta de um avistamento de dois ursos-pardos a tão-só 70 Km a nordeste do local onde vivo.

Um urso negro que fotografei no Alasca... escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações...

Um urso-negro que fotografei no Alasca… escuro contra fundo muito brilhante não é a melhor das situações…

Ao que parece, os ursos que vivem aqui no norte de Espanha estão em ligeira expansão (são tão poucos que não dá para grandes entusiasmos). Mas o facto de estarem em dispersão, procurando novos territórios, não quer dizer que apareçam tão cedo nas nossas terras. E mesmo que apareçam, prefiro não me cruzar com um deles nos meus passeios matinais.

Por duas ocasiões, já tive a felicidade de ver e fotografar ursos no espaço selvagem. Mas há uma diferença grande entre ver e fotografar, como contei numa crónica que escrevi em tempos para a revista FotoDigital, e que agora recupero… para quem não leu na altura.

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O local onde foram avistados dois ursos-pardos, ligeiramente a norte de Sanábria, numa imagem captada um mês antes (novembro 2012).

O crepúsculo já se tinha instalado quando captei a última imagem do dólmen de Poulnabrone, em pleno Burren irlandês. De regresso ao automóvel, acendi os faróis e retomei a condução pela mesma estrada, com o desenho irremediavelmente estreito e sinuoso comum a muitas vias desta parte do país. Tinha ainda percorrido poucos metros quando vi um coelho saltitar à frente do feixe de luz, mesmo no centro do asfalto; reduzi a velocidade e lá fui entretido no encalço curioso da pobre criatura – que se chateou ao fim de pouco tempo e desapareceu na vegetação. Surpreendentemente, ainda mal tirara os olhos da berma, tinha já uma marta à frente do carro, que se assustou com o encontro e meteu por um caminho lateral. Aproveitando a quietude do trânsito, virei o volante e fui atrás. Quando os faróis iluminaram finalmente a escuridão, deparo com outro bicho no meio do caminho, que nada tinha a ver com a marta, entretanto “evaporada”. Era um texugo, de olhos vidrados e ar aterrado, tão incrédulo quanto eu naquilo que se estava a passar.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

No Sudeste do Alasca, voar de hidroavião é fundamental para aceder aos locais frequentados pelos ursos, já que a região está isolada por via terrestre. Ketchikan, 2006.

Tudo isto aconteceu em pouco menos de dois minutos, e a não ser que se tenha tratado de um estranho fenómeno de metamorfose, vi, na realidade, três animais silvestres num curtíssimo espaço de tempo. Provas? Não tenho. Como também não tenho de inúmeras outras observações fantásticas, ocorridas enquanto realizava reportagens: um lobo correndo sobre o manto de neve a poucos metros do automóvel onde seguia; mãe e cria de veado despertados pelos meus passos, madrugada após madrugada, enquanto acedo a um abrigo; crias de javali que cruzam o regato três metros ao lado do local onde me encontro sentado; um urso que entra na clareira ao cair da noite, afugentando o gato-bravo que já lá se encontrava… Fotos? Nicles!; népia!; rien! E a lista podia continuar…

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. 3 horas à espera, uma 300 f2.8 e um converso rmas era quase noite e a película de apenas 100 ISO!

Afinal sempre consegui algumas fotos do urso que vi na Eslovénia em 1997. Três horas à espera, quieto e em silêncio para isto! Uma 300mm f2.8 e um conversor não chegaram para superar o início da noite e a película de apenas 100 ISO!

Bem sei que isto soa àquelas histórias mirabolantes que os pescadores gostam de contar – “tinha ali mesmo um robalo de 200 quilos e a linha partiu-se-me…” – mas conto-as porque, ao fim de 3 anos e meio de blog, o mínimo que posso esperar é que acreditem no que escrevo. E, já agora, que nenhum dos leitores seja pescador.

Na verdade, a fotografia da natureza conta com um enorme desfasamento entre aquilo que se vê e aquilo que se consegue fotografar, principalmente num país como o nosso, onde a fauna é tremendamente esquiva… e aquela que não é, acaba sistematicamente por ver a sua vida encurtada pelos caçadores do costume. Em todas as situações que mencionei trazia comigo uma máquina fotográfica e, em boa parte dos casos, nem sequer ousei apontá-la ao animal em causa; umas vezes porque tudo se passou muito rapidamente, outras porque fiquei simplesmente deslumbrado com a observação e nada consegui fazer. E nas raras vezes que estes encontros fortuitos tiveram resposta da minha parte, as fotos ou foram para o lixo ou passaram ao arquivo por razões sentimentais – tremidas, desfocadas, sub-expostas. Desilusão? Nem por isso. A vida encarrega-se de nos demonstrar que a boa fotografia de vida selvagem raramente resulta do acaso, por isso mais vale gozar o momento com um bom par de olhos panorâmicos do que deixá-lo fugir através de um ridículo visor, acoplado a um tubo de não sei quantos quilos. É bom na mesma e só nos vai aguçar o apetite para voltar àquele local uma e outra vez, possivelmente melhor preparados.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Empurrados para norte pela guerra dos Balcãs, em 1997 havia no sul da Eslovénia 300 ursos-pardos. Uma densidade enorme para a qual alertavam os avisos nas árvores.

Por outro lado, mesmo quando planeamos as fotos com todo o cuidado – abrigos, engodos, células de infra-vermelhos e toda a tralha que se conhece aos fotógrafos da natureza mais empenhados – nem sempre as coisas resultam. Como daquela vez que permaneci dentro de um abrigo à espera de veados, das seis às oito da manhã, com neve por todos os lados e uma temperatura de -2ºC, sem que visse uma orelha que fosse dos bichos. Ou quando me meti entre os caniços de uma lagoa, de fato de mergulho e com água até ao peito, apenas para descobrir que os mergulhões nadavam serenamente a dois palmos da objetiva (e demasiado perto para focar) de tão bom que era o disfarce.

Pois é, às vezes sentimos que a natureza faz troça de nós. Mesmo assim não me arrependo nem me martirizo com as “ocasiões perdidas”, e continuo a recomendar que saiam para o campo tanto quanto puderem. É que em casa só nos saem moscas e formigas.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post... subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

O urso que se pode ver na imagem é o mesmo que abre o post… subiu o rio até ficar a 20m de mim. Felizmente havia salmões que chegassem.

Tempo!

22/01/2013 by

Há alturas em que saboreamos até ao tutano o sítio onde agora vivemos. Dias que dão sentido à intuição que nos trouxe até cá. Hoje nevou.

De manhã abri devagar a persiana e pouco depois sussurrei ao ouvido da M: “queres espreitar lá para fora?”; o sorriso que se seguiu não tem preço… como não tem preço a vontade que lhe vi em despertar o irmão com a mesma surpresa.

O cenário, já de si bonito, esteve hoje mágico, com uma constelação de flocos a cair leve, levemente até preencherem de branco todas as rugas da terra.

Este dia parece o culminar perfeito de uma série de outros igualmente belos.

Temos estado envolvidos em trabalhos que andam à volta do fumeiro tradicional… eu por um lado, a Ana por outro, mas com conversas e histórias fantásticas que se cruzam ao final do dia, à volta da mesa. Da minha parte, confesso que tenho visto autênticas pinturas diante dos olhos… cenas belas desta arte centenária de preparar os enchidos que hão-de aguentar os lares transmontanos até ao ano que vem.

O convite para encher alheiras partiu de bons amigos que temos na aldeia. Seguiram-se fotos e notas soltas que tomavam o pulso a tantas histórias, e almoços ou jantares animados, sempre à volta do lume com aroma a carvalho e castanheiro.

Pelo meio, um fantástico jantar no mítico Solar Bragançano, com o Desidério e a Ana Maria a presentearem-nos com um magnífico butelo com cascas.

Uma amiga brasileira que conhecemos nos confins da China rural disse-nos, nessa altura, que sobre Portugal achava particularmente mágico o nome de Trás-os-Montes. Como era bonito deixar ao critério de quem ouvisse tal nome, imaginar o que haveria para lá das montanhas; e ao mesmo tempo, ela própria entoava essas palavras num sopro, como o vento que trouxe a neve hoje pela manhã: Traaaaaaássss-oooosssss-Mooonteeeesss.

Pouco a pouco, parece que estamos a descobrir essa tal magia.

Como é bom estar deste lado dos montes.

Bom Ano!

08/01/2013 by

Em 2012 assistimos ao lançamento de centenas de novos modelos de câmaras fotográficas, creio que a um ritmo sem precedentes na era da fotografia digital. Ou mesmo de toda a história da fotografia.

Um diapositivo captado em 1988. Não havia Photoshop... um desfoque ligeiro, uma chuvada de véspera e a luz da manhã fizeram o efeito.

Um diapositivo captado em 1988. Não havia Photoshop… um desfoque ligeiro, uma chuvada de véspera e a luz da manhã fizeram o efeito.

Quando já achamos que não é possível melhorar, eis que surgem coisas mais sofisticadas, mais capazes, que parecem eclipsar de uma só penada tudo o que lhes antecedia. No plano da fotografia, não se trata apenas de câmaras fotográficas e respetivas objetivas, mas também de todo o software de pós-processamento associado a esta fulgurante era da imagem digital. O ritmo das novidades é tão frenético que chega a confundir qualquer potencial comprador na hora da decisão; e aqueles que acabaram de comprar uma câmara sentem que deitaram o dinheiro fora, poucos meses após a “gloriosa” aquisição.

No meio disto tudo, onde é que pára, afinal, a fotografia? Falo, claro, do seu lado estético e criativo – a genuína, bela, sábia arte fotográfica.

O preto e branco nem sempre funciona bem... tal como a cor. Aqui, os contrastes, a perspetiva  e o momento justificaram, para mim, o discurso monocromático.

Aqui, os contrastes, a perspetiva e o momento justificaram, para mim, o discurso monocromático. Tenho uma semelhante a cor, mas prefiro esta.

Não deixo de sentir uma grande desilusão cada vez que se apresentam imagens extremamente manipuladas como se fossem resultado da inspiração artística de quem as concebeu. Por todo o lado se multiplicam agora fotografias perfeitíssimas, de cores vibrantes, contornos retocados, contrastes surreais: um interminável desfile de artifícios de software, para ser realista. Por outro lado, e ainda com menos trabalho, temos os efeitos “fotográficos” do iPhone ou a moda dos HDR em versão automática. Francamente, só espero que passe – que seja um fenómeno de moda ou de deslumbramento, como aconteceu durante os anos 80 com os filtros arco-íris, névoa/sonho ou céus cor tabaco.

O fundo está um pouco queimado e a roupa do homem suja... lava-se tudo no Photoshop ou deixa-se assim? Por mim, prefiro o realismo da fotografia.

O fundo está um pouco queimado e a roupa do homem suja… lava-se tudo no Photoshop ou deixa-se assim? Por mim, prefiro o realismo da fotografia.

Não é pelo facto de eu ter começado na fotografia pelo diapositivo e pelas revelações a preto e branco em quarto escuro que me vejo detentor de toda a verdade fotográfica. Apesar de inicialmente cético, reconheço inúmeras qualidades à era digital, a quem devo alguns progressos na minha forma de fotografar. Hoje, por exemplo, consigo concluir uma reportagem de forma mais sólida e em menos tempo pelo simples facto de poder visualizar as imagens no LCD da câmara. Mas o que vejo em muitos casos supera a mais fértil imaginação: utilizam-se efeitos digitais só porque estão lá, no software ou na câmara; os autores nem sequer se interrogam sobre a pertinência desses efeitos, se melhora ou piora a imagem, se faz algum sentido. Num paralelo com a fotografia clássica, fazem-me lembrar os que só fotografavam a preto e branco porque “era mais artístico” ou o recurso a câmaras pinhole para captar tudo e mais alguma coisa; qualquer uma destas técnicas pode dar resultados extremamente belos ou apenas gratuitos, sem sentido… é tudo uma questão de critério ou falta dele.

Luz, perspetiva, composição... a, b, c... a fotografia não precisa muito mais do que isto.

Luz, perspetiva, composição… a, b, c… a fotografia não precisa muito mais do que isto.

Vivemos uma época de pouco discernimento: o que nos sobra em bugigangas eletrónicas falta-nos em tempo para aprender a utilizá-las ou, até, para questionar sobre a sua real utilidade. Os franceses têm uma expressão um pouco corrosiva quando aplicada à leviandade artística: n’importe quoi!

Por isso, em matéria de fotografia, o meu voto para 2013 é que haja mais tempo para a cultura visual e para a reflexão artística. Já basta de n’importe quoi!

On / Off

15/11/2012 by

Apetecia-nos desligar. Passar um fim de semana em família, longe de compromissos, telejornais agoirentos e computadores a exigir-nos a atenção.

Enfim, sair de casa para quebrar a rotina, sem outras intenções que não fossem usufruir da companhia uns dos outros e de gozar este outono glorioso.

Na mala, uma muda de roupa, papel e lápis para desenhar, jogos de tabuleiro e duas máquinas fotográficas para usar com moderação.

Andámos à chuva, entrámos em galerias mineiras, jogámos junto à lareira, vimos perdizes fugidias e ratinhos minúsculos, revimos velhos conhecidos, cortámos urzes para conseguir cruzar um caminho lamacento, comemos tortillas e crepes chineses.

E teríamos regressado a casa no domingo, felizes e relaxados, se os deuses não nos tivessem concedido ainda o brinde de cumes nevados e estradas com gelo. Não nos restou alternativa senão ficar por mais um dia, desligados do mundo mas ligados ao essencial.

As imagens, todas da autoria da Mariana e do Luís, mostram como é bom passar a câmara para outras mãos e deixar que revelem a sua forma de olhar.


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 149 outros seguidores